O que está acontecendo?
Cinzas de um Lar Distante
O ronco abafado do motor do Range Rover preto era o único som que preenchia a cabine enquanto cortavam as estradas secundárias de Cheshire. A chuva, que fustigara Manchester durante a noite inteira, havia se transformado em uma névoa espessa e cinzenta, engolindo os campos verdes e as cercas de pedra ao longo do caminho.
No banco traseiro, Astrid havia adormecido quase que instantaneamente, vencida pelo balanço ritmado do veículo. Seu pequeno corpo estava acomodado na cadeirinha infantil que Erling mantinha instalada para Synne — um detalhe que fizera o estômago de Jude se revirar em náusea quando entraram no carro na garagem subterrânea do Dakota. A menina abraçava uma pequena manta que Erling tirara do porta-malas, com o polegar encaixado entre os lábios entreabertos.
No banco do passageiro, Jude mantinha o rosto colado ao vidro gelado da janela.
Ele usava o capuz do moletom de Erling puxado até a linha dos olhos, os braços cruzados com força ao redor da própria cintura, como se temesse que suas costelas fossem se partir caso afrouxasse a pressão. A febre havia recuado, mas deixara para trás uma fraqueza profunda, daquelas que se infiltram no tutano dos ossos. Cada solavanco do asfalto parecia ressoar diretamente na glândula dormente na curva do seu pescoço, um latejo seco, sem vida.
Erling mantinha as duas mãos firmes no volante, os nós dos dedos esbranquiçados pela força do aperto. Seus olhos saltavam constantemente entre a pista enevoada e o retrovisor, monitorando a criança adormecida, antes de descerem para a figura curvada de Jude ao seu lado.
— A casa tem aquecimento central — disse Erling, quebrando o silêncio denso que durava quase meia hora. — E a cozinha tá abastecida. O caseiro vai duas vezes por semana pra limpar e deixar mantimentos frescos. Ele não fica lá, só cuida do terreno.
Jude não se mexeu. Apenas piscou devagar contra a paisagem borrada.
— Obrigado — murmurou ele, a voz rouca, sem qualquer inflexão.
— Jude... — Erling hesitou, soltando o ar pelo nariz em um suspiro longo. — Você precisa comer alguma coisa de verdade quando a gente chegar. Você mal tocou na comida do hotel. Se continuar assim, vai desmaiar de novo.
— Eu não sinto fome — respondeu Jude com simplicidade. — O meu corpo tá ocupado demais tentando entender por que o ar parece veneno.
Erling contraiu a mandíbula. Aquela insistência, aquele vocabulário que pertencia a um mundo que a ciência humana jamais registrara, continuava a soar como loucura aos seus ouvidos pragmáticos. Mas, ao mesmo tempo, a palidez cadavérica de Jude e a fragilidade evidente de um dos meio-campistas mais potentes do futebol mundial eram fatos inegáveis.
O carro desacelerou e virou à direita, entrando por um portão de ferro forjado embutido em um muro alto de tijolos escuros. O sistema de reconhecimento automático leu a placa e os portões se abriram em um gemido mecânico discreto. A propriedade se estendia por alguns hectares de mata fechada, com faias e pinheiros altos ladeando o caminho de cascalho que levava à mansão em estilo georgiano.
Assim que Erling desligou a ignição diante da escadaria principal, o silêncio da floresta engoliu o veículo.
Jude abriu a porta do passageiro devagar e desceu. Ao pisar no chão úmido, ele ergueu o rosto involuntariamente, puxando o ar pelas narinas em um reflexo condicionado.
Por um milésimo de segundo, o cheiro pungente de pinho e terra molhada que vinha das árvores ao redor atingiu sua memória olfativa com a força de um choque elétrico. Seu peito se expandiu, os olhos escuros se arregalaram em uma centelha súbita de esperança infantil: *Erling.*
Mas foi apenas uma ilusão cruel da física vegetal.
Não havia calor. Não havia a nota metálica de sangue e adrenalina, nem a doçura almiscarada que caracterizava a presença de seu alfa no ninho. Eram apenas árvores comuns em solo britânico. A decepção desceu por sua garganta como vidro moído, fazendo-o vacilar sobre as pernas bambas. Ele precisou segurar na lataria fria do carro para não cair de joelhos no cascalho.
Erling deu a volta rapidamente, alcançando-o antes que ele perdesse o equilíbrio. Sua mão grande segurou o cotovelo de Jude com firmeza.
— Calma aí. Eu seguro você.
Jude olhou para a mão de Erling em seu braço. A pele era quente, os tendões fortes e familiares, mas o toque não transmitia nada através do vazio espiritual onde o laço deveria estar. Jude puxou o braço para trás com delicadeza, desvencilhando-se do aperto sem agressividade, apenas com uma rejeição exausta.
— Eu tô bem — mentiu Jude, a voz sumindo no ar frio. — Eu pego a Astrid.
— Deixa que eu levo ela — Erling interveio, abrindo a porta traseira com cuidado. — Você mal tá conseguindo ficar em pé. Pega só a sua mala leve.
Erling inclinou-se para dentro da cabine, desatando os cintos da cadeirinha com uma precisão que vinha do hábito diário com Synne. Ele acomodou Astrid contra o peito largo com um único movimento fluido. A menina soltou um muxoxo sonolento, mas não acordou; apenas jogou um dos braços por cima do ombro musculoso do norueguês, enterrando o rosto no vão do pescoço dele.
Erling congelou por uma fração de segundo. O calor da bochecha macia de Astrid contra a sua pele nua causou-lhe um aperto quase doloroso na garganta. Ele engoliu em seco, virou-se e subiu os degraus de pedra, destrancando a pesada porta de madeira da entrada.
O interior da casa era espaçoso, decorado em tons neutros de cinza, madeira clara e mármore fosco. O chão aquecido imediatamente trouxe uma sensação de conforto térmico, contrastando com a frieza cortante da floresta lá fora.
— O quarto principal fica no fim do corredor lá em cima — explicou Erling, retirando os sapatos no hall e caminhando com passos abafados pelas meias grossas. — Tem uma cama grande, banheiro privativo e uma ante-sala que dá pra usar como quarto de criança se precisar.
Jude entrou logo atrás, arrastando a mala de rodinhas. Ele olhou ao redor, notando a ausência de fotos de família, a frieza impessoal de um imóvel que servia apenas como refúgio ocasional para descanso de um atleta multimilionário.
— Aqui não tem nada dela — Jude observou em voz baixa.
Erling parou no meio da escada, sem olhar para trás.
— A Isabel nunca veio aqui — respondeu ele, a voz pesada. — Comprei isso como investimento e pra ficar isolado quando as coisas em Manchester ficam sufocantes demais depois de derrotas ou na pré-temporada. Ela prefere a cidade.
Jude não respondeu. Apenas subiu os degraus, sentindo a exaustão pesar em cada articulação.
Eles entraram no quarto principal. A cama *king size* estava arrumada com um edredom volumoso de penas de ganso. Erling aproximou-se com passos medidos e deitou Astrid no centro do colchão, retirando as botinhas dela com cuidado extremo para não despertá-la. Ele puxou a coberta até os ombros da garotinha, afastando um cacho castanho rebelde que caía sobre os olhos dela.
Ao ver aquele gesto, Jude sentiu as lágrimas voltarem a queimar o fundo de suas pálpebras. Ele se aproximou do outro lado da cama e sentou-se na borda, os ombros desabando.
— Você tem as mesmas mãos — sussurrou Jude, olhando para os dedos compridos de Erling pousados no lençol. — O mesmo jeito idiota de mexer no cabelo dela. Você sempre fazia isso quando achava que eu não tava olhando.
Erling recolheu a mão devagar, enfiando-a no bolso da calça. Ele puxou uma cadeira de madeira perto da escrivaninha e sentou-se diante de Jude, apoiando os cotovelos nos joelhos e inclinando o tronco para a frente.
— Jude, me escuta — começou Erling, os olhos azuis cravados no amigo com uma seriedade quase brutal. — O meu agente ligou enquanto você tava dormindo no carro.
Jude ergueu os olhos, o coração dando um salto descompassado.
— E o que ele disse?
— O Real Madrid tá um caos — Erling revelou, escolhendo as palavras com cuidado cirúrgico. — O Ancelotti cobriu a sua ausência na coletiva de imprensa dizendo que você teve um desconforto gástrico severo, mas internamente eles sabem que você sumiu do mapa. A polícia espanhola não foi acionada porque eu dei a minha palavra pra diretoria de que você estava seguro comigo e que precisava de setenta e duas horas para tratar de um assunto pessoal inadiável.
Jude soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— Eles acham que eu sou o Jude deles.
— É — concordou Erling. — E esse é o problema. Aquele Jude... o cara que divide o quarto comigo nas convocações da Champions, o cara que nunca teve uma filha, que nunca falou sobre ômegas na vida... ele não tá em Madrid. O apartamento dele na Espanha tá vazio. O celular que ele usava lá foi encontrado jogado no sofá da sala, descarregado.
O silêncio caiu entre eles como uma cortina pesada.
— Ele tá no meu ninho — Jude constatou, as palavras saindo como um fio de voz aterrorizado. — Ele tá lá. Com o meu marido.
Erling franziu a testa, o desconforto evidente em sua expressão.
— O que você acha que vai acontecer se aquele Jude tentar explicar que não é o seu marido?
Jude encarou as próprias mãos trêmulas sobre o colo.
— O Erling de lá vai saber no primeiro segundo — respondeu Jude com uma certeza sombria. — Alfas sentem a alma do seu parceiro pelo cheiro. O outro Jude não tem cheiro de acasalado. Não tem o vínculo na nuca. O meu alfa vai achar que eu fui sequestrado, ou pior... que o corpo que tá ali é uma casca vazia. Ele vai enlouquecer, Erling. Ele vai destruir tudo ao redor dele até achar onde eu e a Astrid estamos.
Erling passou a mão pelo rosto, sentindo a pele áspera pela falta de barbear e pela noite em claro. A complexidade insana daquela história parecia uma rede invisível se fechando ao redor de seu pescoço.
— E você? — perguntou Erling, a voz soando quase hesitante. — O que acontece com você se a gente não conseguir desfazer essa troca?
Jude olhou para a filha dormindo pacificamente entre os lençóis brancos. A menininha soltou um pequeno suspiro, chupando o ar com a boca miúda.
— Eu não sei quanto tempo o meu organismo aguenta — confessou Jude, as lágrimas finalmente transbordando e deslizando pelas bochechas pálidas. — No meu mundo, quando um alfa morre, o ômega às vezes entra em definhamento. O sistema imunológico colapsa. O coração bate mais fraco a cada dia. Mas o meu alfa não tá morto. Ele tá vivo em outro lugar... e o meu corpo tá aqui, gritando por um sinal que nunca vai chegar.
Erling cerrou os dentes. Havia algo de profundamente revoltante em ver alguém tão forte, tão brilhante e orgulhoso quanto Jude Bellingham se transformar em um espectro quebrado por causa de uma dependência biológica que não fazia o menor sentido neste mundo.
— Isso é uma fraqueza de merda — Erling soltou, a frustração escapando em um tom ríspido.
Jude levantou a cabeça de repente, os olhos faiscando com a primeira fagulha de orgulho ferido que demonstrava desde que chegara à Inglaterra.
— Não é fraqueza! — Jude rebateu, a voz embargada, mas firme. — É devoção! Nós fomos feitos para sermos metades da mesma existência! O seu corpo foi projetado para me proteger de tudo, e o meu foi feito para ser o seu abrigo! Você nunca vai entender isso porque você é incompleto! Você vive nesse mundo estéril onde as pessoas se tocam apenas com a pele, onde vocês se casam por conveniência social e assinam papéis num cartório! Vocês não sabem o que é ter a alma entrelaçada na de outra pessoa a ponto de sentir a dor dela no próprio peito!
Erling levantou-se abruptamente da cadeira, a estatura imensa pairando sobre a cama.
— Eu amo a minha esposa! — ele rosnou, o sotaque norueguês tornando-se mais áspero pela raiva defensiva. — Eu amo a Isabel! Eu estive lá quando a minha filha nasceu! Eu cortei o cordão umbilical, eu passei noites em claro trocando fraldas e limpando vômito do chão! Não ousa dizer que o meu amor é menor só porque eu não tenho a porra de um dente afiado pra morder o pescoço dela!
O peito de Erling subia e descia em arfadas pesadas. Seus punhos estavam cerrados ao lado dos quadris, os olhos azuis faiscando contra os de Jude.
Por alguns segundos, apenas a respiração entrecortada dos dois homens ecoou no quarto amplo.
Astrid se mexeu na cama. O tom elevado das vozes penetrou o sono da criança. Ela esfregou os olhinhos com as costas das mãos gordinhas e sentou-se devagar, piscando contra a claridade difusa da janela.
Seus olhos azuis foram direto para Erling, que ainda estava de pé, rígido e imponente no centro do quarto.
O lábio inferior da garotinha começou a tremer.
— Papai Erlie tá gritando? — a voz dela soou tão fina, tão frágil no meio da tensão sufocante, que o ar pareceu desaparecer dos pulmões do atacante. — Astrid foi barulhenta no carro?
Erling sentiu todo o sangue descer de seu rosto. A raiva que ardia em seu estômago evaporou em um segundo, substituída por uma vergonha tão avassaladora que ele quase deu um passo para trás.
Ele olhou para a menina. Astrid o encarava com medo — o mesmo medo que ele vira no corredor de seu apartamento em Manchester, o pavor de ser rejeitada pela figura que ela julgava ser o pilar inabalável de sua curta existência.
Erling soltou um longo suspiro, a postura desarmando-se por completo. Ele deu dois passos lentos e sentou-se no chão ao lado do colchão, nivelando sua altura com a da menina.
— Não, pequena — Erling falou com a voz mais suave que conseguiu encontrar, engolindo a aspereza norueguesa que o dominava momentos antes. — O papai não tá bravo com você. Nunca com você. Eu e o Jude estávamos apenas... conversando alto. Coisa boba de adulto.
Astrid engoliu um soluço, esticando os bracinhos roliços para fora das cobertas.
— Colo?
Erling olhou para Jude por uma fração de segundo. Jude estava sentado na beirada da cama, o rosto banhado em lágrimas silenciosas, a expressão completamente desprovida de defesas. Havia apenas uma dor infinita e aterrorizante nos olhos castanhos do inglês.
Erling não hesitou. Ele estendeu os braços longos e puxou Astrid para o seu peito, erguendo-a da cama e aninhando-a contra o próprio tórax. A menina passou os braços curtos ao redor do pescoço dele, colando o rosto úmido na curva da mandíbula de Haaland.
— Papai Erlie não vai embora? — Astrid murmurou baixinho, a mãozinha fechando-se no tecido da camiseta dele.
— Eu tô aqui — sussurrou Erling, fechando os olhos enquanto pousava a mão grande nas costas pequenas da garota, sentindo o pulsar rápido e inocente do coração dela contra as suas costelas. — Eu não vou a lugar nenhum agora.
Astrid relaxou nos braços dele com uma confiança cega, uma entrega tão absoluta que fez os olhos de Erling arderem. Ela não fazia ideia de que aquele homem não tinha nenhuma memória de tê-la embalado recém-nascida em Madrid. Ela não sabia que a vida dele pertencia a outra mulher e a outra criança em Manchester. Para ela, aquele abraço era o porto seguro mais inegável da terra.
Jude cobriu o próprio rosto com as mãos, os ombros sacudindo em um choro silencioso e convulsivo.
Ele não conseguia mais suportar o espetáculo daquela crueldade do destino: ver a própria filha ser consolada pela casca perfeita do homem que amava, enquanto o espírito que deveria habitá-la estava perdido a dimensões de distância.
Erling permaneceu no chão, segurando a menina até que a respiração dela voltasse a se acalmar. Ele olhou para Jude, dobrado sobre si mesmo na beira da cama, desmoronando sob o peso de um luto que ninguém além dele próprio conseguia compreender.
— Eu vou descer — disse Erling, a voz baixa, quase inaudível, para não perturbar a criança. — Vou fazer alguma coisa quente pra você beber. Chá com mel. E vou cortar algumas frutas pra ela.
Jude não respondeu. Apenas continuou com o rosto enterrado nas palmas das mãos, o moletom cinza de Erling engolindo seu corpo febril.
Erling levantou-se com Astrid em seus braços. A menina já parecia mais calma, apoiando a cabeça sonolenta em seu ombro. Ele caminhou até a porta do quarto, mas antes de sair para o corredor escuro, parou no batente e virou-se uma última vez para encarar o jovem que chorava sozinho contra os lençóis.
— Jude.
Jude abaixou as mãos devagar, revelando os olhos vermelhos e a pele castanha manchada de sal.
— Eu não entendo o que é um laço — disse Erling, a voz carregando uma gravidade solene, despida de qualquer dúvida. — Eu não sei o que é ser o seu alfa. Mas eu sei o que é ser um homem de palavra. Eu não vou deixar vocês dois se afogarem nesse vazio. Nem que eu tenha que virar esse país do avesso até achar a porta que te trouxe aqui.
Jude encarou o atacante norueguês. Não havia calor biológico nas palavras de Erling, não havia feromônios para apaziguar a tempestade química que destruía seus órgãos por dentro. Mas havia a força inabalável de um guerreiro que se recusava a bater em retirada.
— Ela precisa de você — Jude sussurrou, a voz quase inaudível, apontando fracamente para a filha. — Mesmo que seja por mentira. Mesmo que seja só por agora... não solta ela, Erling. Por favor.
Erling apertou o abraço ao redor do corpinho de Astrid, sentindo a respiração morna da garota bater contra a sua pele.
— Eu não vou soltar — prometeu Erling Haaland, antes de cruzar o corredor em direção à escada, carregando nos braços o fantasma vivo de um amor que ele nunca vivera, enquanto a floresta silenciosa de Cheshire guardava o segredo mais doloroso da terra.