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O Labirinto de Vidro e a Cinza do Ontem
O relógio na parede do pequeno apartamento em Porto Alegre marcava duas da manhã, mas Olivia não conseguia dormir. O som abafado dos carros na avenida e o neon intermitente de um bar próximo invadiam o quarto, pintando suas pernas em tons de rosa e azul. Ela se levantou, os cabelos negros e lisos agora cortados na altura dos ombros — uma tentativa vã de deixar para trás a menina que os carregava até a cintura —, e caminhou até o espelho.
Aos vinte e cinco anos, Olivia não era mais a garota silenciosa que Mateus conhecera. Seus olhos negros, ainda puxados e fofos, agora carregavam uma camada espessa de delineador e uma frieza que ela aprendeu a cultivar como uma armadura. O corpo curvilíneo estava envolto em um vestido de seda curto, resquício da festa de formatura da residência médica que havia acabado horas antes. Ela olhou para o próprio reflexo e sentiu um vazio familiar, uma náusea que nenhuma quantidade de gin ou beijos de estranhos conseguia apagar.
Nos últimos seis anos, Olivia se transformou. A solidão da cidade grande a engoliu nos primeiros meses, e o silêncio do telefone — já que ambos tinham decidido pelo corte radical — a impulsionou para o abismo. Ela se tornou a alma das festas universitárias. Beijou rapazes cujos nomes esquecia antes do amanhecer, dançou até os pés sangrarem e experimentou a liberdade que tanto temia. Mas, em cada rosto que encontrava na penumbra das boates, ela procurava por cachos escuros e covinhas. E, ao não encontrá-los, ela se tornava ainda mais amarga.
— Mais uma noite, Olivia? — perguntou-se em um sussurro, sentindo o peso do diploma de Medicina sobre a mesa. — Você conseguiu. Agora, para onde você vai?
A resposta veio como um soco no estômago. Ela estava voltando. O contrato de trabalho no hospital da sua cidade natal estava assinado. Ela precisava encarar os fantasmas que deixou para trás.
Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, Mateus fechava o notebook em seu escritório improvisado. O quarto na casa dos pais era apenas uma lembrança. Ele agora morava em um loft funcional, decorado com sobriedade. O curso técnico de que falara na formatura fora apenas o degrau inicial. Com um esforço hercúleo, ele se formara em Engenharia Química, trabalhando durante o dia na oficina e estudando à noite até as veias de seus braços saltarem de cansaço sobre os livros.
Mateus não mudara tanto quanto ela, mas o tempo esculpira seu rosto. O maxilar estava mais marcado, a barba por fazer dava-lhe um ar mais maduro, e o sorriso com covinhas raramente aparecia. Ele se tornara um homem focado, quase obsessivo com sua estabilidade financeira. Cada real economizado era um tijolo em uma fortaleza que ele construía para nunca mais se sentir impotente como naquela noite de graduação.
Ele abriu uma gaveta da escrivaninha e tirou uma pequena caixa de veludo azul. Dentro, um anel de ouro simples. Ele o comprara no ano anterior, sem saber exatamente para quem, ou talvez sabendo bem demais.
— Você disse que eu não tinha nada para oferecer — murmurou ele para o vazio do quarto. — Agora eu tenho, Olivia. Mas cadê você?
A segunda-feira chegou com um céu cinzento e uma garoa fina que banhava a rodoviária. Olivia desceu do ônibus carregando apenas duas malas e uma vida de arrependimentos disfarçados de sucesso. O ar da cidade tinha o mesmo cheiro de terra molhada e flores de campo, o que a fez querer chorar instantaneamente.
Ela se instalou em um hotel e, movida por um impulso masoquista, decidiu caminhar pela praça central ao entardecer. O lugar não mudara quase nada, mas ela se sentia uma estrangeira.
— Olivia?
A voz era mais profunda do que ela lembrava, mas a vibração atingiu sua espinha com a precisão de um bisturi. Ela parou, o coração martelando contra as costelas, e se virou lentamente.
Mateus estava parado a poucos metros, segurando uma pasta de couro. Ele usava uma camisa social branca com as mangas dobradas, revelando os antebraços fortes e as veias que ela tanto amava. O cabelo cacheado estava mais curto, mas os olhos... os olhos ainda tinham aquela doçura melancólica que ela tentara apagar da memória com álcool e festas.
— Mateus — disse ela, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
Ele caminhou até ela, parando a uma distância segura, mas perto o suficiente para que ela sentisse o perfume dele — uma mistura de sândalo e algo que lembrava metal limpo.
— Eu soube que você voltaria. As notícias correm rápido por aqui — disse ele, esboçando um sorriso contido. — Você está... diferente.
Olivia soltou uma risada seca, cruzando os braços.
— Seis anos mudam qualquer um, Mateus. Eu me formei. Sou médica agora.
— Eu sei. Eu acompanhei. De longe, mas acompanhei — admitiu ele, e a honestidade naquelas palavras fez a armadura de Olivia trincar. — Eu também me formei. Sou engenheiro químico. Trabalho na planta industrial nova, na saída da cidade.
Eles ficaram em silêncio por um momento, observando os pedestres passarem. A tensão entre eles era quase palpável, uma corda esticada ao máximo, prestes a romper.
— Você parece bem, Mateus. Realizado.
— Eu trabalhei para isso. Cada minuto — ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço. — Eu não queria que a próxima vez que nos víssemos, eu tivesse que dizer que não tinha nada para te oferecer.
Olivia sentiu uma pontada de culpa. Ela pensou nos inúmeros garotos que levara para casa nos últimos anos, nas noites em que tentou afogar a imagem dele em copos de vodca, na forma como se tornou "fácil" e fria para não ter que sentir a dor da ausência dele.
— E eu? — ela perguntou, os olhos negros brilhando com uma vulnerabilidade que ela não mostrava há anos. — Você acha que eu sou a mesma garota que queria casar aos dezenove? Eu me joguei no mundo, Mateus. Eu fiz coisas... eu mudei. Eu não sou mais "fofa" ou "quieta".
Mateus a observou com atenção. Ele notou o corte de cabelo moderno, o modo como ela sustentava o olhar de forma desafiadora, a postura de quem já viu o lado mais sombrio da vida noturna.
— Eu vi as fotos que seus amigos postavam, Olivia. Eu vi você em festas, vi você com outras pessoas — ele disse, a voz sem julgamento, apenas com uma tristeza profunda. — Doeu. No começo, eu achei que ia morrer. Mas depois eu entendi. Você estava tentando sobreviver ao que a gente fez um com o outro.
— Eu não sobrevivi — confessou ela, a voz falhando. — Eu só me perdi. Mateus, eu estive com tantos... e nenhum deles era você. Nenhum deles tinha esse seu jeito certinho que me irritava e me acalmava ao mesmo tempo. Eu tenho um diploma, tenho um emprego, mas eu me sinto vazia.
Mateus estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar o rosto dela. A pele de Olivia ainda era clara e macia, mas havia uma maturidade ali que o fascinava.
— Eu juntei dinheiro, Olivia — sussurrou ele, o polegar acariciando a bochecha dela. — Eu tenho a casa. Eu tenho a estabilidade. Eu tenho tudo o que você disse que queria naquela noite em que brigamos.
— Mas eu não sou mais aquela menina, Mateus! — ela exclamou, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu estraguei tudo. Eu saí com metade de Porto Alegre tentando te esquecer. Eu não sou a noiva perfeita que você merece.
Mateus sorriu, e desta vez as covinhas apareceram em toda a sua glória, iluminando o rosto dele apesar da penumbra da praça.
— Você acha que eu sou perfeito? Eu me fechei para o mundo. Eu me tornei uma máquina de trabalhar. Eu esqueci como é rir de verdade. Nós dois nos quebramos, Olivia.
— E o que a gente faz com os pedaços? — perguntou ela, aproximando-se mais, o cheiro dele a embriagando mais do que qualquer bebida.
— A gente tenta construir algo novo — respondeu ele. — Eu não quero a menina de dezenove anos. Eu quero a mulher que está na minha frente agora. Com toda a bagagem, com toda a dor.
Olivia olhou para cima, para o homem de 1,77m que ainda a fazia se sentir pequena e protegida. A diferença de altura era a mesma, mas o equilíbrio de poder mudara. Eles não eram mais crianças sendo jogadas ao vento pelo destino. Eram adultos que tinham escolhido seus próprios caminhos e, de alguma forma, acabaram no mesmo lugar.
— Eu senti tanto a sua falta — disse ela, escondendo o rosto no peito dele.
Mateus a abraçou com força, as veias marcadas em seus braços envolvendo o corpo curvilíneo dela com uma possessividade gentil.
— Eu nunca te deixei ir de verdade, Olivia.
— Você ainda quer casar? — ela perguntou, a voz abafada pela camisa dele.
Mateus a afastou o suficiente para olhar em seus olhos. Ele levou a mão ao bolso e sentiu o relevo da caixinha de veludo.
— Eu não passei os últimos seis anos construindo um império sozinho para não ter você como rainha. Mas desta vez, vamos fazer do nosso jeito. Sem pressa. Sem medo da distância.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu ela. — Eu voltei para casa.
Eles ficaram ali, sob a garoa fina, enquanto a cidade continuava seu ritmo indiferente. A briga de anos atrás, a noite de despedida, as noitadas sem sentido e o trabalho exaustivo — tudo parecia agora apenas um prólogo necessário. O silêncio que antes os separava agora era um cobertor confortável.
— Vamos sair daqui — disse Mateus, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Meus pais se mudaram para o interior. Eu tenho meu próprio lugar agora. E tem um quarto de hóspedes... ou, se você preferir, tem o meu quarto.
Olivia sorriu, um sorriso que finalmente alcançou seus olhos puxados, devolvendo-lhes o brilho que ela achava ter perdido para sempre.
— Eu acho que já passamos da fase do quarto de hóspedes, Mateus.
Enquanto caminhavam em direção ao carro dele, Olivia sentiu que o peso em seu peito, aquela angústia constante que a perseguira por anos, estava finalmente começando a se dissipar. Ela ainda era a médica que gostava de festas e ele ainda era o engenheiro certinho, mas no centro de tudo, eles ainda eram Mateus e Olivia. E, desta vez, as estradas não apenas se cruzavam; elas se fundiam em uma só.