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O Jogo das Sombras e das Verdades

A semana seguinte ao incidente no banheiro foi um exercício torturante de autocontrole. Para o mundo exterior, Garrett Graham e Clara Logan eram dois polos magnéticos de carga igual: sempre se repelindo com uma força violenta. Na sala de estar da casa dos meninos, o ar vibrava com o sarcasmo deles. Clara fazia questão de criticar cada jogada de Garrett nos replays das partidas, e Garrett devolvia com comentários ácidos sobre a "sensibilidade exagerada" de Clara.

Mas, por baixo da mesa, às vezes o pé dele roçava o dela. E, no silêncio da madrugada, as mensagens apagadas no celular de Clara eram a única prova de que o ódio era apenas a pele que cobria uma carne muito mais faminta.

Hannah Wells, sempre perspicaz, parecia notar que algo estava fora do eixo, mas Garrett era um mestre em desviar a atenção. Ele beijava Hannah na frente de todos, um gesto que fazia o estômago de Clara se revirar em nós, apenas para, dez minutos depois, lançar um olhar para Clara que dizia: *isso não significa nada perto do que fazemos quando a porta está trancada.*

Naquela tarde de quinta-feira, a casa estava estranhamente silenciosa. Logan tinha saído para resolver pendências na reitoria, e os outros meninos estavam no treino extra. Clara tinha ido até lá para buscar um livro que esquecera, acreditando que a casa estaria vazia.

Ela não contava com o fato de Garrett ter sido dispensado do treino por causa de uma leve contusão no ombro.

Quando Clara entrou na sala, encontrou-o jogado no sofá, sem camisa, com um saco de gelo apoiado no ombro direito. A visão do peito largo dele, das tatuagens discretas e da linha do abdômen que desaparecia no cós da calça de moletom fez a boca dela secar instantaneamente.

— O que você está fazendo aqui? — Garrett perguntou, sem abrir os olhos, a voz rouca de sono.

— Vim buscar meu livro. Achei que você estivesse no gelo, Graham. No gelo de verdade, não sentado no sofá com um saquinho de água gelada.

Garrett abriu um olho, um sorriso preguiçoso brincando nos lábios.

— O treinador me mandou para casa. E você, Logan? Veio buscar um livro ou veio ver se eu precisava de uma massagem?

— Nos seus sonhos mais selvagens — ela retrucou, aproximando-se para pegar o volume de capa dura sobre a mesa de centro.

Antes que pudesse recuar, a mão saudável de Garrett disparou, agarrando o pulso dela e puxando-a. Clara perdeu o equilíbrio e caiu sobre ele. O contato da pele quente dele contra a dela foi como um choque elétrico.

— Me solta, Garrett! Alguém pode chegar.

— Ninguém chega antes das seis — ele murmurou, a mão subindo pelo braço dela até a nuca, puxando-a para mais perto. — E você está morrendo de saudade. Eu vi como você me olhou ontem quando eu estava com a Hannah.

— Eu estava sentindo nojo, não saudade — ela mentiu, a respiração já curta.

— Mentirosa — ele sussurrou contra os lábios dela.

O beijo começou como uma disputa de poder, mas rapidamente se transformou em necessidade. Clara montou no colo dele, as mãos perdidas no cabelo curto de Garrett, enquanto ele a puxava para mais perto, ignorando a dor no ombro. O calor na sala subiu drasticamente. Em segundos, a blusa de Clara foi jogada no chão. Ela estava apenas de sutiã, sentindo a textura do moletom dele contra suas pernas e a firmeza dos músculos dele sob suas mãos.

— Você me deixa louco, Clara — ele arfou entre beijos no pescoço dela. — Eu odeio o quanto eu quero você.

— Então pare de querer — ela desafiou, embora estivesse arqueando as costas para o toque dele.

Enquanto isso, a poucos metros dali, na varanda, a porta da frente se abriu. O som foi abafado pelos gemidos e pela respiração pesada do casal no sofá, mas os passos que ecoaram no corredor eram inconfundíveis.

Logan entrou na casa com um humor incomumente animado. Ele tinha acabado de encontrar um colega da equipe de natação, um cara legal, inteligente e que tinha perguntado por Clara. Ele estava decidido: ia ajudar a irmã a sair daquela "fase ranzinza" e, quem sabe, arranjar um encontro para ela.

— Graham! Você não vai acreditar — Logan gritou enquanto caminhava em direção à sala. — Encontrei o Miller, aquele cara do terceiro ano. Ele perguntou da Clara e eu acho que...

Logan parou bruscamente na entrada da sala.

A cena diante dele era um borrão de membros e pele. Clara estava sentada sobre Garrett, as mãos dele espalmadas nas costas dela, e a blusa de sua irmã estava caída no tapete como uma bandeira de rendição.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Clara congelou. Garrett, cujos reflexos de atleta eram superiores, não a empurrou, mas suas mãos paralisaram. Ele olhou por cima do ombro de Clara, encontrando o olhar chocado e furioso do seu melhor amigo.

— Mas que p*rra é essa? — A voz de Logan saiu baixa, perigosa.

Clara escorregou do colo de Garrett com a rapidez de um raio, agarrando sua blusa no chão e pressionando-a contra o peito, tentando se cobrir. Seu rosto estava tão vermelho que parecia que ia entrar em combustão.

— Logan! Eu... não é o que parece — ela gaguejou, a desculpa mais clichê e inútil do mundo.

— Não é o que parece? — Logan deu um passo à frente, as veias do pescoço saltadas. — Eu estou vendo a minha irmã seminua no colo do meu melhor amigo, que por sinal tem namorada! O que diabos está acontecendo aqui?

Garrett se levantou lentamente, a expressão passando do choque para uma máscara de indiferença defensiva, embora seus olhos traíssem o nervosismo.

— Calma, Logan. Vamos conversar.

— Calma? — Logan avançou, empurrando o ombro bom de Garrett. — Você está traindo a Hannah com a minha irmã? Há quanto tempo isso está acontecendo?

— Não é traição — Clara interveio, a voz trêmula, mas firme. — A gente... a gente não tem nada sério.

— "Nada sério"? — Logan virou-se para ela, a mágoa clara em seus olhos. — Clara, ele é o Garrett! Ele não leva ninguém a sério. E você sabe disso melhor do que qualquer um. Eu protejo você desses caras, e o meu próprio melhor amigo está te usando como um passatempo?

— Ninguém está usando ninguém, Logan — Garrett disse, a voz subindo de tom. — A Clara sabe exatamente onde pisa. A gente teve um lance antes de eu começar com a Hannah. A gente nunca parou de verdade.

Logan recuou um passo, como se tivesse levado um soco.

— Antes da Hannah? Quer dizer que todo aquele teatro, todas aquelas brigas na mesa... era tudo para esconder que vocês estavam se pegando pelas minhas costas?

— Foi ideia minha! — Clara gritou. — Eu não queria que você soubesse. Eu não queria ser a "garota do Garrett Graham" no blog da faculdade. Eu pedi para ele não contar.

— E você aceitou isso, Garrett? — Logan olhou para o amigo com desprezo. — Você manteve minha irmã como um segredo sujo enquanto desfilava com a Hannah? Que tipo de homem você é?

— Não ouse me julgar — Garrett rosnou, aproximando-se. — Você não sabe de metade da história. Você não sabe como ela terminou comigo porque teve medo. Você não sabe como é difícil estar na mesma sala que ela e ter que fingir que eu não sinto o cheiro dela a quilômetros de distância.

— E a Hannah, Garrett? Como ela fica nessa história? — Logan apontou para a porta. — Ela é uma garota incrível que gosta de você de verdade. E você está aqui, no sofá, com a Clara.

O silêncio voltou a cair, pesado como chumbo. Clara finalmente conseguiu vestir a blusa, embora estivesse do avesso. As lágrimas que ela vinha segurando começaram a cair.

— Logan, por favor...

— Sai daqui, Clara — Logan disse, sem olhar para ela. — Vai para o seu dormitório. Eu preciso falar com esse idiota a sós.

— Logan, não é culpa dele...

— SAI! — Logan rugiu.

Clara pegou sua bolsa e seu livro, lançando um olhar desesperado para Garrett. Ele apenas assentiu levemente, um sinal de que ele lidaria com aquilo. Ela saiu correndo da casa, o ar frio do campus atingindo seu rosto e fazendo-a soluçar. O segredo tinha explodido, e os estilhaços iam ferir todo mundo.

Dentro da casa, a tensão era quase física.

— Eu ia te contar hoje — Logan disse, a voz agora fria e controlada, o que era muito pior do que os gritos. — Eu ia te dizer que ia arranjar um encontro para ela com o Miller. Eu queria ver minha irmã feliz, Garrett. Achei que você, como meu melhor amigo, ficaria feliz por ela.

Garrett sentiu uma pontada de ciúmes tão forte que quase o cegou.

— Ela não quer o Miller. Ela não quer ninguém além de mim, e você sabe disso agora.

— O que eu sei agora é que você é um egoísta — Logan rebateu. — Você está prendendo ela nessa situação sem futuro. Você não vai terminar com a Hannah, vai? Porque você gosta da estabilidade que ela te dá. Você gosta de como ela fica bem no seu braço. Mas você quer a Clara para os seus momentos de adrenalina.

— Não é assim! — Garrett chutou a mesa de centro. — Eu amo a...

Ele parou. A palavra ficou suspensa no ar, incompleta.

— Você ama quem, Garrett? — Logan desafiou. — A Hannah? Ou a minha irmã? Porque se você não tiver uma resposta agora, eu juro por Deus que você nunca mais chega perto da Clara. E a nossa amizade acaba aqui.

Garrett olhou para o vazio. Ele pensou em Hannah, na doçura dela, na forma como ela facilitava a vida dele. E depois pensou em Clara. Nas brigas, no fogo, na forma como ela o desafiava e como ela o conhecia de um jeito que ninguém mais conhecia. Ele pensou no medo que Clara tinha de ser "apenas mais uma", e percebeu que, ao mantê-la em segredo, ele tinha validado todos os medos dela.

— Eu estraguei tudo, não foi? — Garrett perguntou, a voz falhando.

— Sim, você estragou — Logan respondeu, caminhando até a porta e abrindo-a. — Agora sai da minha frente. Vai treinar, vai ver a Hannah, faz o que você quiser. Mas se eu souber que você procurou a Clara antes de decidir o que diabos você quer da sua vida, eu acabo com você no gelo e fora dele.

Garrett saiu da casa sem dizer mais nada. O ombro doía, mas não era nada comparado ao peso no seu peito. Ele sabia que a bolha tinha estourado. A blogueira da Briar podia não saber de nada ainda, mas o mundo de Garrett Graham tinha acabado de colidir com a realidade.

E no centro dessa colisão, estava Clara Logan, a garota que ele dizia odiar, mas que era a única razão pela qual seu coração ainda batia no ritmo certo. Ele precisava fazer uma escolha. E precisava fazer rápido, antes que o gelo sob seus pés rachasse completamente.

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