O que está acontecendo?
O Veneno do Ar Sem Você
A cozinha de Cheshire era ampla, fria e silenciosa demais. As bancadas de granito negro reluziam sob os focos embutidos no teto, desprovidas de qualquer vestígio de vida cotidiana: não havia desenhos infantis colados com ímãs na geladeira, nem xícaras esquecidas pela metade sobre a pia. Era o cenário perfeito para um homem que vivia de passagem, acumulando metros quadrados como quem acumula números em contas bancárias.
Erling colocou Astrid sentada sobre a ilha central, mantendo uma das mãos firme na cintura da garotinha enquanto alcançava uma tábua de corte com a outra.
A menina não parecia intimidada pela frieza do lugar. Seus pezinhos descalços balançavam no ar, batendo suavemente contra a madeira escura da bancada, enquanto seus olhos azuis acompanhavam cada gesto do atacante com uma atenção concentrada, quase cirúrgica.
— Cadê o prato do alce? — perguntou ela, apontando para o armário alto.
Erling congelou com uma maçã na mão e a faca suspensa no ar. Ele virou o rosto devagar, encarando a menina.
— O que você falou?
— O pratinho azul do alce — repetiu Astrid com naturalidade, esticando os bracinhos roliços. — Que o vovô Alfie deu de Natal. Astrid só come maçã no pratinho do alce.
O estômago de Erling despencou. O ar pareceu sumir de seus pulmões por um instante.
Ele tinha aquele prato. Não em Cheshire, não em Manchester. Aquele prato de melamina barata, com a ilustração desgastada de um alce norueguês usando um cachecol vermelho, estava guardado em uma caixa de lembranças de infância no sótão da casa de seus pais, em Bryne. Fora um presente que seu avô paterno lhe dera quando ele completara três anos. Ninguém fora da sua família de sangue sabia da existência daquele objeto insignificante.
— Eu... eu não tenho ele aqui, pequena — disse Erling, a voz soando mais fina e embargada do que pretendia. — Mas eu tenho uma tigela branca muito bonita. Pode ser?
Astrid fez um pequeno beicinho, considerando a oferta com aquela seriedade teimosa que Erling reconhecia como um espelho de si mesmo.
— Pode — cedeu ela com um suspiro conformado. — Mas corta em formato de barquinho. Igual o papai Erlie faz aos domingos.
As mãos de Erling, normalmente tão firmes para dominar lançamentos em velocidade ou disputar espaço com zagueiros brutais, tremiam visivelmente enquanto ele fatiou a fruta em pequenas luas crescentes. Ele arrumou as fatias na tigela de porcelana e serviu um copo de leite integral morno.
Astrid pegou um pedaço de maçã e comeu mastigando devagar, com as duas mãos segurando a tigela para não escorregar.
Enquanto a menina comia, Erling colocou a chaleira elétrica para ferver e preparou uma infusão forte de chá de camomila com duas colheres generosas de mel em uma caneca térmica. Ele precisava forçar Jude a engolir algum líquido quente; a palidez do inglês e a rigidez quase cadavérica de seus ombros o estavam apavorando mais do que qualquer lesão muscular que já presenciara nos vestiários.
— O papai Jude tá triste porque a casa sumiu? — Astrid perguntou de repente, as perninhas parando de balançar.
Erling parou diante da bancada, apoiando o peso do corpo sobre os braços esticados. Ele olhou para a garotinha, sentindo uma dor surda latejar atrás dos olhos.
— É — respondeu ele com honestidade, incapaz de mentir diante daquela pureza desarmante. — O seu papai tá com muita saudade de casa. E o corpinho dele tá cansado.
— Astrid dá beijinho — a menina declarou com solenidade infantil, limpando a boca suja de leite com a manga do casaquinho amarelo. — Quando Astrid cai da bicicleta, o papai Erlie beija o joelho e sara. Se o papai Erlie beijar o pescoço do papai Jude, sara também. Ele sempre faz isso quando o papai Jude chora.
Erling fechou os olhos com força. As palavras atingiram seu peito com a precisão de um tiro à queima-roupa.
*Se o papai Erlie beijar o pescoço do papai Jude, sara.*
A insistência naquela intimidade anatômica, naquele gesto de cura que parecia fundamentado em uma biologia que aquele mundo ignorava, fazia um nó apertado queimar em sua garganta. Ele não conseguia conceber a ideia de encostar a boca na pele de Jude Bellingham para curar uma ferida invisível; e, no entanto, a imagem daquele corpo febril tremendo sob o seu moletom cinza não saía de sua cabeça.
— Vamos subir — disse Erling, pegando a caneca de chá fumegante e a tigela vazia. — Vamos levar o chá pro seu pai.
Ele ajudou Astrid a descer da bancada. A menina segurou na barra de sua calça de moletom, acompanhando seus passos longos enquanto subiam a escadaria acarpetada que levava ao andar superior.
O corredor estava mergulhado em uma penumbra cinzenta. Quando Erling empurrou a porta entreaberta do quarto principal, um silêncio pesado e sufocante o atingiu.
O cheiro no quarto havia mudado. Não era um cheiro perceptível pela lógica tradicional, mas o ar parecia denso, estagnado, carregado por uma eletricidade estática desconfortável que fez os pelos dos braços de Erling se arreopiarem de imediato.
Sobre a cama desfeita, Jude não estava mais deitado.
Ele estava de joelhos no carpete, ao lado do colchão, com a testa prensada com força contra a borda da madeira da cabeceira. O moletom de Erling havia sido arrancado e jazia jogado no chão, ensopado de um suor brilhante e frio. Jude vestia apenas a camiseta preta sem mangas que usara por baixo, e seus ombros largos sacudiam em espasmos incontroláveis, os músculos das costas travados como cabos de aço retorcidos.
— Jude! — Erling largou a caneca sobre a cômoda com um baque seco, o líquido espirrando na madeira escura.
Astrid soltou a calça do norueguês e deu dois passos vacilantes para trás, assustada com a respiração sibilante que saía do peito do pai.
— Papai...?
Erling ajoelhou-se ao lado de Jude, segurando-o pelos ombros para tentar erguê-lo. No instante em que suas palmas tocaram a pele nua dos braços do inglês, Erling quase recuou. Jude não estava apenas quente; ele parecia estar cozinhando de dentro para fora, a pele emanando um calor doentio e abrasador.
— Jude, olha pra mim! O que tá acontecendo?!
Jude não respondeu com palavras. Seus olhos estavam completamente virados, as íris castanhas quase invisíveis sob as pálpebras trêmulas. As duas mãos do meio-campista estavam cravadas na lateral esquerda de seu pescoço, as unhas afundando na pele com tanta violência que filetes finos de sangue começavam a brotar entre as marcas avermelhadas.
— Tira a mão daí, porra! — Erling rosnou, o pânico tomando conta de sua voz enquanto segurava os pulsos de Jude com força bruta, arrancando os dedos dele da própria garganta. — Você vai rasgar a sua carne!
— Me solta! — Jude urrou, a voz saindo em um tom gutural, quebrado, irreconhecível. Ele se debateu nos braços do norueguês com uma ferocidade desesperada, os dentes batendo com tanta força que ameaçavam se partir. — Queima! Tá queimando tudo, Erling! Tira isso de mim... corta fora, pelo amor de Deus, corta fora!
O tecido na lateral do pescoço de Jude estava assustadoramente inchado. O que antes parecia uma picada irritada agora se assemelhava a uma glândula inflamada do tamanho de uma ameixa, pulsando visivelmente sob a epiderme morena, quente como ferro em brasa.
— Papai Jude! Não chora, papai Jude! — Astrid começou a berrar no meio do quarto, o terror infantil explodindo em lágrimas grossas que escorriam por suas bochechas rosadas.
Erling sentiu o mundo girar ao seu redor. Ele estava sozinho em uma casa isolada, com uma criança em pânico histérico e um homem que parecia estar sofrendo um choque anafilático ou um colapso neurológico bizarro bem diante de seus olhos. Ele pensou em ligar para uma ambulância, mas lembrou-se do que Jude havia implorado: *Eles vão nos trancar em um laboratório.*
— Astrid, senta naquela cadeira agora! — Erling ordenou, o tom autoritário de campo cortando o choro da menina com a firmeza de uma chicotada. A garotinha obedeceu por puro reflexo de medo, encolhendo-se na poltrona estofada e abraçando os joelhos.
Erling voltou toda a sua atenção para Jude. O inglês havia desabado de lado no chão, encolhendo-se em posição fetal, arquejando em busca de ar como se os seus pulmões não conseguissem reter o oxigênio ambiente.
— O veneno... — Jude sussurrou, as lágrimas lavando a poeira e o suor de seu rosto. — Esse ar... não tem nada... não tem você...
Erling agarrou Jude pela nuca com uma mão firme e passou o outro braço por baixo de seus joelhos, erguendo-o do chão apesar dos protestos incoerentes e das tentativas fracas de empurrão. Ele jogou o rapaz sobre o colchão macio e subiu na cama logo em seguida, prendendo as pernas inquietas de Jude sob o peso de suas próprias coxas pesadas.
— Para de lutar comigo, caralho! — Erling gritou, puxando os braços de Jude para os lados e imobilizando-os contra os lençóis. — Eu tô tentando te ajudar! O que você quer que eu faça?! Me diz o que você quer que eu faça!
Jude parou de se debater de repente. A respiração dele saía em chiados curtos e dolorosos. Seus olhos finalmente encontraram os de Erling, focando na imensidão gélida do azul norueguês.
— Me marca — Jude implorou, a voz caindo para um sussurro quebrado que despedaçou a alma do atacante. — Morde a glândula, Erling. Morde como você fez na cabana... faz o sangue misturar de novo... eu sei que você não me ama aqui, mas eu não quero morrer longe dela... eu não quero deixar a minha filha sozinha nesse lugar...
Erling encarou aquela boca trêmula, encarou o inchaço purulento e febril na lateral do pescoço exposto. A anatomia humana não funcionava daquela forma. Ele não tinha caninos para inocular calma, não tinha toxinas ou feromônios para aplacar a tempestade química que devastava o sistema imunológico de Jude.
Mas Jude estava morrendo. Aquele atleta de vinte e um anos, com a carreira inteira pela frente, estava se apagando por pura inanição de um laço fantasma.
Sem pensar nas consequências, sem medir o impacto que aquilo teria em sua própria sanidade ou no casamento que deixara para trás em Manchester, Erling soltou os pulsos de Jude. Ele deslizou para a frente na cama, deitando o próprio corpo maciço sobre a lateral do corpo do inglês, envolvendo o peito largo de Jude com os dois braços compridos e puxando a cabeça do rapaz com força contra a curva do seu próprio pescoço nulo.
A pele de Jude ardia contra a sua. Erling enterrou os dedos nos cachos escuros e úmidos do jovem, colando a própria boca na orelha ardente de Bellingham.
— Eu não tenho a marca, Jude — disse Erling, a voz áspera, rouca pela angústia crua, ressoando direto no osso temporal do outro. — Eu não posso te morder. Mas eu tô aqui. O meu peso tá em cima de você. O meu coração tá batendo nas suas costas. Você tá ouvindo essa porra desse coração bater?
Jude soltou um grito abafado contra o ombro de Erling, um som que parecia arrancar as próprias cordas vocais. Seus dedos subiram cegos, cravando-se nas costas da camiseta branca do norueguês, puxando o tecido com tanta força que as costuras estalaram.
— Ouve isso! — Erling insistiu, apertando o abraço com uma força que beirava a dor, compartilhando o próprio calor corporal, a própria respiração pesada de atleta. — Eu não sou o cara de Madrid, mas o meu sangue é o mesmo sangue dele! O meu DNA é o mesmo que fez a Astrid! Respira essa porra, Jude! Para de lutar contra esse mundo e respira comigo!
Ele pressionou a própria bochecha contra a glândula inchada e escaldante de Jude.
O contato direto da pele fria e suada de Erling com a inflamação causou um espasmo violento na espinha de Jude. Um arrepio profundo percorreu todo o comprimento de seu corpo, e a respiração entrecortada parou por três segundos aterrorizantes.
Na poltrona, Astrid cobriu a boca com as duas mãozinhas, observando a cena em silêncio absoluto.
Então, Jude soltou o ar.
Foi uma expiração longa, trêmula, que pareceu esvaziar não apenas os pulmões, mas toda a resistência que mantinha a sua mente racional em alerta. A cabeça dele tombou pesada no peito de Erling, as mãos afrouxaram o aperto na camiseta branca, e os dedos morenos escorregaram inertes para o colchão.
A febre não desapareceu milagrosamente — a biologia daquele universo não permitia contos de fadas —, mas o tremor convulsivo cessou. A rigidez mortal que travava a mandíbula de Jude se desfez, deixando apenas a exaustão profunda de um náufrago que finalmente parara de lutar contra a correnteza e aceitara ser arrastado para a praia.
Erling permaneceu imóvel. Ele não ousou afrouxar o abraço. Manteve Jude preso contra si, ouvindo a respiração do inglês ir se assentando em um ritmo lento, quase imperceptível.
Seus próprios músculos começaram a doer pela posição incômoda, mas ele não se moveu. Havia algo de profundamente solene e devastador naquele peso nos seus braços; era a sensação de carregar a ruína de um amor que ele nunca vivera, mas cujos escombros haviam sido despejados exatamente sobre o seu teto.
— Papai Erlie? — a vozinha de Astrid soou cautelosa da poltrona.
Erling virou a cabeça devagar, sem soltar Jude.
— Ele tá dormindo, pequena — sussurrou Erling, a voz soando gasta como lixa. — Ele tá descansando agora. A dor passou um pouco.
Astrid desceu da poltrona com passos silenciosos e caminhou até a beira da cama. Ela apoiou o queixo no edredom e esticou a mão para tocar a testa suada de Jude.
— O papai Jude é forte — disse a menina com convicção solene. — Ele corre mais rápido que os outros no campo. Ele não morre.
Erling engoliu o nó que teimava em se formar em sua garganta e estendeu o braço livre para puxar Astrid para cima do colchão. A menininha engatinhou sobre as cobertas e se aninhou entre o tronco de Erling e as costas de Jude, encaixando-se naquele pequeno espaço como se aquela cama tivesse sido desenhada milimetricamente para comportar os três.
Ali, no silêncio pesado da floresta de Cheshire, com a chuva voltando a fustigar as vidraças com força renovada, o telefone de Erling no bolso da calça começou a vibrar novamente.
Ele puxou o aparelho com cuidado para não acordar os dois.
Não era Isabel.
A tela exibia o nome de Ferran Soriano, diretor executivo do Manchester City. Mas logo abaixo da notificação de chamada perdida, brilhava uma mensagem de texto marcada com o prefixo internacional da Espanha. O remetente era um número não salvo, mas a primeira linha da mensagem fez todo o sangue do corpo de Erling gelar instantaneamente:
*“Erling, pelo amor de Deus, me ajuda. Eu acordei num hospital particular em Madrid. Tem um homem loiro gigante aqui que quebrou o nariz de dois seguranças tentando entrar no meu quarto gritando que eu sou o ‘ômega’ dele e exigindo saber onde está a filha dele. Que porra tá acontecendo?! A imprensa espanhola tá cercando o prédio! — Jude.”*
Erling encarou a tela luminosa, a respiração presa no fundo da garganta.
Ele olhou para baixo. Jude continuava desmaiado em seus braços, respirando com dificuldade, com a bochecha colada ao tecido de sua camiseta e a glândula ainda avermelhada e doente sob a pele. Astrid dormia com a respiração tranquila, a mãozinha descansando sobre o peito do atacante norueguês.
O outro Jude estava em Madrid.
O Jude daquele mundo — o garoto sem filhos, o amigo com quem trocava piadas bobas e vídeos de futebol — estava preso em uma clínica na Espanha, sendo caçado por uma fera com o seu próprio rosto, enquanto ele próprio segurava os pedaços despedaçados daquela família impossível sob o céu cinzento da Inglaterra.
A troca não fora uma ilusão. O portal não era uma metáfora.
Erling Haaland fechou os olhos no escuro do quarto, sentindo o peso esmagador de duas realidades colidindo sobre o seu peito, sabendo que, a partir daquele instante, nenhum deles jamais voltaria a ser o mesmo.