O ultimo de nos
O Preço do Ódio e o Manto do Silêncio
A luz da sala de TV oscilou mais uma vez, mas o coração de Stoico já não tinha mais forças para se sobressaltar. Ele estava exausto. O peso de ver o filho ser mutilado e sua própria morte brutal ainda o assombravam, mas a tela, impiedosa, não lhe dava descanso. As imagens voltaram a brilhar, mas desta vez, o cenário era diferente.
Não havia neve manchada de sangue ou florestas sombrias. Havia o dourado de um campo de trigo ao pôr do sol. Uma pequena fazenda, isolada e cercada por cercas altas e bem cuidadas, surgia na tela. E, dentro da casa, o som mais puro que Stoico já ouvira: uma risada de criança.
Uma menina de cerca de quatro anos, com cabelos castanhos rebeldes e olhos verdes que brilhavam com a mesma curiosidade de Soluço, pulava em uma cama de lençóis remendados.
— Papai! Papai, olha como eu pulo alto! — gritava a pequena.
Soluço apareceu no quadro. Ele parecia mais velho, o rosto marcado por cicatrizes e uma barba rala, mas o olhar que ele dirigia à menina era de puro amor. Ele usava sua prótese de metal com a naturalidade de quem já nascera com ela.
— Cuidado, Giovana — disse o Soluço da tela, pegando a menina no ar e girando-a. — Se você furar o teto, sua mãe vai fazer nós dois dormirmos no celeiro.
Astrid entrou no quarto, carregando uma bacia com água. Ela sorriu, um sorriso que Stoico reconheceu como o de alguém que encontrara um porto seguro após uma tempestade eterna. Eles estavam felizes. Eles tinham construído algo nas cinzas do mundo.
Mas Stoico, observando da escuridão, notou o que a criança não via. Nos momentos de silêncio, quando Giovana dormia, Soluço se sentava à mesa e encarava as próprias mãos. Ele tocava a prótese no pé esquerdo. Ele olhava para o lugar vazio na mesa onde Stoico deveria estar. O fantasma da humilhação, do grito de dor e do som do tiro que tirou a vida de seu pai ainda vivia sob sua pele.
A cena mudou para uma madrugada chuvosa. O ar dentro da fazenda era pesado. Soluço estava de pé, vestindo seu casaco de couro e pegando seu rifle. Seus olhos estavam vidrados, perdidos em um surto de estresse pós-traumático que nenhuma paz poderia curar.
— Soluço, não... por favor. — Astrid estava na porta do quarto, as lágrimas brilhando sob a luz de uma vela. — Olhe para nós. Olhe para a Giovana. Nós temos uma vida aqui. Não jogue isso fora por causa de fantasmas.
— Não são fantasmas, Astrid — respondeu Soluço, a voz fria e desprovida de emoção. — Eu ainda sinto o metal no meu osso. Eu ainda ouço o riso daquele homem quando o sangue do meu pai espirrou no meu rosto. Eu não consigo ser o pai que ela merece enquanto eles ainda respirarem.
— Você vai nos deixar? — perguntou ela, a voz quebrada.
Soluço não respondeu. Ele apenas abriu a porta e sumiu na escuridão da chuva, deixando para trás o único calor que lhe restava.
Stoico soluçou na sala escura.
— Não vá, meu filho... não vá. Nada disso importa agora.
Mas a tela não ouvia orações. Ela mostrou a caçada. Soluço transformara-se em um espectro de morte. Ele encontrou o primeiro homem em um acampamento de saqueadores; o segundo em uma vila abandonada; o terceiro, o quarto e o quinto foram eliminados com uma precisão cirúrgica e cruel. Ele não era mais o menino que poupava dragões. Ele era a personificação da vingança de Stoico.
No entanto, o líder — o homem da cicatriz, aquele que dera o tiro final — ainda não tinha sido encontrado.
A imagem saltou para uma casa isolada na encosta de uma colina. Soluço chutou a porta, o rifle em punho. Ele estava frenético, o cansaço e o ódio nublando seu julgamento. Uma mulher gritou e avançou contra ele com uma faca de cozinha, tentando proteger o que estava atrás dela. No reflexo, no susto de um homem que só esperava violência, Soluço disparou.
O corpo da mulher caiu pesadamente. Soluço arquejou, percebendo o que fizera. Não era um soldado. Era apenas uma mulher tentando defender seu lar.
— NÃO! — rugiu um homem saindo das sombras do corredor. Era o líder da cicatriz. Ele estava mais velho, mais fraco, mas o ódio em seus olhos era o mesmo.
Ele se jogou sobre Soluço antes que o rapaz pudesse recarregar. Os dois rolaram pelo chão, trocando golpes brutais. Soluço, movido por uma fúria cega, montou sobre o homem e começou a esmurrar seu rosto com toda a força que possuía. Cada soco era pelo pé perdido. Cada soco era pela mãe morta. Cada soco era pelo pai executado como um animal.
— Morra! Morra! — gritava Soluço, o rosto respingado de sangue.
Ele parou com o punho no ar quando ouviu um soluço. Um choro pequeno e agudo. No canto da sala, uma criança, um menino não mais velho que Giovana, observava a cena com os olhos arregalados de terror, encolhido ao lado do corpo da mãe morta.
O mundo de Soluço parou. Ele viu a si mesmo naquela criança. Viu o ciclo que acabara de completar.
O homem da cicatriz, aproveitando o momento de hesitação de Soluço, tateou o chão e encontrou uma garrafa de vidro quebrada sob um armário tombado. Era um produto de limpeza forte, à base de amônia e ácido, usado para desinfetar feridas ou limpar metais. Com um movimento desesperado, ele jogou o líquido diretamente nos olhos de Soluço.
— AAAAAAAARGH! — O grito de Soluço cortou a casa.
Ele levou as mãos ao rosto, sentindo o fogo químico corroer suas córneas. Ele tentou esfregar, o que só piorou a situação. A dor era excruciante, superando até a dor da amputação anos atrás. Ele continuou batendo às cegas no homem, atingindo-o com chutes e golpes desajeitados, até que o líder, ensanguentado e quase inconsciente, conseguiu se arrastar para fora da casa com o filho nos braços.
Soluço ficou sozinho no silêncio da casa estranha. Sua visão estava se tornando uma massa borrada de cinza e vermelho. As luzes da sala estavam se apagando para sempre.
— Pai... — sussurrou ele, caindo de joelhos ao lado do corpo da mulher que matara por engano. — O que eu fiz?
A tela mostrou o caminho de volta. Foi um milagre Soluço ter sobrevivido. Ele caminhou por dias, guiado pelo instinto e pelo som do vento. Sua visão, que inicialmente era turva, foi escurecendo progressivamente. Quando ele finalmente sentiu o cheiro do trigo de sua fazenda, o mundo já era uma tela preta absoluta.
Ele tateou a cerca. Tateou o portão. Seus pés, um de carne e um de metal, tropeçavam nas pedras que ele conhecia tão bem.
Ele abriu a porta da casa. O rangido das dobradiças ecoou.
— Astrid? — chamou ele, a voz trêmula, os olhos abertos mas fixos no nada, vermelhos e opacos.
Astrid estava na cozinha. Ao vê-lo, ela deixou cair a caneca que segurava. Giovana correu para o quarto, assustada com a aparência do pai.
— Você voltou — disse Astrid. Sua voz não era de alívio. Era de pura fúria.
Ela caminhou até ele e o empurrou contra a porta.
— Você nos deixou! Você nos deixou por causa de homens que já estavam mortos por dentro! Olhe para você! — Ela começou a bater no peito dele, chorando compulsivamente. — Você quase morreu! Você nos deixou sozinhas em um mundo cheio de monstros!
Soluço não se defendeu. Ele apenas recebeu os golpes, as lágrimas escorrendo por seus olhos cegos.
— Astrid... — ele tentou dizer, mas ela o interrompeu com um grito.
— O que aconteceu com seus olhos? Soluço, olhe para mim! — Ela segurou o rosto dele, forçando-o a encará-la. Foi então que ela percebeu. A falta de foco, a névoa branca cobrindo as pupilas verdes. — Ó deuses... não.
Ela desabou contra ele. A raiva desapareceu, substituída por uma dor que parecia consumir o que restava de sua alma. Ela o abraçou com força, guiando-o até a cadeira onde Stoico costumava se sentar nas visões de Soluço.
— Eu não vejo nada, Astrid — sussurrou Soluço, a voz quebrada. — Está tudo escuro. Eu matei uma mulher. Eu vi o filho dela. Eu... eu não trouxe o papai de volta.
Astrid ajoelhou-se entre as pernas dele, pegando um pano úmido para limpar as feridas e o resto do produto químico que ainda ardia em sua pele.
— Eu sei — disse ela, a voz agora suave, embargada pelo choro. — Eu sei, meu amor. Mas agora você está em casa. E você nunca mais vai sair. Nunca mais.
Na sala de TV, Stoico o Imenso estava em frangalhos. Ele viu o filho, o menino que era a mente mais brilhante de Berk, agora cego aos vinte e poucos anos. Mutilado e cego. Tudo por causa de um ciclo de violência que começara com a morte de Stoico.
— Ele tinha quinze anos quando o mundo acabou para ele — murmurou Stoico, referindo-se à idade mental que Soluço parecia ter retornado naquele momento de vulnerabilidade. — Quinze anos quando a luz se apagou.
As imagens começaram a desaparecer. A sala escura começou a vibrar. Stoico sentiu que aquela era a última visão. A última lição que o futuro — ou os deuses — tinha para lhe dar.
— Stoico!
A voz não vinha da TV. Vinha de trás dele.
Stoico se virou e viu Valka. Não a Valka morta pelos zumbis, mas a Valka de sua juventude, envolta em uma luz branca e suave.
— Você viu o que acontece quando o medo governa o coração de um pai — disse ela, sua voz como uma canção triste. — Você tentou protegê-lo com muros e armas, mas esqueceu que a maior proteção é a paz que ele carrega dentro de si.
— Eu falhei com ele, Valka — chorou Stoico. — Em todas as realidades, eu morro e ele sofre. Eu não posso salvá-lo.
— Você pode — disse ela, aproximando-se e tocando o peito dele. — O futuro não está escrito em pedra, Stoico. Está escrito no que você faz hoje. Não ensine Soluço apenas a odiar o que é perigoso. Ensine-o a valorizar o que é vivo. Mude o começo, e o fim mudará sozinho.
A luz tornou-se cegante.
Stoico abriu os olhos. Ele estava de volta ao Grande Salão de Berk. Mas desta vez, ele não sentiu o pânico das outras vezes. Ele sentiu uma clareza fria e absoluta.
Soluço estava sentado ao seu lado, ainda desenhando. Astrid estava na mesa vizinha, rindo de algo que o Perna de Peixe dissera. O mundo estava em paz. Não havia zumbis. Não havia homens com cicatrizes.
Stoico olhou para as mãos de Soluço. Mãos de um artista, de um inventor. Mãos que, no futuro que ele vira, estavam manchadas de sangue e tateando a escuridão.
— Soluço — chamou Stoico, sua voz profunda ecoando pelo salão.
O rapaz olhou para cima, um pouco receoso.
— Sim, pai?
Stoico não o abraçou desesperadamente desta vez. Ele apenas colocou a mão sobre o caderno de desenhos do filho, cobrindo o desenho de uma nova arma que Soluço estava projetando.
— Amanhã, não vamos treinar com o machado — disse Stoico calmamente.
Soluço arqueou uma sobrancelha.
— Não? Mas você disse que as coisas iam mudar, que eu precisava estar pronto para...
— E você estará — interrompeu Stoico. — Mas primeiro, vamos subir até o pico da montanha. Quero que você me mostre como os dragões voam. Quero que você me ensine a ver o mundo como você vê.
Soluço ficou boquiaberto.
— Você... você quer que eu te ensine?
— Sim — disse Stoico, olhando profundamente nos olhos verdes do filho, os olhos que ele vira ficarem cegos na tela. — Porque eu percebi que, se eu passar todo o meu tempo ensinando você a lutar contra a escuridão, você vai esquecer como viver na luz. E se o fim do mundo chegar, o que vai nos salvar não será o quanto matamos, mas o quanto amamos o que sobrou.
Stoico olhou para Astrid e fez um sinal para que ela se aproximasse. Quando a jovem guerreira chegou, ele pegou a mão dela e a colocou sobre a de Soluço.
— Cuidem um do outro — disse o Chefe, com uma solenidade que arrepiou os dois jovens. — Comecem agora. Não esperem o mundo cair para perceberem que são tudo o que têm.
Soluço e Astrid se olharam, confusos, mas sorriram um para o outro.
Stoico recostou-se em sua cadeira de carvalho. Ele sabia que o perigo ainda existia. Sabia que em algum lugar do tempo, o apocalipse poderia estar à espreita. Mas ele não seria mais o pai que deixava um legado de fúria. Ele seria o pai que construía um alicerce de esperança.
Ele olhou para o pé esquerdo de Soluço, firme no chão de pedra do salão.
— Ninguém vai tirar isso de você, meu filho — sussurrou Stoico para si mesmo. — E ninguém vai apagar a luz dos seus olhos. Eu prometo.
Pela primeira vez em muito tempo, Stoico o Imenso fechou os olhos e, em vez de ver sangue e neve, ele viu apenas o brilho do sol sobre as águas de Berk, e sentiu que, talvez, os deuses tivessem finalmente lhe concedido a chance de reescrever a história.