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O vale dos segredos

O Baile, a Areia e a Probabilidade do Caos

A segunda-feira na Adler High começou com um burburinho diferente. Não era apenas o cheiro de café barato e cera de assoalho; havia um aroma de expectativa no ar. O mural de avisos, o território sagrado de Alice, agora exibia um cartaz fluorescente: "Baile de Primavera – Uma Noite Sob as Estrelas".

Alice Smith estava parada diante do cartaz, segurando seu livro de Física com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela nunca ligara para bailes. Bailes significavam vestidos desconfortáveis, saltos que desafiavam o centro de gravidade e, pior de tudo, a quebra de sua rotina de estudos. Mas, enquanto olhava para as estrelas de papel laminado, sua mente trapaceira projetou uma imagem de Mateus Miller usando um terno.

— Nem pense nisso, Smith. A probabilidade de ele querer ir a um evento social com música alta e ponche duvidoso é de aproximadamente 0,02% — murmurou ela para si mesma.

— Falando sozinha de novo, Alice? Isso é sinal de excesso de cafeína ou de um coração apaixonado.

Alice deu um pulo. Kitty Song-Covey estava ao seu lado, com um sorriso de quem sabia segredos que nem a CIA tinha acesso.

— É apenas cálculo de probabilidades, Kitty. Vá para a aula — Alice tentou desconversar, sentindo o rosto esquentar.

— Sei. O cálculo de probabilidade envolve um instrutor loiro com ombros largos que está vindo exatamente na nossa direção? — Kitty deu uma piscadinha e saiu saltitando pelo corredor antes que Alice pudesse responder.

Mateus caminhava com sua habitual confiança, mas havia algo diferente. Ele não estava com o uniforme do time. Vestia uma camiseta preta simples que parecia destacar cada músculo que Alice tinha estudado involuntariamente durante os treinos de beach tennis. Quando ele parou na frente dela, o corredor pareceu diminuir de tamanho.

— Oi — disse ele. A voz dele ainda era grave, mas o tom gélido de semanas atrás tinha sido substituído por algo que Alice só podia descrever como... veludo.

— Oi — Alice respondeu, ajustando os óculos. — Você está atrasado para a biblioteca. Temos que terminar a revisão de polinômios de grau superior.

Mateus deu aquele sorriso de canto que fazia o estômago de Alice dar um mortal para trás.

— Eu sei. Mas passei no ginásio e vi o cartaz. O tal baile.

Alice sentiu o coração bater contra as costelas.

— Ah, sim. O baile. Uma tradição social arcaica projetada para aumentar os níveis de cortisol nos adolescentes.

Mateus soltou uma risada curta, encostando-se nos armários.

— Cortisol, é? Eu estava pensando mais em níveis de dopamina. Você vai?

— Eu tenho um simulado no sábado seguinte, Mateus. Minha agenda está... — ela parou quando ele deu um passo à frente, entrando em seu espaço pessoal. O cheiro de sabonete e maresia a atingiu em cheio.

— Sua agenda está aberta na noite de sábado — ele afirmou, não como uma pergunta, mas como um fato. — Porque eu preciso de uma acompanhante que saiba a diferença entre uma parábola e uma hipérbole caso a conversa fique chata. E porque eu quero dançar com a garota que me ensinou que sorrir não estraga a aerodinâmica do rosto.

Alice piscou, completamente desarmada. Onde estava o Mateus rígido que gritava sobre o pulso firme?

— Você está me convidando para o baile, Miller? — ela perguntou, tentando recuperar sua postura de monitora séria.

— Estou estabelecendo um novo acordo — ele disse, baixando a voz. — Você vai comigo. E em troca, eu prometo não reclamar de nenhuma fórmula complexa durante toda a semana.

— Isso é chantagem acadêmica — Alice brincou, embora já estivesse mentalmente escolhendo a cor do vestido.

— É estratégia de jogo, Smith. Aceita?

— Aceito. Mas se você pisar no meu pé, eu desconto na sua nota de participação.

— Fechado.

A semana que se seguiu foi um borrão de treinos intensos sob o sol de Huntington Beach e sessões de estudo que pareciam durar minutos em vez de horas. Na quadra, a dinâmica havia mudado. Mateus ainda era exigente, mas agora, quando Alice cometia um erro, ele não gritava do outro lado da rede. Ele caminhava até ela, corrigia a posição de suas mãos com um toque que demorava um segundo a mais do que o necessário e sussurrava palavras de incentivo que faziam Alice jogar melhor do que nunca.

— Você está mais rápida — comentou ele durante o treino de quarta-feira, enquanto limpavam a areia dos braços. — O que mudou?

— Física, lembra? — Alice sorriu, bebendo água. — Estou usando a energia potencial da minha ansiedade pelo baile e transformando em energia cinética na raquete.

Mateus parou de organizar as bolas e a encarou. O sol da tarde refletia em seus olhos verdes, tornando-os quase transparentes.

— Você está ansiosa? — ele perguntou, parecendo genuinamente surpreso. — Alice, você é a pessoa mais centrada que eu conheço. Você ganha torneios e resolve equações que me dão dor de cabeça. Por que um baile te deixaria assim?

— Porque bailes não têm regras matemáticas, Mateus — ela confessou, sentando-se na areia quente. — Não há uma fórmula para saber se eu vou tropeçar no vestido ou se vou saber o que dizer quando a música ficar lenta. Na quadra, eu sei onde a bola vai cair. Na biblioteca, eu sei o resultado de X. No baile... eu não tenho o controle.

Mateus sentou-se ao lado dela. Ele pegou a mão de Alice, traçando as linhas da palma dela com o polegar.

— Sabe qual é o segredo do beach tennis que eu nunca te contei? — ele perguntou em voz baixa.

— Qual?

— Às vezes, o melhor ponto é aquele que você ganha no improviso. Quando a bola bate na fita da rede e você tem que mergulhar sem saber se vai alcançar. O controle é superestimado, Alice. A mágica acontece no caos.

Alice olhou para as mãos unidas. O contraste entre a mão grande e calejada dele e a dela, pequena e delicada, era uma imagem que ela queria guardar para sempre.

— Eu não sou muito boa com o caos — ela admitiu.

— É por isso que eu vou estar lá — ele disse, apertando a mão dela com firmeza. — Eu sou o instrutor, lembra? Eu te seguro se você mergulhar.

O sábado chegou com uma tempestade inesperada, o que era raro para a Califórnia naquela época. Alice olhava pela janela, vendo a chuva fustigar as palmeiras, sentindo uma pontada de desânimo. O "Noite Sob as Estrelas" provavelmente seria transferido para o ginásio abafado com cheiro de suor e pipoca velha.

Ela estava terminando de prender o cabelo — ondas loiras perfeitamente domadas — quando a campainha tocou. Alice usava um vestido azul-celeste que realçava seus olhos cor de mel, simples, mas elegante, exatamente como ela.

Ao abrir a porta, ela não encontrou apenas Mateus Miller. Ela encontrou um Mateus Miller que parecia ter saído de uma capa de revista, usando um terno escuro que o deixava ainda mais alto e imponente. Ele segurava uma pequena caixa transparente com um corsage de orquídeas brancas.

— Uau — foi tudo o que ele conseguiu dizer.

— Uau digo eu — Alice riu, sentindo as borboletas no estômago iniciarem uma migração em massa. — Você limpou bem a areia dos ouvidos, Miller.

— Tive que usar um polidor especial — ele brincou, entregando o corsage. — Você está... incrível, Alice. De verdade.

A viagem até a escola foi silenciosa, mas um silêncio confortável. A chuva tinha parado, deixando um brilho úmido no asfalto e um cheiro de terra molhada. Quando entraram no ginásio, Alice percebeu que o comitê de decoração — liderado por Kitty e Lara Jean — tinha feito milagres. Luzes de fada pendiam do teto como galáxias distantes, e o chão estava coberto por uma névoa baixa de gelo seco.

— Parece que o caos está bem decorado hoje — murmurou Mateus no ouvido dela.

Eles dançaram. No início, Alice estava rígida, contando os passos mentalmente (um, dois, três, gira), mas Mateus a conduzia com uma facilidade natural.

— Pare de calcular o ângulo da rotação, Smith — ele sussurrou, puxando-a para mais perto. — Apenas sinta a música.

— É difícil desligar o cérebro — ela reclamou, mas encostou a cabeça no ombro dele.

— Tente focar em outra coisa. No som da minha respiração. No fato de que eu sou o cara mais sortudo deste ginásio porque a monitora mais inteligente da escola aceitou vir comigo.

Alice sorriu contra o tecido do terno dele.

— Você está ficando muito bom com as palavras, Miller. Isso vai acabar afetando sua reputação de durão.

— Minha reputação está em suas mãos agora. Trate-a com carinho.

A noite passou como um sonho febril. Eles riram das tentativas de Kitty de bancar a cupido para outros casais, beberam o ponche (que Alice confirmou ser doce demais) e, por algumas horas, os livros de cálculo e as redes de vôlei pareceram pertencer a outra vida.

No entanto, perto do final da noite, Alice percebeu que Mateus estava inquieto. Ele olhava para o relógio e para a saída.

— Está tudo bem? — ela perguntou quando se afastaram da pista de dança.

— Está. É só que... este lugar está ficando apertado. Você confia em mim?

Alice arqueou uma sobrancelha.

— Depende. Isso envolve logaritmos?

— Envolve algo muito melhor. Vem.

Ele a guiou para fora do ginásio, fugindo da multidão. Eles correram pelo estacionamento úmido até o Jeep dele.

— Para onde estamos indo? — Alice perguntou, rindo enquanto tentava segurar a barra do vestido.

— Para o nosso lugar — foi a única resposta dele.

Vinte minutos depois, eles estavam estacionados perto das quadras de beach tennis da praia municipal. A chuva tinha deixado a areia compacta e fria. A lua tinha surgido entre as nuvens, iluminando o oceano que rugia ao fundo.

Mateus desceu do carro e tirou os sapatos e as meias. Ele estendeu a mão para Alice.

— Você ficou louco? Está frio! E meu vestido...

— O vestido sobrevive. A areia é o nosso elemento, Alice. É onde a gente se conheceu. É onde a gente faz sentido.

Alice olhou para os próprios pés calçados em saltos prateados e depois para o rosto de Mateus, que estava iluminado pelo luar. Ela sorriu, chutou os sapatos para dentro do carro e aceitou a mão dele.

A sensação da areia úmida entre os dedos dos pés foi um choque térmico, mas de um jeito bom. Eles caminharam até a rede onde costumavam treinar. Sem a rede montada, era apenas um espaço amplo e vazio.

— Não tem música aqui — disse Alice, abraçando os próprios braços contra o vento frio.

Mateus pegou o celular, conectou a uma pequena caixa de som que sempre deixava no Jeep e uma melodia suave começou a tocar. Era a música do filme que tinham visto na praia.

— Agora tem — disse ele, envolvendo-a em seus braços.

Ali, sob o céu real e não o de papel laminado do ginásio, Alice sentiu que o controle não era mais necessário. Não havia ninguém olhando, nenhuma nota para manter, nenhum saque para acertar. Eram apenas dois jovens de dezoito anos tentando entender a física da atração.

— Mateus — Alice chamou, olhando nos olhos verdes dele.

— Oi.

— Obrigada por me tirar do meu gráfico de segurança.

— Obrigada por entrar no meu — ele respondeu. — Eu estava indo para lugar nenhum antes de você aparecer para me dar bronca sobre a pontualidade. Eu era só um cara que sabia bater numa bola. Você me fez querer ser alguém que entende por que a bola voa.

Ele se inclinou, e o beijo que trocaram ali, com o som das ondas como orquestra e o cheiro de salitre no ar, foi mais real do que qualquer coisa que Alice já tivesse lido em seus livros. Foi um momento de pura entropia, onde a ordem se dissolvia para dar lugar a algo novo e maravilhoso.

Quando se afastaram, Mateus encostou a testa na dela, ofegante.

— Sabe de uma coisa? — ele disse com um brilho travesso nos olhos. — Eu ainda não entendo funções logarítmicas.

Alice soltou uma gargalhada que ecoou pela praia deserta.

— Eu sei, Mateus. Eu sei. Mas não se preocupe. Temos o semestre inteiro pela frente.

— E depois do semestre? — ele perguntou, a voz subitamente séria. — As universidades, Alice... você vai para longe.

Alice sentiu um aperto no peito, mas olhou para o horizonte onde o mar encontrava o céu.

— A física diz que a distância é apenas uma variável em uma equação de movimento — ela disse, segurando o rosto dele com as mãos. — Se a velocidade inicial for forte o suficiente e a aceleração for constante, a distância não importa. Nós vamos dar um jeito.

Mateus sorriu, um sorriso que iluminou a noite mais do que qualquer estrela.

— Você e suas fórmulas, Smith.

— Elas nunca falham, Miller.

Eles ficaram ali, dançando na areia, dois pontos de luz em uma praia vasta, provando que, às vezes, a melhor maneira de encontrar o equilíbrio é parar de tentar controlar a queda e simplesmente aprender a voar juntos. O baile de primavera poderia ter acabado no ginásio, mas para Alice e Mateus, a verdadeira celebração estava apenas começando, um saque de cada vez, uma equação por noite, e uma vida inteira de sorrisos que não precisavam mais ser pedidos.