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O que eu não disse

O Equilíbrio das Reações Reversíveis

— Ana Cecília! — A voz de Felipe ecoou pelo viva-voz, histérica e carregada de uma preocupação que beirava o cômico. — Onde é que você está? Eu fui na sua sala, perguntei para o professor de Toxicologia e ele disse que você não apareceu. Liguei para o Gabriel e o celular dele dá desligado. Se vocês dois se mataram no meio de um experimento ilegal no laboratório, eu juro que não vou ao enterro!

Ana, deitada sob o peito de Gabriel, trocou um olhar cúmplice com ele. Gabriel tinha um sorriso de canto, observando a expressão dela enquanto tentava manter a voz firme.

— Oi, Lipe. Calma. Eu estou bem. — Ela pigarreou, tentando dar um tom de fragilidade à voz. — Eu acordou com um pouco de febre hoje, sabe? Acho que foi o estresse da semana. Mas já me mediquei, estou de repouso.

Gabriel arregalou os olhos, incrédulo. Ele soltou um riso mudo, balançando a cabeça diante da audácia dela em mentir para o melhor amigo de infância. Ana deu um leve chute na canela dele por baixo do lençol para que ele ficasse quieto.

— Febre? Ana, você nunca tem febre! Você é feita de ferro e cálculos estequiométricos! — Felipe parecia genuinamente confuso do outro lado da linha. — Quer que eu passe aí? Posso levar um antitérmico, um açaí, ou quem sabe um termômetro que preste?

— Não precisa, Lipe. Sério. Eu só preciso dormir um pouco mais. Depois eu me resolvo com o professor, apresento um atestado ou faço a prova de segunda chamada. — Ela fez uma pausa dramática. — Desculpa te preocupar.

— Tá bom, tá bom... — Felipe suspirou, parecendo cair na história. — Melhore, viu? Qualquer coisa, grita. Tchau.

Assim que o clique do encerramento da chamada soou, Gabriel não aguentou mais e explodiu em uma gargalhada, rolando para o lado na cama.

— "Acordou com febre", Ana? Sério? — Ele disse entre risos, sentando-se e passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Você, a mulher que faz jiu-jítsu com o braço torcido e não reclama, está de cama por uma febrinha?

— Cala a boca, Gabriel. — Ela sorriu, jogando um travesseiro nele. — O que você queria que eu dissesse? "Oi, Felipe, não vou para a aula porque estou ocupada redescobrindo minha libido com o veterano que eu odiava até semana passada"?

Gabriel parou de rir, seus olhos brilhando com uma intensidade nova enquanto ele a puxava para perto pela cintura.

— É, pensando bem, a febre foi uma saída mais diplomática.

Ana se afastou dele com agilidade, levantando-se da cama e indo em direção à janela, onde o sol de Fortaleza já castigava o asfalto. Ela se espreguiçou, sentindo cada músculo do corpo vivo e desperto.

— Sabe de uma coisa? Já que eu estou "doente" e não vou para a faculdade... vamos para a praia. — Ela se virou para ele, um desafio no olhar. — O Porto das Dunas está nos chamando.

Gabriel arqueou uma sobrancelha, surpreso com a iniciativa.

— Praia? Você quer mesmo se expor ao sol depois de uma noite... produtiva como essa?

— Eu preciso de vitamina D e de mar, Gabriel. — Ela começou a revirar a gaveta em busca de um biquíni. — E eu preciso sair dessas quatro paredes antes que eu comece a pensar demais na prova que estou perdendo.

Enquanto escolhia a peça, Ana sentiu uma necessidade súbita de compartilhar algo que nunca tinha dito a ninguém além do ex-noivo, uma espécie de confissão tardia que selava a confiança que estava depositando em Gabriel.

— Sabe... eu costumava dançar. — Ela disse, sem olhar para ele.

— Dançar? Tipo... balé? — Gabriel perguntou, curioso.

— Não exatamente. — Ela soltou um riso curto, finalmente encontrando um biquíni cortininha preto. — Eu dançava para o meu ex. Era algo só nosso. Ele dizia que era a única coisa em que eu era realmente "boa".

Gabriel sentiu uma pontada de irritação ao ouvir a menção ao homem que tanto a machucara, mas a curiosidade foi maior.

— Que tipo de dança, Ana?

Ela se virou, segurando o biquíni contra o corpo, o rosto levemente corado.

— Uma mistura de tudo. Algo mais... visceral. Eu só sentia vontade de fazer isso em períodos específicos. — Ela deu de ombros, tentando parecer casual. — Geralmente no período fértil. Meus hormônios ficam "papocando" nessa época, Gabriel. Eu perco um pouco o filtro da timidez.

Gabriel sentiu a garganta secar. Ele a imaginou, a Ana séria e focada, entregue a um ritmo que ele ainda não conhecia, movida puramente pela biologia que eles tanto estudavam.

— Hormônios papocando, é? — Ele se levantou, caminhando até ela com passos lentos. — Pois saiba que eu estou extremamente ansioso para ver isso. Para fins de pesquisa científica, é claro. Precisamos documentar como esses picos hormonais afetam a coordenação motora e a expressão artística da melhor aluna de Farmácia.

Ana riu, empurrando-o levemente.

— Vai sonhando, veterano. Quem sabe um dia. Agora, vai se trocar. Temos uma praia para aproveitar.

***

O Porto das Dunas estava relativamente tranquilo para uma sexta-feira de manhã. O vento característico do Ceará soprava constante, trazendo o cheiro de sal e a promessa de um dia quente. Quando Ana tirou o short jeans e a camiseta larga, revelando o biquíni preto que contrastava com sua pele clara, Gabriel parou por um segundo, simplesmente babando.

Ele já a tinha visto sem roupas na noite anterior, mas ali, sob a luz implacável do sol, com as marcas de seus treinos de artes marciais dando-lhe uma aparência de força e delicadeza ao mesmo tempo, ela parecia uma divindade local.

— O que foi? — Ela perguntou, ajeitando os óculos de sol. — Alguma reação química inesperada?

— Várias. — Gabriel murmurou, aproximando-se para passar protetor solar nas costas dela. — Eu acho que nunca vou me acostumar com o fato de que você é real, Ana.

Eles se acomodaram em uma barraca mais afastada, pedindo água de coco. Ana parecia relaxada, mas Gabriel começou a notar algo que nunca sentira antes. Cada vez que um rapaz passava pela areia e desviava o olhar para a mesa deles — e foram muitos —, Gabriel sentia um incômodo crescendo em seu peito.

Um grupo de turistas passou por perto, e um deles, um cara alto e bronzeado, não fez o menor esforço para disfarçar o interesse, encarando Ana enquanto ela bebia sua água de coco.

Gabriel, instintivamente, passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto e lançando um olhar de "propriedade" que ele mesmo estranhou.

— Está tudo bem, Gabriel? — Ana perguntou, sentindo a tensão no braço dele. — Você está me apertando.

— Só estou garantindo que você não pegue um resfriado. O vento está forte. — Ele mentiu descaradamente.

Ana tirou os óculos e olhou para ele, um sorriso divertido surgindo em seus lábios.

— Vento forte? Gabriel, estamos em Fortaleza. São trinta e dois graus. — Ela olhou na direção dos turistas e depois voltou para ele. — Você está com ciúmes?

— Eu? Ciúmes? — Gabriel soltou uma risada nervosa. — Eu só acho que as pessoas não têm educação. Ficam encarando como se nunca tivessem visto uma estudante de oncologia na vida.

— Sei... — Ana se inclinou e deu um beijo rápido no rosto dele. — É fofo ver você assim. Mas não se preocupe, veterano. Eu não tenho interesse em "pesquisas" com mais ninguém por enquanto.

Gabriel relaxou o ombro, mas o sentimento ainda estava lá, latente. Ele percebeu que Ana não era mais apenas a garota que ele queria superar na faculdade; ela era alguém que ele queria proteger, alguém que ele queria manter por perto de uma forma que desafiava sua fama de "pegador" desapegado.

— Você disse "por enquanto"? — Ele perguntou, tentando manter o tom de brincadeira.

— É uma variável, Gabriel. — Ela piscou para ele. — Como toda boa cientista, eu trabalho com dados presentes. E os dados presentes dizem que você é o único reagente que eu quero no meu sistema hoje.

Eles passaram a tarde entre mergulhos no mar morno e conversas que começavam em piadas internas da universidade e terminavam em confissões sobre seus medos mais profundos. Gabriel contou sobre a pressão dos pais para que ele fosse o melhor em tudo, e Ana falou sobre como a morte da mãe a impulsionou para a oncologia, uma busca por respostas que a ciência nem sempre podia dar.

— Eu sinto que, às vezes, eu estudo tanto para tentar controlar o incontrolável. — Ana disse, desenhando círculos na areia. — O câncer levou minha mãe e eu achei que, se eu soubesse tudo sobre a doença, eu teria algum tipo de poder sobre a morte.

Gabriel segurou a mão dela, entrelaçando seus dedos.

— Você não pode controlar tudo, Ana. Mas você pode curar muitas pessoas. E, de certa forma, você está se curando também.

Ao final da tarde, enquanto o sol começava a descer, tingindo o céu de laranja e rosa, eles caminharam pela beira da água. A brisa estava mais fria, e Ana se encolheu levemente.

— Sabe aquela dança que eu mencionei? — Ela disse de repente, parando e olhando para o horizonte.

— Sim? — Gabriel parou ao lado dela, atento.

— Eu acho que meus hormônios estão começando a dar sinal de vida de novo. — Ela sorriu de lado, um olhar desafiador e sensual que fez o coração de Gabriel errar a batida. — Talvez, quando chegarmos em casa, eu mostre para você um pouco dos meus "estudos particulares".

Gabriel sentiu um frio na barriga que nenhuma prova final jamais lhe causara.

— Eu vou cobrar isso, Ana Cecília. — Ele a puxou para um beijo profundo, ali mesmo, com os pés sendo lavados pela espuma do mar. — E eu prometo ser o aluno mais atento que você já teve.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, Gabriel olhou para Ana e percebeu que a rivalidade acadêmica era uma memória distante e sem importância. Eles eram dois seres em constante transformação, aprendendo que a vida, assim como a farmácia, era feita de doses precisas, reações inesperadas e, acima de tudo, do equilíbrio perfeito entre o que se estuda e o que se sente.

E naquela sexta-feira de sol e "febre", eles haviam encontrado a fórmula exata da felicidade.