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Olhos Oceanos

O Silêncio de Veludo e as Correntes de Seda

A manhã seguinte nasceu cinzenta, filtrada pelas pesadas cortinas de veludo que Mikaela insistia em manter semicerradas. O quarto, que Yuuichirou agora via como uma extensão de sua própria pele — íntimo e indesejado —, estava mergulhado em um silêncio que zumbia nos ouvidos. Mika não estava mais na cama, mas o lado onde ele dormira ainda guardava um resquício de frio, um paradoxo constante da sua existência.

Yuu tentou se levantar, mas cada músculo de seu corpo protestou. O tornozelo que ele torcera na fuga frustrada da noite anterior estava enfaixado com uma precisão cirúrgica. Mika cuidara dele enquanto ele dormia, como um artesão restaurando uma boneca quebrada.

— Você acordou.

A voz veio de uma poltrona no canto sombrio do quarto. Mikaela estava sentado com um livro aberto no colo, mas seus olhos azuis, intensos e vigilantes, estavam fixos em Yuu. Ele se levantou com a elegância predatória de um felino e caminhou até a cama, trazendo consigo uma bandeja de prata com frutas, pães e um bule de chá cujo aroma de jasmim infundia o ar.

— Como se sente? — perguntou Mika, colocando a bandeja sobre o colo de Yuu.

— Como se eu tivesse morrido e esquecido de cair — respondeu Yuu, sua voz seca. Ele empurrou a bandeja para o lado, mas Mika a segurou no lugar com uma mão firme.

— Você precisa comer, Yuu-chan. Você gastou muita energia ontem à noite. Aquela... caminhada... foi imprudente.

Yuuichirou sentiu a bile subir à garganta.

— "Caminhada"? É assim que você chama? Eu estava tentando escapar de você, Mika! Eu estava tentando respirar!

Mikaela suspirou, um som carregado de uma paciência que Yuu achava insultante. Ele se sentou na beirada do colchão, pegando uma uva e oferecendo-a aos lábios de Yuu.

— Respire aqui. O ar lá fora é poluído pela ganância e pelo ódio. Guren e os outros... eles estão em guerra, Yuu. Se você voltasse para eles, eles o usariam como uma arma. Eu sou o único que vê você como uma pessoa.

— Uma pessoa não vive trancada, Mika. Uma pessoa escolhe o próprio destino, mesmo que seja um destino de guerra. — Yuu desviou o rosto da oferta de comida. — Prefiro ser uma arma nas mãos de quem me deixa lutar do que um tesouro escondido em um cofre.

O olhar de Mika escureceu por um breve segundo, uma fagulha de algo antigo e violento cruzando suas íris. Mas, tão rápido quanto surgiu, desapareceu, substituído por aquela calma gélida e possessiva.

— Você diz isso porque não entende o valor da sua própria vida. Mas eu entendo. Eu morreria mil vezes para garantir que nenhum arranhão toque você.

— Você já está me matando, Mika! — Yuu gritou, a frustração transbordando em lágrimas que ele odiava derramar. — Olhe para mim! Eu sou uma sombra. Eu não tenho nada além de você, e isso é aterrorizante.

Mikaela deixou a uva cair na bandeja e envolveu o rosto de Yuu com as duas mãos. O toque era frio, mas a intensidade do seu olhar era como fogo.

— Por que não é o suficiente? — sussurrou Mika, sua voz tremendo pela primeira vez. — Eu dou a você tudo o que você pede. Livros, música, a melhor comida, meu tempo, meu sangue, minha alma. Por que o meu amor não é o suficiente para preencher esse vazio?

— Porque o amor sem liberdade é apenas uma sentença de prisão perpétua — Yuu respondeu, sua voz agora baixa e quebrada.

Mika inclinou-se para frente, encostando o nariz no de Yuu.

— Então eu serei o seu carcereiro e o seu servo. Mas você não vai sair. Nunca.

O restante do dia passou em uma névoa de apatia e desespero silencioso. Mika cumpriu sua promessa de levá-lo ao jardim, mas a experiência foi tudo menos libertadora. O jardim era cercado por muros de pedra de cinco metros de altura, cobertos por heras que pareciam garras verdes tentando segurar o céu. Dois seguranças de confiança de Mika — homens que pareciam mais máquinas do que seres humanos — permaneciam a uma distância discreta, mas constante.

Yuu sentou-se em um banco de pedra, observando as rosas vermelhas que Mika cultivava com tanta dedicação. Elas eram perfeitas, sem uma única pétala murcha, mas pareciam artificiais em sua perfeição.

— Elas são lindas, não são? — comentou Mika, aproximando-se com uma tesoura de poda. — Eu cuido de cada uma pessoalmente. Se eu as deixasse ao relento, sem proteção, os insetos as devorariam, o sol as queimaria.

— E se elas preferissem queimar ao sol do que viver sob a sua sombra? — Yuu perguntou, sem olhar para ele.

Mika parou, a tesoura brilhando sob a luz pálida do outono.

— As flores não têm vontade, Yuu-chan. Elas apenas existem para serem apreciadas.

— Eu não sou uma flor, Mika.

— Às vezes eu acho que você é. Algo tão raro que o mundo não merece ver.

Yuu sentiu um calafrio. Ele olhou para os muros, para os guardas, e depois para o homem loiro à sua frente, que o olhava com uma adoração que beirava a loucura. Ele amava Mika, esse era o fato mais doloroso de sua vida. Ele amava a memória do menino que dividia o pão com ele no orfanato, o menino que se sacrificara para que ele pudesse fugir anos atrás. Mas aquele Mika morrera, ou fora distorcido por um mundo que se recusava a deixá-los em paz.

— Mika — disse Yuu, sua voz subitamente suave —, você se lembra de quando éramos crianças? Quando sonhávamos em ver o mar?

Mikaela baixou o olhar, e por um momento, a máscara de controle vacilou.

— Eu me lembro.

— O mar não cabe em um jardim, Mika. Ele precisa de espaço. Ele precisa ser selvagem. Se você colocar o mar em um balde, ele deixa de ser o mar. É apenas água estagnada.

Mika fechou a tesoura com um estalo metálico.

— O mar é perigoso. As pessoas se afogam nele. Eu prefiro você aqui, onde posso garantir que você nunca afunde.

Ele se aproximou e ajoelhou-se entre as pernas de Yuu, apoiando as mãos nos joelhos do moreno.

— Por favor, Yuu-chan. Pare de lutar. Pare de tentar fugir. Isso só nos machuca. Ontem à noite... quando eu vi você correndo naquela estrada, meu coração parou. Eu pensei que, se você chegasse à rodovia, alguém poderia te levar. Alguém poderia te machucar antes que eu chegasse.

— Ou alguém poderia ter me ajudado — rebateu Yuu, embora sentisse a determinação fraquejar diante da vulnerabilidade de Mika.

— Ninguém ajuda ninguém de graça neste mundo — Mika disse com amargura. — Eles iam querer algo em troca. Eles iam ver o que você é, o que corre nas suas veias... e eles iam te reduzir a um experimento de novo. Você esqueceu o que os humanos fizeram conosco?

Yuu fechou os olhos. As memórias dos laboratórios, da dor e do medo eram cicatrizes que nunca fechariam. Mika usava esse trauma como uma algema, lembrando-o constantemente de que o mundo exterior era um monstro faminto. E o pior era que Yuu sabia que, em parte, Mika tinha razão.

— Eu não esqueci — sussurrou Yuu. — Mas eu prefiro o risco da dor do que a certeza dessa... dessa sufocação.

Mikaela pegou a mão de Yuu e a beijou, cada dedo com uma reverência quase religiosa.

— Eu vou fazer você mudar de ideia. Vou te mostrar que este é o único lugar onde você pode ser verdadeiramente feliz.

Naquela noite, o jantar foi servido na grande sala de jantar, sob o brilho de um lustre de cristal que lançava sombras dançantes nas paredes. Yuu mal tocou na comida, seus pensamentos voltados para a faca de prata que Mika confiscara após sua tentativa de fuga. Ele precisava de outro plano, algo mais sutil.

— Você está muito quieto — observou Mika, observando-o por cima da taça de vinho. — O que está passando por essa sua cabeça teimosa?

— Nada — mentiu Yuu. — Só estou cansado.

— O cansaço da alma é o mais difícil de curar — disse Mika, levantando-se e caminhando até Yuu. Ele estendeu a mão. — Venha. Vamos para o quarto. Eu trouxe algo para você.

Yuu aceitou a mão, sentindo-se como um condenado caminhando para a forca, apesar da gentileza do gesto. No quarto, sobre a cama, havia uma caixa de madeira entalhada.

— Abra — incentivou Mika.

Dentro da caixa, havia um violino antigo, de madeira escura e brilhante. Yuu ficou sem fala por um momento. Ele costumava tocar quando era criança, antes de tudo desmoronar.

— Eu me lembro de como você gostava — disse Mika, sua voz carregada de uma doçura melancólica. — Achei que, se você não pode ver o mundo, talvez possa criar o seu próprio através da música.

Yuu tocou as cordas com a ponta dos dedos, sentindo a vibração. Era um presente maravilhoso, e por um segundo, ele sentiu uma onda de puro afeto por Mika. Era isso que tornava tudo tão difícil: Mika não era um monstro de desenho animado. Ele era um homem que o amava com uma intensidade devastadora, que conhecia seus gostos, suas dores e seus sonhos.

— Obrigado, Mika — murmurou Yuu.

Mika o abraçou por trás, descansando o queixo em seu ombro.

— Toque para mim, Yuu-chan. Deixe a música preencher esta casa.

Yuu posicionou o violino e começou a tocar. A melodia era triste, uma canção de ninar que ele aprendera há muito tempo. Enquanto as notas flutuavam pelo quarto, ele sentiu as lágrimas voltarem. Ele estava tocando para sua própria tristeza, para a liberdade que ele temia nunca mais alcançar.

Mika fechou os olhos, absorvendo cada nota como se fosse oxigênio. Para ele, aquele era o som da vitória. Yuu estava ali, em seus braços, sob seu teto, tocando apenas para ele.

— Viu? — sussurrou Mika quando a música cessou. — Nós não precisamos de mais nada. Só um do outro.

Yuuichirou baixou o arco, o peito subindo e descendo com esforço. Ele olhou para o violino e depois para a janela trancada.

— Mika... se eu prometer não fugir... se eu prometer ficar aqui de vontade própria... você abriria as janelas? Você me deixaria andar pela propriedade sem os guardas?

Mikaela ficou em silêncio por um longo tempo. Ele analisou o rosto de Yuu, procurando por qualquer sinal de decepção.

— Você está propondo um pacto? — perguntou Mika.

— Estou propondo uma trégua. Eu não aguento mais viver como um animal enjaulado. Se você quer que eu seja feliz aqui, me dê um pouco de confiança.

Mika acariciou o cabelo de Yuu, seus dedos se perdendo nos fios negros.

— Confiança é algo perigoso, Yuu-chan. Mas eu odeio ver você murchar. — Ele suspirou, uma decisão pesando em seus ombros. — Tudo bem. Amanhã, os guardas ficarão fora da sua vista. As janelas do andar de baixo serão destrancadas durante o dia. Mas... se você quebrar sua promessa, Yuu... se você tentar cruzar os portões de novo... eu terei que tomar medidas mais drásticas.

— Que medidas? — perguntou Yuu, embora já soubesse a resposta.

— Eu não quero ter que usar correntes em você, Yuu-chan. Por favor, não me obrigue a ser esse tipo de homem.

O aviso pairou no ar, frio e afiado. Yuu engoliu em seco e assentiu.

— Eu entendo.

Naquela noite, Mikaela não o prendeu com as pernas ou braços. Ele apenas segurou a mão de Yuu, os dedos entrelaçados com força, mesmo no sono. Yuu ficou acordado por horas, olhando para o teto. Ele conseguira uma pequena vitória, uma fresta de liberdade. Mas ele sabia que o preço era alto. Ele estava jogando um jogo perigoso com um homem que não tinha nada a perder além dele.

— Eu vou sair daqui, Mika — sussurrou Yuu para a escuridão, tão baixo que nem mesmo os ouvidos aguçados de Mika poderiam ouvir. — Eu amo você, mas eu vou sair.

Ele sentiu um aperto na mão. Mika, mesmo dormindo, pareceu reagir àquela declaração de guerra silenciosa. O amor entre eles era um campo de batalha, e as feridas eram profundas demais para serem curadas apenas com presentes e banhos quentes.

Yuu finalmente adormeceu, sonhando não com o mar, mas com o momento em que veria o sol sem ter um vidro entre eles. Ele não sabia como, nem quando, mas ele encontraria uma maneira de quebrar a gaiola, mesmo que isso significasse quebrar o coração de Mika — e o seu próprio — no processo.

Afinal, em um romance sombrio, a linha entre o beijo e a mordida é tão tênue quanto a seda que o prendia àquela cama. E Yuuichirou estava começando a aprender a morder de volta.