Olhos De Vidro
O Eclipse da Razão e o Calor da Alma
A noite no observatório havia trazido um frio cortante que assoviava pelas frestas das janelas reforçadas, mas dentro dos dormitórios, o ar era denso e carregado de um silêncio diferente. Alex estava em seu quarto, um espaço pequeno decorado apenas com mapas táticos e algumas ferramentas de limpeza de armas. Ele vestia uma calça de moletom cinza folgada e uma camiseta preta desgastada, roupas que o faziam parecer menos o soldado implacável e mais o homem jovem que ele deveria ser.
Ele estava sentado na beira da cama, desfazendo os nós das botas, quando ouviu o rangido suave da porta de metal. Ele não precisou olhar para saber quem era; o passo era leve, mas carregado de uma hesitação rítmica que pertencia apenas a ela.
Hope entrou no quarto com uma expressão de curiosidade solene. Ela estava vestindo o pijama que Renata havia costurado para ela a partir de lençóis de flanela antigos: um conjunto azul-claro com pequenas estampas de nuvens brancas. O tecido era macio e largo demais para seu corpo magro, fazendo-a parecer ainda mais pequena e frágil do que realmente era. O cabelo preto, agora levemente mais longo, caía sobre os olhos pretos de pupilas brancas, que brilhavam sob a luz fraca do abajur de bateria.
— Alex — sussurrou ela, parando no meio do quarto. — A roupa... é de dormir. Renata disse... que eu pareço uma nuvem.
Alex parou o que estava fazendo, uma bota ainda na mão. Ele a observou, sentindo aquela pressão familiar no peito, uma mistura de proteção e algo muito mais profundo que ele ainda se recusava a nomear em voz alta.
— Você parece... — Ele hesitou, procurando a palavra certa, enquanto largava a bota no chão. — Você parece confortável, Hope. E menos assustadora do que o normal.
Hope deu um passo à frente, aproximando-se da cama. Ela tocou o tecido da manga do pijama, sentindo a textura.
— É macio — disse ela, inclinando a cabeça para o lado. — O pijama... é para sonhos. Mas eu não sonho, Alex. Eu só... fico no escuro.
Alex levantou-se lentamente. A presença dela ali, naquele espaço tão privado, parecia quebrar as últimas barreiras de sua resistência. Ele caminhou até a porta e, com um movimento decidido, empurrou-a até que o trinco estalasse, fechando-os no isolamento do quarto.
— Às vezes — disse ele, a voz baixando para um tom que era quase um segredo —, o escuro não precisa ser um lugar ruim.
Hope o observava, imóvel. Ela sentia a mudança na atmosfera; o cheiro de metal e pólvora que costumava emanar de Alex havia dado lugar a um cheiro mais quente, de pele e sabão. Ela não entendia de hormônios ou de tensão sexual, mas entendia de magnetismo. E, naquele momento, Alex era o centro de gravidade de seu mundo fragmentado.
Ele se aproximou dela, encurtando a distância até que pudesse sentir o frio emanando da pele pálida da zumbi. Ele levou a mão ao rosto dela, os dedos calejados traçando a linha da mandíbula esverdeada. Hope não recuou; em vez disso, ela inclinou o rosto para o toque dele, fechando os olhos.
— Hope — sussurrou ele, a voz carregada de uma urgência que o assustava. — Você se lembra do que a Renata disse sobre o beijo? Sobre o sol de dentro?
— Eu lembro — disse ela, abrindo os olhos e focando neles com uma intensidade sobrenatural. — Mas os meus dentes... eles cortam, Alex. Eu sou... a morte.
— Não — disse ele, aproximando o rosto do dela até que suas testas se encostassem. — Hoje você não é a morte. E eu não me importo com os dentes.
Alex não esperou por uma resposta. Ele inclinou a cabeça e pressionou seus lábios contra os dela.
Não foi como o selinho desajeitado na neve ou o toque na mão. Foi um beijo de verdade, profundo e deliberado. No início, os lábios de Hope estavam frios e imóveis, mas, à medida que Alex a envolvia em seus braços, puxando-a para perto como se ela fosse a única coisa sólida em um mundo em ruínas, algo dentro dela respondeu.
Hope sentiu um choque que não vinha de nervos biológicos, mas de uma faísca de consciência que o vírus não conseguira apagar. Pela primeira vez, o vazio em seu peito pareceu ser preenchido por uma maré de calor. Era uma sensação expansiva, brilhante e avassaladora. Suas mãos, antes caídas ao lado do corpo, subiram para agarrar a camiseta de Alex, os dedos cravando-se no tecido com uma força desesperada.
As pupilas brancas de Hope dilataram-se tanto que quase engoliram o resto dos olhos pretos. Ela retribuiu o beijo com uma fome que não era de carne, mas de existência. Alex a segurava com uma possessividade protetora, uma mão enterrada em seu cabelo curto e a outra pressionando-a contra seu corpo quente.
— Sol... — murmurou Hope contra os lábios dele, a voz saindo como um suspiro de êxtase confuso. — Alex... está... queimando.
— É o sol, Hope — respondeu ele entre beijos, a respiração ofegante. — É o sol que a gente achou.
Eles estavam perdidos naquele momento, um eclipse onde a vida e a morte se fundiam em uma única frequência de sentir. Alex sentia o corpo frio dela aquecer sob seu toque, e Hope sentia que, pela primeira vez desde que acordara naquela vala, ela não estava mais sozinha no escuro.
Porém, o destino no apocalipse raramente era generoso com a privacidade.
O som metálico da maçaneta girando foi seguido pelo barulho da porta sendo aberta com entusiasmo. Renata entrou no quarto sem bater, carregando um par de meias de lã rosa que combinavam com o pijama de Hope.
— Hope! Eu esqueci de te dar as meias e...
A frase de Renata morreu no ar. Ela parou no umbral da porta, os olhos arregalados e a boca aberta em um "O" perfeito de choque.
Alex e Hope se separaram bruscamente. Hope parecia apenas confusa, seus lábios levemente entreabertos e as pupilas ainda dilatadas pelo calor súbito. Alex, por outro lado, sentiu o sangue subir para o rosto com uma velocidade violenta. Em segundos, ele passou de um estrategista frio para um homem cujo rosto rivalizava com a cor de um tomate maduro.
— Renata! — gritou Alex, a voz falhando em um tom agudo que ele nunca admitiria ter produzido. — O que... o que você está fazendo aqui?
Renata olhou para Alex, depois para Hope — que ainda segurava a barra da camiseta dele — e depois de volta para Alex. Um sorriso malicioso e chocado começou a se espalhar pelo rosto da ex-ginasta.
— Eu... eu vim trazer as meias — disse Renata, a voz carregada de uma diversão contida. — Mas parece que a Hope já achou uma forma muito mais eficiente de se aquecer.
— Não é o que parece! — gaguejou Alex, tentando inutilmente ajeitar a camiseta e recuperar alguma dignidade. — Eu estava... nós estávamos...
— Praticando o "sol de dentro"? — interrompeu Renata, dando um passo para dentro e colocando as meias sobre a cômoda. — Diego vai adorar saber que os seus "testes de resposta emocional" evoluíram para o estágio de contato labial intensivo.
— Você não vai contar para o Diego! — Alex deu um passo à frente, gesticulando freneticamente. — Foi um... foi um momento isolado! Um erro de julgamento!
Hope inclinou a cabeça, observando a agitação de Alex com uma calma curiosa. Ela tocou os próprios lábios com a ponta dos dedos.
— Não foi... erro — disse ela, sua voz rouca soando clara no quarto. — Foi... bom. Alex tem gosto de... vida.
Renata soltou uma gargalhada sonora, cobrindo a boca com a mão.
— Viu só, Alex? Até o "erro" tem uma opinião. E parece que ela gostou da sua "vida".
Alex enterrou o rosto nas mãos, soltando um gemido de pura frustração e vergonha. Ele podia enfrentar uma horda de errantes com uma faca de combate, mas não estava preparado para a provocação implacável de Renata.
— Saiam — murmurou ele por entre os dedos. — As duas. Agora.
— Tudo bem, Romeu do apocalipse — disse Renata, pegando Hope pelo braço com delicadeza. — Vamos, Hope. Deixe o Alex processar o fato de que ele está apaixonado por uma garota que tecnicamente não tem pulso. Temos muito o que conversar no quarto ao lado.
Hope deixou-se levar, mas parou na porta e olhou para trás. Alex havia abaixado as mãos, e seus olhos azuis encontraram os dela. Havia uma promessa silenciosa ali, algo que transcendia a vergonha do flagra.
— Boa noite... Alex-sol — disse Hope.
A porta se fechou, e Alex desabou na cama, o coração ainda martelando contra as costelas. Ele olhou para o teto, sentindo o calor em seu rosto demorar a passar. Ele sabia que, a partir de amanhã, sua vida no observatório seria um inferno de piadas de Renata e perguntas clínicas de Diego.
Mas, enquanto fechava os olhos e sentia o eco do toque de Hope ainda vibrando em seus lábios, Alex percebeu que não se importava. Pela primeira vez em anos, o frio do mundo lá fora não parecia mais tão absoluto. Ele tinha encontrado algo pelo qual valia a pena lutar, algo que brilhava mais que qualquer bugiganga na bolsa de Hope.
Ele tinha encontrado o calor que a morte esquecera de levar.