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O silencio

O Labirinto de Vidro e o Eco do Ontem

O silêncio que se seguiu à saída de Jungkook para o andar de baixo era quase mais ensurdecedor do que o som da cama batendo contra a parede. Alina permaneceu ali, estática, os olhos verdes fixos em um ponto qualquer do teto de gesso trabalhado. O lustre de cristal acima dela parecia uma coleção de facas penduradas, prontas para cair a qualquer momento. Ela se sentia oca. Cada vez que ele a possuía daquela maneira — uma mistura de adoração doentia e força bruta —, uma parte da Alina que amava música, que sorria para o sol, parecia murchar um pouco mais.

Ela se levantou com dificuldade, sentindo o desconforto físico entre as coxas, um lembrete persistente da urgência dele. Caminhou até o espelho do closet, o mesmo onde Jungkook a cercara dias antes. O vestido de seda agora estava amassado, a alça caída, e sua pele pálida ostentava a marca vermelha da mordida dele em seu seio, uma mancha que em poucas horas se tornaria um roxo profundo.

— Uma joia — sussurrou ela para o próprio reflexo, a voz rouca. — Ele diz que sou uma joia, mas joias não sangram. Joias não sentem medo.

Sua mente, no entanto, traiu sua dor presente e viajou para o passado, para o lago. Brandon. O irmão que ela perdera, o vazio que Jungkook ocupara com sua presença sufocante e seu dinheiro. Às vezes, Alina se perguntava se sua vida era um castigo por ter sobrevivido àquele dia. Se a prisão de ouro em que vivia era o preço por ainda respirar enquanto Brandon era apenas uma memória enterrada.

Ela se vestiu mecanicamente, escolhendo um vestido de gola alta e mangas longas, apesar do calor da noite coreana. Precisava esconder as evidências do "amor" de Jungkook. Enquanto escovava os cabelos loiros, o cheiro de sândalo e chuva de Taehyung voltou à sua mente, como um sopro de ar fresco em um porão mofado. Onde ele estaria? Jungkook disse que ele não voltaria. O medo de que algo terrível tivesse acontecido ao professor apertou seu peito com mais força do que as mãos do marido.

Ao descer para o jantar, Alina encontrou Jungkook já sentado à cabeceira da mesa de jantar de carvalho escuro. Ele lia alguns documentos em um tablet, mas ergueu os olhos assim que ela entrou no recinto. O sorriso que ele lhe deu era radiante, desprovido de qualquer sinal da brutalidade de minutos atrás.

— Você está deslumbrante, linda — disse ele, levantando-se para puxar a cadeira para ela. — Esse azul realça seus olhos. Sabia que escolhi essa cor especificamente para você?

— Obrigada, Jungkook — respondeu ela, sentando-se com a rigidez de uma boneca de porcelana.

— Recebi o relatório da fundação hoje — ele continuou, servindo o vinho tinto com movimentos precisos. — Seu pai está reagindo bem ao novo tratamento. Eu disse que cuidaria de tudo, não disse?

Alina apertou o guardanapo de linho sob a mesa. A gratidão era uma corda em seu pescoço.

— Eu sou muito grata por tudo o que você faz pela minha família.

— Não seja grata, Alina. Seja minha. Isso é tudo o que eu peço. — Ele estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a dela. — Amanhã temos o jantar beneficente da Cruz Vermelha. Quero que use o conjunto de esmeraldas. Quero que todos vejam o quanto eu cuido bem de você.

— Jungkook... — ela começou, hesitando. — Sobre o Sr. Kim... o professor de saxofone.

A expressão de Jungkook não mudou, mas a temperatura da sala pareceu cair dez graus. Ele continuou cortando seu filé com uma calma aterradora.

— O que tem ele, querida?

— Ele... ele deixou algum material na sala de música. Eu gostaria de saber se ele está bem. Ele parecia um bom professor.

Jungkook largou os talheres lentamente. O som do metal contra a porcelana ecoou como um tiro.

— Ele está onde deveria estar, longe de você. — Ele fixou os olhos escuros nos dela. — Por que o interesse, Alina? Ele tocou em você de uma forma que eu não saiba?

— Não! — ela exclamou, o coração disparando. — Foi apenas uma pergunta. Ele foi gentil, só isso.

— Gentileza é um conceito relativo — murmurou Jungkook, voltando a comer. — Eu sou gentil com você. Eu te dou o mundo. Eu te protejo de pessoas como ele, que só querem se aproximar da sua beleza para tirar proveito. Não mencione o nome dele novamente. É um insulto para mim que você pense em outro homem enquanto eu provejo cada respiração sua.

O resto do jantar correu em um silêncio opressor. Alina mal conseguiu engolir três garfadas. Cada vez que olhava para Jungkook, via a tatuagem dos seus próprios olhos no braço dele, uma vigilância constante que transcendia o físico. Ele a vigiava mesmo quando não estava presente.

Naquela noite, Jungkook adormeceu rapidamente, exausto pelas reuniões da empresa e pelo esforço de sua própria obsessão. Alina, porém, permaneceu acordada. Ela esperou até ter certeza de que o sono dele era profundo, então deslizou para fora da cama com o cuidado de um ladrão.

Caminhou descalça pelo corredor frio até a sala de música. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pelo luar que atravessava as grandes vidraças. O cheiro de Taehyung ainda parecia flutuar ali, misturado ao polidor de instrumentos. Ela se aproximou do suporte onde o saxofone de prática ficava.

Ao lado dele, em uma pequena mesa lateral, havia um pedaço de papel dobrado, meio escondido sob uma partitura de jazz. O coração de Alina quase parou. Ela o pegou com as mãos trêmulas.

"A música não pode ser aprisionada. Continue soprando, Alina. O som chega onde as paredes não alcançam. T."

Lágrimas quentes e silenciosas rolaram por suas bitolas. Ele estava vivo. Ele não a tinha esquecido. Aquele pequeno pedaço de papel era a coisa mais perigosa que ela já possuiu. Se Jungkook encontrasse aquele bilhete, a fúria dele seria implacável. Mas, pela primeira vez, o medo não foi a única emoção a dominá-la.

Havia uma pequena chama de esperança.

Ela escondeu o bilhete dentro do forro do seu roupão e sentou-se no chão de mármore, abraçando os próprios joelhos. Ela pensou em Taehyung, na calma de seus olhos, na forma como ele a via como uma pessoa, não como uma extensão do império Jeon. E depois pensou em Jungkook, no homem que a limpava com toalhas mornas após feri-la, no homem que tatuara seus olhos na pele para nunca ter que fechar os próprios e deixá-la ir.

— Eu não sou sua, Jungkook — sussurrou ela para a escuridão, as palavras sendo um juramento secreto. — Eu nunca fui.

Na manhã seguinte, a rotina de farsa recomeçou. Jungkook acordou-a com beijos suaves e flores frescas trazidas pelo pessoal da casa. Ele agia como se a noite anterior tivesse sido um sonho romântico, e não uma violação consentida pelo medo.

— Hoje será um grande dia, linda — disse ele, enquanto se vestia para o trabalho. — Vou fechar o contrato de Berlim. Quando eu voltar, vamos comemorar. Talvez eu compre aquela ilha nas Maldivas que você mencionou que achou bonita em uma revista.

— Você não precisa me comprar nada, Jungkook.

Ele parou, ajustando o nó da gravata de seda, e olhou para ela pelo espelho.

— Eu não compro coisas para você, Alina. Eu decoro minha vida com você. Há uma diferença.

Assim que o carro de Jungkook deixou a propriedade, Alina sentiu o peso sair de seus ombros, apenas para ser substituído por uma ansiedade latente. Ela passou o dia vagando pela casa como um fantasma. As câmeras de segurança a seguiam em cada movimento. Ela sabia que, em algum lugar de um escritório de alta tecnologia, os seguranças — ou o próprio Jungkook — poderiam estar observando-a.

Ela foi para o jardim, um labirinto de sebes perfeitamente podadas e flores exóticas. Era bonito, mas, como tudo naquela casa, era controlado. Não havia ervas daninhas, não havia caos. Era uma natureza domesticada, assim como ela.

Enquanto caminhava perto do portão dos fundos, onde os jardineiros entravam, ela viu um movimento. Um dos entregadores de flores estava deixando caixas perto da estufa. Ele usava um boné baixo, escondendo o rosto.

Alina sentiu um puxão magnético. Ela se aproximou, fingindo admirar as orquídeas recém-chegadas.

— Sra. Jeon — disse o homem, a voz baixa e familiar.

Alina estancou. O sangue fugiu de seu rosto.

— Taehyung? — sussurrou ela, o nome saindo como uma prece.

Ele levantou levemente o boné. Os olhos castanhos que a assombravam estavam ali, cheios de uma urgência dolorosa.

— Você não deveria estar aqui — disse ela, olhando freneticamente para as câmeras nos muros. — Ele vai matar você se te vir.

— Eu precisava saber se você estava bem — disse Taehyung, dando um passo cauteloso em direção a ela, permanecendo sob a sombra de um salgueiro chorão. — O bilhete... você o encontrou?

— Encontrei. Por favor, vá embora. Jungkook é... ele é perigoso. Você não faz ideia do que ele é capaz.

— Eu sei o que ele faz com você, Alina. Eu vi nos seus olhos desde o primeiro dia. — Taehyung estendeu a mão, mas não a tocou, respeitando o espaço e o perigo. — Existe um mundo fora destes muros. Um mundo onde você pode tocar piano, saxofone ou o que quiser. Onde você pode respirar sem pedir permissão.

— Eu não posso deixar minha família — soluçou ela, as lágrimas começando a cair. — Ele paga o hospital do meu pai. Ele controla tudo. Eu sou uma prisioneira do destino.

— Não — disse Taehyung, a voz firme como aço revestido de veludo. — Você é prisioneira de um homem que usa o amor como uma arma. Mas as armas podem ser quebradas.

Um ruído de motor ecoou ao longe. O carro de Jungkook estava voltando mais cedo do que o esperado. O pânico de Alina atingiu o ápice.

— Vá! Agora! — implorou ela.

Taehyung olhou para ela uma última vez, um olhar que prometia mais do que palavras poderiam dizer.

— Terça-feira. À meia-noite. Pela lavanderia. O turno dos seguranças muda e há um ponto cego de cinco minutos. Eu estarei lá.

— Taehyung...

— Não responda agora. Apenas pense. Você quer ser uma joia na caixa dele para sempre, ou quer ser a música que flutua livre?

Ele desapareceu entre as plantas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Alina respirou fundo, tentando recompor o rosto, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Ela caminhou de volta para a entrada principal bem no momento em que a limusine preta de Jungkook estacionava.

Ele saiu do carro, radiante, segurando uma caixa de veludo azul.

— O contrato é nosso, Alina! — exclamou ele, vindo em sua direção e girando-a no ar. — O mundo é nosso! Olhe o que eu trouxe para você.

Ele abriu a caixa. Um colar de safiras, tão azuis quanto o mar profundo, brilhava sob o sol.

— É lindo, Jungkook — disse ela, a voz automática.

Ele colocou o colar no pescoço dela, os dedos frios roçando sua pele.

— Combina com a sua tristeza — ele murmurou no ouvido dela, um comentário que a fez congelar. — Mas não se preocupe, linda. Eu vou te dar tanta beleza que você vai esquecer como é estar triste. Você vai esquecer que qualquer outra coisa existe além de mim.

Enquanto ele a abraçava possessivamente diante de todos os empregados, Alina olhou para o portão por onde Taehyung saíra. O peso das safiras em seu pescoço parecia o de uma âncora, puxando-a para o fundo de um oceano escuro.

Pela primeira vez em seis anos, ela não pensou no hospital de seu pai, nem na dívida de sua família. Ela pensou na terça-feira. Ela pensou na lavanderia. Ela pensou no som de um saxofone quebrando o silêncio de uma noite de liberdade.

Jungkook a apertou mais forte, beijando sua têmpora.

— Você me ama, não é, Alina? Diga.

Ela fechou os olhos, a imagem de Taehyung gravada em sua mente.

— Eu estou aqui, Jungkook — respondeu ela, uma resposta que ele aceitou como sim, mas que para ela, era o início de um adeus.

A guerra entre a obsessão de um homem que se achava um deus e a esperança de uma mulher que estava redescobrindo sua humanidade acabara de começar. E naquela mansão de vidro e mármore, as rachaduras estavam começando a aparecer.