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Olhos Oceanos

O Labirinto de Vidro e a Fragilidade da Confiança

A luz do sol de outono, embora pálida, parecia mais brilhante naquela manhã. Pela primeira vez em meses, Yuuichirou não acordou com o som metálico de uma chave girando na fechadura. A porta estava encostada, um convite silencioso e aterrorizante para a liberdade limitada que Mikaela lhe concedera. Yuu sentou-se na cama, o violino que ganhara na noite anterior repousando sobre a escrivaninha como um lembrete físico da barganha que haviam feito.

Ele se levantou, testando o tornozelo. A dor era agora apenas uma pontada sutil, um eco da fuga frustrada. Ao caminhar pelo corredor, o silêncio da mansão não parecia mais tão asfixiante, mas sim expectante. Ele desceu as escadarias de mármore e encontrou as janelas da sala de estar despidas de suas trancas externas. O vidro ainda estava lá, mas a promessa de que ele poderia abri-las mudava tudo.

Mikaela estava na varanda, de costas para a casa, observando a névoa que se dissipava sobre o vale. Ele não usava o terno formal de costume, mas uma camisa de linho branco que o fazia parecer quase humano, quase o Mika de quem Yuu se lembrava.

— Você demorou a descer — disse Mika, sem se virar. — Comecei a pensar que tinha decidido ficar na cama o dia todo.

— Eu estava pensando se isso era uma armadilha — confessou Yuu, aproximando-se com cautela. Ele parou a dois metros de distância, mantendo o espaço que a desconfiança exigia.

Mika virou-se lentamente. Seus olhos azuis estavam nublados, uma mistura de exaustão e uma ternura que beirava o masoquismo.

— É uma prova, Yuu-chan. Para nós dois. Eu abri as janelas, como prometi. Os guardas estão patrulhando apenas o perímetro externo, longe da sua vista. Hoje, esta casa é sua.

Yuu caminhou até a grande porta de vidro que dava para o jardim e, com as mãos trêmulas, girou a maçaneta. O ar frio da manhã atingiu seu rosto, trazendo o cheiro de terra úmida e pinheiros. Ele fechou os olhos, inspirando profundamente, sentindo as lágrimas queimarem. Era apenas um jardim, mas para ele, era o oceano.

— Por que agora, Mika? — perguntou Yuu, ainda de costas. — Por que me dar isso depois de tanto tempo?

Mika aproximou-se, mas não o tocou. Ele parecia respeitar a bolha de espaço que Yuu tentava preservar.

— Porque eu vi seus olhos ontem enquanto você tocava aquele violino. Você estava aqui fisicamente, mas sua alma estava morrendo. Eu posso trancá-lo, posso escondê-lo do mundo, mas não serve de nada se eu acabar com uma casca vazia. Eu quero o Yuu que sorri, mesmo que esse sorriso seja motivado por uma liberdade que me assusta.

Yuu virou-se e viu a dor sincera no rosto do loiro. Era esse o veneno do "dark romance" que viviam: a crueldade de Mika era alimentada por um amor tão puro que se tornara tóxico. Mika não queria ser um vilão; ele se via como um salvador em um mundo de monstros, sem perceber que, ao salvar Yuu, ele o havia devorado.

— Se você realmente quer que eu sorria, Mika, precisa entender que eu nunca vou parar de querer ir embora.

— Eu sei — sussurrou Mika, um sorriso triste curvando seus lábios pálidos. — Mas talvez, se o aqui dentro for suportável, a vontade do lá fora diminua.

O dia passou em uma estranha calmaria. Yuu caminhou pelo jardim por horas, explorando cada canto que antes lhe era proibido. Ele sentia os olhos de Mika sobre ele de vez em quando, observando das janelas superiores, mas o loiro manteve sua palavra e o deixou sozinho. A solidão era um luxo que Yuu não sabia que sentia tanta falta.

No entanto, a tristeza não o abandonava. Cada vez que ele chegava perto do muro de pedra, a realidade de sua situação voltava como um soco. Ele não estava livre; ele estava apenas em uma gaiola maior. Ele se sentou sob um carvalho antigo, abraçando os próprios joelhos, e permitiu-se chorar silenciosamente. Ele sentia falta de Guren, das piadas idiotas de Shinoa, da comida simples que compartilhavam. Ele sentia falta de ser Yuuichirou Hyakuya, o soldado, e não Yuu, a joia de Mikaela.

— Yuu-chan?

Mika estava parado a poucos metros, segurando uma manta. O sol já estava se pondo, pintando o céu de tons violentos de laranja e roxo.

— Está ficando frio. Você vai ficar doente se continuar sentado na grama úmida.

Yuu limpou o rosto rapidamente, mas Mika já tinha visto. O loiro caminhou até ele e, com uma delicadeza que contrastava com a força que ele possuía, envolveu os ombros de Yuu com a manta.

— Você está triste — constatou Mika, agachando-se à sua frente. — Eu te dei o que você pediu, e você ainda chora.

— Você não entende, não é? — Yuu olhou para ele, os olhos verdes brilhando de mágoa. — Você acha que liberdade é uma questão de metros quadrados. Mas liberdade é poder escolher não estar com você, Mika. E essa escolha você nunca vai me dar.

Mikaela estendeu a mão e tocou a bochecha de Yuu, limpando o rastro de uma lágrima com o polegar.

— Eu não posso te dar essa escolha porque ela significa a minha destruição. Você me pede para cometer suicídio, Yuu.

— E você me pede para viver morto! — Yuu rebateu, a voz subindo de tom. — O que nós temos não é amor, Mika. É uma obsessão que está nos consumindo!

Mika segurou o rosto de Yuu com as duas mãos, forçando-o a olhar em seus olhos. A intensidade ali era avassaladora, uma mistura de adoração religiosa e desespero maníaco.

— É amor — insistiu Mika. — É o único tipo de amor que resta em um mundo que foi destruído. Eu limpo suas feridas, eu te alimento, eu te protejo de homens que te usariam como gado. Como você pode dizer que isso não é amor?

— Porque o amor liberta, Mika. Ele não acorrenta.

— Então o meu amor é diferente — disse Mika, aproximando-se até que suas testas se encostassem. — O meu amor é uma âncora. Ele te segura no lugar para que a tempestade não te leve.

Yuu sentiu o cheiro familiar de sândalo e o frio da pele de Mika. Apesar de tudo, apesar da raiva e do desejo de fugir, seu coração traidor acelerou. Ele odiava o que Mika fazia, mas ainda amava o Mika que existia por trás daquela possessividade. Ele se inclinou para frente, fechando a distância, e beijou Mika com uma intensidade que era metade desejo e metade desespero.

O beijo era amargo, com gosto de lágrimas e promessas quebradas. Mika respondeu com uma fome desesperada, como se estivesse tentando sugar a própria essência de Yuu para dentro de si, para garantir que ele nunca o deixasse. Suas mãos desceram para as costas de Yuu, apertando-o contra seu peito, uma barreira de carne e osso que nenhuma janela aberta poderia superar.

Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes. Mika parecia quase em transe, seus olhos fixos nos lábios de Yuu.

— Fique comigo — sussurrou Mika. — Esqueça o mundo lá fora, Yuu-chan. Eu posso ser tudo para você. Eu serei seu amigo, seu amante, sua família. Apenas pare de olhar para os muros.

Yuu sentiu um peso no peito. Por um momento, a tentação de se entregar foi enorme. Seria tão fácil parar de lutar, aceitar o luxo e o afeto distorcido de Mika, e simplesmente existir naquela bolha de perfeição artificial. Mas então, ele lembrou-se do rosto de Guren, do peso de sua espada, e da sensação de lutar por algo maior do que a própria segurança.

— Eu não posso, Mika — disse Yuu, sua voz firme apesar do tremor em suas mãos. — Eu não sou um objeto de decoração.

O rosto de Mika se transformou. A ternura desapareceu, dando lugar a uma máscara de frieza absoluta. Ele se levantou, limpando a poeira de suas calças com um gesto mecânico.

— Entendo. A trégua acabou, então.

— O quê? — Yuu levantou-se rapidamente, o medo gelando seu sangue. — Você prometeu!

— Eu prometi confiança — disse Mika, sua voz agora desprovida de qualquer calor. — Mas você acabou de me dizer que, não importa o que eu faça, você sempre estará procurando uma saída. Confiança sem reciprocidade é apenas tolice.

Mika caminhou em direção à casa, e Yuu correu atrás dele.

— Mika, espere! Não faça isso!

— Eu tentei do seu jeito, Yuu-chan — disse Mika, parando na porta da varanda. — Eu abri as janelas e você usou esse tempo para lamentar o fato de não poder fugir. Se o jardim não é suficiente, se o meu amor não é suficiente, então talvez você precise de menos espaço para refletir, não de mais.

— Você vai me trancar de novo? — Yuu gritou, a voz falhando.

Mika virou-se, e por um breve momento, Yuu viu o monstro que o loiro tanto tentava esconder.

— Não — disse Mika. — Vou fazer algo melhor. Vou garantir que você entenda que não há para onde ir.

Mikaela fez um sinal com a mão, e das sombras das árvores, dois guardas apareceram, carregando algo que fez o coração de Yuu parar. Era o violino, partido ao meio, as cordas arrebentadas como veias expostas.

— Por que...? — Yuu caiu de joelhos, olhando para os destroços de sua única fonte de alegria.

— Porque a música te fazia sonhar com outros lugares — disse Mika, sua voz soando como o julgamento final. — E eu preciso que você esteja aqui, comigo. Apenas comigo.

Mika caminhou até ele e o pegou nos braços. Yuu não lutou; ele estava em choque, a crueldade do gesto drenando suas forças. Mika o carregou de volta para o quarto, mas desta vez, não houve banho quente ou palavras doces. Ele o deitou na cama e sentou-se ao seu lado, observando-o com uma calma aterrorizante.

— Você me odeia agora, não é? — perguntou Mika, acariciando o cabelo de Yuu.

Yuu não respondeu. Ele apenas olhava para a parede, as lágrimas escorrendo silenciosamente.

— Ótimo — continuou Mika. — O ódio é uma emoção forte. É quase tão forte quanto o amor. Enquanto você me odiar, você estará pensando em mim. Você estará ligada a mim. E isso é tudo o que importa.

Mika inclinou-se e sussurrou no ouvido de Yuu, um som que assombraria seus sonhos por muito tempo:

— Boa noite, Yuu-chan. Amanhã, as janelas estarão fechadas. E nós começaremos de novo. Até que você entenda que a única liberdade que existe é aquela que eu te dou.

Mikaela saiu do quarto, e o som do clique da fechadura foi mais alto do que nunca. No silêncio que se seguiu, Yuuichirou abraçou o próprio corpo, sentindo o frio da mansão se infiltrar em seus ossos. Ele amava Mika, e Mika o amava. Mas naquele momento, Yuu percebeu que o amor deles era uma doença terminal, e que a gaiola de vidro, agora, não tinha mais saídas.

Ele fechou os olhos e, na escuridão de sua mente, começou a tocar uma música sem som, uma melodia de revolta que nem mesmo Mikaela poderia quebrar. A fuga da noite anterior falhara, e a trégua de hoje fora um desastre. Mas Yuu ainda estava vivo. E enquanto houvesse vida, haveria uma chance de queimar aquela mansão até o chão, mesmo que ele tivesse que queimar junto com ela.

— Eu vou sair daqui, Mika — sussurrou ele para o quarto vazio. — Nem que seja a última coisa que eu faça.

Lá fora, o vento de outono soprava as folhas secas contra o vidro, um som constante e rítmico, como o bater de asas de um pássaro que se recusava a aceitar que o céu não lhe pertencia mais. E dentro da mansão, Mikaela encostou a testa na porta trancada, chorando silenciosamente pelo amor que ele estava matando para poder manter. O ciclo de dor e devoção continuava, uma dança macabra entre dois corações que não sabiam como viver juntos, mas que tinham medo demais de morrer separados.