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Olhos De Vidro

Reflexos de Vidro e Laços de Cetim

O observatório erguia-se como uma sentinela de concreto e metal no topo da colina, as cúpulas brancas manchadas pelo tempo e pela fuligem, mas ainda imponentes. Para Alex, aquele lugar representava segurança, muros altos e uma visão clara de qualquer ameaça que se aproximasse. Para Diego, era um laboratório de possibilidades. Para Renata, era um novo lar que precisava desesperadamente de um toque feminino. E para a criatura que agora os seguia, era apenas mais uma estrutura grande e cinza, cheia de novos cantos para explorar e objetos para colecionar.

A entrada foi tensa. Alex manteve a arma em punho, os olhos azuis faiscando enquanto abria o portão principal. Ele entrou primeiro, verificando os perímetros com a eficiência de um soldado, antes de dar o sinal para que os outros entrassem.

— Entrem logo. E tragam... *aquilo* para dentro antes que algum errante de verdade apareça — ordenou Alex, a voz áspera.

Hope — como Renata insistia em chamá-la — atravessou a soleira com passos vacilantes. Suas botas altas faziam um som oco contra o piso de metal. Ela parou no meio do saguão principal, a cabeça inclinada para trás enquanto observava o teto abobadado. Seus olhos pretos com pupilas brancas pareciam tentar processar a imensidão do espaço.

— Ela parece um filhote de passarinho caído do ninho — comentou Diego, fechando o portão pesado e trancando as correntes. — Alex, ela precisa de um lugar calmo. O estresse pode desencadear algum instinto que ainda não vimos.

— O meu estresse é que vai desencadear um instinto se ela não parar de me encarar — retrucou Alex, embora Hope estivesse, na verdade, encarando uma estante de livros. — Renata, ela é sua responsabilidade. Você quis trazê-la, você cuida dela.

Renata sorriu, os olhos brilhando com uma determinação que Alex conhecia bem. Era o mesmo olhar que ela tinha antes de uma competição de ginástica.

— Com o maior prazer. Ela está imunda, Diego. E esse cabelo... meu Deus, é um crime contra a estética. Venha, Hope. Vamos encontrar o banheiro da ala dos funcionários. Eu vi que o sistema de captação de água da chuva ainda está funcionando.

Renata estendeu a mão. Hope olhou para os dedos finos da loira e depois para a própria bolsa. Com um movimento lento, ela tateou dentro do tecido desgastado e tirou uma mola de metal enferrujada, oferecendo-a a Renata.

— Oh, querida... obrigada — Renata aceitou o "presente" com uma careta leve, mas um tom de voz doce. — Mas agora, vamos trocar essa mola por algo muito melhor: sabonete e água morna.

Alex observou as duas se afastarem pelo corredor. Ele se encostou na parede, soltando um suspiro longo que parecia carregar o peso dos últimos meses.

— Você acha que estamos cometendo o maior erro das nossas vidas, não acha? — perguntou ele a Diego, sem olhar para o amigo.

Diego, que já estava organizando suas anotações em uma mesa próxima, deu de ombros. Suas mãos com vitiligo moviam-se com precisão enquanto ele alinhava frascos vazios.

— O erro seria ignorar a evolução, Alex. Ou a regressão. O que quer que ela seja, ela não é o monstro que matou sua irmã. Ela é um ponto de interrogação. E eu prefiro respostas a medos.

***

No banheiro, a luz era fraca, filtrada por uma pequena janela alta, mas era o suficiente para Renata trabalhar. O lugar cheirava a poeira e mofo, mas o sistema de aquecimento solar do observatório, milagrosamente, ainda entregava uma água morna e reconfortante.

Hope estava parada no centro do ladrilho, imóvel. Ela não resistiu quando Renata começou a desabotoar sua regata branca encardida. Ela não tinha vergonha, nem pudor; o conceito de corpo era algo que ela havia esquecido há muito tempo.

— Vamos lá, Hope. Tire isso. E essas polainas também — dizia Renata, falando como se conversasse com uma criança pequena. — Você vai se sentir muito melhor.

A zumbi apenas observava. Para mantê-la ocupada, Renata vasculhou sua própria mochila e tirou um frasco de perfume de vidro lapidado, vazio, mas que refletia a luz em tons de arco-íris. Ela entregou o objeto a Hope.

Imediatamente, a criatura se sentou no chão frio, cruzando as pernas de forma desajeitada. Ela segurou o frasco contra a luz, os olhos brancos arregalados em fascinação. Ela girava o vidro, observando as cores dançarem em sua pele pálida e esverdeada. Enquanto Hope estava hipnotizada pelo brilho, Renata começou o trabalho pesado.

A água morna escorreu pela pele da zumbi, levando embora meses de terra, sangue seco e fuligem. Renata usou um sabonete artesanal que guardava para ocasiões especiais. A espuma branca contrastava com o tom doentio da pele de Hope, mas, à medida que a sujeira saía, Renata percebeu que a pele dela era macia, apesar da temperatura fria.

— Você devia ser muito bonita — murmurou Renata, esfregando com cuidado as costas da zumbi. — Ainda é, de um jeito meio gótico e assustador, eu admito.

Hope soltou um som baixo, um vibrar na garganta que lembrava o ronronar de um gato, mas com uma nota metálica. Ela não sentia a água morna como conforto térmico, mas a sensação do líquido escorrendo parecia estimular seus nervos adormecidos.

Renata pegou o shampoo. O cabelo preto de Hope estava tão emaranhado que parecia um ninho. Foi necessário quase meio frasco de condicionador e muita paciência para desfazer os nós.

— Eu queria muito te colocar um vestido rosa — disse Renata, rindo baixinho enquanto passava o pente pelos fios agora lisos. — Mas acho que o Alex teria um ataque cardíaco. E, honestamente, você tem mais cara de quem gosta de algo mais... rebelde.

Depois de quase uma hora, Hope estava limpa. Renata a ajudou a se levantar e a secou com uma toalha felpuda. A zumbi permanecia em silêncio, sua atenção alternando entre o frasco de perfume e os movimentos ágeis de Renata.

Renata vasculhou as gavetas do dormitório anexo e encontrou roupas deixadas por antigos pesquisadores. Ela escolheu uma calça legging preta resistente e uma camiseta de algodão cinza chumbo, com um casaco de moletom por cima. Não era rosa, mas era limpo e confortável.

Quando terminou de pentear o cabelo curto de Hope, deixando-o com um corte "pixie" moderno e bagunçado, Renata a virou para o espelho manchado acima da pia.

— Veja, Hope. É você.

A zumbi deu um passo à frente. Ela tocou a superfície fria do vidro. Suas pupilas brancas dilataram-se levemente. Ela abriu a boca, revelando os dentes afiados, e tocou o reflexo de seus próprios lábios.

— Eu... — a voz de Hope saiu como um sussurro quebrado, uma tentativa de recuperar a primeira pessoa do singular.

— Sim, você — incentivou Renata, emocionada.

Hope inclinou a cabeça, o frasco de perfume ainda apertado na outra mão. Ela não sorriu — talvez os músculos da face não soubessem mais como fazer isso — mas a tensão em seus ombros relaxou.

***

Enquanto isso, na sala de controle, Alex limpava seu rifle pela terceira vez. O silêncio do observatório o deixava inquieto. Ele estava acostumado ao som de rosnados, ao caos das cidades em ruínas, não a essa paz doméstica forçada.

— Elas estão demorando — resmungou ele.

— Banhos levam tempo, Alex. Especialmente banhos de um ano de atraso — disse Diego, sem tirar os olhos do microscópio que havia conseguido ligar a uma bateria externa. — Venha ver isso.

Alex aproximou-se, relutante.

— O que é? Mais notícias ruins sobre como o mundo acabou?

— Pelo contrário. Eu analisei a amostra de tecido que consegui da Hope quando ela se arranhou no portão. O vírus está lá, mas ele não está destruindo as células. Ele está em uma espécie de simbiose. É como se o corpo dela tivesse morrido, mas o vírus estivesse atuando como um sistema de suporte de vida alternativo, preservando a estrutura básica sem a necessidade de oxigenação total.

— E a fome? — Alex cruzou os braços. — Zumbis comem pessoas, Diego. É o que eles fazem.

— O sistema digestivo dela está atrofiado. Ela não processa carne como os outros. Eu suspeito que ela absorva nutrientes de uma forma muito mais lenta e ineficiente, talvez até através da pele ou de pequenas quantidades de água. Ela não tem o "impulso da fome" porque a transformação não atingiu o hipotálamo da mesma forma que nos outros.

Antes que Alex pudesse responder, o som de passos leves ecoou no corredor.

As duas apareceram na porta. Alex sentiu o ar escapar de seus pulmões por um segundo. A criatura suja e assustadora que ele vira no parquinho havia desaparecido. Em seu lugar, estava uma jovem que parecia apenas... doente. O cabelo preto curto emoldurava o rosto pálido, destacando os olhos exóticos. As roupas limpas a faziam parecer humana novamente.

Hope parou na porta, segurando o frasco de perfume contra o peito como se fosse um tesouro sagrado. Ela olhou para Alex. Não havia medo em seus olhos, apenas aquela curiosidade infinita.

— Uau — disse Diego, levantando-se. — Renata, você fez um milagre.

— Ela colaborou — Renata disse, orgulhosa, dando um tapinha no ombro de Hope. — Ela gosta de coisas brilhantes.

Alex desviou o olhar, sentindo uma pontada de desconforto. Era mais fácil odiá-la quando ela parecia um monstro. Agora, com Hope parecendo uma pessoa, o ódio dele parecia deslocado, uma arma sem alvo.

— Ela ainda é perigosa — ele murmurou, mas sem a convicção de antes.

Hope deu alguns passos em direção à mesa de Diego. Ela viu os frascos de vidro e os instrumentos de metal brilhando sob a luz da luminária. Seus olhos brilharam. Ela estendeu a mão, mas parou a poucos centímetros de um bisturi, olhando para Diego como se pedisse permissão.

— Pode olhar, Hope. Só não se corte — disse Diego, gentilmente.

Ela pegou uma pequena pinça de metal, maravilhada com a forma como as pontas se tocavam. Ela passou a pinça de uma mão para a outra, emitindo aquele som de ronronar metálico novamente.

— Ela não sabe o que são essas coisas, sabe? — perguntou Alex, aproximando-se cautelosamente.

— Ela esqueceu os nomes e as funções — explicou Renata. — Mas ela entende a beleza e a utilidade básica. Ela é como uma criança descobrindo o mundo pela primeira vez, mas com as memórias de um adulto trancadas em algum lugar que ela não consegue acessar.

Hope se virou para Alex. Ela percebeu o relógio de pulso dele novamente. Com um movimento súbito, mas não agressivo, ela se aproximou dele. Alex tencionou, a mão indo instintivamente para a faca no cinto, mas ele se forçou a ficar parado.

Hope pegou a mão de Alex. A pele dela era fria, como mármore deixado na sombra. Ela puxou o braço dele para mais perto de seus olhos, observando o ponteiro dos segundos se movendo. *Tic, tac, tic, tac.*

— Tem... po... — ela disse, a voz saindo um pouco mais clara desta vez.

Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O toque dela não era o de um predador. Era o toque de alguém tentando se conectar com a realidade.

— É, é o tempo — Alex respondeu, a voz falhando levemente. — Ele está passando. Para nós e para você.

Hope soltou a mão dele e voltou sua atenção para a pinça.

— Precisamos tratar aquela ferida no braço dela — disse Diego, pegando seu kit médico. — E as cicatrizes nas pernas. Renata, você me ajuda?

— Claro. Vamos deixá-la impecável.

Alex se afastou, indo para a janela do observatório que dava para a floresta. Lá fora, o sol estava se pondo, pintando o céu de laranja e roxo. Ele viu alguns vultos se movendo entre as árvores — os outros, os verdadeiros monstros.

Ele olhou de volta para a sala. Renata estava sentada ao lado de Hope, mostrando a ela como usar um pente. Diego estava limpando o ferimento no braço da zumbi com antisséptico; Hope nem sequer estremeceu, confirmando que não sentia dor.

Eles eram um grupo estranho: um estrategista assombrado pelo passado, uma ginasta que se recusava a perder a vaidade, um enfermeiro em busca de uma cura impossível e uma morta-viva que colecionava lixo.

Alex suspirou e, pela primeira vez em anos, permitiu-se um meio sorriso. O mundo tinha acabado, sim. Mas ali, naquele observatório frio, entre bugigangas brilhantes e gestos de cuidado, algo novo estava começando a respirar.

Hope levantou a pinça e o frasco de perfume, fazendo-os tilintar um contra o outro. O som metálico ecoou pela sala, um pequeno sino anunciando que, mesmo no fim de tudo, a curiosidade ainda era a força mais poderosa da vida — ou da quase vida.

— Hope — Alex disse, testando o nome.

A zumbi olhou para ele, as pupilas brancas focadas.

— Não quebre nada importante.

Ela inclinou a cabeça, processando a ordem, e então voltou a brincar com seus tesouros. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas, pela primeira vez, ela não estava apenas vagando. Ela estava em casa.

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