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O que eu não disse

O Ritmo do Sangue e das Marés

A biblioteca da faculdade parecia menor naquela tarde. Para Ana, as paredes de concreto e as estantes infinitas de livros sobre farmacologia clínica pareciam estar se fechando lentamente ao seu redor. Ela tentou focar no mecanismo de ação dos inibidores de checkpoint imunológico, mas as letras dançavam no papel. Seus dedos batucavam incessantemente no tampo de madeira da mesa, um ritmo frenético que ela não conseguia silenciar.

Havia uma semana que ela não pisava no tatame. Uma semana sem o impacto seco das canelas contra o saco de pancadas no Muay Thai, sem a pressão claustrofóbica e libertadora de um rolê de Jiu-Jitsu. A semana de provas finais do bloco de oncologia e hematologia havia exigido cada segundo de sua sanidade mental, e o preço estava sendo cobrado agora.

Ana sentia como se houvesse uma corrente elétrica percorrendo sua pele. Cada som — o virar de uma página, o sussurro de um ar-condicionado, a caneta de alguém clicando ao longe — parecia amplificado. E havia Gabriel.

Ele estava sentado a duas mesas de distância, concentrado em um artigo sobre biotecnologia. O sol da tarde entrava pela janela e iluminava o perfil de seu rosto, destacando a linha do maxilar e a forma como ele mordia levemente o lábio inferior quando estava imerso na leitura. Ana engoliu em seco, sentindo uma onda súbita de calor subir por seu pescoço. Ela desviou o olhar rapidamente, as mãos suando.

— Ana? Você está bem? — A voz de Felipe, baixa e preocupada, veio de sua direita.

Ela deu um pulo na cadeira, derrubando o estojo no chão com um barulho estrepitoso que atraiu olhares de reprovação de outros estudantes.

— Droga... — sussurrou ela, baixando-se para recolher as canetas.

Felipe a ajudou, observando-a com o cenho franzido. Quando se sentaram novamente, ele se inclinou para mais perto.

— Você está ligada no duzentos e vinte desde que chegou, amiga. Já esqueceu o celular no carro, perdeu a chave da mochila duas vezes e agora está aí, tremendo como se tivesse tomado três doses de pré-treino puro. O que está acontecendo?

Ana suspirou, passando a mão pelo rosto.

— É o estresse, Lipe. Uma semana sem treinar. Meu corpo não sabe o que fazer com tanta energia acumulada. Eu me sinto... inquieta. Impulsiva. Como se eu pudesse correr uma maratona ou gritar com alguém sem motivo nenhum.

Felipe a analisou por um momento, seus olhos de futuro dentista sendo substituídos pelo olhar de quem a conhecia desde que ambos usavam fraldas.

— Só o treino? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Ana, que dia é hoje?

Ela franziu a testa, tentando processar a pergunta.

— Dia quinze. Por quê?

Felipe deu um sorriso de canto, aquele sorriso de quem acabou de resolver um diagnóstico difícil.

— Seu ciclo, Ana. Você está no meio do mês. Sem treino para descarregar a endorfina e com os hormônios do período fértil no pico... É uma combinação explosiva.

Ana sentiu o rosto arder. Ela abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram na garganta. Fazia sentido. A sensibilidade aguçada, a irritabilidade latente e, principalmente, a forma como seus olhos pareciam gravitar involuntariamente para Gabriel a cada cinco minutos.

— Isso é ridículo — murmurou ela, enterrando o rosto nas mãos. — Eu sou uma cientista. Eu deveria ser capaz de ignorar flutuações hormonais básicas.

— Você é humana, não uma placa de Petri — Felipe riu baixo, guardando seus materiais. — E, sinceramente? O Gabriel está sendo um ótimo teste de resistência para você hoje, não é?

— Cala a boca, Felipe.

— Ele é atraente, Ana. Não precisa fingir que não percebeu. Especialmente hoje, que você parece estar com os sentidos de uma caçadora.

Ana olhou novamente para Gabriel. Naquele exato momento, ele levantou os olhos e a pegou observando-o. Diferente de meses atrás, ele não deu um sorriso arrogante. Ele apenas sustentou o olhar por um segundo a mais, um brilho de curiosidade e algo mais profundo atravessando seus olhos castanhos, antes de dar um aceno discreto.

— Ele é... muito atraente — confessou Ana em um sussurro quase inaudível para Felipe. — É irritante o quanto ele é atraente. Acho que minha biologia está tentando me sabotar.

— Ou talvez ela esteja apenas tentando te dizer que você está viva de novo — Felipe deu um tapinha encorajador no ombro dela. — Vou buscar um café. Quer?

— Não, por favor. Se eu tomar cafeína agora, acho que atravesso aquela parede de vidro correndo.

Felipe saiu, deixando-a sozinha com seus pensamentos e com a presença magnética de Gabriel a poucos metros. Ana tentou voltar ao estudo, mas a inquietação era física. Ela se levantou, precisando se mexer, e caminhou até a seção de periódicos científicos, esperando que a mudança de ares ajudasse.

Não ajudou. Segundos depois, ela ouviu passos familiares atrás de si.

— Você parece que vai entrar em combustão espontânea a qualquer momento — a voz de Gabriel era suave, carregada de uma diversão gentil.

Ana se virou, encontrando-o encostado em uma das estantes. Ele estava sem o jaleco, apenas com uma camiseta de algodão que marcava levemente os ombros. Ela notou o cheiro dele — algo cítrico e limpo — e teve que se esforçar para manter a postura ereta.

— É só uma semana difícil, Gabriel. Muita matéria, pouco sono.

— E pouco treino, imagino — ele deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. — Eu passei pela academia ontem e o mestre perguntou por você. Disse que o saco de pancadas estava sentindo sua falta.

Ana soltou uma risada curta e nervosa.

— Ele não é o único. Eu sinto que estou carregando um reator nuclear dentro do peito. Tudo parece... demais.

Gabriel a observou intensamente. Ele notou a dilatação de suas pupilas e a forma como ela não conseguia parar de mexer na pulseira em seu pulso. Havia uma vibração diferente nela hoje. Menos "estátua de gelo" e mais "fogo líquido".

— Sabe — disse ela, a impulsividade do momento vencendo sua timidez habitual —, eu estava conversando com o Felipe sobre como o corpo humano é traiçoeiro. Como a gente estuda a fisiologia, a farmacodinâmica, mas esquece que somos escravos da nossa própria química.

Gabriel inclinou a cabeça, interessado.

— Do que exatamente você está falando?

Ana hesitou, mas a agitação em seu sangue a impulsionava a ser direta.

— Como vocês, homens, percebem as mulheres... em certas fases? — Ela perguntou, tentando manter o tom clínico, mas falhando miseravelmente quando sua voz falhou no final. — No período fértil, por exemplo. Vocês notam a diferença? Ou é tudo coisa da nossa cabeça?

Gabriel ficou em silêncio por um longo momento. A pergunta era direta, quase crua, e ele podia ver o conflito no rosto de Ana — a cientista lutando contra a mulher vulnerável. Ele decidiu ser tão honesto quanto ela.

— A gente nota — respondeu ele, a voz baixando um tom. — Mas nem sempre é algo consciente. Não é como se víssemos um sinal luminoso. É mais como... uma mudança na frequência. A energia muda. A forma como vocês se movem, o brilho nos olhos. Fica tudo mais intenso.

Ele deu mais um passo. Agora, eles estavam tão próximos que Ana podia sentir o calor emanando do corpo dele.

— Mas isso não define quem você é, Ana — ele continuou, o tom agora sério e protetor. — O fato de você estar se sentindo mais sensível ou agitada não apaga a sua disciplina ou a sua inteligência. Só te torna... real. E, para ser bem sincero, eu prefiro você assim, real, do que aquela versão que parecia feita de mármore.

Ana sentiu uma onda de alívio misturada com uma tensão elétrica.

— Eu me sinto exposta — admitiu ela, olhando para os próprios pés. — Como se todos pudessem ler o que eu estou pensando. E o que eu estou pensando agora não é nada acadêmico.

Gabriel soltou um riso baixo, um som que vibrou no peito de Ana.

— Bem-vinda ao clube. Eu não tenho o álibi dos hormônios cíclicos e, ainda assim, não consigo me concentrar naquela droga de artigo de biotecnologia há meia hora porque você está sentada ali, agindo como se o mundo fosse explodir.

Ana levantou os olhos, surpresa.

— Você estava me olhando?

— Eu sempre estou olhando, Ana. Só que agora eu finalmente tenho permissão para admitir isso.

A tensão entre eles era quase palpável, um fio esticado ao máximo. Ana sentiu uma vontade avassaladora de encurtar a distância, de sentir o contato físico que seu corpo tanto clamava. Mas Gabriel, demonstrando uma maturidade que ela ainda estava aprendendo a processar, apenas colocou a mão sobre a dela, que repousava na estante.

Foi um toque simples, mas o efeito foi imediato. O ritmo frenético no peito de Ana começou a se estabilizar.

— Respira — disse ele, suavemente. — Vai passar. É só química, lembra?

— É uma química muito poderosa — sussurrou ela, permitindo-se fechar os olhos por um segundo.

— É a melhor parte da nossa profissão — brincou ele, tentando aliviar o clima. — Estudar as reações.

Eles ficaram ali por alguns minutos, protegidos pelas estantes de livros, compartilhando um silêncio que não era mais desconfortável. A rivalidade acadêmica parecia uma memória distante, algo de uma vida passada. O que restava era uma conexão que ia além dos livros de Farmácia.

Quando voltaram para a mesa, Felipe já estava lá, bebendo seu café e observando-os com um sorriso de satisfação que ele nem tentava esconder.

— O clima mudou — comentou Felipe, quando Gabriel se afastou para pegar suas coisas. — Você parece menos... prestes a cometer um crime.

Ana sentou-se, sentindo-se estranhamente exausta, mas em paz.

— O Gabriel é... diferente do que eu pensava, Lipe. Ele não tentou se aproveitar da minha "instabilidade". Ele me ouviu.

— Eu te disse, Ana. Ele é um idiota às vezes, mas tem um coração bom. E ele gosta de você. Do jeito certo.

O resto da tarde passou de forma mais lenta. Ana ainda sentia a agitação do ciclo, mas agora ela tinha um âncora. De vez em quando, ela e Gabriel trocavam olhares — não mais de desafio, mas de reconhecimento.

Ao final do dia, enquanto caminhavam para o estacionamento, Gabriel a parou perto do carro dela.

— Ana?

Ela se virou, a chave na mão.

— Sim?

— Amanhã cedo, antes das aulas. Eu vou estar na academia. Se você ainda estiver sentindo que vai explodir, eu posso ser seu parceiro de treino. Prometo não reclamar se você me usar como saco de pancadas.

Ana sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou seu rosto de uma forma que Gabriel nunca tinha visto.

— Você não sabe no que está se metendo, veterano. Eu sou faixa azul de Jiu-Jitsu. Vou te finalizar em trinta segundos.

Gabriel soltou uma gargalhada, os olhos brilhando de admiração.

— Mal posso esperar para ver isso. Boa noite, Ana.

— Boa noite, Gabriel.

Ela entrou no carro e, pela primeira vez em muitos anos, não sentiu o peso do passado ou a pressão do futuro. Sentiu apenas o presente — o sangue pulsando nas veias, o calor residual do toque de Gabriel e a promessa de que, independentemente da química ou dos hormônios, ela não estava mais lutando sozinha.

A estrada para a cura ainda era longa, e os traumas do noivado não desapareceriam da noite para o dia. Mas ali, sob as luzes do estacionamento da faculdade, Ana percebeu que a vida não era apenas sobre sobreviver às tempestades, mas sobre aprender a dançar — ou lutar — sob a chuva. E, talvez, encontrar alguém que estivesse disposto a entrar no tatame com ela, em todos os sentidos da palavra.