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O vale dos segredos

Entre Pipocas e Parábolas

O sábado em Huntington Beach não era apenas um dia de sol; era um evento. O ar carregava aquele cheiro salgado característico, misturado ao aroma de protetor solar de coco e, conforme o entardecer avançava, ao perfume amanteigado de pipoca que vinha das máquinas portáteis montadas na areia. Alice Smith estava diante do espelho de seu quarto há exatos quarenta minutos. Ela já havia trocado de roupa três vezes.

— É apenas um cinema na praia, Alice. Não é um baile de gala — murmurou para si mesma, ajustando uma jardineira jeans sobre uma camiseta listrada. — E ele é só o seu instrutor que, por acaso, agora é seu aluno de matemática. E que tem olhos verdes... e um sorriso que deveria ser ilegal.

Ela balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Alice sempre foi a garota das listas, dos planos e das certezas. Mas, desde que Mateus Miller cruzara seu caminho na quadra de areia, sua lógica parecia ter sofrido uma interferência magnética. Ela pegou sua mochila, conferindo se o repelente e a manta estavam lá dentro, e desceu as escadas.

— Vai sair, querida? — perguntou a mãe de Alice, levantando os olhos de um livro de culinária. — Achei que hoje era sua noite de revisar os polígonos.

— Vou ao festival de cinema na praia com um... amigo da escola — Alice sentiu as bochechas esquentarem. — Ele me ajudou com o treino de beach tennis e eu o ajudei com matemática. É uma espécie de celebração por ele não ter zerado a prova.

A mãe de Alice sorriu, aquele sorriso de quem sabe muito mais do que a filha imagina.

— Divirta-se. E não esqueça que o toque de recolher continua sendo às onze.

— Eu sei, mãe. Sou eu, lembra? A rainha da obediência.

Alice saiu de casa sentindo que, pela primeira vez, a "rainha da obediência" estava ansiosa para quebrar, ou pelo menos dobrar, algumas regras.

Mateus já a esperava perto do píer. Ele estava encostado em seu Jeep antigo, vestindo uma calça de moletom cinza e um moletom com capuz azul marinho que destacava seus olhos de uma forma quase cruel. Quando ele a viu, não houve hesitação. Ele se endireitou e aquele meio sorriso — o "espasmo muscular" que Alice tanto adorava — apareceu.

— Você está no horário, Smith. Dois minutos adiantada, na verdade — disse ele, conferindo o relógio de pulso.

— Velhos hábitos morrem devagar, Miller — respondeu ela, aproximando-se. — E você... você está usando algo que não é o uniforme de instrutor. Quase não te reconheci sem a prancheta na mão.

Mateus riu, um som rouco que vibrou no peito de Alice.

— Achei que seria seguro deixar o sargento em casa por uma noite. Vamos? O filme começa em vinte minutos e eu quero pegar um lugar longe das caixas de som.

Eles caminharam pela areia fofa. O festival consistia em um enorme telão inflável e centenas de pessoas espalhadas com suas cangas e cadeiras de praia. Mateus carregava a bolsa térmica e a manta de Alice como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eles encontraram um espaço perfeito, um pouco mais afastado da multidão, onde o som das ondas ainda podia ser ouvido em meio ao burburinho das pessoas.

— Então — começou Alice, enquanto ajudava a estender a manta —, qual é o filme de hoje? Você não me contou.

— É um clássico — Mateus sentou-se, cruzando as pernas longas. — "Digam o que Quiserem". Aquele do cara com o rádio gigante em cima da cabeça. Minha mãe diz que é o melhor filme de romance já feito. Eu, pessoalmente, acho que o protagonista deveria ter investido mais tempo em aprender um esporte de verdade, mas a trilha sonora é boa.

Alice sentou ao lado dele, sentindo o ombro dele roçar no seu. A proximidade física era diferente ali. Na quadra, era técnica; na biblioteca, era estudo. Ali, era apenas... eles.

— Você é um romântico incurável disfarçado de atleta durão, Mateus Miller? — ela provocou, cutucando a costela dele.

— Eu sou um sobrevivente — ele rebateu, pegando um saco de pipoca. — Tive que assistir a todos os filmes da Audrey Hepburn porque perdi uma aposta com a minha irmã mais nova. Depois disso, qualquer filme de romance parece um filme de ação para mim.

— Você tem uma irmã? — Alice perguntou, genuinamente curiosa. Ela percebeu que, apesar das horas estudando, eles raramente falavam sobre a vida fora da escola.

— Tenho. A Maya. Ela tem dez anos e manda em mim mais do que qualquer treinador que já tive — a expressão de Mateus se suavizou de uma forma que Alice nunca tinha visto. — Ela está em San Diego com a minha mãe. Eu moro com o meu pai aqui porque a escola de elite onde eu estava me ofereceu a bolsa, mas o divórcio deles... bem, as coisas ficaram meio divididas.

Alice sentiu uma pontada de empatia. Por trás daquela armadura de rigidez e perfeccionismo atlético, havia um garoto lidando com as peças quebradas de uma família.

— Deve ser difícil — disse ela baixinho. — Estar longe delas.

— É — ele admitiu, olhando para o mar escuro. — Por isso eu foco tanto no esporte. E na escola. Se eu falhar, parece que o esforço deles em me manter aqui não valeu a pena. Por isso eu era tão...

— Rude? — Alice completou com um sorriso gentil.

— Eu ia dizer "exigente com o tempo", mas "rude" também serve — ele olhou para ela, e o brilho do telão refletiu em seus olhos verdes. — Obrigado, Alice. Por não ter desistido de me ensinar. E por me obrigar a sorrir. Eu não sabia que precisava tanto disso até você aparecer com seus cadernos coloridos e sua mania de achar física em tudo.

O filme começou, mas Alice mal conseguia prestar atenção nas imagens em preto e branco. Ela estava consciente de cada movimento de Mateus. Quando o vento frio da noite começou a soprar, ela encolheu os ombros. Sem dizer uma palavra, Mateus puxou a ponta da manta e a cobriu, aproximando-se mais.

— Está com frio? — perguntou ele.

— Um pouco.

Ele hesitou por um segundo, e então passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a para perto. Alice encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o batimento rítmico do seu coração. Era sólido, seguro e quente.

— Mateus? — ela sussurrou, enquanto na tela o protagonista segurava o rádio sob a janela da amada.

— Oi.

— Você acha que a física explica isso também? — ela perguntou, sentindo-se corajosa. — O jeito que meu coração acelera quando você faz isso?

Mateus ficou em silêncio por um momento. Ela sentiu os dedos dele acariciarem levemente o seu braço.

— Eu diria que é eletromagnetismo — ele respondeu, a voz vibrando contra o cabelo dela. — Duas cargas opostas que, por algum motivo que a ciência ainda não explicou totalmente, não conseguem ficar longe uma da outra.

Alice riu, fechando os olhos.

— Essa foi a melhor resposta de nerd que eu já ouvi de um atleta.

— Eu tive uma ótima professora.

O filme continuou, mas para Alice e Mateus, o mundo se resumia àquele pequeno pedaço de manta na areia. Quando os créditos começaram a subir e as luzes do festival se acenderam, nenhum dos dois parecia querer se mexer.

— Acho que o toque de recolher da rainha da obediência está chegando — disse Mateus, embora não fizesse menção de soltá-la.

— Eu posso pedir uma extensão de prazo — Alice levantou a cabeça, ficando a poucos centímetros do rosto dele. — Só desta vez.

Mateus a estudou. Ele viu a garota que tirava notas máximas, que jogava beach tennis com uma precisão matemática e que, de alguma forma, tinha derrubado todos os seus muros sem nem precisar de uma marreta.

— Alice — ele chamou, o tom de voz mudando para algo mais sério, mais profundo. — Eu não sou muito bom com palavras. Prefiro a ação, o movimento. Mas... eu não quero ser apenas o cara que você ajuda com a lição de casa.

— E o que você quer ser, Mateus?

Ele não respondeu com palavras. Ele inclinou o rosto, diminuindo o espaço restante. O beijo foi calmo, começando com uma hesitação doce que logo se transformou em algo mais intenso, com gosto de pipoca salgada e a urgência de quem guardava aquele desejo há semanas. Alice passou as mãos pelo pescoço dele, sentindo o tecido macio do moletom e a pele quente da nuca.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Mateus encostou a testa na dela, um sorriso largo e genuíno iluminando seu rosto.

— Acho que isso conta como um "A" no teste de hoje? — perguntou ele.

— Definitivamente — Alice riu, sentindo-se mais leve do que nunca. — Mas ainda temos que revisar os logaritmos amanhã. Sem desculpas.

— Você é implacável, Smith.

— E você adora isso, Miller.

Eles arrumaram suas coisas e caminharam de volta para o carro, de mãos dadas. O caminho era iluminado pelas luzes do píer e pelo brilho das estrelas. Alice Smith, a filha obediente e nerd, percebeu que algumas das melhores coisas da vida não podiam ser planejadas em uma agenda ou resolvidas com uma equação. Às vezes, a melhor parte da vida era justamente o que acontecia quando você deixava a areia entrar nos sapatos e permitia que alguém entrasse no seu coração.

Ao chegarem ao Jeep, Mateus abriu a porta para ela, mas antes que ela entrasse, ele a segurou pela cintura e a girou no ar.

— O que você está fazendo? — ela gritou, rindo.

— Comemorando! — ele exclamou, colocando-a no chão. — Pela primeira vez em muito tempo, eu não estou pensando no próximo treino ou na próxima prova. Estou apenas... feliz.

Alice o abraçou apertado.

— Eu também, Mateus. Eu também.

Ele a levou para casa, dirigindo devagar, como se quisesse prolongar cada segundo. Quando pararam em frente à casa de Alice, o relógio marcava exatamente dez para as onze.

— Pontual como sempre — ele brincou, descendo para acompanhá-la até a porta.

— Você está aprendendo — ela disse, parando no primeiro degrau da varanda. — Obrigada pela noite, Mateus. Foi melhor do que qualquer filme.

— O filme foi apenas o pano de fundo, Alice. A estrela principal estava sentada do meu lado.

Ele deu um beijo casto em sua testa e esperou até que ela entrasse em casa. Alice encostou as costas na porta fechada, o coração ainda em um rali frenético. Ela subiu para o quarto, abriu seu caderno de matemática e, na última página, onde costumava fazer anotações de fórmulas, escreveu apenas uma frase:

"Existem variáveis que não podem ser calculadas, apenas sentidas."

Naquela noite, Alice não sonhou com números ou saques perfeitos. Ela sonhou com olhos verdes e com a descoberta de que, às vezes, a pessoa que mais precisa de ajuda é aquela que acaba te ensinando as lições mais importantes de todas. E Mateus, em seu quarto silencioso, olhou para a prancheta de treinos na parede e, pela primeira vez, desenhou um pequeno coração ao lado do nome de sua melhor jogadora. O sargento estava oficialmente de férias; o garoto, finalmente, tinha encontrado seu lugar na areia.