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O que está fazendo aqui?

O Eclipse da Menina de Ouro

A casa dos pais de Olivia ainda tinha o mesmo cheiro de lavanda e café fresco, mas para ela, aquele aroma parecia sufocante. Sentada à mesa da cozinha, ela sentia o olhar pesado de sua mãe sobre si. Seus cabelos, agora curtos e despojados, eram um contraste gritante com a imagem da filha que eles mantinham em porta-retratos pela sala.

— Você mal tocou na comida, filha — comentou a mãe, a voz carregada de uma preocupação que Olivia interpretava como julgamento. — E essas olheiras... você tem trabalhado demais naquele hospital em Porto Alegre?

— É o ritmo da residência, mãe. E agora o plantão aqui também não é fácil — respondeu Olivia, a voz rouca, sem desviar os olhos do celular.

O pai, sentado na cabeceira, suspirou profundamente. Ele sentia falta da menina quieta e doce que lia livros no jardim. A mulher à sua frente, com unhas pintadas de um vermelho agressivo e uma postura defensiva, parecia uma estranha que ocupava o corpo de sua filha. Eles sabiam, através de postagens em redes sociais e conversas truncadas, que Olivia havia se perdido em algum lugar entre as luzes da cidade grande e a amargura do passado.

— Esperávamos que, voltando para casa, você pudesse... descansar. Voltar a ser quem era — disse o pai, com cautela.

Olivia soltou uma risada seca, levantando-se da mesa. O som da cadeira arrastando no piso de madeira foi estridente.

— Quem eu era morreu há seis anos, pai. Aquela menina era uma idiota que achava que amor pagava aluguel.

Sem esperar resposta, ela subiu para o quarto. O silêncio da casa dos pais a enlouquecia. Era sábado à noite. Na sexta, ela havia enfrentado doze horas de emergência hospitalar, lidando com sangue, dor e morte. Agora, ela só queria anestesiar a própria alma.

Abriu a mala e tirou um vestido de seda preto, tão curto que mal cobria o início de suas coxas curvilíneas. O decote em "V" era profundo, revelando a pele clara que raramente via o sol. Ela aplicou uma maquiagem pesada: sombras escuras, muito rímel e um batom que parecia sangue seco. Olhou-se no espelho. Seus olhos negros, antes "fofos", agora brilhavam com uma faísca perigosa de autodestruição.

— Hoje não — sussurrou para si mesma, saindo pela janela do quarto para evitar mais sermões.

Ela estava sozinha. Suas antigas amigas haviam casado ou se mudado. Olivia caminhou até o centro da cidade, onde a vida noturna era limitada, mas barulhenta o suficiente. Entrou em um bar de luzes baixas e pediu o primeiro drink. Depois o segundo. E o terceiro.

Enquanto isso, em um condomínio de luxo no centro, Mateus observava a cidade da varanda de seu apartamento no décimo andar. O lugar era impecável: móveis de design, tecnologia de ponta, uma adega que poderia sustentar três casamentos luxuosos. Ele tinha o sucesso que prometera a si mesmo. Era um engenheiro respeitado, o orgulho da família. Mas, por dentro, Mateus era um deserto.

Ele raramente sorria. As covinhas, que antes eram sua marca registrada, pareciam ter sido soterradas por anos de trabalho obsessivo. Ele se arrependia todos os dias de ter cortado o contato com Olivia de forma tão drástica. Ele achara que o silêncio ajudaria ambos a esquecer, mas o silêncio só fez a memória dela gritar mais alto.

— Onde você está agora, Olivia? — murmurou, girando o gelo em seu copo de uísque caro.

Ele não tinha esperanças de reencontrá-la. Para ele, ela devia estar casada com algum médico bem-sucedido em Porto Alegre, vivendo a vida que ele não pudera dar a ela na época. A amargura era sua única companhia constante.

No bar, Olivia já não estava mais consciente de suas ações. O álcool havia se misturado a uma substância que um desconhecido lhe oferecera na pista de dança, prometendo que "ajudaria a relaxar". O mundo girava em cores borradas. Ela sentiu uma mão pesada em sua cintura.

— Você está muito sozinha para uma boneca dessas — disse um homem, cujo hálito fedia a cerveja barata.

— Me solta... — balbuciou Olivia, tentando empurrá-lo, mas seus braços pareciam feitos de gelatina.

O homem a conduziu para fora, em direção a um beco escuro atrás do bar. Olivia tentava gritar, mas as palavras morriam em sua garganta seca. Ele a prensou contra a parede de tijolos, as mãos ásperas subindo pelo seu vestido, puxando o tecido para cima. Quando ele começou a tocar suas partes íntimas com brutalidade, um surto de adrenalina pura cortou o torpor da droga.

Olivia usou o salto agulha de seu sapato para esmagar o pé do agressor e, com um movimento desesperado, cravou as unhas no rosto dele. O homem urrou de dor, soltando-a por um segundo. Foi o suficiente. Ela correu. Correu até seus pulmões queimarem, tropeçando em seus próprios pés, as lágrimas borrando a maquiagem escura até que seu rosto parecesse uma máscara de tragédia grega.

Ela não sabia onde estava. O centro da cidade estava deserto nas primeiras horas da manhã de domingo. Exausta e sob o efeito residual das substâncias, Olivia desabou em um banco de praça, perto de uma das avenidas principais. O frio da madrugada castigava sua pele exposta, mas ela não conseguia mais se mover. O sono pesado e tóxico a levou.

O sol de domingo nasceu pálido. Mateus, que não conseguira dormir, decidiu sair cedo para dirigir. Era a única coisa que o acalmava: o ronco do motor de seu sedã preto de luxo e a estrada vazia. Ele passava pelo centro quando algo chamou sua atenção.

Um vulto caído em um banco de praça. Parecia um amontoado de panos pretos e pele pálida. Como o "bom moço" que ainda residia no fundo de sua alma, ele reduziu a velocidade. Poderia ser alguém passando mal.

Ele parou o carro e desceu. Ao se aproximar, o coração de Mateus deu um solavanco tão violento que ele sentiu uma dor física no peito. O vestido estava rasgado na lateral, o cabelo curto estava emaranhado e o rosto estava coberto de manchas pretas e roxas.

— Ei, você está bem? — ele perguntou, a voz trêmula.

A mulher abriu os olhos devagar. Eram olhos negros, puxados, mas estavam nublados, as pupilas dilatadas a ponto de quase esconderem a íris. Ela olhou para ele, mas não parecia enxergar.

— Mateus? — ela sussurrou, a voz apenas um fio de ar.

O mundo de Mateus desmoronou.

— Olivia? — Ele se ajoelhou no chão sujo da praça, segurando os ombros dela. — Meu Deus, Olivia! O que você está fazendo aqui? E desse jeito?

Ele olhou para o estado dela — o decote excessivo, o cheiro de bebida, a maquiagem de quem havia passado por um inferno. A raiva e a dor lutavam dentro dele.

— O que você fez com a sua vida, Olivia? Por que você está assim?

Ela começou a soluçar. Eram soluços convulsivos, que sacudiam seu corpo pequeno. Ela tentava falar, mas as palavras saíam desconexas, misturadas a pedidos de desculpa e frases sem sentido sobre "becos" e "frio".

— Ele... ele pegou... eu corri, Mateus... eu não queria... — ela chorava, escondendo o rosto nas mãos.

Mateus sentiu uma fúria assassina crescer em seu peito ao notar as marcas de dedos nos braços dela, mas a prioridade era tirá-la dali. Ele a pegou no colo, sentindo como ela parecia mais leve e mais frágil do que na noite da formatura.

— Calma, eu estou aqui. Eu vou te levar para o hospital — disse ele, a voz agora firme, embora seus olhos estivessem úmidos.

Ele a colocou no banco do passageiro de seu carro caro, o contraste entre a sujeira dela e o couro impecável do veículo sendo a metáfora perfeita para o abismo que agora os separava. Durante o trajeto, Olivia não parava de tremer, balbuciando coisas sobre como ele tinha razão, sobre como ela era uma pecadora, sobre como o dinheiro não tinha trazido nada além de monstros.

Ao chegarem na emergência do hospital onde ela mesma deveria trabalhar no dia seguinte, Mateus entrou carregando-a, gritando por ajuda.

— Ela é médica aqui! — ele exclamou para a enfermeira de plantão, que arregalou os olhos ao reconhecer a nova colega naquele estado deplorável.

Enquanto a equipe a levava para uma sala de triagem, Mateus ficou no corredor, as mãos manchadas de maquiagem preta e do perfume barato que ela usava. Ele se sentou em uma das cadeiras de plástico, cobrindo o rosto com as mãos. As veias de seus braços estavam marcadas pela tensão.

Ele esperara seis anos por aquele reencontro. Ele imaginara Olivia entrando em seu escritório, altiva e brilhante, para que ele pudesse mostrar que agora era digno dela. Ele nunca imaginou que a encontraria quebrada no chão de uma praça, sendo o reflexo de tudo o que eles tentaram evitar.

Horas depois, uma enfermeira se aproximou.

— Ela está estabilizada. Fizemos uma lavagem gástrica e cuidamos das escoriações. Ela teve sorte... fisicamente, pelo menos. Ela está chamando por você.

Mateus entrou no quarto. Olivia estava pálida, com um acesso venoso no braço e vestindo uma camisola hospitalar branca que a fazia parecer a menina de dezenove anos novamente, se não fosse pelo olhar de quem já tinha visto o fim do mundo.

— Mateus... — ela disse, quando ele se aproximou da cama.

— Não fale nada — ele pediu, sentando-se ao lado dela. — Só descanse.

— Eu estraguei tudo, não foi? — Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dela, agora limpo de maquiagem. — Você se tornou o homem que queria ser... e eu me tornei algo que eu odeio.

Mateus pegou a mão dela, apertando-a com força.

— Nós dois nos perdemos no caminho, Olivia. Eu ganhei o mundo e perdi minha alma. Você tentou fugir da dor e quase se destruiu.

— Você me odeia por me ver assim? — perguntou ela, os olhos negros buscando os dele com um desespero infantil.

Mateus respirou fundo, sentindo o peso do anel de ouro que ainda carregava no bolso do paletó que deixara no carro.

— Eu não poderia te odiar nem se tentasse por mais mil anos. Mas agora, você vai ter que me deixar cuidar de você. Chega de fugir.

Olivia fechou os olhos, e pela primeira vez em seis anos, o silêncio não pareceu um inimigo. Era o começo de uma reconstrução dolorosa, mas, naquele quarto de hospital, entre o cheiro de antisséptico e a luz fria da manhã, as estradas de Mateus e Olivia finalmente pararam de divergir.