Octagrama
O Equilíbrio entre a Doçura e o Caos
O silêncio no salão do Octagrama era tão espesso que poderia ser cortado com uma lâmina. Clayman, cujas mãos agora tremiam visivelmente, tentava desesperadamente recompor sua máscara de aristocrata, mas o suor que escorria por sua têmpora traía seu pavor. Diante dele, sentada no trono que pertencia ao ser mais perigoso do mundo, Rimuru Tempest exalava uma serenidade que era, de certa forma, mais aterrorizante do que a fúria de Guy.
— Então — começou Rimuru, cruzando as pernas com elegância, enquanto Guy ajustava uma almofada atrás de suas costas com um cuidado quase cômico para quem o conhecia como o Senhor do Orgulho —, você disse que eu manipulei o Veldora? Que eu sou uma "fraude" que se aproveita da força alheia?
Clayman engoliu em seco, olhando para os lados em busca de apoio, mas encontrou apenas os olhares gélidos de Leon Cromwell e a indiferença cortante de Luminous Valentine.
— Eu... eu apenas relatei o que meus informantes... — Clayman tentou balbuciar.
— Seus informantes são tão incompetentes quanto você, Clayman — Rimuru o interrompeu, sua voz soando como um sino cristalino. — Eu não "me vendi" ao Veldora. Nós nos conhecemos quando eu não era nada além de um pequeno slime preso em uma caverna. Ele estava selado, solitário. Nós trocamos nomes. Ele me deu o nome Tempest, e eu prometi que o libertaria. Ele é meu irmão de alma, meu primeiro amigo neste mundo.
Veldora, que estava parado logo atrás do trono, inflou o peito, sua aura dourada faiscando com orgulho.
— EXATAMENTE! — o Dragão da Tempestade rugiu, fazendo as janelas do palácio tremerem. — Rimuru é a única criatura que não tremeu diante da minha presença! Ela me ofereceu amizade quando o mundo me deu o esquecimento! Como ousa esse inseto insinuar que minha irmãzinha é...
— Veldora. — Rimuru apenas suspirou, sem sequer elevar o tom de voz.
Imediatamente, o rugido de Veldora cessou. O dragão lendário, cujas simples lendas faziam nações inteiras rezarem por misericórdia, fechou a boca no mesmo instante e cruzou os braços, fazendo um biquinho emburrado, mas permanecendo em silêncio absoluto. A demonstração de autoridade de Rimuru sobre o Dragão Verdadeiro deixou os outros Lordes Demônios, especialmente Dino e Dagruel, boquiabertos.
— Obrigada — disse Rimuru, voltando sua atenção para Clayman. — Sobre a Milim e a Ramiris... elas não são minhas ferramentas. São minha família. Milim encontrou em Tempest um lugar onde pode ser ela mesma, sem as pressões de ser um "Lorde Demônio" o tempo todo. E Ramiris... bem, ela precisava de um lugar para suas invenções e de alguém que realmente apreciasse o gênio dela.
— É verdade! — Ramiris gritou, voando em círculos sobre a cabeça de Rimuru. — Ela me dá sobremesas maravilhosas e nunca diz que minhas ideias são loucas!
Guy Crimson, que até então apenas observava com um sorriso possessivo, inclinou-se sobre o trono, colocando uma mão no ombro de Rimuru e a outra acariciando levemente o ventre dela.
— E quanto a mim, Clayman? — Guy perguntou, sua voz baixa e vibrante de perigo. — Você sugeriu que ela me seduziu por proteção.
Rimuru soltou uma risadinha, o que fez Clayman empalidecer ainda mais.
— Seduzi? — Rimuru olhou para o marido com um brilho divertido nos olhos. — Guy, você se lembra de quem pediu quem em casamento?
Guy soltou um suspiro dramático, seus olhos vermelhos suavizando-se instantaneamente ao encontrar os dourados de Rimuru.
— Eu implorei, admito — disse Guy, sem um pingo de vergonha diante de seus pares. — Levei décadas tentando convencê-la de que eu era digno. E mesmo agora, sinto que sou eu quem ganha com essa união.
A sala entrou em choque. Guy Crimson, o primeiro dos Lordes Demônios, o ser que não se curvava a ninguém, estava ali, admitindo submissão emocional diante de todos.
— Ele é um marido muito dedicado — continuou Rimuru, sorrindo para a plateia estupefata. — Ele é carinhoso, atencioso e, honestamente, obedece a quase tudo o que eu peço sem que eu precise usar qualquer habilidade de manipulação. Ele simplesmente adora ser "mandado" por mim, especialmente se eu prometer algum carinho ou atenção especial depois de um longo dia de trabalho.
Guy deu um beijo casto no topo da cabeça de Rimuru, confirmando cada palavra. Rain e Misery, ao fundo, trocaram olhares de "nós avisamos". Elas já tinham visto Guy cancelar reuniões importantes apenas porque Rimuru mencionou que queria comer morangos frescos no café da manhã.
— Isso é... isso é um ultraje! — Clayman gritou, a voz falhando. — Você transformou o maior de nós em um animal de estimação! E sua nação... aqueles monstros evoluem rápido demais! Você deve estar usando magias proibidas, lavagem cerebral!
Rimuru suspirou novamente, desta vez com um toque de pena.
— Lavagem cerebral? Não, Clayman. É algo muito mais simples, chamado motivação. Em Tempest, as pessoas trabalham duro porque amam sua nação e porque as recompensas valem a pena.
— Recompensas? — Luminous Valentine perguntou, genuinamente curiosa. — Que tipo de tesouros você oferece para que orcs e goblins alcancem níveis de desastre em meses?
Rimuru corou levemente, o que a deixou ainda mais adorável na visão de Guy.
— Bem... para os meus subordinados diretos, as recompensas são o que chamamos de "Bênçãos Divinas de Tempest". Dependendo da dificuldade da tarefa ou do empenho no trabalho, eles ganham coisas simples. Pode ser um doce especial que eu mesma preparo, ou... — ela hesitou — um carinho na cabeça. Ou um elogio pessoal.
— Carinhos? — Clayman riu histericamente. — Você está me dizendo que seus generais lutam guerras por um afago na cabeça?
— Você não faz ideia, Clayman — disse Rimuru, agora com um olhar sério. — Existe uma competição feroz em Tempest. Benimaru, Shion, Shuna, todos eles têm níveis de dificuldade para suas tarefas. Quanto mais difícil o trabalho, mais demorado e atencioso é o carinho. Eles evoluem para serem mais eficientes, para terminarem suas tarefas mais rápido e, assim, terem a chance de receber uma dessas "bênçãos". Para eles, ser reconhecido por mim é o maior prêmio que existe.
Guy apertou um pouco mais o ombro de Rimuru, um lampejo de ciúmes cruzando seu rosto.
— Eu ainda acho que você é gentil demais com eles, querida — resmungou Guy. — Eu deveria ser o único a receber esses carinhos.
— Guy, você recebe carinhos todos os dias — Rimuru o repreendeu suavemente, dando tapinhas na mão dele. — Não seja ganancioso. O bebê precisa de um pai que saiba compartilhar.
O Lorde Demônio mais temido do mundo fez um beicinho que rivalizava com o de Veldora, mas se calou, aceitando a repreensão com uma docilidade que fazia os outros Lordes Demônios questionarem se tinham entrado em uma dimensão paralela.
— Agora, Clayman — Rimuru disse, levantando-se do trono com a ajuda de Guy. — Você insultou minha família, mentiu sobre meus amigos e, pior de tudo, estressou uma mulher grávida. Você tem ideia do que o estresse faz com o desenvolvimento de um bebê?
Guy deu um passo à frente, a aura de "Pai Protetor" misturando-se com a de "Lorde Demônio Assassino".
— Eu ia apenas te matar de forma rápida — disse Guy, seus dedos se transformando em garras afiadas — mas agora que Rimuru explicou o quanto você foi inconveniente, acho que vou deixar que ela decida o seu destino. Afinal, eu sou um marido obediente, não sou?
Rimuru olhou para Clayman, que caiu de joelhos, o peso da pressão mágica de Guy, Veldora e da própria Rimuru finalmente esmagando sua vontade.
— Sabe, Clayman — Rimuru disse, caminhando lentamente até ele —, eu queria uma reunião pacífica. Eu queria apenas comer meu bolo e descansar. Mas você insistiu em criar esse teatro.
— Por favor... Lady Rimuru... eu não sabia... — Clayman começou a implorar, as lágrimas borrando sua maquiagem.
— Você não sabia porque é arrogante demais para enxergar além do seu próprio nariz — Rimuru retrucou. — Você achou que, por eu ser um slime, eu era fraca. Você esqueceu que o mundo não gira em torno de poder bruto, mas de conexões. Eu tenho o amor do meu marido, a lealdade dos meus amigos e a devoção do meu povo. O que você tem?
Clayman não teve resposta. Ele olhou ao redor e viu apenas desprezo nos rostos dos Lordes Demônios. Até mesmo Frey, que ele considerava uma "aliada", desviou o olhar com nojo.
— Rain, Misery — chamou Rimuru.
As duas empregadas demônias apareceram instantaneamente ao lado dela, curvando-se.
— Sim, Lady Rimuru?
— Levem o senhor Clayman para o centro da arena. Acho que a Milim tem um assunto pendente com ele sobre certas tentativas de controle mental, não é, Milim?
Milim Nava deu um salto, estalando os nós dos dedos com um sorriso predatório.
— Oh, sim! Eu estava esperando por isso! Ele foi muito, muito malvado!
— E depois que a Milim terminar — Guy acrescentou, sua voz fria como o vácuo —, eu mesmo farei a limpeza. Ninguém insulta a mãe do meu filho e vive para contar a história.
Rimuru sentou-se novamente, sentindo um pequeno movimento em seu ventre. Ela sorriu, relaxando contra o peito de Guy, que a envolveu em um abraço protetor.
— Viu? — Rimuru murmurou para o marido. — Eu disse que vir aqui seria bom para resolver as coisas de uma vez.
— Você sempre tem razão, minha deusa — Guy sussurrou em seu ouvido, ignorando completamente os gritos de desespero de Clayman sendo arrastado para fora. — Mas depois disso, vamos voltar para o Palácio de Gelo. Você precisa de repouso, e eu preciso de... bem, você sabe. Minha recompensa por ser um bom marido hoje.
Rimuru riu, passando a mão pelos cabelos vermelhos de Guy.
— Veremos, Guy. Depende de quão bem você se comportar durante o chá.
Veldora, observando a cena, soltou uma gargalhada ruidosa.
— KUHAHAHA! Realmente, este mundo é fascinante! Quem diria que o grande Guy Crimson seria domado por um slime grávida! Eu preciso escrever isso nas crônicas de Veldora!
— Se você escrever uma palavra sobre isso, Veldora — Guy disse, sem desviar os olhos de Rimuru —, eu vou selar você em uma dimensão onde só existam livros de matemática avançada por mil anos.
Veldora empalideceu e sentou-se em um canto, subitamente muito interessado em uma rachadura no chão.
A reunião do Octagrama, que Clayman pretendia usar para destruir Rimuru, acabou se tornando o palco da revelação do casal mais poderoso da história. E enquanto o chá era servido por Rain, Rimuru sentia-se em paz. Ela tinha sua família, seu marido devoto e a certeza de que seu filho cresceria em um mundo onde ninguém ousaria desafiar o nome Tempest.
— Você está bem, querida? — Guy perguntou, sua mão repousando sobre a dela.
— Estou ótima, Guy — Rimuru respondeu, fechando os olhos por um momento. — Só estou pensando que, da próxima vez, talvez devêssemos contar para o resto do mundo sobre nós. Seria menos trabalhoso do que lidar com idiotas como o Clayman.
— Como desejar, minha rainha — Guy sorriu, beijando a mão dela. — O mundo inteiro saberá que você é minha, e que eu sou seu. Mas por enquanto... apenas aproveite o seu chá.
E assim, entre ameaças de morte e carinhos trocados, a ordem do mundo foi mantida sob o olhar atento do Lorde Demônio e de sua amada esposa slime.