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O ultimo

O Eco da Alma e o Desejo do Sangue

O silêncio que se seguiu ao clímax daquela noite não era de vazio, mas de uma plenitude pesada, quase palpável. Luca estava deitado, sentindo o peito subir e descer em um ritmo frenético, enquanto o suor esfriava em sua pele alva. Kael permanecia imóvel sobre ele, o rosto escondido na curva de seu ombro, a respiração do vampiro — geralmente imperceptível — agora audível e profunda.

O sótão da mansão parecia ter se transformado. A poeira que antes flutuava preguiçosa agora cintilava com resquícios da magia de Luca, pequenas partículas de luz azulada que se recusavam a apagar. Luca sentia cada terminação nervosa de seu corpo vibrar, especialmente a marca em seu pescoço, que pulsava como um segundo coração.

— Você ainda está aqui? — Luca sussurrou, sua voz saindo mais falha do que pretendia.

Kael se moveu lentamente, apoiando o peso nos antebraços para encarar o jovem mago. Seus olhos escuros ainda guardavam brasas avermelhadas, um sinal de que a sede não fora apenas saciada, mas despertada para algo novo. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com a brutalidade de minutos atrás, acariciou o rosto de Luca.

— Para onde eu iria? — a voz de Kael era um trovão baixo. — Você me deu mais do que apenas sangue, Luca. Você abriu uma porta que eu passei séculos tentando manter trancada.

— Eu não queria apenas te ajudar com a fome — admitiu Luca, desviando o olhar por um momento, as bochechas corando sob a luz da lua. — Eu queria... eu queria que você me visse. Não como um aluno problemático, mas como alguém que pode estar ao seu lado.

Kael soltou um riso curto, sem qualquer traço de escárnio.

— Eu sempre vi você, seu idiota teimoso. Por que você acha que eu perco meu tempo tentando te ensinar a não explodir as paredes desta casa? — Ele inclinou a cabeça, os cabelos negros caindo sobre a testa. — Mas agora as coisas mudaram. O que aconteceu aqui... o seu sangue misturado à sua magia... criou um laço.

Luca sentiu um calafrio. Ele sabia que a magia de sangue era perigosa, mas com Kael, tudo parecia certo, quase inevitável.

— Que tipo de laço? — perguntou o jovem.

— Um laço de dependência mútua — explicou Kael, descendo a mão para o pescoço de Luca, onde a marca de nascimento brilhava levemente. — Minha existência agora está sintonizada com a sua frequência. Se você sentir dor, eu sentirei. Se sua magia oscilar, eu serei puxado para o centro do furacão.

Luca processou a informação em silêncio. Longe de se sentir assustado, uma sensação de segurança o envolveu. Pela primeira vez em dezenove anos, ele não estava sozinho com o caos que carregava dentro de si.

— Então, se eu fizer isso... — Luca fechou os olhos e concentrou-se. Em vez de deixar a magia fluir para fora, ele a empurrou para dentro, em direção ao ponto onde a pele de Kael tocava a sua.

Kael soltou um arquejo súbito. Seus olhos se arregalaram e ele sentiu uma onda de calor percorrer suas veias frias, uma sensação de vitalidade que nenhum sangue humano comum jamais poderia proporcionar. Era como se ele pudesse ouvir os pensamentos mais profundos de Luca, um sussurro de desejo e gratidão.

— Pare — Kael ordenou, embora não houvesse força real em suas palavras. — Você vai se esgotar.

— Eu estou bem — insistiu Luca, abrindo os olhos, que agora brilhavam com uma intensidade sobrenatural. — Eu nunca me senti tão controlado. É como se você fosse o âncora que eu sempre precisei.

Kael sentiu uma pontada de algo que não sentia há muito tempo: proteção possessiva. Ele se inclinou e beijou a testa de Luca, um gesto casto que rapidamente se transformou em algo mais intenso quando ele desceu para os lábios do rapaz. O beijo tinha gosto de ferro e magia, uma combinação viciante que fazia o corpo de Luca arquear-se novamente contra os lençóis.

— Você percebe o perigo em que se colocou, não percebe? — Kael murmurou contra os lábios dele. — Outros da minha espécie sentirão o cheiro desse laço. Eles saberão que você carrega o sangue que pode tornar um vampiro quase invencível.

— Deixe que venham — respondeu Luca, passando as mãos pelos ombros largos de Kael, sentindo a força dos músculos dele. — Você não disse que me protegeria?

— Com cada gota do meu ser — prometeu Kael, sua voz assumindo um tom sombrio e absoluto. — Mas para isso, você precisa ser forte. O treino de amanhã não será como os outros. Não vamos mais focar apenas em teoria.

— E no que vamos focar?

Kael sorriu, revelando as presas que ainda estavam levemente alongadas.

— Vamos focar na simbiose. Você vai aprender a me alimentar enquanto luta, a usar a drenagem como uma forma de recarregar sua própria mana. Se vamos ser um só, precisamos agir como tal.

Luca sentiu o coração disparar. A ideia de compartilhar sua vida e sua magia de forma tão íntima com Kael era aterrorizante e excitante ao mesmo tempo. Ele se lembrou da sensação das presas de Kael em seu pescoço, do prazer que quase o fez perder a consciência, e soube que aceitaria qualquer condição para repetir aquela experiência.

— Kael... — Luca chamou, puxando-o para mais perto. — A fome... ela já passou totalmente?

O vampiro parou, observando o jovem mago com um olhar predatório. Ele viu o convite nos olhos claros de Luca, viu a forma como o pescoço dele se oferecia, vulnerável e marcado.

— Nunca passa totalmente com você, Luca — admitiu Kael, sua voz tremendo levemente. — Com você, a fome se torna algo diferente. Não é apenas necessidade de sobrevivência. É cobiça.

— Então cobiça — desafiou Luca, um sorriso atrevido surgindo em seus lábios. — Eu não vou a lugar nenhum.

Kael não precisou de mais incentivos. Ele envolveu a cintura de Luca com os braços, puxando-o para cima dele até que Luca estivesse sentado em seu colo. A posição permitia que Luca sentisse cada reação do corpo do vampiro, e o calor que emanava do jovem mago começou a reagir com a aura gélida de Kael, criando pequenas faíscas que saltavam entre eles.

— Você é um mestre em provocar desastres, não é? — Kael rosnou, enterrando o rosto no peito de Luca, sentindo as batidas aceleradas do coração dele.

— Eu só estou seguindo o exemplo do meu mestre — retrucou Luca, jogando a cabeça para trás quando sentiu a língua de Kael traçar um caminho úmido por sua clavícula.

O sótão, que outrora fora apenas um lugar de estudo e isolamento, tornou-se o santuário de uma união proibida. Ali, entre livros de feitiços esquecidos e sombras seculares, o mago de cabelos brancos e o vampiro de olhos escuros descobriram que o equilíbrio não vinha da supressão do poder, mas da entrega total ao outro.

— Luca — Kael chamou, sua voz carregada de uma emoção rara.

— Sim?

— Não se esqueça... de que você é a única luz que eu me permito tocar. Não deixe que ninguém a apague.

— Eu prometo — sussurrou Luca, abraçando Kael com força, enquanto a magia e o sangue continuavam sua dança silenciosa sob a luz da lua.

A noite ainda era longa, e eles tinham muito o que descobrir sobre aquele novo mundo que haviam criado juntos. Mas, pela primeira vez, o futuro não parecia uma ameaça para Luca, mas sim um caminho que ele percorreria sem medo, desde que a mão de Kael estivesse firmemente segurando a sua.