Olhos De Vidro
O Alquimia do Afeto e o Rubor das Sombras
A neve lá fora começava a derreter, transformando a paisagem branca em um mosaico de lama e brotos resilientes que insistiam em rasgar o solo congelado. Dentro do observatório, a atmosfera também estava mudando. Não era mais apenas um refúgio contra a morte; era um laboratório de algo que Diego, em seus anos de medicina e meses de estudo viral, nunca imaginou documentar: a reanimação celular através do afeto.
Diego estava inclinado sobre o microscópio na enfermaria, ajustando o foco com dedos trêmulos de excitação. Ele havia coletado uma amostra do fluido viscoso de Hope naquela manhã, logo após ela ter passado horas sentada no telhado com Alex, observando o nascer do sol.
— Inacreditável — murmurou Diego, a voz falhando. — As mitocôndrias... elas estão voltando a disparar. O vírus não está sendo eliminado, mas está sendo empurrado para um estado de dormência profunda. As células humanas residuais estão... elas estão ganhando terreno.
Renata, que estava sentada em uma maca próxima lixando as unhas, levantou o olhar, interessada.
— E o que isso significa na prática, doutor? — perguntou ela. — Ela vai voltar a ter pulso?
— Talvez não um pulso humano normal — explicou Diego, afastando-se do microscópio e limpando os óculos na camiseta —, mas a temperatura corporal dela subiu dois graus desde o incidente no quarto de Alex. A regeneração dos tecidos onde ela levou os tiros está acelerada. O catalisador não é químico, Renata. É hormonal. A ocitocina e a dopamina que o cérebro dela está produzindo durante essas interações com o Alex estão agindo como um soro revitalizante.
Renata deu um sorriso conspiratório, guardando a lixa na bolsa.
— Então, basicamente, o Alex é o remédio dela? — Ela riu, balançando as pernas. — Quem diria que o nosso estrategista rabugento seria a cura para o apocalipse.
— De certa forma, sim — admitiu Diego, sério. — O problema é que o Alex precisa entender que isso não é apenas "praticar o sol de dentro", como a Hope diz. Ele precisa ser constante. O afeto é o que mantém a consciência dela ancorada. Se ele se afastar, ela pode regredir para o estado puramente zumbi.
Enquanto isso, no antigo refeitório, o "remédio" em questão estava enfrentando seus próprios dilemas. Alex estava sentado à mesa, tentando explicar para Hope como funcionava um baralho de cartas que ele havia encontrado. Hope estava sentada ao lado dele, tão perto que seus ombros se tocavam. Ela usava uma das camisas de flanela xadrez de Alex, que ficava enorme nela, transformando-a em uma massa de tecido azul e preto de onde saíam suas mãos pálidas.
— Então, o Rei ganha da Rainha? — perguntou Hope, tocando a carta com o desenho de um monarca barbudo.
— No jogo, sim — explicou Alex, sentindo o cheiro de hortelã que agora emanava da pele dela, cortesia dos novos sabonetes de Renata. — Mas aqui fora, a Rainha geralmente é quem manda em tudo.
Hope inclinou a cabeça, o cabelo preto agora preso em um pequeno rabo de cavalo que Renata fizera, deixando seu pescoço exposto. Ela olhou para Alex com uma intensidade que o fazia querer desviar o olhar e, ao mesmo tempo, nunca mais parar de olhar.
— Alex — disse ela, a voz mais firme e menos rouca do que semanas atrás. — Eu sinto... o calor. Aqui. — Ela apontou para o próprio pescoço. — Está subindo.
Alex engoliu em seco. Ele sabia o que aquilo significava. Diego havia explicado para ele, de forma muito clínica e constrangedora, que os picos de temperatura de Hope eram sinais de progresso, e que ele deveria "incentivar" esses momentos.
— É a sua circulação, Hope — disse ele, tentando manter a voz firme. — Diego disse que é bom.
— Diego disse... que preciso de mais "sol" — continuou ela, aproximando o rosto do dele. — Praticar. O sol de dentro.
Alex olhou ao redor, verificando se as portas estavam fechadas. Ele ainda sentia o trauma do flagra de Renata no quarto.
— Hope, a gente não pode fazer isso o tempo todo — sussurrou ele, embora suas mãos já estivessem subindo para tocar a nuca dela. — As pessoas veem. A Renata não para de fazer piada.
— Eu não ligo para as piadas — disse Hope, fechando os olhos enquanto sentia os dedos de Alex em sua pele. — Eu ligo para o brilho. Quando você me toca... o escuro vai embora. Por favor, Alex. Pratica.
A resistência de Alex desmoronou como um castelo de cartas ao vento. Ele se inclinou, capturando os lábios de Hope em um beijo que começou suave, mas logo se tornou faminto. Ele sentia a textura da língua dela, o frio dos dentes afiados que ela agora sabia esconder com cuidado, e o calor crescente que emanava do peito dela. Era um milagre biológico acontecendo bem ali, entre cartas de baralho e mesas de metal.
Hope soltou um suspiro baixo, um som que vibrou na garganta de Alex. Ela o puxou para mais perto, suas mãos pálidas subindo para o pescoço dele, buscando o calor da vida que ele oferecia tão generosamente.
Foi nesse exato momento que a porta do refeitório se abriu com um estrondo.
— Ei, casal! O Diego quer saber se a Hope pode... — A voz de Renata parou abruptamente.
Alex se separou de Hope tão rápido que quase caiu da cadeira. Ele estava ofegante, o cabelo mullet bagunçado e o rosto em um tom de vermelho que faria um sinal de pare parecer pálido.
Diego estava logo atrás de Renata, segurando uma prancheta. Ele parou, olhou para o cronômetro em seu pulso e depois para os dois.
— Quarenta e dois segundos de contato — anotou Diego, seriamente, enquanto escrevia na prancheta. — Excelente. Hope, você sentiu alguma tontura ou formigamento nas extremidades durante o ápice do... estímulo?
Alex enterrou o rosto nas mãos, soltando um grunhido de pura agonia.
— Pelo amor de Deus, Diego! — gritou Alex por entre os dedos. — Você não pode simplesmente anotar isso como se fosse um experimento com ratos!
— Mas é um experimento, Alex! — respondeu Diego, ajustando os óculos com uma calma irritante. — Um experimento vital. Veja, a pele dela na região malar está apresentando um leve rubor rosado. Isso é vasodilatação periférica! É um marco histórico!
Renata, por sua vez, estava encostada no batente da porta, segurando o riso enquanto observava a desolação de Alex.
— Relaxa, Alex — disse ela, piscando para ele. — Pense pelo lado positivo: você é oficialmente o desfibrilador humano da Hope. Só tente não "desfribilar" ela no meio do corredor, as paredes aqui têm ouvidos.
— Eu odeio vocês — resmungou Alex, embora não houvesse veneno real em suas palavras.
Hope, alheia ao constrangimento de Alex, olhou para Diego com uma expressão de seriedade infantil.
— Eu senti... formigas — disse ela, tocando as pontas dos dedos. — Formigas de fogo. É bom. Quero mais.
Diego anotou furiosamente.
— "Parestesia térmica positiva" — ditou ele para si mesmo. — Alex, continue o bom trabalho. Se conseguirmos manter esse ritmo, em um mês ela poderá ter reflexos motores completos.
Alex levantou-se, pegando o casaco e tentando recuperar o que restava de sua autoridade como líder do grupo.
— Eu vou verificar o perímetro — anunciou ele, sem olhar para ninguém. — Hope, fique com o Diego para os exames. E Renata... se você mencionar isso no jantar, eu vou trancar a porta da despensa de maquiagem.
Renata fingiu um olhar de horror, colocando a mão no peito.
— Você não ousaria!
Alex saiu a passos largos, o rosto ainda queimando. Hope o observou ir, seus olhos pretos seguindo cada movimento dele com uma devoção silenciosa.
— Ele fica... vermelho — comentou Hope para Renata. — É o sol dele saindo?
— É o sol da vergonha, querida — explicou Renata, aproximando-se e passando o braço pelos ombros de Hope. — Mas não se preocupe, ele adora. Ele só não sabe como lidar com o fato de que o coração dele, que ele achava que estava morto, está batendo mais forte do que nunca por causa de uma garota que coleciona colheres tortas.
Mais tarde naquela noite, o observatório estava mergulhado na penumbra azulada da lua. Hope estava em sua cama, mas não conseguia "ficar no escuro" como costumava fazer. As "formigas de fogo" ainda pareciam correr sob sua pele.
Ela se levantou e caminhou silenciosamente pelos corredores até o quarto de Alex. Ela não bateu; apenas entrou, sabendo que ele estaria acordado.
Alex estava sentado à janela, olhando para a floresta escura lá embaixo. Ele se virou quando ela entrou, e sua expressão suavizou instantaneamente.
— Não consegue dormir? — perguntou ele.
— O escuro... está cheio de cores agora — disse Hope, aproximando-se dele. — O sol que você me deu... ele não apaga.
Alex estendeu a mão e ela a pegou. Ele a puxou para se sentar ao lado dele no parapeito largo da janela.
— Diego disse que isso está te curando — disse Alex, a voz baixa. — Ele disse que o que eu sinto por você... está fazendo você voltar.
Hope olhou para as mãos unidas. A mão dela ainda era mais pálida, mas já não parecia tão sem vida contra a dele.
— E você... quer que eu volte? — perguntou ela, olhando-o nos olhos. — Se eu voltar... eu não vou ser mais a Hope das bugigangas?
Alex sentiu um aperto no peito. Ele a puxou para um abraço, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Você sempre vai ser a minha Hope — sussurrou ele. — Com bugigangas ou sem elas. Eu só quero que você sinta. Tudo. A dor, o frio, o calor... e isso.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para ela. Sem a pressão da audiência de Diego ou as piadas de Renata, o momento era sagrado. Ele a beijou novamente, mas desta vez não foi um "estímulo celular". Foi um ato de amor puro e simples.
Hope sentiu algo novo. Uma lágrima, a primeira em muito tempo, escorreu por sua bochecha esverdeada. Não era uma lágrima de tristeza, mas de transbordamento.
— Água de dentro — murmurou ela, tocando a própria bochecha. — Alex... eu estou... chorando?
Alex sorriu, limpando a lágrima com o polegar.
— Sim, Hope. Você está.
Eles ficaram ali, abraçados sob a luz da lua, enquanto o vírus e a humanidade travavam uma batalha silenciosa dentro das veias de Hope. E, pela primeira vez, a humanidade estava vencendo.
Na manhã seguinte, o café da manhã foi interrompido por um grito de surpresa de Diego na enfermaria. O grupo correu para lá e encontrou o médico apontando para o braço de Hope, onde o ferimento antigo da bala, que nunca cicatrizava, estava agora coberto por uma crosta fina de pele nova e rosada.
— Está fechando! — gritou Diego, quase pulando. — A regeneração total começou!
Renata abraçou Hope, que olhava para o braço com uma expressão de choque. Alex ficou na porta, observando-os. Ele sentiu um par de olhos sobre si e viu Diego sorrindo de forma significativa.
— Alex — chamou o médico —, acho que precisamos aumentar a dosagem do tratamento.
Alex revirou os olhos, mas não conseguiu evitar o sorriso que surgiu em seu rosto.
— Vou ver o que posso fazer, doutor.
Hope caminhou até Alex e pegou sua mão, entrelaçando seus dedos nos dele diante de todos. Ela não tinha mais medo do que eles pensavam, e Alex percebeu que ele também não.
— Praticar? — perguntou ela, com um brilho travesso nos olhos que era puramente humano.
— Praticar — concordou Alex, puxando-a para perto, ignorando os assobios de Renata e as anotações frenéticas de Diego.
O apocalipse ainda estava lá fora, mas dentro daquelas paredes de pedra, o sol de dentro brilhava tanto que a morte, pela primeira vez, parecia ter perdido o caminho de casa. Hope não era mais apenas uma zumbi que não virou o suficiente; ela era a prova viva de que, enquanto houvesse alguém para segurar sua mão e ensinar o caminho do calor, o fim do mundo era apenas o começo de uma nova história.