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O que eu não disse

O Despertar das Marés em Fortaleza

O sol de Fortaleza não pede licença; ele invade. Às seis da manhã, a luz já atravessava as persianas do apartamento de Ana, pintando riscos dourados sobre o lençol bagunçado e o rastro de cetim azul que ainda jazia no chão. O calor úmido da capital cearense começava a subir, mas o ar-condicionado no dezoito graus mantinha o quarto como um refúgio isolado do mundo exterior.

Ana despertou primeiro. Seus olhos se abriram lentamente, encontrando o teto branco antes de se desviarem para o homem adormecido ao seu lado. Gabriel parecia diferente sob a luz da manhã. Sem a postura defensiva de veterano ou o olhar competitivo das aulas de Farmácia, ele parecia apenas... ele. O rosto relaxado, a respiração profunda e rítmica, um braço pesado jogado sobre a cintura dela como se, mesmo dormindo, ele tivesse medo de que ela desaparecesse.

Ela sentiu um formigamento familiar no baixo ventre. A agitação hormonal que Felipe mencionara no dia anterior não havia se dissipado; pelo contrário, após a noite de entrega e descoberta, parecia ter se transformado em algo mais denso, mais focado. Ana olhou para o celular no criado-mudo. Sexta-feira.

— Hoje tem prova de Toxicologia — sussurrou ela para o vazio do quarto.

Mas, ao olhar para Gabriel, a ideia de enfrentar as bancadas de granito frio do laboratório e o cheiro de reagentes parecia um sacrifício desnecessário. Pela primeira vez em toda a sua trajetória acadêmica impecável, a aluna nota dez decidiu que o mundo podia esperar.

Ela se moveu com a cautela de quem treina jiu-jítsu, deslizando para fora do abraço dele sem acordá-lo. Ficou sentada na beira da cama por um momento, observando as costas largas de Gabriel, as marcas leves que suas próprias unhas haviam deixado ali na euforia da madrugada. Uma onda de audácia, algo que ela nunca soube que possuía, tomou conta de seus movimentos.

Ana não disse nada. Não houve um "bom dia" sussurrado ou um toque suave no ombro dele para despertá-lo. Em vez disso, ela se posicionou entre as pernas dele, que estavam entreabertas sob o lençol fino.

Gabriel começou a despertar não pelo som, mas pela sensação. O calor da boca de Ana, a textura úmida e a pressão deliberada o arrancaram do sono de forma súbita. Ele soltou um suspiro rouco, as mãos tateando o colchão até encontrarem os cabelos escuros dela.

— Ana... — O nome dela saiu como um gemido de pura incredulidade.

Ele tentou se levantar, apoiando-se nos cotovelos para ver se aquilo era real ou apenas mais um sonho vívido de manhã de sexta-feira. Quando seus olhos encontraram a imagem dela — ajoelhada, dedicada, focada nele com a mesma intensidade que dedicava a um microscópio, mas com uma intenção infinitamente mais carnal —, Gabriel sentiu o sangue latejar em suas têmporas.

— Meu Deus, Ana... — Ele jogou a cabeça para trás, os dedos se enroscando nos fios sedosos dela, guiando-a instintivamente.

Ela continuou, em silêncio absoluto. Havia algo de sagrado e profano naquela quietude. Ana não buscava validação ou instruções; ela estava explorando o corpo dele com uma curiosidade técnica que rapidamente se transformava em prazer compartilhado. Ela sentia as reações dele, os tremores nas coxas, o arqueamento das costas, e cada sinal de prazer de Gabriel alimentava sua própria autoconfiança.

— A gente... a gente tem aula — Gabriel conseguiu articular, embora sua voz fosse pouco mais que um sussurro quebrado.

Ana parou por apenas um segundo, levantando os olhos para ele. Havia um brilho travesso e decidido em suas pupilas, algo que dizia que, naquela sexta-feira, as únicas reações químicas que importavam estavam acontecendo ali, entre quatro paredes. Ela voltou ao que estava fazendo com uma determinação que silenciou qualquer vestígio de preocupação acadêmica na mente dele.

— Esquece a faculdade — Gabriel gemeu, entregando-se completamente. — Esquece tudo.

O tempo em Fortaleza parecia ter parado. Lá fora, o trânsito da Avenida Washington Soares começava a fluir, estudantes de Farmácia e Odontologia apressavam-se para não perder a primeira chamada, e Felipe provavelmente estava olhando para o relógio, estranhando o sumiço da melhor amiga. Mas dentro daquele quarto, o ritmo era ditado pelos sons baixos que Gabriel deixava escapar e pela dedicação silenciosa de Ana.

Quando o ápice finalmente o atingiu, Gabriel segurou os ombros dela com uma força que beirava o desespero, o corpo todo retesado antes de relaxar em um espasmo final. Ana se afastou lentamente, limpando o canto da boca com o polegar, mantendo o contato visual que desafiava qualquer resquício da timidez que um dia a definira.

Gabriel ficou em silêncio por um longo tempo, tentando recuperar o fôlego e o raciocínio. Ele estendeu a mão e a puxou para cima, fazendo-a deitar sobre seu peito.

— Você é uma caixinha de surpresas, Ana — disse ele, a voz ainda rouca, enquanto acariciava as costas nuas dela. — Eu achava que te conhecia, mas eu não fazia ideia.

— Eu também não me conhecia — confessou ela, a voz suave, mas preenchida de uma paz nova. — Acho que o Ceará faz isso com a gente. O calor mexe com a cabeça.

Gabriel riu, um som vibrante que relaxou os músculos de ambos.

— Então a gente vai mesmo faltar? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta. — O Felipe vai ter um treco. Ele vai achar que você foi sequestrada.

— Ele que lute com a clínica de Odonto sozinho hoje — Ana sorriu, fechando os olhos e aproveitando o frescor do ar-condicionado contra a pele quente. — Eu não vou a lugar nenhum.

— Nem eu — concordou Gabriel, beijando o topo da cabeça dela. — Se você continuar me tratando assim, eu mudo meu histórico escolar pra reprovado só pra ficar mais um ano aqui com você.

— Não exagera, veterano. Você ainda tem que se formar pra ser meu colega de profissão.

— Colega é uma palavra muito fria para o que a gente acabou de fazer, você não acha?

Ana levantou o rosto, apoiando o queixo no peito dele.

— O que você sugere, então?

Gabriel ficou sério por um momento, os olhos castanhos mapeando cada detalhe do rosto dela, desde a cicatriz minúscula perto da sobrancelha até a curva dos lábios que o haviam deixado em transe minutos antes.

— Eu sugiro que a gente aproveite essa sexta-feira de sol lá fora pra não fazer absolutamente nada aqui dentro. Só eu e você. Sem oncologia, sem toxicologia, sem traumas. Só a gente.

Ana sentiu uma lágrima solitária e quente escorrer, mas não era de dor. Era o peso de meses de insegurança e anos de um noivado opressor finalmente se esvaindo. Ela percebeu que não precisava mais se esconder atrás de livros ou de guardas de jiu-jítsu. Com Gabriel, ela podia ser vulnerável, podia ser audaciosa, podia ser apenas Ana.

— Eu gosto dessa sugestão — respondeu ela, selando o acordo com um beijo casto que logo se transformou em algo mais profundo.

O dia avançou. O sol de Fortaleza subiu ao seu ápice, aquecendo o asfalto e as dunas da Praia do Futuro, mas eles permaneceram naquele casulo. Pediram comida por aplicativo, riram de memes internos da faculdade e, em um momento de coragem, Ana contou a ele sobre a dança que costumava fazer escondida, um segredo que ela guardava como uma relíquia de uma vida passada.

— Você dançava pra ele? — Gabriel perguntou, referindo-se ao ex-noivo, sem o tom de ciúmes, mas com uma curiosidade protetora.

— Sim — Ana desviou o olhar. — Ele dizia que era a única coisa em que eu era realmente boa, além de limpar a casa.

Gabriel sentiu uma pontada de raiva pelo homem que ele nunca conhecera, mas que havia causado tanto estrago. Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.

— Pois ele era um idiota completo. Você é brilhante na oncologia, é uma lutadora que me daria um nó no tatame em dez segundos e, pelo que eu vi hoje, você é boa em qualquer coisa que decida fazer. Inclusive em me deixar completamente louco.

Ana sorriu, e desta vez o sorriso alcançou seus olhos de forma plena.

— Você quer ver? — perguntou ela, a voz carregada de uma nova liberdade.

— Ver o quê?

— A dança.

Gabriel sentou-se na cama, encostado na cabeceira, cruzando os braços.

— Eu não pediria, porque não quero te pressionar. Mas se você quiser me mostrar... eu seria o homem mais sortudo de Fortaleza hoje.

Ana se levantou. Ela ligou o som do celular, escolhendo uma música lenta, uma mistura de ritmos brasileiros com uma batida contemporânea que parecia ressoar com o calor da cidade. Ela não tinha um figurino, apenas a luz do sol filtrada pelas cortinas e a própria pele.

Ela começou a se mover. No início, os movimentos eram pequenos, quase tímidos, mas conforme a música a envolvia, Ana se transformava. A disciplina das artes marciais emprestava uma precisão incrível aos seus gestos, enquanto a feminilidade reprimida trazia uma fluidez que Gabriel nunca tinha visto em ninguém. Ela não dançava para agradar; ela dançava para se retomar.

Gabriel assistia a tudo em um silêncio reverente. Ele percebeu que Ana não era apenas a garota prodígio que ele tentara rivalizar. Ela era um universo complexo de força e delicadeza. Cada movimento de seus quadris, cada ondulação de seus braços contava uma história de superação.

Quando a música parou, Ana estava ofegante, parada no meio do quarto, olhando para ele com uma expectativa silenciosa.

— Ana... — Gabriel começou, levantando-se e indo até ela. — Isso foi a coisa mais bonita que eu já vi. E eu não estou falando só da dança. É você. É como se você estivesse finalmente ocupando todo o espaço que é seu.

Ele a abraçou, sentindo o suor leve e o calor do corpo dela.

— Obrigada por não me chamar de "mais ou menos" — sussurrou ela contra o pescoço dele.

Gabriel apertou o abraço, fechando os olhos com força, sentindo o peso daquela frase que ele um dia dissera sem pensar.

— Eu fui o maior idiota do mundo por ter dito aquilo. Você é o oposto de mais ou menos, Ana. Você é o excesso. Você é o transbordamento. E eu vou passar o resto do tempo que você me permitir tentando compensar aquela frase idiota.

Eles voltaram para a cama, mas o clima agora era de uma intimidade tranquila. Falaram sobre o futuro, sobre como seria quando ambos se formassem. Gabriel confessou seus medos de não ser bom o suficiente para o mercado de trabalho, e Ana, com sua mente brilhante, deu a ele uma aula de incentivo que nem o melhor dos professores conseguiria.

Por volta das quatro da tarde, o celular de Ana começou a tocar incessantemente. Era Felipe.

— Atende — riu Gabriel. — Ou ele vai chamar a polícia.

Ana suspirou e atendeu, colocando no viva-voz.

— Ana Cecília! — A voz de Felipe ecoou, histérica e preocupada. — Onde é que você está? Eu fui na sua sala, perguntei pro professor de Tox, ele disse que você não apareceu. Liguei pro Gabriel e o celular dele dá desligado. Se vocês dois se mataram no meio de um experimento ilegal, eu juro que eu não vou no enterro!

Ana olhou para Gabriel, que tentava segurar o riso com a mão na boca.

— Oi, Lipe. Calma. Eu estou bem.

— Bem? Você faltou a uma sexta-feira de prova, Ana! Você nunca falta! O que aconteceu? Você está doente? É a TPM? Você quer que eu leve um açaí?

— Não é nada disso, Lipe — Ana disse, trocando um olhar cúmplice com Gabriel. — Eu só... decidi tirar o dia pra estudar biologia aplicada.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Felipe não era futuro dentista à toa; ele sabia ler as entrelinhas.

— Biologia aplicada, é? — O tom de Felipe mudou de preocupação para uma diversão maliciosa. — E o Gabriel está te ajudando nessa monitoria?

— Digamos que ele é um aluno muito dedicado — Gabriel interveio, aproximando-se do celular.

— Ah! Eu sabia! — Felipe gritou do outro lado, e dava para ouvir o som dele batendo no volante do carro. — Eu sabia que esse silêncio de vocês dois ia acabar em barulho! Gabriel, se você magoar ela, eu extraio todos os seus sisos sem anestesia, entendeu?

— Entendido, doutor — Gabriel riu. — Mas relaxa, a Ana é quem manda aqui. Eu sou só o assistente de laboratório.

— Bom saber. Juízo vocês dois. E Ana, segunda-feira eu quero o relatório completo dessa "aula prática", ouviu?

— Tchau, Felipe! — Ana desligou, rindo e jogando o celular longe.

— Ele tem razão em uma coisa — disse Gabriel, voltando a se deitar e puxando-a para cima de si novamente. — Você manda. Em tudo.

— Não começa, Gabriel.

— É sério. Eu nunca me senti assim, Ana. Como se eu não precisasse provar nada pra ninguém, desde que você esteja me olhando.

Ana sentiu seu coração se aquecer. O sol de Fortaleza estava começando a se pôr, pintando o céu de tons de rosa e violeta, as cores clássicas do entardecer cearense. Ela sabia que a segunda-feira traria de volta a rotina, as cobranças e o ambiente competitivo da faculdade. Mas ela também sabia que não voltaria para lá como a mesma pessoa.

Ela era a mulher que dominava a oncologia, que vencia no tatame e que, naquela sexta-feira, havia descoberto que o prazer era um direito seu, e não um favor de outrem.

— Gabriel? — chamou ela, sentindo o sono chegar.

— Hum?

— Obrigada por ficar.

Gabriel não respondeu com palavras. Ele apenas a apertou mais forte, um gesto que valia mais do que qualquer fórmula farmacêutica. Ele não ia a lugar nenhum. E em Fortaleza, onde o mar encontra o sol, dois rivais haviam finalmente encontrado o equilíbrio perfeito de uma reação que, agora eles sabiam, era absolutamente irreversível.