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O silencio

O Eco do Silêncio e a Promessa da Madrugada

A mansão dos Jeon, à noite, assemelhava-se a um mausoléu de luxo. Cada passo de Alina sobre os tapetes persas parecia ecoar como um trovão em sua consciência, embora o silêncio fosse absoluto. Jungkook dormia ao seu lado, um braço pesado jogado sobre sua cintura, uma âncora de carne e osso que a reivindicava mesmo no mundo dos sonhos. Ela observou o perfil dele sob a luz pálida da lua: as feições que o mundo considerava divinas eram, para ela, o mapa de sua própria destruição.

Com uma lentidão agoniante, Alina deslizou para fora da cama. Cada centímetro de movimento era calculado. Ela prendeu a respiração quando Jungkook resmungou algo ininteligível e se virou, mas ele não acordou. O cansaço das negociações internacionais e a arrogância de acreditar que sua "joia" estava quebrada demais para fugir eram seus únicos aliados naquela noite.

Ela não levou joias. Não levou os vestidos de seda que custavam o preço de uma casa. Levou apenas o bilhete de Taehyung, escondido dentro da pequena bolsa de pano que guardava sob o assoalho solto do closet, e o desejo desesperado de ser dona de si mesma.

Caminhando pelas sombras, Alina evitou as luzes dos sensores de movimento que conhecia tão bem. Ela sabia que a segurança da mansão era tecnológica, mas também humana. E humanos tinham falhas. O ponto cego da lavanderia, mencionado por Taehyung, era sua única fresta para o mundo exterior.

Ao chegar ao setor de serviço, o cheiro de amaciante caro e cloro substituiu o perfume de peônias que Jungkook tanto amava. Ela olhou para o relógio de pulso — um relógio que ele lhe dera, gravado com a frase *Propriedade de J.JK*. Faltavam dois minutos para a meia-noite.

— Por favor, que ele esteja lá — sussurrou ela, o coração batendo contra as costelas como um pássaro ferido contra as grades de uma gaiola.

A porta da lavanderia rangeu levemente. Alina estancou, o sangue gelando nas veias. Ela esperou, contando os segundos. Ninguém apareceu. Os guardas estavam na troca de turno, exatamente como Taehyung previra. Ela deslizou para fora, sentindo o ar úmido da noite atingir seu rosto pálido.

A escuridão do jardim dos fundos era densa. Ela correu entre as sombras das árvores, os pés descalços sentindo a grama fria e as pedras pontiagudas. Quando chegou ao muro dos fundos, perto da saída de serviço, uma silhueta emergiu da névoa.

— Alina.

A voz era um bálsamo. Taehyung estava lá, vestindo roupas escuras, os olhos brilhando com uma mistura de alívio e temor. Ele estendeu a mão e, desta vez, ela a segurou. O toque dele não era possessivo; era um ancoradouro.

— Você veio — disse ele, a voz carregada de emoção.

— Eu não podia mais ficar — respondeu ela, tremendo. — Taehyung, se ele nos pegar...

— Ele não vai. Eu tenho um carro a dois quarteirões daqui. Amigos me ajudaram. Você está segura agora.

Eles escalaram o portão baixo com a agilidade que só o medo proporciona. Quando os pés de Alina tocaram o asfalto da rua pública, fora dos domínios dos Jeon, ela sentiu uma vertigem. O mundo parecia vasto demais, perigoso demais, mas infinitamente mais real.

Eles correram em silêncio até um SUV preto estacionado sob um poste de luz quebrado. Taehyung abriu a porta para ela e, assim que entraram, ele arrancou, mantendo os faróis apagados até dobrarem a primeira esquina.

— Para onde vamos? — perguntou ela, olhando para trás, esperando ver os faróis da segurança de Jungkook surgindo a qualquer momento.

— Para um lugar onde o dinheiro dele não chega com tanta facilidade — disse Taehyung, segurando o volante com firmeza. — Tenho uma cabana nas montanhas de Gangwon. É simples, Alina. Não há mármore nem diamantes. Mas há música e silêncio.

Alina encostou a cabeça no banco, fechando os olhos. O cheiro de sândalo dele a envolvia, acalmando o tremor de suas mãos.

— Meu pai... — ela começou, a culpa começando a corroer sua coragem. — Jungkook vai parar de pagar o tratamento dele. Ele vai matá-lo para me atingir.

Taehyung tirou uma mão do volante por um breve momento e apertou a dela.

— Eu já pensei nisso. Entrei em contato com uma organização independente. Eles vão transferir seu pai para uma clínica em Busan amanhã de manhã, sob nomes falsos. Jungkook é poderoso, mas ele não é onipresente, Alina. Ele quer que você acredite que ele é um deus, mas ele é apenas um homem com muito dinheiro e uma alma vazia.

— Você arriscou tudo por mim — sussurrou ela, virando-se para olhá-lo. — Por que, Taehyung? Você mal me conhece.

Taehyung parou o carro em um sinal vermelho e olhou profundamente nos olhos verdes dela.

— Algumas pessoas passam a vida inteira sem ver a alma de ninguém. Eu vi a sua na primeira nota que você tentou tocar naquele saxofone. Vi o grito que você não podia dar. Eu não podia deixar aquela música morrer, Alina.

As horas de viagem foram um borrão de luzes de estrada e conversas sussurradas. À medida que se afastavam de Seul, o peso no peito de Alina parecia diminuir. Pela primeira vez em anos, ela não sentia os olhos de Jungkook sobre si.

No entanto, a calmaria era ilusória.

Na mansão, a manhã começou com um grito que gelou o sangue dos empregados. Jungkook acordara e encontrara o lado da cama vazio. A princípio, pensou que ela estivesse no banho ou na sala de música. Mas, ao ver o roupão dela jogado no chão e, principalmente, ao notar que o colar de safiras que ele lhe dera estava sobre o travesseiro, como um insulto silencioso, a fúria o dominou.

Ele não gritou. Jungkook era mais perigoso quando estava calmo. Ele caminhou até a sala de segurança, onde os guardas tremiam diante de sua presença.

— Eu quero as gravações da meia-noite — ordenou ele, a voz gélida.

— Senhor, houve uma falha técnica no setor da lavanderia... — começou o chefe da segurança, mas a mão de Jungkook fechou-se em seu pescoço com uma velocidade desumana.

— Falha técnica? — Jungkook sorriu, um gesto que não chegava aos olhos. — Minha esposa desapareceu debaixo do seu nariz e você me fala de falha técnica?

Ele soltou o homem e observou os monitores. Embora não houvesse imagens da fuga, ele viu o momento em que o SUV preto passou por uma câmera de rua a três quilômetros de distância. Ele reconheceu o modelo. E ele sabia quem o dirigia.

— Kim Taehyung — sibilou Jungkook, o nome saindo como um veneno. — Você achou que poderia roubar o que é meu?

Ele pegou o celular e discou um número que raramente usava.

— Localizem o sinal do celular de Kim Taehyung. Agora. E tragam minha equipe. Eu não quero que ele seja morto. Ainda não. Quero que ele assista enquanto eu levo Alina de volta. E depois... depois eu vou mostrar a ele o que acontece com quem toca nas minhas propriedades.

Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, o sol começava a nascer sobre as montanhas. A cabana de Taehyung era rústica, cercada por pinheiros e o som de um riacho próximo. Alina saiu do carro, seus pulmões se enchendo de ar puro, sem o rastro de poluição de Seul ou do perfume sufocante de Jungkook.

— É lindo — disse ela, maravilhada.

— É seu — respondeu Taehyung, aproximando-se dela. — Pelo tempo que você quiser.

Eles entraram na pequena casa. Havia um piano antigo em um canto e, claro, o estojo do saxofone de Taehyung sobre uma mesa de madeira. A luz da manhã inundava o ambiente, criando padrões dourados no chão.

Alina sentou-se ao piano. Seus dedos, outrora trêmulos, tocaram as teclas com uma hesitação que logo se transformou em melodia. Era uma peça melancólica, mas carregada de uma força nova. Taehyung pegou seu saxofone e começou a acompanhar, as notas se entrelaçando em uma dança de liberdade e descoberta.

Por um momento, o mundo de Jungkook não existia. Não havia contratos, não havia abusos, não havia medo. Havia apenas a música.

— Eu nunca me senti assim — disse Alina, parando de tocar e olhando para as próprias mãos. — Sinto que posso finalmente sentir o chão sob meus pés.

— Você é livre, Alina — disse Taehyung, aproximando-se e colocando uma mão gentil em seu ombro. — Você sempre foi. Ele apenas fez você esquecer.

Ele se inclinou e, com uma delicadeza que a fez chorar, beijou a testa dela. O beijo desceu para a ponta do nariz e, finalmente, encontrou seus lábios. Foi um beijo que cheirava a esperança, muito diferente da urgência agressiva à qual ela estava acostumada. Com Taehyung, Alina sentia que era um ser humano, não um objeto de exibição.

No entanto, a paz durou pouco.

Enquanto eles se perdiam naquele momento de ternura, o celular de Taehyung, que ele havia deixado sobre a mesa, começou a vibrar. Ele não atendeu, mas a tela brilhou com uma mensagem de um número desconhecido.

Alina viu a mensagem antes dele. Seu coração parou.

*“Aproveite o concerto, Kim. O bis será por minha conta. Eu já estou vendo vocês. – J.JK”*

— Taehyung... — sussurrou ela, apontando para o aparelho.

O rosto de Taehyung empalideceu. Ele pegou o telefone e correu até a janela. Ao longe, na estrada de terra que levava à cabana, uma nuvem de poeira subia. Três carros pretos subiam a montanha com uma velocidade predatória.

— Ele nos achou — disse Taehyung, a voz agora tensa. — Como? Eu tomei todas as precauções...

— Ele é Jeon Jungkook — disse Alina, o pavor voltando a nublar seus olhos verdes. — Ele não segue as regras. Ele as cria.

— Alina, ouça-me — Taehyung a segurou pelos ombros, forçando-a a olhá-lo. — Há uma trilha atrás da cabana que leva a uma vila de pescadores do outro lado da montanha. Você precisa ir. Agora.

— Eu não vou deixar você! — exclamou ela. — Ele vai te matar!

— Ele não vai me matar se você for o prêmio que ele ainda quer buscar. Eu vou atrasá-los. Vá, Alina! Se você ficar, nós dois perderemos. Se você for, você tem uma chance de chegar à polícia de outra província, de pedir ajuda...

— Não existe ajuda contra ele! — gritou ela, desesperada.

O som dos pneus derrapando no cascalho do lado de fora interrompeu a discussão. A porta da cabana foi chutada com uma força brutal, voando das dobradiças.

Jungkook entrou, impecável em seu terno escuro, apesar do ambiente rústico. Ele segurava uma arma com um silenciador, mas sua expressão era de um tédio mortal. Atrás dele, quatro homens corpulentos cercaram a entrada.

— Que lugar pitoresco — disse Jungkook, olhando ao redor com desdém. — Um pouco abaixo do seu padrão, não acha, Alina?

Ele caminhou em direção a eles, e Taehyung se colocou à frente de Alina, protegendo-a com o próprio corpo.

— Saia de perto dela, Jungkook — disse Taehyung, a voz firme apesar da desvantagem evidente.

Jungkook soltou uma risada curta e sem humor.

— Você é corajoso, professor. Ou talvez apenas estúpido. Você realmente achou que poderia levar o que me pertence e se esconder em uma cabana de madeira? Eu sou o dono desta terra, deste ar e desta mulher.

— Ela não é sua propriedade! — gritou Taehyung.

Jungkook moveu-se com uma rapidez que os olhos mal podiam acompanhar. Ele golpeou o rosto de Taehyung com a coronha da arma. O professor caiu no chão, o sangue jorrando de um corte acima do olho.

— Não! — Alina se jogou sobre Taehyung, tentando protegê-lo. — Pare, Jungkook! Por favor! Eu volto com você! Eu faço o que você quiser! Mas não o machuque!

Jungkook parou, observando a cena com uma curiosidade sádica. Ele guardou a arma no coldre sob o paletó e se agachou, segurando o queixo de Alina com força, forçando-a a olhar para ele.

— Veja só — murmurou ele. — A minha joia delicada está implorando por um plebeu. Isso magoa meus sentimentos, Alina. Realmente magoa.

Ele a puxou para cima pelo braço, ignorando seus protestos.

— Você vai voltar comigo agora. E quanto ao seu amiguinho... — Jungkook olhou para um de seus homens. — Deixem-no aqui. Mas certifiquem-se de que ele nunca mais consiga segurar um saxofone. Ou qualquer outra coisa.

— Não! Jungkook, não faça isso! — gritava Alina, enquanto era arrastada para fora da cabana.

Taehyung tentou se levantar, mas foi atingido por um chute nas costelas. Ele viu, através da visão turva de sangue, Alina ser jogada para dentro do carro preto. Seus olhos verdes, cheios de lágrimas e desespero, foram a última coisa que ele viu antes que a porta se fechasse.

O motor rugiu e os carros partiram, deixando para trás o silêncio quebrado apenas pelos soluços de Taehyung e pelo som do vento nas árvores.

Dentro do carro, Jungkook envolveu Alina em um abraço de ferro. Ele limpou as lágrimas do rosto dela com um lenço de seda.

— Viu o que acontece quando você tenta fugir de casa, linda? — disse ele, a voz agora suave e aterrorizante. — As pessoas se machucam. O mundo é um lugar cruel para alguém tão pequena e doce como você. Só eu posso te proteger.

Alina não respondeu. Ela olhou para as próprias mãos, que ainda tinham vestígios do sangue de Taehyung. A centelha de rebelião que havia se acendido em seu coração não havia se apagado, mas agora estava escondida sob uma camada de gelo e ódio puro.

— Eu vou te matar — sussurrou ela, tão baixo que ele mal ouviu.

Jungkook riu, um som genuinamente divertido, e beijou o topo da cabeça dela.

— Eu adoraria ver você tentar, querida. Mas, por enquanto, vamos para casa. Temos um jantar de caridade na próxima semana, e você precisa estar perfeita. Afinal, o mundo precisa ver como somos o casal perfeito.

Enquanto o carro descia a montanha de volta para a prisão de mármore em Seul, Alina Volkov percebeu que a música não havia acabado. Ela apenas mudara de tom. Se Jungkook queria que ela fosse sua joia mais valiosa, ela seria. Mas até os diamantes mais puros podem ser usados para cortar as gargantas daqueles que tentam aprisioná-los.

A guerra estava longe de terminar. E desta vez, Alina não jogaria pelas regras dele. Ela jogaria pelas dela, mesmo que o preço fosse sua própria alma.