O que está fazendo aqui?
O Alvorecer das Cicatrizes
Dois dias no hospital foram suficientes para que o cheiro de antisséptico se tornasse a nova fragrância do arrependimento de Olivia. Quando a alta finalmente veio, ela esperava que seus pais a levassem de volta para o quarto de infância, para o silêncio acusador daquelas paredes. No entanto, foi a mão firme de Mateus que segurou sua bolsa de viagem.
— Seus pais concordaram — explicou ele, enquanto a guiava para o sedã preto. — Eles acham que você precisa de um ambiente diferente para se recuperar antes de voltar para a rotina. E eu... eu quero garantir que você esteja bem.
O trajeto até o apartamento de Mateus foi silencioso, mas não era o silêncio cortante de seis anos atrás. Era algo denso, carregado de perguntas não feitas. Quando entraram no loft, Olivia parou na soleira, impressionada. O lugar exalava sucesso e ordem. Era o oposto do caos que sua vida se tornara em Porto Alegre.
— É lindo, Mateus — sussurrou ela, os dedos traçando o contorno de um móvel de carvalho.
— Eu trabalhei muito, Olivia — disse ele, deixando as chaves sobre a bancada de mármore. — Depois que você foi embora, eu não sabia o que fazer com a minha energia. Então, eu a transformei em números. Fiz o técnico, depois a engenharia. Trabalhei em dois turnos na oficina e estudava de madrugada. Cada centavo que eu ganhava, eu investia. Eu queria chegar a um ponto onde o dinheiro nunca mais fosse o motivo de uma briga nossa.
Ele falava com uma calma que a assustava. Ele não mencionou casamento, nem planos futuros. Ele apenas mostrava a fortaleza que construíra. Olivia sentiu um nó na garganta. Ele havia crescido, se tornado um homem de posses, enquanto ela sentia que havia apenas se desgastado, como uma pedra jogada em um rio turbulento.
Naquela noite, o peso da gratidão e da culpa começou a sufocá-la. Mateus a instalara no quarto principal e insistira em dormir no sofá, apesar de seus protestos. Ela se sentia em dívida. Olhando-se no espelho do banheiro, ela viu a mulher que se tornara: os olhos negros ainda marcados pelo cansaço, o piercing no umbigo brilhando sob a luz fria, as cicatrizes invisíveis de noites que ela queria esquecer.
"Eu preciso retribuir", pensou ela. "É a única coisa que eu sei fazer agora."
Ela esperou ouvir o som do chuveiro parar. Quando Mateus saiu do banheiro, apenas com uma calça de moletom cinza, o vapor d'água ainda grudado em sua pele e o cabelo cacheado úmido, Olivia estava parada no corredor.
Sem dizer uma palavra, ela se aproximou. Ele parou, confuso, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ela envolveu o pescoço dele com os braços e o puxou para um beijo profundo. Era um beijo desesperado, com gosto de "obrigada" e "me perdoe". Mateus sentiu o coração disparar contra as costelas; o perfume dela, agora mais suave, ainda tinha o poder de desarmá-lo completamente.
As mãos de Olivia desceram para a barra da própria blusa de seda. Ela começou a levantá-la, revelando a curva de sua cintura e a pele clara que ele tanto conhecia.
— Olivia... — Mateus murmurou entre o beijo, mas ela não parou.
— Shhh — sussurrou ela, os olhos nublados. — Deixe-me fazer isso. É o mínimo que posso te dar por tudo o que você está fazendo.
Ela soltou o fecho do sutiã, mas antes que a peça caísse, Mateus segurou seus pulsos com firmeza. Ele a afastou gentilmente, seus olhos castanhos fixos nos dela, não com luxúria, mas com uma tristeza profunda.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, a voz baixa e rouca.
— Eu estou tentando te recompensar, Mateus — respondeu ela, a voz falhando, as lágrimas começando a surgir. — Eu não tenho nada além disso agora. Não tenho a pureza que você lembra, não tenho a doçura. Só tenho o meu corpo. É a única coisa que as pessoas queriam de mim nos últimos anos... achei que você também quisesse.
Mateus sentiu como se tivesse levado um soco. Ele soltou os pulsos dela e cobriu o corpo dela com as próprias mãos, puxando a blusa de volta para o lugar.
— Você acha que eu te trouxe para cá por causa disso? — Ele balançou a cabeça, amargurado. — Olivia, eu fiz o que fiz porque eu me importo com você. Eu não quero o seu corpo em troca de um teto ou de cuidado. Eu não sou um daqueles caras dos bares de Porto Alegre.
— Mas eu me sinto tão devedora... — soluçou ela, escondendo o rosto no peito dele.
— Você não me deve nada — afirmou ele, abraçando-a com força, o queixo apoiado no topo da cabeça dela. — Eu quero que você se cure. Quero que você se sinta segura aqui. Só isso.
Ele a levou de volta para a cama e a cobriu, saindo do quarto logo em seguida. Olivia chorou até dormir, sentindo-se pequena, mas, pela primeira vez, verdadeiramente protegida.
Os dias seguintes foram mais leves. Mateus saía para trabalhar e Olivia ficava no apartamento, tentando organizar seus pensamentos. Ela começou a cozinhar pequenas refeições, a ler os livros técnicos dele e a entender o homem que ele se tornara. A culpa ainda estava lá, mas estava sendo substituída por uma admiração genuína.
Na quinta-feira, ela decidiu que queria fazer algo diferente. Não uma tentativa de "pagamento" carnal, mas um gesto de carinho. Quando Mateus chegou em casa, cansado de uma reunião na planta industrial, encontrou a sala na penumbra. Havia um balde de pipoca enorme sobre a mesa de centro, duas garrafas de cerveja artesanal e um filme de suspense — o gênero favorito dele — já no menu inicial da televisão.
— Uma surpresa? — perguntou ele, um esboço de covinha aparecendo no canto da boca.
— Você parece exausto — disse Olivia, saindo da cozinha com um sorriso tímido. — Achei que um filme e pipoca seriam melhores do que qualquer conversa séria.
— Você acertou em cheio — admitiu ele, jogando o paletó no encosto da poltrona e sentando-se no sofá.
Eles assistiram ao filme lado a lado. O clima era confortável. A tensão sexual que sempre existira entre eles estava lá, mas agora estava temperada com uma amizade que eles não tinham chance de desenvolver na adolescência. No meio do filme, as mãos deles se tocaram no balde de pipoca. Eles congelaram.
Olivia virou o rosto para ele. A luz da TV refletia em seus olhos negros, fazendo-os brilhar. Mateus não resistiu e acariciou a bochecha dela.
— Você está melhor — comentou ele.
— Estou — respondeu ela. — Porque você me deu espaço para respirar.
Desta vez, o beijo começou lento. Não era um beijo de gratidão, mas de saudade acumulada por dois mil dias. Olivia se inclinou sobre ele, aprofundando o contato, as mãos subindo pelo pescoço dele até se perderem nos cachos escuros. Mateus gemeu baixo, cedendo ao desejo que tentara reprimir.
Olivia o empurrou levemente, fazendo-o deitar no sofá, e sentou-se em seu colo. Ela começou a desabotoar a camisa social dele com agilidade. Quando a peça foi aberta, ela deslizou as mãos pelo peito levemente definido dele, sentindo os batimentos acelerados.
— Tem certeza? — perguntou Mateus, a voz carregada de desejo. — Não quero que você sinta que precisa...
— Eu quero, Mateus — interrompeu ela, com uma clareza que ele não ouvia há anos. — Eu quero você. Não como recompensa. Como escolha.
Ela tirou a própria blusa, revelando o corpo curvilíneo que o tempo e a maturidade haviam esculpido. Quando ela se virou para deixar a roupa no chão, Mateus viu. Nas costas de Olivia, entre as escápulas, havia uma tatuagem delicada de uma fênix em traços finos e pretos.
— Você fez uma tatuagem — ele murmurou, passando os dedos sobre o desenho.
— Foi no meu terceiro ano de faculdade — explicou ela, sentindo o arrepio do toque dele. — Eu me sentia morrendo por dentro, então queria algo que me lembrasse que eu podia renascer.
Ele desceu o olhar e viu o piercing de prata no umbigo, que brilhava a cada respiração dela. Eram marcas de uma vida que ele não compartilhara, de uma Olivia que enfrentara o mundo sozinha e voltara com cicatrizes de guerra transformadas em adornos.
— Você é linda — disse ele, com uma sinceridade que a fez perder o fôlego. — Sempre foi. Mas agora... você é magnífica.
Ele a puxou para baixo, e o sofá pareceu pequeno demais para a intensidade do que sentiam. Naquela noite, eles não fizeram amor como os adolescentes inexperientes que foram na noite da formatura. Eles se entregaram como dois adultos que conheciam a dor da perda e o valor do reencontro.
Mateus explorou cada centímetro dela, as veias de seus braços marcadas enquanto ele a sustentava, o sorriso com covinhas surgindo entre um beijo e outro quando ela soltava um suspiro de prazer. Olivia sentia que cada toque dele limpava uma mancha do seu passado, que cada carícia dele a trazia de volta para si mesma.
Quando finalmente foram para o quarto, exaustos e entrelaçados, o silêncio do apartamento era preenchido apenas pela respiração ritmada de ambos. Olivia deitou a cabeça no peito de Mateus, o cabelo agora curto espalhado pelo ombro dele.
— Mateus? — sussurrou ela.
— Sim?
— Aquela noite de seis anos atrás... eu achei que seria a nossa única vez.
Mateus beijou o topo da cabeça dela, apertando-a mais contra si.
— Eu também achei. Mas acho que o destino não aceita "quases", Olivia. Ele apenas nos deu o tempo necessário para crescermos e descobrirmos que, não importa o quanto a gente mude, o lugar onde a gente se encaixa é o mesmo.
Naquela noite, sob o teto do apartamento que o dinheiro e o trabalho duro construíram, Olivia não sonhou com becos escuros ou luzes de neon. Ela sonhou com um futuro onde não precisava mais fugir, e onde o seu "eu" de dezenove anos finalmente podia descansar, sabendo que o homem dos seus sonhos não era mais apenas uma lembrança, mas a realidade que a segurava no escuro.
O alvorecer que entrou pela janela na manhã seguinte não trouxe a despedida das seis da manhã, mas a promessa silenciosa de que, desta vez, eles tinham todo o tempo do mundo.