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O ultimo de nos

O Sangue da Vingança e o Peso do Futuro

O silêncio do Grande Salão de Berk foi abruptamente substituído pelo vácuo frio daquela sala escura. Stoico nem teve tempo de processar o conforto do abraço em seu filho antes que a realidade se dissolvesse novamente. Ele estava de volta diante da imensa tela, o coração ainda martelando contra as costelas, o suor frio escorrendo pela nuca. Ele queria gritar, exigir que os deuses o deixassem em paz, mas a tela ganhou vida com uma luz violenta, forçando-o a olhar.

A imagem que surgiu era de um desespero absoluto. Soluço estava caído na neve, o rosto enterrado na lama e no sangue, o corpo tremendo em choque hipovolêmico após ter o pé decepado. O corpo de Stoico — o Stoico do futuro — jazia a poucos metros, imóvel, com os olhos vidrados fitando o nada.

— Levante-se, Soluço... por favor, levante-se — implorou o Stoico da sala, apertando os punhos até que as unhas cortassem a palma de suas mãos.

Vultos surgiram entre as árvores. Stoico rosnou, esperando ver os assassinos voltando para terminar o trabalho, mas os rostos que emergiram da penumbra eram conhecidos, embora endurecidos pelo tempo. Eram eles: Astrid, Melequento, Perna de Peixe e os gêmeos, Cabeça Quente e Cabeça Dura. Eles não usavam peles de dragão ou armaduras vikings coloridas; vestiam trapos reforçados com couro podre e metal enferrujado, carregando bestas e lanças improvisadas.

Astrid foi a primeira a chegar. Ela soltou um grito sufocado ao ver a cena. Ela se ajoelhou ao lado de Soluço, ignorando o cadáver de Stoico por um momento para estancar a hemorragia no que restava da perna do rapaz.

— Ele ainda está vivo! — gritou ela, as mãos cobertas pelo sangue dele. — Perna de Peixe, me ajude! Agora!

Stoico observou, com o peito apertado, a forma como Astrid segurava o rosto de Soluço. Havia uma intimidade ali que transcendia a amizade de infância que ele conhecia no presente. Era um desespero de quem estava perdendo sua âncora no mundo. Eles o carregaram em uma maca improvisada, arrastando-o de volta para a segurança sombria da zona de quarentena.

As cenas saltaram no tempo. Dias, talvez semanas. Soluço estava em uma cama de ferro, pálido, com uma prótese rudimentar de metal e madeira ao lado da cama. Ele tentava se levantar, os olhos injetados de ódio, enquanto Melequento e Perna de Peixe o seguravam.

— Eles mataram ele! — rugia Soluço, a voz rouca de tanto gritar. — Eles o mataram na minha frente e vocês querem que eu fique aqui sentado comendo ração mofada?

— Você não consegue nem ficar de pé, Soluço! — rebateu Melequento, sua voz sem o tom de deboche de costume, apenas cansada. — Se você for atrás daqueles sete agora, só vai dar a eles o resto da sua perna.

Stoico viu Astrid observando a cena de um canto. Ela parecia diferente. Seus olhos tinham olheiras profundas e ela levava a mão ao estômago com frequência, uma expressão de náusea cruzando seu rosto.

A cena mudou novamente. Era noite. Soluço, agora mancando pesadamente com a nova prótese, estava do lado de fora dos muros da zona de quarentena. Ele não estava sozinho. Astrid estava ao seu lado, ajustando uma aljava de flechas nas costas.

— Você tem certeza disso? — perguntou Soluço, olhando para ela. — Você não tem parecido bem ultimamente.

— Eu vou com você, Soluço — disse ela, firme, embora tenha tido um breve acesso de tosse que a fez se curvar. — Eu não vou deixar você se matar sozinho.

Eles partiram. Uma jornada de vingança através de uma terra morta. Stoico assistia a tudo com um nó na garganta. Ele viu os dois compartilharem momentos de silêncio ao redor de fogueiras escondidas, viu a forma como Soluço protegia Astrid e como ela, apesar da força habitual, parecia fragilizada, sempre protegendo a área da barriga com uma das mãos quando o terreno ficava acidentado.

— Ela está... — Stoico começou a dizer na sala vazia, a percepção atingindo-o como um soco. — Pelas barbas de Odin, ela está carregando um filho dele.

A confirmação veio de forma brutal. Após dias de rastreamento, eles encontraram um dos sete homens. Ele estava sozinho, caçando em um riacho congelado. Soluço não usou uma flecha. Ele avançou como um animal ferido, derrubando o homem e cravando uma faca de caça em seu ombro para imobilizá-lo.

O que se seguiu foi difícil até para Stoico assistir. Soluço, o menino que não conseguia matar um dragão, estava desmembrando a alma daquele homem com palavras e cortes precisos e lentos. Ele queria que o assassino sentisse cada grama da dor que ele sentiu ao ver o pai morrer.

— Por favor... pare... — implorou o homem, engasgando com o próprio sangue.

Soluço apenas sorriu, um sorriso frio que Stoico nunca imaginou ver naquele rosto.

— Meu pai não teve a chance de pedir por favor — disse Soluço, levantando a faca novamente.

Atrás dele, Astrid de repente se curvou e vomitou violentamente na neve. O som fez Soluço parar por um segundo. Ele olhou para ela, o ódio em seus olhos vacilando por um instante.

— Astrid, volte para o acampamento. Eu termino isso — disse ele, a voz gélida.

— Chega, Soluço! — gritou ela, limpando a boca, as lágrimas começando a descer. — Isso não vai trazê-lo de volta! E você está nos matando!

— "Nos"? — Soluço deu um passo em direção a ela, a faca pingando sangue. — Eu estou fazendo isso por nós! Pelo meu pai!

— Eu estou grávida! — berrou Astrid, a voz ecoando pela floresta morta.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Soluço estacou. A faca caiu de sua mão, cravando-se na neve. Ele olhou para a barriga dela, depois para o rosto pálido e sofrido da mulher que amava.

— O quê? — sussurrou ele.

— Eu tentei te contar — disse ela, soluçando. — Mas você só via sangue. Você só via vingança. Eu vim com você porque tinha medo de que você morresse e nosso filho nunca conhecesse o pai, mas olha para você... você se tornou um monstro.

— Por que você não me contou antes? — Soluço explodiu, a frustração e o medo colidindo. — Se eu soubesse, eu nunca teria te trazido para cá! Nós não estaríamos no meio do nada, caçando assassinos enquanto você...

— E você teria me escutado? — interrompeu ela. — Você teria parado?

A gritaria foi o erro fatal.

— Ora, ora... que drama familiar emocionante — disse uma voz vinda das árvores.

Stoico sentiu o sangue congelar. Eram eles. Os outros seis. O líder com a cicatriz estava na frente, segurando um rifle.

Soluço tentou pegar sua faca, mas um tiro atingiu o chão bem diante de sua mão, jogando neve e terra em seu rosto. Dois homens avançaram e o derrubaram. Como ele tinha apenas uma perna funcional, seu equilíbrio era precário. Ele foi espancado com coronhadas e chutes.

— Não! Parem! — gritou Astrid, tentando avançar, mas foi agarrada pelos cabelos por outro homem e jogada ao chão.

Ela gemeu de dor, encolhendo-se em posição fetal, os braços protegendo desesperadamente o ventre. Um dos bandidos levantou uma bota pesada, pronto para desferir um chute nas costelas dela.

— NÃO! — Soluço rugiu, lutando contra os homens que o prendiam, o rosto inchado e sangrando. — Parem! Por favor, parem! Ela está grávida!

O homem da cicatriz fez um sinal, e o agressor parou com a bota a centímetros do corpo de Astrid. O líder caminhou lentamente até Soluço e se agachou, segurando-o pelo queixo.

— Grávida, é? — O homem riu, um som seco e sem alma. — Mais uma boca para o mundo devorar.

Ele olhou para Astrid, que tremia no chão, e depois para Soluço.

— Sabe, eu deveria matar vocês dois agora mesmo. Pelo que fez com o meu batedor ali no riacho — ele apontou para o homem agonizante. — Mas eu gosto de pensar que sou um homem de princípios. Eu já tirei o pé de você e a vida do seu velho. Acho que o destino quer que você sofra mais um pouco.

Ele se levantou e chutou o rosto de Soluço uma última vez.

— Sumam daqui. Se eu vir o rosto de vocês ou desse bastardo que vai nascer em qualquer lugar perto das minhas terras novamente, eu vou garantir que ela assista enquanto eu arranco o que sobrou de você, pedaço por pedaço.

Os homens riram, pegaram as armas de Soluço e o corpo do companheiro ferido, desaparecendo na floresta como sombras malignas.

Soluço rastejou até Astrid. Suas mãos tremiam enquanto ele tocava o rosto dela.

— Astrid... me desculpa... me desculpa — soluçava ele, o rosto desfigurado pela surra e pela culpa.

Astrid não respondeu de imediato. Ela apenas se abraçou a ele, os dois chorando no meio daquela desolação, cercados pelo fracasso de uma vingança que quase lhes custou tudo.

Na sala escura, Stoico o Imenso caiu de joelhos. As lágrimas molhavam sua barba ruiva. Ele viu o futuro de seu filho: um homem quebrado, mutilado, vivendo em um mundo onde a esperança era um luxo que eles não podiam pagar. Mas ele também viu a vida. Viu que, apesar de toda a escuridão, havia uma criança a caminho.

— Eu não vou deixar chegar a esse ponto — jurou Stoico, sua voz soando como um trovão na sala vazia. — Eu vi o que o ódio faz. Eu vi o que a falta de preparo faz.

A luz começou a brilhar intensamente, sinalizando seu retorno a Berk.

— Soluço não vai perder aquele pé. Astrid não vai ter que esconder uma gravidez em uma floresta morta. E eu... — Stoico cerrou os dentes — ...eu não vou morrer naquela floresta.

O mundo girou.

Stoico abriu os olhos novamente no Grande Salão. O som das canecas batendo e o calor do fogo o atingiram como uma onda. Ele olhou para o lado. Soluço ainda estava lá, desenhando em seu caderno, alheio ao horror que o pai acabara de testemunhar pela segunda vez.

Stoico estendeu a mão e tocou o ombro do filho. Soluço olhou para cima, surpreso com o toque suave, mas firme.

— Pai? Tudo bem? Você está meio pálido.

Stoico forçou um sorriso, embora seus olhos estivessem cheios de uma determinação feroz.

— Soluço, depois do jantar, quero que chame a Astrid. E os outros.

— Os outros? O Melequento e os gêmeos? Por quê?

— Porque o treinamento de vocês começa amanhã ao amanhecer — disse Stoico, levantando-se e olhando para todos os seus vikings. — E não vai ser apenas sobre dragões. Vou ensinar vocês a serem uma matilha. A cuidarem uns dos outros. A nunca, jamais, deixarem um companheiro para trás.

Soluço franziu a testa, confuso, mas algo na voz do pai o impediu de questionar.

Stoico olhou para o fundo do salão, onde Astrid conversava com Perna de Peixe. Ele viu a jovem guerreira, cheia de vida e força, e pensou na versão dela que vira na tela — exausta, doente e protegendo um futuro incerto.

— Não no meu turno — sussurrou Stoico para si mesmo. — Os deuses podem ter me mostrado o fim, mas eles se esqueceram de que um viking de Berk não aceita o destino. Ele o molda com o próprio machado.

Naquela noite, Stoico não dormiu. Ele passou as horas afiando sua lâmina e traçando planos. O apocalipse poderia estar chegando, os mortos poderiam se levantar e os homens poderiam se tornar monstros, mas eles encontrariam um Berk preparado. E Soluço, seu filho, caminharia sobre os dois pés até o fim de seus dias.