O ultimo
O Laço de Sangue e Éter
A luz da manhã seguinte infiltrava-se pelas frestas da mansão com uma suavidade que contrastava com o caos sensorial da noite anterior. Luca acordou sentindo o peso reconfortante de um braço sobre sua cintura e o calor de um corpo sólido às suas costas. O cheiro de Kael — aquele misto de madeira antiga e algo metálico, como o frio antes da neve — estava impregnado em cada centímetro de sua pele.
— Você está pensando alto demais, Luca. — A voz de Kael soou baixa, um murmúrio rouco contra a nuca do rapaz. — Consigo sentir sua mana vibrando daqui.
Luca sentiu um calafrio percorrer sua espinha, não de medo, mas de uma antecipação que ele ainda não sabia como nomear. Ele se virou nos lençóis bagunçados, encontrando os olhos de Kael. O vermelho intenso da noite anterior havia desaparecido, voltando para aquele castanho tão profundo que parecia engolir a luz, mas havia algo diferente ali: uma possessividade que não tentava mais se esconder atrás de sarcasmo.
— Minha magia... ela está quieta — sussurrou Luca, levando a mão ao próprio pescoço.
A pele ali estava sensível, marcada pelo arco das presas de Kael. Ele podia sentir a conexão física, um fio invisível de energia que agora o ligava ao vampiro de forma irrevogável.
— É porque eu drenei o excesso que estava te sufocando — Kael explicou, sentando-se na cama com uma elegância predatória. Ele passou os dedos pelos cabelos brancos e desalinhados de Luca. — Mas não se engane. O que fizemos ontem... não foi apenas uma lição de controle. Foi um pacto.
— Um pacto? — Luca franziu a testa, sentindo o pulso acelerar.
— Você me ofereceu seu sangue voluntariamente, e eu aceitei sua magia junto com ele. Agora, nossas energias estão entrelaçadas. — Kael sorriu, um sorriso que continha uma ponta de sua habitual arrogância, mas suavizada por uma estranha reverência. — Se você ficar em perigo, eu sentirei. Se eu estiver com fome, você será o primeiro a saber.
Luca processou as palavras, sentindo o peso daquela revelação. Ele tinha dezenove anos e sempre fora visto como uma bomba relógio por causa de seus poderes instáveis. Pela primeira vez, ele não se sentia como um problema a ser resolvido, mas como parte de algo maior.
— E se eu quiser que você sinta agora? — Luca perguntou, sua voz ganhando uma ousadia que ele não possuía antes daquela noite.
Kael arqueou uma sobrancelha, surpreso com a audácia do aprendiz.
— Você é insaciável, não é? Mal sobreviveu à primeira vez e já quer testar os limites do seu mestre.
— Você disse que eu era seu — Luca rebateu, sentando-se e deixando o lençol escorregar pelo peito pálido, revelando as marcas que Kael havia deixado em sua pele. — E você disse que me ajudaria a controlar isso. Sinto que a magia está voltando a subir... como uma maré.
Kael estreitou os olhos. Ele sabia que Luca estava provocando-o, mas também sabia que o rapaz falava a verdade. A mana de Luca era alimentada por suas emoções, e a intensidade do que sentiam um pelo outro estava agindo como um catalisador. O vampiro aproximou-se, encurralando Luca contra a cabeceira da cama.
— Você quer aprender a direcionar essa maré, pequeno mago? — Kael rosnou baixinho, sua mão descendo para apertar a coxa de Luca sob o tecido fino. — Então pare de tentar contê-la. Deixe-a fluir para mim. Use o prazer como um canal.
Luca fechou os olhos, sentindo a energia azulada começar a brilhar sob sua pele, concentrando-se em seus dedos. Ele tocou o peito de Kael, e pequenas faíscas de eletricidade estática estalaram entre eles.
— Como eu faço? — Luca arquejou, a respiração ficando curta à medida que o toque de Kael subia por seu corpo.
— Pense na sensação de ontem. No momento em que minhas presas perfuraram sua pele e o mundo desapareceu. — Kael inclinou-se, roçando os lábios na orelha de Luca. — Não lute contra o desejo. Deixe que ele se torne sua magia.
Luca soltou um gemido baixo quando Kael mordeu levemente o lóbulo de sua orelha. A reação foi instantânea: uma onda de luz prateada emanou de seu corpo, mas desta vez não foi um estouro caótico. A energia fluiu de Luca para Kael de forma fluida, como se o vampiro fosse um para-raios para o seu poder.
— Isso... — Kael murmurou, seus olhos brilhando momentaneamente com o reflexo da magia de Luca. — Isso é perfeito.
O vampiro derrubou Luca novamente nos travesseiros, cobrindo seu corpo com o dele. A fome de Kael, que ele pensava ter saciado na noite anterior, rugiu de volta à vida, mas não era apenas fome de sangue. Era uma necessidade visceral de sentir a alma de Luca vibrando contra a sua.
— Kael, eu sinto... eu sinto você em todo lugar — Luca disse, suas unhas cravando-se nas costas de Kael enquanto o vampiro começava a beijar o rastro de marcas em seu pescoço.
— É assim que deve ser — respondeu Kael, sua voz carregada de uma urgência sombria. — Você é o meu mago, e eu sou o seu guardião. E nenhum de nós dois terá paz enquanto houver um centímetro de pele que ainda não tenha sido explorado.
A manhã avançou, mas dentro daquele sótão, o tempo parecia ter parado. Luca descobriu que, sob a orientação de Kael, sua magia não era um monstro a ser domado, mas uma extensão de seu próprio coração. E Kael, o vampiro que sempre viveu nas sombras da solidão e do cinismo, descobriu que o sangue de Luca tinha um gosto de esperança — uma esperança perigosa, viciante e absolutamente irresistível.
— Mais — Luca implorou, sua voz se perdendo entre os gemidos enquanto a luz de sua magia iluminava os dois em um abraço eterno.
E Kael, entregando-se ao desejo, deu a ele tudo o que tinha, selando para sempre o destino de ambos entre o sangue e o éter.