O que eu não disse
O Labirinto da Química Corporal
O ar condicionado da biblioteca parecia ter morrido, ou talvez fosse apenas o sangue de Ana que estava em uma temperatura perigosa. Ela sentia cada terminação nervosa do seu corpo vibrar. O comentário de Felipe sobre seu ciclo hormonal e a falta de treinos havia sido um diagnóstico preciso demais, e agora, com Gabriel a poucos centímetros de distância naquele corredor isolado de estantes, a teoria estava se tornando uma prática insuportável.
— Você está me olhando de um jeito diferente hoje, Ana — Gabriel comentou, a voz descendo uma oitava, tornando-se um barítono que parecia ressoar diretamente no baixo ventre dela. — Não é aquele seu olhar de "vou te dissecar como um sapo no laboratório". É outra coisa.
Ana umedeceu os lábios. O gesto, puramente instintivo, não passou despercebido por Gabriel. Os olhos dele desceram para a boca dela e demoraram-se ali um segundo a mais do que o socialmente aceitável.
— Eu já disse, é a energia acumulada — ela tentou manter a voz firme, mas o tom saiu mais baixo e rouco do que pretendia. — Meu corpo está pedindo por um estímulo que eu não estou dando a ele.
— E que tipo de estímulo seria esse? — Gabriel deu mais um passo. Ele agora estava tão perto que Ana podia ver a leve dilatação em suas pupilas.
— Endorfina. Adrenalina. O tipo de coisa que você sente quando está no limite físico — ela respondeu, sentindo o calor dele emanar através da camiseta fina. — Mas minha mente está... divagando.
Gabriel soltou um riso curto, mas não havia deboche. Havia uma tensão compartilhada. Ele apoiou a mão na estante, logo acima do ombro de Ana, cercando-a sutilmente.
— Engraçado você falar em divagar. Eu também não consigo focar. Olho para aquelas fórmulas de biotecnologia e tudo o que vejo são as linhas do seu pescoço quando você prende o cabelo para começar um experimento.
Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela nunca tinha sido o tipo de mulher que se deixava levar por palavras bonitas — o trauma do noivado a tinha tornado cética, quase blindada. Mas Gabriel não estava sendo apenas "galanteador". Havia uma urgência crua na forma como ele a olhava, uma admiração que ele não tentava mais esconder sob a máscara da rivalidade.
— Você é um veterano experiente, Gabriel — ela disse, a audácia crescendo conforme o estresse e a libido se misturavam em um coquetel explosivo. — Deve saber que, às vezes, a melhor forma de neutralizar uma reação química instável é com um reagente de igual intensidade.
Gabriel inclinou o rosto, a respiração dele agora misturando-se à dela.
— Você está me chamando de reagente, Ana? — Ele murmurou, o olhar descendo pelo corpo dela, mapeando as curvas que o jaleco largo geralmente escondia, mas que a postura tensa e a regata justa que ela usava por baixo da blusa aberta agora evidenciavam. — Porque, se for isso, eu tenho muita experiência em lidar com substâncias perigosas.
Ana sentiu o mundo girar. A imagem de Gabriel — não o estudante brilhante, mas o homem que ela sabia que frequentava festas e que tinha a fama de saber exatamente o que fazer entre quatro paredes — invadiu sua mente. Ela imaginou aquelas mãos, que agora estavam apoiadas na madeira fria, tocando sua pele com a mesma precisão que ele usava para pipetar uma solução sensível.
— Eu não sou uma substância que você possa controlar no laboratório — ela rebateu, a voz quase um sussurro desafiador. — Eu luto, Gabriel. Eu mordo. Eu não sou delicada.
— Eu sei que você não é — ele respondeu, e o desejo em sua voz era quase palpável. — E é exatamente isso que está me deixando louco. A ideia de que, por trás dessa fachada de aluna nota dez, existe alguém que sabe exatamente o que quer. E que talvez... o que você queira agora seja o mesmo que eu.
Ele deslizou a mão da estante para o ombro dela, o polegar acariciando a base do pescoço de Ana. O contato físico foi como um choque elétrico. Ana fechou os olhos por um breve momento, entregando-se à sensação. O estresse de uma semana inteira parecia estar se canalizando para aquele único ponto de contato.
— Você tem mãos de quem sabe tirar o estresse de alguém — ela confessou, a honestidade sendo arrancada dela pela pressão do momento.
— Eu conheço alguns métodos — Gabriel sussurrou, aproximando os lábios do ouvido dela. — Métodos que não envolvem livros, nem tatames, nem fórmulas de oncologia. Mas envolvem muita... biologia aplicada.
Ana sentiu os joelhos fraquejarem levemente. A tensão era tão alta que ela tinha certeza de que, se alguém passasse pelo corredor naquele momento, o ar estaria literalmente estalando. Ela pensou no ex-noivo, em como ele a fazia se sentir pequena e inadequada, e depois olhou para Gabriel. Gabriel a via. Ele via sua força, sua inteligência e, agora, sua fome. E ele não parecia intimidado; ele parecia faminto também.
— Gabriel... — ela começou, mas o nome morreu em um suspiro quando ele apertou levemente o ombro dela.
— A gente devia sair daqui — ele disse, a voz subitamente séria, embora carregada de promessa. — Antes que a gente faça algo que vá dar trabalho para o Felipe explicar para os bibliotecários.
Ana soltou uma risada nervosa, tentando recuperar o fôlego.
— O Felipe... ele me mataria se soubesse que eu estou pensando o que estou pensando agora.
— O Felipe é um bom amigo — Gabriel disse, afastando-se apenas o suficiente para que ela pudesse respirar, mas ainda mantendo o olhar fixo no dela —, mas ele não entende a química que acontece quando dois elementos instáveis são colocados no mesmo frasco.
Ele estendeu a mão para ela, um convite silencioso.
— Amanhã no treino, Ana. Vamos descarregar essa energia. E depois... depois a gente vê se a nossa teoria sobre "biologia aplicada" se sustenta na prática.
Ana olhou para a mão dele e depois para os olhos castanhos que agora pareciam derreter qualquer resquício de gelo que ainda restasse em seu coração. Ela não pegou a mão dele, não ali, no meio da biblioteca. Em vez disso, ela deu um passo à frente, encostando o peito no dele por um segundo fugaz, sentindo o coração dele batendo tão rápido quanto o dela.
— Esteja preparado — ela disse, recuperando um pouco da sua pose de "garota de ferro". — Porque eu não pretendo pegar leve com você. No tatame ou fora dele.
Gabriel sorriu, um sorriso que não era mais de um rival, mas de um homem que finalmente tinha encontrado alguém que estava à sua altura em todos os sentidos.
— Eu não esperaria nada menos de você, Ana.
Ela se afastou, caminhando de volta para a mesa onde Felipe a esperava, sentindo-se estranhamente mais leve, embora a libido ainda corresse como fogo em suas veias. Ela sabia que aquela noite seria longa e que seus sonhos seriam povoados por mãos precisas e olhares intensos. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o medo do passado tinha sido silenciado pelo rugido do presente. E o presente tinha o nome, o cheiro e o toque de Gabriel.