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O vale dos segredos

O Peso da Areia e o Calor do Lar

O treino de quinta-feira começou com o sol de Huntington Beach escondido atrás de uma camada espessa de nuvens cinzentas, deixando o ar abafado e a areia com uma textura pesada, quase úmida. Alice prendia o cabelo com um elástico extra, sentindo uma pontada de cansaço nas pernas. O ritmo das últimas semanas — entre monitorias noturnas e treinos intensivos para o regional — estava começando a cobrar seu preço.

Mateus estava no centro da quadra, girando a raquete nos dedos. Ele parecia mais relaxado desde o baile, mas na quadra, o "Instrutor Miller" ainda mantinha sua postura de comando.

— Vamos focar no deslocamento lateral hoje, Alice — ele anunciou, apontando para as linhas de fundo. — Você está hesitando quando a bola cai curta na diagonal. Quero que você exploda na direção da rede.

— Meus reflexos estão ótimos, Mateus — Alice rebateu, tentando esconder um bocejo. — É só a areia que parece mais densa hoje.

— A areia é a mesma de sempre — ele disse, com um meio sorriso desafiador. — O que muda é a sua disposição. Vamos lá, posição de expectativa!

Ele começou a lançar bolas rápidas. Alice se movia com a precisão que ele a ensinara, os pés cavando sulcos na superfície granulada. Ela acertou o primeiro saque, devolveu um lob difícil e se preparou para o próximo movimento. Mateus, querendo testar o limite da garota, lançou uma bola curta e baixa, bem rente à rede.

Alice disparou. Seus olhos cor de mel estavam fixos na bola amarela. Ela sentiu o músculo da panturrilha tensionar, as unhas dos pés empurrando a areia para ganhar tração. No entanto, no último segundo, o pé direito afundou em um buraco escondido sob a superfície plana.

O som foi um estalo seco, seguido por um grito abafado.

Alice caiu de mau jeito, o tornozelo virando para fora enquanto o resto do corpo era levado pela inércia. Ela rolou na areia, a dor subindo pela perna como um choque elétrico de alta voltagem.

— Alice! — O grito de Mateus cortou o ar.

Em dois segundos, ele estava ajoelhado ao lado dela. A raquete dele foi jogada para longe, esquecida. O rosto de Mateus, geralmente tão controlado, estava pálido.

— Não mexe, não mexe — ele ordenou, as mãos tremendo levemente enquanto pairavam sobre o tornozelo dela, que já começava a inchar visivelmente.

— Dói... Mateus, dói muito — Alice gemeu, fechando os olhos com força. Lágrimas involuntárias começaram a escapar, misturando-se à areia em seu rosto.

— Eu sei, eu sei. Calma — ele disse, a voz subitamente rouca. Havia uma culpa crua em seus olhos verdes. — Foi minha culpa, eu forcei demais a jogada. Eu deveria ter visto que você estava cansada.

— Não foi sua culpa — ela tentou dizer, mas a dor pulsante a impediu de continuar.

Mateus não esperou. Ele a pegou no colo com uma facilidade que, em qualquer outra situação, teria deixado Alice deslumbrada. Ele a carregou para fora da quadra, ignorando os olhares curiosos de outros alunos que treinavam por perto.

— Eu vou te levar para o hospital — ele disse, caminhando rapidamente em direção ao estacionamento.

— Meus pais... eles estão em uma conferência em Irvine — Alice conseguiu formular, segurando-se no pescoço dele. — A casa está vazia.

Mateus parou diante do Jeep, pensando rápido. Ele sabia que o hospital local estaria lotado naquela hora e que Alice precisava de gelo e repouso imediato antes de qualquer raio-X.

— Vou te levar para a minha casa — ele decidiu, colocando-a cuidadosamente no banco do passageiro. — Minha mãe é enfermeira pediátrica. Ela está de folga hoje. Ela vai saber o que fazer.

— Mateus, eu não quero incomodar...

— Alice, cala a boca — ele disse, mas o tom era de puro desespero protetor. — Você está machucada e a culpa é minha. Você vem comigo.

O trajeto foi curto, mas para Mateus pareceu uma eternidade. Ele olhava para ela a cada trinta segundos, checando se ela não estava desmaiando de dor. Quando chegaram a uma casa de estilo bangalô, cercada por buganvílias, ele a pegou novamente no colo.

A porta da frente se abriu antes mesmo de ele chegar à varanda. Uma mulher loira, com os mesmos olhos verdes de Mateus, mas com uma expressão muito mais suave, apareceu com o cenho franzido.

— Mateus? O que aconteceu?

— Ela se machucou no treino, mãe. O tornozelo. Acho que foi feio.

— Coloque-a no sofá, querido. Agora.

Mateus a deitou no estofado macio da sala de estar. Em poucos minutos, a casa que Alice imaginava ser um refúgio de silêncio e rigidez transformou-se em um centro de operações. A mãe de Mateus, Sra. Miller, movia-se com uma eficiência calma, trazendo gelo, ataduras e um apoio para a perna.

— Olá, querida. Eu sou a Sarah — disse a mulher, sorrindo para Alice enquanto examinava o pé inchado com mãos experientes. — Mateus fala tanto de você que sinto que já te conheço.

Mateus, que estava parado ao lado do sofá parecendo um leão enjaulado, ficou subitamente vermelho.

— Mãe, agora não é hora.

— Ora, Mateus, deixe de ser rabugento. Vá buscar um copo de água com açúcar para a menina, você parece mais assustado do que ela.

Nesse momento, uma garotinha de cerca de dez anos, com cabelos loiros bagunçados e uma camiseta de super-herói, apareceu na sala, segurando um urso de pelúcia.

— Ela é a Alice? — a menina perguntou, os olhos brilhando. — A Alice da matemática?

— É ela sim, Maya — Mateus respondeu, passando a mão pelo cabelo da irmã enquanto entregava o copo de água para Alice. — Mas ela precisa descansar agora, ok?

— Você é muito bonita — Maya disse, aproximando-se do sofá e ignorando o irmão. — O Mateus disse que você joga beach tennis como uma profissional, mas que é baixinha igual a mim.

Alice soltou uma risada fraca, apesar da dor.

— É verdade, Maya. Ser baixinha é o nosso superpoder secreto.

Sarah terminou de enfaixar o tornozelo de Alice com uma compressa de gelo firme.

— Não parece ter quebrado, mas os ligamentos sofreram um estiramento considerável. Você vai precisar de muletas e repouso absoluto por pelo menos cinco dias, Alice. Nada de areia, nada de escadas.

— Cinco dias? — Alice entrou em pânico. — Mas a prova de cálculo... e o torneio...

— O torneio já era, Alice — Mateus disse, sentando-se no chão ao lado do sofá. Ele pegou a mão dela, ignorando a presença da mãe e da irmã. — Sinto muito. Eu estraguei tudo.

— Mateus Miller, pare com isso — Alice disse, apertando os dedos dele. — Foi um acidente. Você me ensinou sobre o caos, lembra? O caos não avisa quando vai chegar.

Sarah observava a interação dos dois com um olhar terno. Ela conhecia o filho; sabia o quanto ele era fechado e o quanto se cobrava por tudo. Ver Mateus tão vulnerável e dedicado a alguém era uma novidade reconfortante.

— Bom — disse Sarah, levantando-se —, Alice não pode ficar sozinha em casa com esse pé. Como seus pais estão fora, você fica aqui conosco hoje. Vou preparar uma sopa e Mateus vai te ajudar com qualquer coisa que você precisar.

— Eu posso mostrar meus desenhos para ela? — Maya perguntou, animada.

— Só se ela não estiver com sono, Maya — Mateus respondeu, mas seu olhar ainda não saía de Alice.

Nas horas seguintes, Alice experimentou um lado da vida de Mateus que ela nunca imaginou. A casa dos Miller era quente e cheia de vida. Maya não parava de falar, mostrando seus desenhos e contando como Mateus era "chato" antes de conhecer Alice.

— Ele não sorria nunca — Maya sussurrou, sentada no tapete ao lado de Alice. — Mas agora ele fica olhando para o celular e sorrindo sozinho. Minha mãe diz que é o "efeito Alice".

Mateus, que estava na cozinha ajudando a mãe com o jantar, fingiu não ouvir, mas Alice viu suas orelhas ficarem vermelhas novamente.

Mais tarde, após a sopa deliciosa de Sarah, a casa se acalmou. Maya foi dormir e Sarah foi para o andar de cima ler um pouco, deixando os dois sozinhos na penumbra da sala, iluminada apenas por uma pequena luminária de canto.

Mateus estava sentado no chão, encostado no sofá, bem ao lado da cabeça de Alice.

— Você está melhor? — ele perguntou em voz baixa.

— O gelo ajudou muito. E sua família é incrível, Mateus. Sua mãe é um anjo e a Maya... bem, a Maya é uma figura.

— Elas te adoraram — ele disse, olhando para as próprias mãos. — Eu estava com medo de te trazer aqui. Minha vida é meio bagunçada, a casa nem sempre está em ordem... e eu não queria que você visse que o seu instrutor "perfeito" vive no meio de desenhos de giz de cera e latas de sopa.

Alice esticou a mão e tocou o ombro dele, fazendo-o olhar para ela.

— Mateus, eu sou a garota das listas e da ordem, lembra? Mas essa casa... ela tem algo que a minha, com toda a sua perfeição e silêncio, às vezes não tem. Ela tem calor. Ela parece um lar.

Mateus suspirou, um som de alívio, e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos no sofá.

— Eu fiquei com tanto medo quando você caiu — ele confessou, a voz quase sumindo. — Eu vi você no chão e, por um segundo, o mundo parou. Eu percebi que, se algo acontecesse com você por minha causa, eu nunca me perdoaria. Não é só pelo esporte, Alice. É que... você se tornou a parte mais importante do meu dia.

Alice sentiu os olhos marejarem, mas desta vez não era de dor.

— Eu vou ficar bem, Mateus. É só um tornozelo. Eu ainda tenho o cérebro intacto para te dar broncas em matemática.

— É — ele riu, um som suave e triste. — Mas eu vou ter que ser o seu motorista, seu carregador de mochila e seu apoio de muleta pelos próximos dias. É o meu castigo.

— Não parece um castigo tão ruim para mim — ela brincou.

Mateus aproximou o rosto do dela. O ambiente estava carregado com uma ternura que nenhum deles sabia que era possível em meio a um acidente.

— Posso te pedir uma coisa? — ele perguntou.

— O que for.

— Não tente ser a "filha obediente" e a "aluna perfeita" nos próximos dias. Deixe que eu cuido de tudo. Deixe que eu seja o seu suporte, do mesmo jeito que você foi o meu quando eu estava afundando em álgebra.

— Tudo bem — ela sussurrou. — Eu aceito o acordo.

Mateus selou o trato com um beijo suave em sua testa e depois nos lábios. Foi um beijo que prometia cuidado e paciência, algo que Alice nunca soube que precisava tanto.

— Sabe de uma coisa? — Alice disse, quando ele se afastou um pouco.

— O quê?

— A probabilidade de eu me apaixonar pelo meu instrutor rabugento era de uma em um milhão.

Mateus sorriu, o sorriso largo e deslumbrante que agora pertencia apenas a ela.

— Sorte a minha que você sempre foi ótima com números improváveis, Smith.

Naquela noite, Alice dormiu no quarto de hóspedes dos Miller, sob o olhar atento de Sarah e os cuidados constantes de Mateus, que aparecia a cada hora para trocar o gelo ou perguntar se ela precisava de algo. Ela percebeu que, embora o tornozelo estivesse quebrado, algo dentro dela havia se curado. A areia da quadra podia ser instável, mas o chão que Mateus Miller oferecia para ela agora era o mais firme que ela já havia pisado. E, pela primeira vez, Alice não tinha um plano para o dia seguinte; ela apenas sabia que, independentemente do que acontecesse, ela não teria que caminhar — ou mancar — sozinha.