Olhos De Vidro
Reflexos de Vidro e Laços de Cetim
O sol da manhã filtrava-se pelas janelas altas do observatório, lançando feixes de luz repletos de poeira suspensa sobre o grupo. O dia havia começado cedo para os três humanos. Havia muito o que fazer: limpar os ninhos de ratos nos dormitórios, organizar os estoques de comida enlatada e garantir que os painéis solares estivessem operando com eficiência máxima. Para Alex, o trabalho era uma distração necessária para o fato de que havia uma morta-viva circulando livremente pelo seu santuário.
Hope, por outro lado, não entendia o conceito de "faxina". Para ela, o mundo era um vasto museu de texturas e brilhos. Enquanto Renata varria o salão principal, a zumbi vagava pelos jardins externos do observatório, uma área cercada por grades altas que a protegiam dos errantes selvagens lá fora, mas permitiam que ela sentisse a grama seca sob suas botas.
— Ela vai ficar bem lá fora sozinha? — perguntou Diego, ajustando os óculos enquanto carregava uma caixa de suprimentos médicos para a nova enfermaria improvisada.
— Os outros zumbis não a atacam, Diego. Você mesmo disse isso — respondeu Alex, testando a resistência de uma tranca em uma das portas laterais. — E, sinceramente, prefiro ela lá fora do que respirando no meu pescoço enquanto eu tento trabalhar.
— Ela não respira, Alex — lembrou Renata, parando de varrer por um momento e apoiando-se na vassoura. — E ela é tão silenciosa que você nem notaria.
Renata olhou pela janela. Hope estava agachada perto de um canteiro de flores silvestres que haviam sobrevivido ao descaso. A zumbi parecia fascinada com as pétalas amarelas que balançavam ao vento. Com movimentos lentos, ela se deitou sobre um monte de folhas secas e terra, rolando levemente como se tentasse entender o que era aquela maciez terrosa.
— Ela vai se sujar toda de novo — suspirou Renata, embora houvesse um sorriso em seus lábios. — Eu acabei de dar banho nela!
Algumas horas depois, Renata decidiu que era hora de examinar o "tesouro" de Hope. Ela havia deixado a bolsa de lona da zumbi sobre uma mesa de metal na cozinha. Curiosa, a loira começou a despejar o conteúdo sobre a superfície lisa.
— Meninos, venham ver isso! — exclamou Renata.
Diego e Alex se aproximaram. Alex mantinha uma expressão de ceticismo, mas seus olhos azuis traíam uma curiosidade involuntária.
— É só lixo — resmungou Alex.
— Não é só lixo — corrigiu Diego, pegando um pequeno objeto prateado. — Veja, isso é um isqueiro de metal gravado. E aqui... mapas.
Renata espalhou as coisas com as pontas dos dedos. Havia uma coleção eclética: brincos de pérolas falsas que brilhavam intensamente sob a luz, três isqueiros de cores diferentes, um punhado de botões coloridos, vários mapas rodoviários dobrados de qualquer jeito, papéis com anotações borradas pela chuva e até um relógio de bolso que não funcionava mais.
— Ela guarda o que brilha ou o que parece importante — observou Renata, pegando um colar de contas de vidro. — É como se ela estivesse tentando segurar os pedaços da civilização, mesmo sem saber o que eles significam.
— Ou ela só gosta de brilho, como um corvo — disse Alex, mas ele pegou um dos papéis. Eram desenhos infantis, agora quase invisíveis devido à umidade. Ele sentiu um aperto familiar no peito e largou o papel rapidamente.
Nesse momento, a porta pesada que dava para o jardim rangeu. Hope entrou no recinto.
O trabalho de Renata no dia anterior havia sido parcialmente arruinado. O cabelo preto curto, que antes estava penteado e limpo, agora era uma confusão de fios espetados, cheios de folhas secas, pequenos gravetos e até um raminho de flores amarelas preso perto da orelha. A regata cinza que Renata lhe dera estava manchada de terra nas costas.
Hope parou diante da mesa e viu seus pertences espalhados. Ela não rosnou, nem pareceu zangada. Ela apenas caminhou até a mesa e, com uma delicadeza surpreendente, tocou o colar de contas que Renata segurava.
— Você gosta deste? — perguntou Renata, sua voz suave ecoando no silêncio da cozinha.
Hope inclinou a cabeça, os olhos pretos e as pupilas brancas fixos no objeto.
— Bri... lho — ela murmurou. A palavra saiu arrastada, mas compreensível.
— Sim, brilha muito — concordou Renata. — Deixe-me ver esse cabelo, Hope. Você parece um arbusto ambulante.
Renata pegou um pente que deixara por perto e começou a remover os detritos orgânicos da cabeça da zumbi. Hope ficou parada, estática, permitindo o cuidado.
— Diego, você viu como ela se move? — sussurrou Alex, observando de longe. — Ela não se arrasta como os outros. Ela tem um equilíbrio... estranho.
— O sistema motor dela não foi totalmente comprometido — explicou Diego, aproximando-se com uma lanterna clínica para examinar os olhos de Hope enquanto ela estava distraída com Renata. — Com licença, Hope. Só um segundo.
Diego apontou a luz para os olhos dela. As pupilas brancas reagiram minimamente, mas reagiram.
— A resposta pupilar é lenta, mas presente. Alex, isso é fascinante. Ela está no limite entre a morte cerebral e a consciência funcional.
— Ela é um perigo funcional, isso sim — retrucou Alex, embora estivesse guardando um dos isqueiros no bolso. — Se ela começar a ter fome, a primeira coisa que ela vai ver é o pescoço da Renata.
— Eu não estou com medo — disse Renata, terminando de tirar a última folha do cabelo de Hope. — Olhe para ela, Alex. Ela não tem malícia.
Renata pegou uma das joias de vidro e a prendeu no pescoço de Hope. O contraste do vidro brilhante contra a pele esverdeada e pálida era bizarro, mas de certa forma, poético. Hope tocou o colar, sentindo a frieza das contas contra a pele.
— Hope, você se lembra de onde veio? — perguntou Diego, tentando um tom mais direto.
A zumbi desviou o olhar do colar para Diego. Ela pareceu processar a pergunta por um longo tempo. Sua testa se franziu, um movimento muscular que parecia exigir um esforço monumental.
— Água... — ela disse finalmente. — Muita... água. E barulho.
— Um rio? A chuva? — sugeriu Renata.
Hope balançou a cabeça negativamente.
— Mar — ela disse com dificuldade. — Azul.
— Ela deve ter vindo da costa — deduziu Diego. — Isso é a centenas de quilômetros daqui. Ela caminhou por muito tempo.
Alex, que estava encostado na pia, soltou um suspiro pesado. O ódio que ele cultivava por aquelas criaturas era um escudo, e Hope estava começando a fazer furos naquela proteção.
— Não importa de onde ela veio — disse Alex, a voz mais baixa. — O que importa é o que ela vai fazer agora. Temos que fortificar o portão sul hoje à tarde. Diego, você vem comigo. Renata, fique com ela... e, por favor, tente não deixá-la comer as flores do jardim.
— Elas não são comestíveis, Alex, eu sei disso — retrucou Renata com um sorriso sarcástico.
Quando os homens saíram, a cozinha mergulhou em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som de Hope mexendo em suas bugigangas. Ela pegou um dos mapas e o abriu sobre a mesa. Seus dedos pálidos seguiram as linhas das estradas como se estivesse traçando um caminho que sua mente não conseguia mais visualizar.
— Você quer aprender a ler isso de novo? — perguntou Renata, aproximando-se.
Hope olhou para Renata e depois para o mapa. Ela apontou para um ponto aleatório no papel.
— Aqui? — perguntou Renata. — Isso é uma cidade pequena. Não sobrou nada lá.
Hope balançou a cabeça e apontou para o próprio peito.
— Eu... aqui.
Renata sentiu um nó na garganta.
— Sim, Hope. Você está aqui agora. Com a gente.
A zumbi pegou um dos botões cor-de-rosa da mesa e o estendeu para Renata.
— Para... você.
Renata aceitou o botão, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. Ela, que sempre fora a força otimista do grupo, a ginasta que sorria mesmo quando o mundo desmoronava, sentiu-se vulnerável diante daquele gesto de generosidade de um ser que não deveria ter sentimentos.
— Obrigada, Hope. Eu vou guardar com muito carinho.
Lá fora, o vento soprava contra as cúpulas do observatório. O mundo lá fora continuava sendo um lugar cruel, cheio de monstros e morte. Mas ali dentro, entre mapas velhos e botões perdidos, uma nova definição de humanidade estava sendo escrita, uma peça de cada vez.
Alex, observando pela fresta da porta antes de sair para o pátio, viu a cena. Ele apertou o rifle em suas mãos, sentindo o peso da responsabilidade. Ele ainda odiava os zumbis. Ele ainda via o rosto de sua irmã toda vez que fechava os olhos. Mas, ao olhar para Hope, ele começou a se perguntar se o vírus tinha vencido totalmente, ou se a alma humana era simplesmente teimosa demais para morrer por completo.
— Vamos logo, Alex! — chamou Diego do pátio.
— Estou indo — respondeu ele, dando as costas para a cozinha.
Mas, enquanto caminhava, sua mão tocou o isqueiro no bolso, e ele se viu esperando, secretamente, que o "Problema" continuasse a ser exatamente o que era: um mistério que valia a pena proteger.