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Observando o futuro

O Labirinto de um Coração de Cristal

A atmosfera em Konoha havia mudado drasticamente. O que antes era apenas uma vila em alerta de guerra, agora parecia um grande anfiteatro onde a plateia — os ninjas e civis — tentava digerir as revelações divinas que caíam do céu. Naruto, Sakura e Kakashi mal tinham se acomodado nos bancos de madeira do Ichiraku Lamen quando a tela, que todos julgavam ter terminado sua transmissão por aquele dia, voltou a brilhar. Desta vez, porém, a luz não era azulada, mas de um vermelho profundo, quase como o chakra da Raposa de Nove Caudas, mas sem a intenção assassina.

As imagens se formaram rapidamente. Não era um campo de batalha, nem uma floresta gelada. Era um espaço mental, um vazio branco onde as emoções pareciam ganhar forma física. No centro dessa projeção, Naruto estava sentado no chão, abraçando os próprios joelhos. Ele parecia mais jovem, talvez com doze ou treze anos, mas sua voz, que ecoou por toda a Vila da Folha, tinha a profundidade de alguém que já havia vivido mil vidas.

— Eu sei, sabe? — disse o Naruto da tela, falando para o nada. — Eu sei que ele não vai olhar para mim do jeito que eu olho para ele. Não agora.

Em Konoha, o Naruto real parou com os hashis a milímetros da boca. O suor frio escorreu por sua nuca. Aquilo não era o futuro. Aquilo era o seu interior. Eram os pensamentos que ele trancava sob sete chaves, atrás das grades de Kurama.

A imagem na tela mudou para uma memória: o antigo Time 7 descansando após uma missão. Sasuke estava encostado em uma árvore, limpando uma kunai, enquanto Sakura tentava chamar sua atenção. Naruto, na memória, estava rindo e fazendo barulho, mas a tela deu um zoom em seus olhos. Não havia irritação ali. Havia uma observação silenciosa, dolorosa e aguda.

— Ele é tão focado em seu ódio que não sobra espaço para mais nada — a voz do Naruto interior continuou a narrar. — E a Sakura-chan... ela acha que eu sou um idiota que não percebe o quanto ela sofre. Mas o que dói de verdade não é ser chamado de baka. O que dói é ver o Sasuke fingir que eu não existo, quando eu sei que, no fundo, ele sente a mesma solidão que eu.

O mundo ninja parou. As pessoas sempre viram Naruto Uzumaki como o garoto barulhento, o ninja hiperativo e cabeça-oca que corria atrás de Sasuke por uma promessa ou por uma rivalidade infantil. Ninguém — nem mesmo Sakura, nem Kakashi, e certamente nem Sasuke — imaginava que ele possuía tamanha consciência sobre a dinâmica emocional entre eles.

A tela então mostrou uma cena inédita, algo que parecia ocorrer em um futuro próximo, logo após o reencontro no esconderijo de Orochimaru. Naruto estava sozinho, ofegante, com o peito subindo e descendo. Ele não estava chorando; ele estava furioso.

— Por que você não diz logo, Sasuke? — gritou o Naruto da tela, socando uma parede de pedra até seus nós dos dedos sangrarem. — Por que você não diz que me odeia de verdade? Por que você não me manda embora e diz que eu não significo nada?

A imagem cortou para Sasuke. O Uchiha estava nas sombras, observando Naruto de longe, com uma expressão que não era de ódio, mas de uma agonia contida.

— Porque se eu disser isso, Naruto — sussurrou o Sasuke da tela, tão baixo que apenas o público podia ouvir —, eu estarei mentindo. E se eu não mentir, eu não vou conseguir te deixar para trás.

De volta ao presente, a Sakura real sentiu um nó na garganta. Ela olhou para Naruto, que estava estático, com o rosto escondido pelas sombras do seu cabelo loiro.

— Naruto... você sempre soube? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Eu não sou tão burro quanto pareço, Sakura-chan — respondeu ele, sem olhar para ela. — Eu só... eu achava que se eu fingisse que era tudo uma grande competição, a dor de ser rejeitado por ele seria menor. Se ele fosse meu rival, eu podia lutar contra ele. Se ele fosse apenas meu amigo... como eu ia lidar com o fato de que ele preferia o ódio a mim?

A tela brilhou intensamente e uma nova sena surgiu. Era um confronto verbal intenso. Naruto estava diante de Sasuke em um campo aberto. Não havia armas, apenas palavras.

— Você é um covarde, Sasuke! — rugiu o Naruto da tela, avançando e segurando a gola da capa do Uchiha. — Você se esconde atrás dessa vingança porque tem medo! Tem medo de admitir que ainda se importa com a vila, que se importa com a Sakura... e que se importa comigo!

— Cale a boca, Naruto! — rebateu Sasuke, tentando empurrá-lo, mas Naruto era uma âncora.

— Não calo! — Naruto o sacudiu com uma força violenta. — Dá um fora em mim logo! Se você quer tanto que eu te esqueça, se você quer tanto ser um vingador solitário, então me quebra de uma vez! Me diz que eu sou um lixo, que você nunca me considerou um irmão, que todos aqueles momentos no Time 7 foram um erro! Me dá um fora definitivo para eu poder parar de ter esperança!

Sasuke ficou em silêncio na tela. Seus olhos vagaram pelo rosto de Naruto, parando nas marcas de bigodes em suas bochechas. Sua mão subiu, não para atacar, mas para tocar o rosto do loiro, parando a centímetros da pele.

— Eu não posso — disse Sasuke, a voz quebrada. — Eu não posso te dar um fora, Naruto. Porque você é a única coisa que me faz sentir que eu ainda sou humano. E é por isso que eu tenho que te matar. Se eu não te matar, eu nunca serei capaz de te odiar o suficiente.

A revelação atingiu a Vila da Folha como uma explosão de pergaminho explosivo. Os ninjas de elite, como Guy e Asuma, trocaram olhares de puro choque. A rivalidade entre os dois não era apenas uma questão de poder ou de ideologia ninja; era um emaranhado emocional tão profundo que beirava o trágico.

— Isso é doentio — murmurou um shinobi na multidão. — Eles estão presos um ao outro por algo muito maior que uma amizade.

Na tela, Naruto soltou a gola de Sasuke e deu um passo para trás, rindo amargamente.

— Então é isso? Você é tão egoísta que prefere me matar a me rejeitar? Você prefere carregar o peso de ser um assassino do que admitir que me ama como um irmão? Você é um lixo, Sasuke. Um lixo completo.

— Eu sei — respondeu o Uchiha, desembainhando sua Kusanagi. — Mas é o único caminho que me restou.

A imagem começou a se dissolver, mas a voz de Naruto continuou a ecoar, como se estivesse narrando o encerramento daquele capítulo mental.

— Eu sempre soube o que ele sentia. Eu sentia o chakra dele, a solidão dele, o medo dele toda vez que nossas mãos se tocavam em combate. As pessoas acham que eu sou cego, mas eu sou o único que realmente enxerga o Sasuke. E é por isso que eu não posso desistir. Se eu desistir, ele se perde no escuro para sempre. E eu não vou deixar o meu melhor amigo morrer só porque ele é orgulhoso demais para admitir que precisa de um abraço.

A tela se apagou finalmente, deixando o céu de Konoha em um azul crepuscular. O silêncio no Ichiraku era absoluto. Teuchi, o dono do restaurante, limpava o balcão com os olhos marejados, sem saber o que dizer ao seu cliente favorito.

Naruto finalmente levantou a cabeça. Seus olhos não estavam tristes; eles brilhavam com uma determinação renovada, mas temperada por uma maturidade que assustava.

— Ele é um idiota — disse Naruto, sua voz normal agora, mas com um peso diferente. — Ele realmente acha que matar o que ele ama vai dar poder a ele.

— Naruto... — Sakura começou, colocando a mão sobre a dele. — Eu nunca percebi que você carregava essa percepção. Eu sempre achei que eu era a única que sofria por ele, mas você... você estava sofrendo de um jeito muito mais profundo. Você estava vendo a alma dele enquanto eu só via a superfície.

— Tudo bem, Sakura-chan — disse ele, dando um pequeno sorriso triste. — Agora o mundo todo sabe. Não tem mais como ele se esconder atrás de mentiras. Aquela tela... ela tirou a máscara dele.

Kakashi, que estivera em silêncio o tempo todo, suspirou profundamente, fechando seu livro *Icha Icha* e guardando-o no bolso.

— Naruto, Sasuke sempre foi um mestre em ocultar suas intenções, mas ele nunca foi bom em esconder o que sente de você. O problema é que nenhum de vocês dois sabia como lidar com isso sem usar os punhos.

— É — concordou Naruto. — Mas agora eu sei o que tenho que fazer. Na próxima vez que eu o vir, eu não vou apenas lutar contra ele. Eu vou forçá-lo a falar. Ele vai ter que me encarar sem o Sharingan, sem o ódio, sem as desculpas.

Enquanto isso, em algum lugar nas florestas que cercavam o País do Fogo, o Sasuke do presente estava sentado na raiz de uma árvore imensa. Ele estava tremendo. A tela que o perseguia acabara de mostrar ao mundo inteiro suas fraquezas mais íntimas, seus pensamentos mais vergonhosos. Ele sentia como se estivesse nu diante de todas as nações.

— Naruto... — sussurrou ele, apertando o cabo de sua espada. — Como você ousa? Como você ousa entrar na minha cabeça assim?

Ele se lembrou da imagem de si mesmo na tela, admitindo que não conseguia dar um "fora" em Naruto porque ele era sua única conexão com a humanidade. A verdade era um veneno que Sasuke vinha tentando diluir com sangue há anos, mas agora, o antídoto havia sido forçado goela abaixo.

Ele não podia mais fingir. Ele não podia mais se esconder atrás da fachada de vingador frio. O mundo sabia que o grande Sasuke Uchiha estava, na verdade, apavorado com a ideia de perder o laço com um garoto loiro e barulhento de Konoha.

— Eu vou te matar por isso — disse ele para o vento, mas suas lágrimas o traíram, caindo sobre a lâmina fria da Kusanagi. — Eu vou te matar porque você me fez sentir... de novo.

De volta à vila, a notícia das visões se espalhava como fogo em palha seca. Os outros membros dos 11 de Konoha se reuniram na praça central.

— Vocês viram aquilo? — perguntou Shikamaru, coçando a cabeça, parecendo mais exausto do que o normal. — O Naruto é muito mais complicado do que a gente pensava. Aquilo de ele pedir pro Sasuke dar um fora nele logo... foi um saco de assistir, mas foi real.

— Eu achei corajoso — disse Hinata, com as bochechas coradas, mas o olhar firme. — O Naruto-kun prefere a dor da verdade do que o conforto de uma mentira. Ele é... ele é incrível.

— É uma bagunça — comentou Neji, de braços cruzados. — Mas é uma bagunça que pode salvar o mundo. Se o Sasuke não consegue odiar o Naruto, então a guerra dele já está perdida. Ele só não percebeu ainda.

A noite caiu sobre as Nações Elementares, mas ninguém dormiu tranquilamente. A tela havia mudado a percepção de todos sobre o que significava ser um ninja. Não se tratava apenas de jutsus poderosos ou estratégias de guerra; tratava-se da coragem de enfrentar o labirinto do próprio coração.

Naruto Uzumaki, o órfão que todos desprezavam, provou ser o mestre das emoções mais puras. E Sasuke Uchiha, o gênio prodígio, provou ser o aluno mais lento na escola da vida.

O Vale do Fim ainda estava no futuro, mas o confronto emocional já havia começado. E, pela primeira vez, Naruto sentia que estava ganhando, não com um Rasengan, mas com a simples e devastadora verdade de que ele nunca estaria sozinho — e nem Sasuke.

A última imagem que brilhou na mente de Naruto antes de ele adormecer naquela noite não foi a de uma batalha, mas a do Sasuke sentado ao seu lado, no banco do Time 7, em um silêncio que finalmente não era carregado de dor, mas de uma aceitação mútua.

— Eu vou te trazer de volta, Sasuke — murmurou ele para o escuro do seu quarto. — E dessa vez, você vai ter que me dizer as palavras, quer queira, quer não.

O mundo ninja esperava pelo próximo capítulo da tela, mas Naruto já estava escrevendo o seu próprio destino. A máscara havia caído, e sob ela, restava apenas a promessa de um abraço que curaria o mundo.