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Octagrama

O Rugido do Sangue e o Silêncio do Gelo

A mesa de ébano do Octagrama vibrava, não por um terremoto externo, mas pela aura opressiva que emanava de sua cabeceira. Guy Crimson, o Lorde Demônio mais antigo e temido, estava sentado de forma rígida, seus dedos longos e pálidos tamborilando no braço do trono com uma cadência que lembrava a contagem regressiva para uma explosão nuclear. Seus olhos, vermelhos como poças de sangue fresco, varriam a sala com uma agressividade tão nua que até mesmo os Lordes Demônios mais jovens evitavam o contato visual.

— Guy, sobre a redistribuição das zonas de influência no oeste... — começou Dagruel, tentando manter a voz firme apesar do suor que brotava em sua testa.

— Cale a boca, Dagruel — Guy o interrompeu, sua voz soando como o estalar de ossos secos. — Se você disser mais uma palavra sobre fronteiras ou comércio, eu juro que vou transformar o seu deserto em um mar de vidro permanente. Estou sem paciência para suas trivialidades geográficas hoje.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Dagruel, um gigante que raramente recuava, apenas fechou a boca e cruzou os braços, bufando de indignação contida. Ele sabia que desafiar Guy naquele estado era pedir pelo esquecimento.

Ao lado de Guy, a situação não era melhor. Milim Nava, normalmente a personificação da energia caótica e da alegria infantil, estava com os braços cruzados sobre o peito, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de fúria absoluta. Ela não estava comendo mel. Ela não estava brincando com Ramiris. Ela estava apenas emanando uma pressão mágica que fazia as cadeiras ao redor rangerem.

— Milim, você gostaria de... — tentou Dino, bocejando por hábito, mas parando no meio do caminho.

— Se você terminar essa frase, Dino, eu vou te dar um soco que vai te mandar de volta para a Era Mitológica — Milim rosnou, seus olhos brilhando com a luz destrutiva do Star Buster. — Eu não quero conversar. Eu não quero estar aqui. Eu quero sair daqui agora!

Ramiris, flutuando de forma errática perto da cabeça de Guy, parecia uma pequena fada possuída por um espírito de vingança. Suas asas batiam tão rápido que produziam um som agudo e irritante.

— Isso é um absurdo! — gritou a pequena Rainha dos Espíritos. — Uma reunião técnica? Agora? Vocês são todos uns idiotas sem coração! Se alguma coisa acontecer e a gente não estiver lá, eu vou amaldiçoar cada um de vocês com pesadelos eternos!

Luminous Valentine suspirou, ajeitando seu vestido gótico com uma elegância cansada. Ela era uma das poucas que entendia o motivo daquele mau humor coletivo, mas até sua paciência tinha limites.

— Guy, entendo que todos estamos ansiosos, mas essa reunião foi agendada há décadas para discutir o selo das Criaturas do Caos — disse Luminous, tentando ser a voz da razão. — Não podemos simplesmente sair no meio...

— Assista-me — Guy retrucou, inclinando-se para a frente, a aura de "Pai e Marido em Pânico" sobrepondo-se à de Lorde Demônio. — Rimuru está com nove meses e duas semanas. O bebê pode vir a qualquer segundo. Se eu perder o nascimento do meu herdeiro porque estou ouvindo vocês discutirem sobre selos que não se rompem há mil anos, eu vou pessoalmente romper cada um deles só para ter o prazer de ver vocês tentarem consertar sozinhos enquanto eu troco fraldas.

A imagem mental de Guy Crimson trocando fraldas teria sido cômica em qualquer outra circunstância, mas ninguém se atreveu a rir. A tensão era real. Rimuru Tempest, a esposa de Guy e o coração de todos ali presentes, estava em Tempest, cercada por médicos e subordinados, esperando o momento do parto. O acordo era que Guy, Milim e Ramiris estariam presentes, mas o Octagrama tinha regras ancestrais sobre reuniões de emergência que não podiam ser ignoradas sem consequências diplomáticas graves.

— Ela vai ficar muito triste — murmurou Milim, sua voz subitamente quebrando de raiva para uma tristeza genuína. — O Rimuru-nava prometeu que a gente ia segurar a mão dela. Se a gente chegar atrasado, ela vai chorar. E se ela chorar, o mundo não merece existir.

— Exatamente! — Ramiris choramingou. — E o Veldora vai esfregar na nossa cara para sempre que ele estava lá e nós não!

Guy sentiu um espasmo de fúria ao pensar no "lagarto" se gabando. Veldora tinha se recusado a sair do lado de Rimuru, alegando que "um Dragão Verdadeiro deve proteger a nova vida", o que na verdade significava que ele queria ser o primeiro a ensinar o bebê a rir de forma maníaca.

— Rain! Misery! — Guy gritou, fazendo as duas empregadas aparecerem instantaneamente. — Alguma mensagem de Tempest? Algum sinal de comunicação através do corredor espacial?

— Ainda nada, Lorde Guy — respondeu Rain, mantendo a compostura, embora seus próprios olhos mostrassem preocupação. — Lady Rimuru estava descansando quando partimos. Ela parecia calma, mas Lady Shuna mencionou que as contrações de Braxton Hicks estavam ficando mais frequentes.

Guy rugiu, um som gutural que fez as janelas do salão de cristal trincarem.

— Braxton o quê?! — ele se levantou, derrubando o pesado trono de obsidiana para trás. — Por que estamos aqui falando sobre impostos e monstros selados quando minha esposa está tendo contrações de nomes estranhos?!

— Guy, acalme-se — Leon Cromwell interveio, sua voz fria como sempre. — Rimuru é poderosa. Ela tem a sabedoria de Raphael e o apoio de uma nação inteira. Ela não é uma donzela indefesa.

— Eu sei disso, Leon! — Guy disparou, apontando o dedo para o outro Lorde Demônio. — Mas ela é minha! E se ela se sentir sozinha ou assustada por um segundo que seja porque eu não estava lá, eu vou considerar isso uma falha pessoal imperdoável!

Nesse momento, o espaço no centro da mesa redonda começou a ondular. Uma luz azulada e suave surgiu, e uma voz familiar e levemente mecânica ecoou pelo salão, mas com uma urgência que não era comum.

— Relatório. O processo de nascimento de um novo indivíduo de classe Transcendente foi iniciado. Lady Rimuru Tempest entrou em trabalho de parto ativo.

O silêncio que se seguiu durou apenas meio segundo.

— O QUÊ?! — Guy, Milim e Ramiris gritaram em uníssono.

A transformação de Guy foi instantânea. Ele não era mais o Lorde Demônio entediado; ele era uma força da natureza. Suas asas vermelhas se abriram com um estrondo, derrubando tudo o que estava sobre a mesa.

— A reunião acabou! — Guy declarou, sua voz ecoando com uma autoridade que não aceitava réplicas. — Se alguém tentar me impedir de sair deste salão, eu vou considerar um ato de guerra total. Luminous, Leon... cuidem do resto. Se o mundo acabar enquanto eu estiver fora, tentem manter as cinzas organizadas.

— Esperem por mim! — Milim pulou sobre a mesa, correndo em direção ao portal que Guy já estava rasgando no tecido da realidade com as próprias mãos. — Eu vou ser tia! Saiam da frente!

Ramiris mergulhou no decote de Milim para não ser deixada para trás.

— Vamos logo, Guy! Abra isso mais rápido! — gritava a pequena fada.

Guy não precisava de incentivo. Ele canalizou uma quantidade absurda de energia mágica, forçando um portal direto para os aposentos privados de Rimuru em Tempest, ignorando todas as barreiras de segurança e protocolos de teletransporte.

— Rimuru! — Guy rugiu ao atravessar o portal, surgindo no meio do quarto em Tempest.

O cenário que o recebeu era de caos controlado. Shuna e Shion estavam correndo com bacias de água morna e toalhas de linho fino. Diablo estava parado em um canto, rezando para uma estátua de Rimuru com uma intensidade assustadora. E no centro de tudo, deitada em uma cama imensa de seda, estava Rimuru.

Ela estava em sua forma humana, o suor colando seus cabelos prateados à testa, os olhos dourados semicerrados enquanto ela respirava compassadamente sob a orientação de Raphael. Quando ela viu Guy, um sorriso fraco e aliviado iluminou seu rosto.

— Você... chegou... — Rimuru ofegou, apertando os lençóis com força quando uma nova onda de dor a atingiu. — Achei que... o Octagrama fosse... mais importante...

Guy caiu de joelhos ao lado da cama em um instante, pegando a mão de Rimuru e cobrindo-a com beijos desesperados. Sua aura assassina desapareceu completamente, substituída por uma vulnerabilidade que apenas ela conhecia.

— Nunca — Guy murmurou, sua voz rouca de emoção. — Nada no universo é mais importante que você, minha rainha. Perdoe-me por demorar. Eu deveria ter queimado aquele salão de reuniões no momento em que saí de casa.

— Guy! — Milim aterrissou do outro lado da cama, pegando a outra mão de Rimuru. — Eu estou aqui! A super melhor amiga chegou! Não se preocupe, o bebê vai sair rapidinho porque eu ordenei!

— Eu também estou aqui, Rimuru! — Ramiris flutuou sobre a barriga dela, derramando pequenas partículas de pó de fada calmante. — Vai dar tudo certo!

Rimuru soltou um gemido alto, apertando as mãos de Guy e Milim com uma força que teria esmagado os ossos de qualquer ser comum.

— Está doendo... — ela sussurrou, as lágrimas começando a brotar. — Guy... dói muito...

Guy sentiu seu coração se despedaçar. Ele, que já tinha visto impérios caírem e já tinha causado massacres sem piscar, sentiu-se completamente impotente diante do sofrimento de sua amada.

— Eu sei, meu amor, eu sei — Guy disse, passando a mão pelo rosto dela, limpando o suor. — Eu estou aqui. Use minha força. Pode apertar o quanto quiser. Eu não vou a lugar nenhum.

— Relatório — a voz de Raphael soou na mente de todos os presentes, graças à conexão de alma. — A dilatação está completa. Lady Rimuru, por favor, concentre sua energia mágica no núcleo central. O herdeiro de Crimson e Tempest está pronto para emergir.

O que se seguiu foi uma hora de tensão absoluta. Guy não soltou a mão de Rimuru por um segundo, sussurrando palavras de encorajamento, promessas de amor e, ocasionalmente, ameaças de morte para qualquer um que fizesse barulho demais no quarto. Veldora apareceu na janela, espiando com uma expressão de preocupação cômica, mas mantendo-se em silêncio pela primeira vez na vida ao ver a seriedade no olhar de Guy.

— Só mais uma vez, Rimuru! — Shuna incentivou, com lágrimas nos olhos. — Você consegue!

Com um último esforço que fez a pressão mágica em Tempest atingir níveis catastróficos, um choro agudo e cristalino ecoou pelo quarto, silenciando instantaneamente o barulho da tempestade que se formava do lado de fora.

Guy parou de respirar. Ele olhou para Shuna, que segurava um pequeno embrulho envolto em seda branca.

— É... uma menina — Shuna anunciou, sua voz falhando de alegria. — Uma princesa perfeita.

Shuna caminhou até Rimuru e Guy, colocando o bebê nos braços exaustos da mãe. Rimuru olhou para a pequena criatura em seus braços — uma bebê com uma penugem de cabelos vermelhos como os de Guy e olhos que, ao se abrirem por um segundo, brilharam com o ouro líquido de Rimuru.

— Ela é... linda — Rimuru sussurrou, as lágrimas finalmente caindo livremente. — Olhe, Guy... ela tem o seu cabelo.

Guy Crimson, o Lorde Demônio do Orgulho, o Primeiro Progenitor, sentiu as pernas fraquejarem. Ele estendeu um dedo trêmulo e tocou a bochecha minúscula da filha. A bebê agarrou seu dedo com uma força surpreendente, soltando um pequeno ruído de satisfação.

— Ela é perfeita — Guy disse, sua voz falhando completamente. — Ela é o nosso milagre, Rimuru.

Milim e Ramiris estavam abraçadas, chorando escandalosamente de felicidade ao pé da cama. Diablo estava curvado em uma reverência tão profunda que sua testa tocava o chão, murmurando sobre a "glória suprema da nova linhagem".

— Qual será o nome dela? — perguntou Ramiris, limpando o nariz com a asa.

Rimuru olhou para Guy, e houve um entendimento silencioso entre eles. Eles já haviam discutido isso em suas noites silenciosas no Palácio de Gelo.

— Vixie — disse Rimuru suavemente. — Vixie Crimson Tempest.

— Um nome digno de quem governará o coração de dois mundos — Guy concordou, inclinando-se para beijar a testa de Rimuru e depois a testa da pequena Vixie.

Naquele momento, as reuniões do Octagrama, as disputas de poder e as preocupações do mundo pareciam pertencer a outra realidade. Ali, naquele quarto em Tempest, existia apenas uma família.

Horas depois, quando Rimuru finalmente adormeceu de exaustão com Vixie em um berço ao lado da cama, Guy permaneceu sentado na poltrona, vigiando cada respiração delas. Rain e Misery entraram silenciosamente, trazendo uma mensagem de cristal.

— Lorde Guy — sussurrou Rain. — O Octagrama enviou uma mensagem pedindo o encerramento formal da reunião. Eles perguntam se... se tudo correu bem.

Guy olhou para sua esposa e sua filha, um sorriso suave e genuíno — algo que ninguém fora daquela sala jamais veria — cruzando seus lábios.

— Diga a eles que a reunião está encerrada permanentemente por hoje — Guy respondeu, sem desviar o olhar. — E diga que, se alguém ousar me convocar para qualquer coisa nos próximos cem anos que não envolva a segurança da minha família, eu vou pessoalmente mostrar a eles por que sou chamado de Lorde do Orgulho.

Rain sorriu, fazendo uma reverência.

— Entendido, meu senhor. E parabéns.

Guy apenas acenou. Ele se levantou, caminhou até o berço e observou a pequena Vixie dormir. Ele sabia que o mundo mudaria a partir daquele dia. Haveria novos desafios, novas ameaças e, certamente, muitas dores de cabeça causadas por uma filha que herdara o poder de dois dos seres mais fortes da existência.

Mas, enquanto ele sentia a mão de Rimuru se mover em direção à sua durante o sono, Guy Crimson soube que nunca tinha sido tão poderoso quanto naquele momento de paz absoluta. Ele era um Lorde Demônio, sim. Mas, acima de tudo, ele era um pai e um marido. E o mundo teria que aprender a lidar com isso.