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O Labirinto de Vidro

O silêncio no dormitório de Clara era tão denso que parecia ter peso. Fazia duas semanas desde a explosão na casa dos meninos, e o mundo, que antes parecia um campo de batalha barulhento, agora se assemelhava a um deserto gelado. Ela não atendia às ligações de Garrett e, o que era pior, Logan não atendia às dela.

Clara estava sentada na beira da cama, encarando um prato de torradas intocado. A ansiedade, aquela velha conhecida que ela acreditava ter deixado para trás no ensino médio, havia retornado com força total. Era uma sensação de aperto no peito, como se um cinto estivesse sendo apertado em torno de seus pulmões toda vez que ela ouvia uma risada no corredor ou o som de um disco de hóquei batendo no gelo ao longe.

Ela pegou o celular, os dedos tremendo levemente. Nenhuma mensagem de Logan. A última interação deles fora o olhar de desprezo na sala de estar. A rejeição do irmão doía mais do que qualquer coisa que Garrett pudesse ter feito. Para Logan, ela não era apenas a irmã que ele precisava proteger; ela era a pessoa que o traíra com seu melhor amigo.

O peso da depressão começou a se manifestar da maneira que ela mais temia: o isolamento. Clara parou de ir à cafeteria, parou de postar em suas redes sociais e, pela primeira vez em anos, começou a usar roupas largas que escondiam suas curvas, tentando desaparecer dentro de si mesma.

A porta do quarto se abriu subitamente. Logan entrou sem bater, seu rosto uma máscara de frustração que se dissolveu no momento em que ele viu o estado da irmã. As cortinas estavam fechadas, o quarto cheirava a estagnação e Clara parecia ter encolhido dez quilos em catorze dias, mas não de um jeito saudável. Seus olhos estavam fundos e a pele, pálida.

— Clara? — A voz dele, antes carregada de fúria, agora estava tingida de um pavor genuíno.

— O que você está fazendo aqui, Logan? — ela perguntou, a voz saindo em um sussurro rouco. — Achei que eu fosse a "garota do segredo sujo".

Logan fechou a porta e caminhou até ela, sentando-se no chão, bem à sua frente. Ele viu o tremor nas mãos dela e a forma como ela evitava o seu olhar. A raiva dele evaporou, substituída por uma culpa esmagadora. Ele se lembrou de Clara aos quinze anos, trancada no quarto, recusando-se a comer porque as meninas da escola tinham sido cruéis sobre o seu peso. Ele prometera que nunca deixaria que ela se sentisse assim de novo.

— Eu sou um idiota, Clara — disse Logan, passando a mão pelo rosto. — Eu fiquei tão cego pela raiva de ser enganado que esqueci que você é a pessoa que eu mais amo no mundo. Eu vi você sumindo nas últimas duas semanas. Eu vi você cabulando aulas.

— Eu só... eu não consigo, Logan — ela confessou, uma lágrima solitária escorrendo. — Eu estraguei tudo. Eu perdi você, perdi o respeito que eu tinha por mim mesma e o Garrett... ele está com a Hannah. Eu sou apenas o erro que ele comete no banheiro.

— Não diga isso — Logan interrompeu, segurando as mãos dela. — Ele não está mais com a Hannah.

Clara levantou o olhar, surpresa.

— O quê?

— Ele terminou com ela ontem à noite — explicou Logan, soltando um suspiro pesado. — Foi um desastre. A Hannah não merecia isso, e o Garrett sabe. Mas ele disse que não conseguia mais olhar para ela sem ver você. Ele disse que, se continuasse com a Hannah, estaria destruindo três pessoas em vez de uma.

Clara sentiu o coração disparar, mas não era a alegria que ela esperava. Era medo.

— Isso não muda nada. Ele só fez isso porque você descobriu. Ele nunca teria coragem de assumir uma garota como eu publicamente.

— Clara, olhe para mim — Logan pediu, forçando-a a focar nele. — O Garrett está um caco. Ele perdeu o capitão do time, perdeu a namorada perfeita e quase perdeu o melhor amigo. E, mesmo assim, a única coisa que ele me pergunta toda manhã é se você está comendo e se você está bem. Ele me implorou para vir aqui ver como você estava, porque ele sabe que, se ele viesse, você não abriria a porta.

— Eu não quero ser um problema na vida de vocês — ela murmurou, abraçando os próprios joelhos.

— Você nunca foi o problema. O segredo foi o problema. O meu ego foi o problema. Mas agora chega. — Logan se levantou e estendeu a mão para ela. — Tem um jogo hoje. O primeiro da semifinal.

— Eu não vou, Logan. Todo mundo vai estar lá. A Hannah vai estar lá.

— A Hannah vai estar lá porque ela é forte e não vai deixar um término impedi-la de apoiar o time — disse Logan com firmeza. — E você vai estar lá porque você é uma Logan. E porque tem um idiota lá embaixo, no gelo, que precisa ver que você ainda está de pé para conseguir marcar um gol.

— Ele vai me odiar se eu aparecer.

— Ele vai te amar mais do que nunca — Logan corrigiu. — Agora, levante-se. Vá tomar um banho, coloque aquela blusa que você gosta e vamos. Eu não vou deixar você se afogar nesse quarto, Clara. Não de novo.

***

A arena da Briar University estava elétrica. O cheiro de pipoca, suor e gelo preenchia o ar, acompanhado pelo grito ensurdecedor da torcida. Clara estava sentada ao lado de Logan, nas fileiras reservadas para as famílias dos jogadores. Ela se sentia exposta, como se cada pessoa na arquibancada soubesse do que aconteceu naquele banheiro, embora o blog da faculdade tivesse permanecido estranhamente silencioso sobre o assunto.

Ela viu Hannah Wells a algumas fileiras de distância. Hannah estava linda, como sempre, conversando com algumas amigas. Quando seus olhos encontraram os de Clara, houve um momento de tensão absoluta. Hannah não desviou o olhar; ela apenas assentiu, um gesto curto e digno que dizia: *eu sei, e eu sobrevivi.* Clara sentiu um nó na garganta. Ela respeitava Hannah, e a culpa por ter sido a "outra" ainda queimava em suas entranhas.

Então, o time da Briar entrou no gelo.

Garrett Graham liderava a fila. O uniforme azul e branco parecia uma armadura. Ele patinou para o centro, mas, antes de se posicionar para o *face-off* inicial, seus olhos percorreram freneticamente a multidão. Ele procurava por uma única pessoa.

Quando ele a viu, ele parou.

Clara estava lá. Ela estava pálida, sim, e parecia cansada, mas seus olhos estavam fixos nele. Garrett sentiu um peso sair de seus ombros, substituído por uma adrenalina pura e avassaladora. Ele ergueu o taco levemente em direção a ela — um gesto que a maioria das pessoas acharia que era para a torcida em geral, mas que Clara e Logan sabiam exatamente o que significava.

O jogo foi brutal. Garrett jogava como um homem possuído, entregando-se a cada jogada com uma agressividade que beirava o imprudente. No segundo período, após marcar o gol de empate, ele não comemorou com as firulas habituais. Ele apenas olhou para o setor onde Clara estava e bateu com a luva no peito, sobre o coração.

No intervalo, o barulho da arena tornou-se um zumbido nos ouvidos de Clara. Ela se levantou para ir ao banheiro, precisando de um momento para respirar. No corredor dos vestiários, que ela conhecia bem por causa de Logan, ela acabou dando de cara com a pessoa que mais temia encontrar.

Hannah Wells estava saindo da área VIP.

— Clara — disse Hannah, parando o passo.

— Hannah. Eu... eu sinto muito. Por tudo. — As palavras saíram atropeladas.

Hannah suspirou, cruzando os braços. Não havia ódio em seus olhos, apenas uma tristeza cansada.

— Ele me contou a verdade, Clara. Toda ela. Sobre o que aconteceu antes de mim e sobre o que continuou acontecendo.

— Eu nunca quis te machucar — Clara sussurrou.

— Eu sei. O Garrett é um idiota egoísta às vezes, mas ele nunca olhou para mim daquele jeito — disse Hannah, gesticulando para o gelo. — Ele me disse que tentou me amar porque eu era a escolha "certa", a escolha fácil. Mas ele disse que você é a única que o faz querer ser uma pessoa melhor, mesmo que ele estrague tudo no processo.

— Você merece alguém que não tenha dúvidas, Hannah.

— Eu sei que mereço. E é por isso que eu terminei com ele antes mesmo de ele conseguir terminar comigo — Hannah deu um pequeno sorriso triste. — Não seja o segredo dele, Clara. Se você for voltar para ele, exija ser a prioridade. Caso contrário, você vai acabar se destruindo.

Hannah passou por ela, deixando um rastro de perfume floral e uma lição de dignidade que Clara nunca esqueceria.

Ao final do jogo, Briar venceu por 3 a 2. A multidão invadiu o gelo, mas Clara permaneceu na borda, perto do túnel dos jogadores. Ela viu Logan abraçar Garrett, um sinal público de que a amizade, embora marcada, ainda resistia.

Garrett soltou-se do abraço e, ignorando os repórteres e os colegas de time, caminhou em direção a Clara. Ele estava suado, ofegante e com um corte pequeno acima da sobrancelha.

— Você veio — disse ele, parando a poucos centímetros dela.

— O Logan me arrastou — mentiu ela, embora o sorriso fraco em seus lábios o desmentisse.

— Eu não me importo com o motivo. Eu só precisava que você estivesse aqui.

— Garrett, a gente não pode simplesmente voltar para o que éramos — disse Clara, a voz tremendo. — Eu não posso mais ser a garota escondida. Eu não aguento mais a ansiedade de me sentir insuficiente.

Garrett tirou as luvas de hóquei e jogou-as no chão. Ele segurou o rosto de Clara com as mãos frias, mas o olhar dele era puro fogo.

— Eu sei. Eu fui um covarde, Clara. Eu usei a Hannah como um escudo porque eu tinha medo do que eu sentia por você. Eu tinha medo de que, se eu te assumisse, você teria o poder de me destruir. E veja só... você me destruiu de qualquer jeito só por se afastar.

— As pessoas vão falar — ela avisou. — A blogueira, os seus fãs... eles vão comparar a gente.

— Deixe que falem — Garrett disse, a voz firme. — Deixe que escrevam o que quiserem. Eu não quero a "garota perfeita" do campus. Eu quero a garota que me desafia, que me conhece e que me ama apesar de eu ser um egocêntrico insuportável.

— Você é um egocêntrico insuportável — ela concordou, soltando um riso trêmulo.

— E eu sou seu. Se você me quiser.

Garrett não esperou pela resposta verbal. Ele a puxou para um beijo, ali mesmo, na frente de toda a arena, sob as luzes brilhantes e os olhares curiosos de centenas de estudantes. Não foi um beijo escondido em um banheiro ou um toque furtivo sob a mesa. Foi um anúncio.

Clara sentiu o peso da depressão e da ansiedade começar a se dissipar, substituído por uma clareza que ela nunca tivera. Ela não era um erro. Ela não era um segredo sujo. Ela era a escolha de Garrett Graham, e, pela primeira vez, ela também estava escolhendo a si mesma.

Logan, observando de longe, deu um aceno discreto. Ele sabia que o caminho para a recuperação de Clara ainda seria longo, e que a amizade dele com Garrett precisaria de reparos profundos, mas ver a irmã sorrir daquele jeito — um sorriso que alcançava os olhos pela primeira vez em meses — fazia tudo valer a pena.

— Você está bem? — perguntou Garrett, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela.

— Pela primeira vez em muito tempo — respondeu Clara, segurando a mão dele com força —, eu acho que estou começando a ficar.

E enquanto eles caminhavam juntos para fora do gelo, Clara Logan sabia que a guerra fria tinha acabado. Agora, começava a parte difícil: viver a verdade, sem sombras, sem segredos, e com todo o barulho que o amor de verdade costuma fazer.

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