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O reencontro

O Labirinto de Desejos no 7°C

A luz do sol de 2026 entrava pela janela do meu quarto, mas minha mente estava presa em um loop temporal, revisitando cada centímetro daquela calçada onde, finalmente, o silêncio entre eu e Iuri se quebrou. O beijo ainda vibrava nos meus lábios, uma confirmação elétrica de que os olhares de raiva eram, na verdade, escudos para um desejo que ele não sabia como nomear. No entanto, a proximidade física trouxe consigo uma sede nova, algo que ia além de conversas em esquinas ou trocas de mensagens tímidas pelo celular.

Naquela semana, o destino — ou talvez a nossa própria vontade disfarçada de coincidência — nos colocou sozinhos novamente. Eu precisava pegar alguns documentos na nossa antiga escola, aquela estrutura de concreto que guardava as memórias de 2025. Por um acaso do destino, Iuri também estava lá para resolver pendências de sua transferência.

O sinal do almoço tocou. Aquele som estridente, que antes significava a pressa para a fila do macarrão com carne moída, agora parecia o chamado para um encontro clandestino. Os corredores estavam vazios, a maioria dos alunos novos estava no pátio ou no refeitório. Eu caminhei até a nossa antiga ala, os passos ecoando no piso frio. Quando passei pela porta da sala do 7°C, vi uma silhueta alta, de costas, observando o quadro branco vazio.

— Veio visitar o local do crime? — perguntei, encostando-me no batente da porta.

Iuri se virou rapidamente. O susto inicial em seus olhos castanhos logo deu lugar àquele brilho intenso que me desarmava. Ele não usava mais o uniforme do governo, mas uma camiseta de banda que o deixava com um ar mais maduro, embora a postura continuasse admiravelmente desajeitada.

— Eu estava lembrando de quando eu ficava na grade te encarando — disse ele, dando um passo em minha direção. — Eu era um idiota, não era?

— Um idiota muito bonito — respondi, entrando na sala e fechando a porta atrás de mim. O clique da fechadura pareceu ecoar como um trovão no silêncio da sala. — Você me deixava louco com aquele olhar de raiva. Eu achava que você me odiava.

Iuri riu, um som baixo e rouco, e se aproximou até que nossos peitos quase se tocassem. O cheiro cítrico dele preencheu o espaço entre nós, misturando-se ao cheiro de giz e limpeza da sala.

— Eu odiava o que você fazia comigo sem dizer uma palavra — confessou ele, baixando o tom de voz. — Eu odiava querer a sua atenção o tempo todo.

Ele estendeu a mão e, como se fosse um vício, tocou minha orelha, descendo os dedos pelo meu pescoço. O toque enviou uma descarga de adrenalina diretamente para o meu estômago. Eu segurei sua cintura, sentindo a firmeza do seu corpo sob a camiseta. O desejo que eu guardei por todo o ano de 2025, reprimido por dúvidas sobre sua sexualidade e pelo medo da rejeição, explodiu em uma urgência incontrolável.

Nós nos beijamos ali, entre as fileiras de carteiras vazias onde tantos dramas adolescentes haviam se desenrolado. Mas este era diferente. Era real. O beijo era profundo, exploratório, carregado de uma tensão que havia sido cozinhada em fogo baixo por meses. Eu o empurrei levemente até que ele estivesse sentado em cima de uma das mesas, e me posicionei entre suas pernas.

— Iuri... — sussurrei contra seus lábios, sentindo o calor que emanava dele.

— Eu não quero mais esperar — disse ele, a respiração ofegante. — Chega de olhar de longe.

A vulnerabilidade na voz dele me deu a coragem que eu precisava. Eu me ajoelhei lentamente entre suas pernas, meus olhos fixos nos dele. Iuri prendeu a respiração, as mãos agarrando a borda da mesa de metal com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O silêncio da sala de aula tornou-se um santuário para a nossa descoberta.

Naquele momento, não havia 7°C ou 7°D, não havia meninas apaixonadas ou amigos desconfiados. Havia apenas a pele, o calor e a entrega de algo que começou com um simples olhar na grade de ferro. Eu queria mostrar a ele tudo o que eu tinha sentido, cada grama de atração que eu nutria enquanto ele usava aquela calça azul clara e o tênis Adidas marrom.

— Tem certeza? — perguntei, olhando para cima, encontrando seu olhar castanho agora nublado pelo desejo.

— Por favor — ele respondeu, a voz falhando. — Eu imaginei isso tantas vezes que nem consigo acreditar que está acontecendo.

Eu comecei a desabotoar sua calça com as mãos trêmulas, mas precisas. Cada movimento era uma resposta a uma pergunta feita em 2025. Quando finalmente o senti, a realidade superou qualquer fantasia que eu pudesse ter criado. Iuri soltou um gemido baixo, inclinando a cabeça para trás, os olhos fechados enquanto ele se perdia na sensação.

— Merda... você é... — ele murmurou, as palavras se perdendo em um suspiro longo enquanto minhas mãos e minha boca trabalhavam em harmonia.

O ritmo era ditado pela nossa urgência. Eu me perdi na textura da pele dele, no som da sua respiração que ficava cada vez mais errática. Era uma dança de redenção. Eu estava compensando cada vez que ele fechou a cara para mim, cada vez que eu beijei outra pessoa tentando esquecê-lo, cada vez que nos cruzamos na rua em 2026 e fingimos que não éramos o centro do universo um do outro.

Iuri levou as mãos ao meu cabelo, puxando levemente, guiando-me, entregando-se completamente a um lado dele que ele passara tanto tempo tentando esconder sob uma máscara de heterossexualidade e indiferença.

— Eu não consigo... — ele arfou, o corpo retesando-se sobre a mesa de madeira compensada. — Vai... não para.

A intensidade do momento atingiu o ápice. Senti o corpo de Iuri estremecer violentamente sob meu toque, e ele soltou um som que foi uma mistura de alívio e pura exaustão emocional. Ele desabou para frente, apoiando a testa no meu ombro enquanto recuperava o fôlego, o silêncio da sala retornando aos poucos, agora preenchido apenas pelo som das nossas respirações pesadas.

Ficamos assim por um longo tempo. Eu, ajoelhado no chão daquela sala que um dia foi o cenário da minha angústia, e ele, sentado na mesa, processando a magnitude do que tínhamos acabado de fazer.

— Isso foi... — ele começou, mas não conseguiu terminar a frase.

— Foi real — completei, levantando-me e ajudando-o a se recompor.

Iuri me olhou, e desta vez não havia raiva, não havia ciúmes e não havia confusão. Havia uma paz que eu nunca tinha visto nele. Ele pulou da mesa, a postura ainda um pouco desajeitada, mas agora ele parecia mais confortável em sua própria pele.

— Você ainda vai me encarar na rua amanhã? — perguntei, ajeitando a gola da minha camisa.

Ele deu aquele sorriso de canto, o mesmo que ele tentava disfarçar na fila da merenda, mas agora era aberto, brilhante e só para mim.

— Vou. Mas agora eu vou saber exatamente o que você está pensando sob esse olhar — disse ele, puxando-me para um último abraço rápido. — E eu não vou mais desviar o rosto.

Saímos da sala um de cada vez, para não levantar suspeitas, embora a escola estivesse quase deserta. Enquanto eu caminhava pelo corredor em direção à saída, olhei para trás uma última vez. A grade de ferro onde ele costumava ficar ainda estava lá, mas o fantasma do garoto solitário e confuso de 2025 tinha ido embora.

Em 2026, as cores pareciam mais vivas. O asfalto da rua não era mais apenas um caminho entre duas escolas, era o palco de uma nova vida. Iuri e eu não éramos mais apenas dois meninos que se encaravam com sentimentos não resolvidos. Éramos a prova de que, às vezes, a coragem de falar o que se sente é a única chave necessária para abrir as portas de um labirinto que parecia não ter fim.

Ao chegar no portão principal, vi Iuri de longe, já perto da esquina. Ele parou, olhou para trás e levantou o polegar, fazendo o sinal de "legal", exatamente como naquele dia em 2025 na porta da minha sala. Eu sorri e respondi com o mesmo gesto. O ciclo estava completo, e o futuro, pela primeira vez, parecia algo que valia a pena ser vivido intensamente, sem esconder nada.