Olhos Oceanos
O Crepúsculo das Lembranças e o Gosto do Ferro
O ar no quarto parecia ter se tornado sólido, uma massa invisível que pressionava os pulmões de Yuuichirou até que cada respiração fosse um esforço consciente. Ele permanecia deitado, exatamente na mesma posição em que Mika o deixara, observando as sombras das árvores projetadas no teto pela luz da lua. O silêncio da mansão era absoluto, mas em sua mente, o estalo do violino quebrando ainda ecoava como um tiro de misericórdia.
Mika havia cruzado uma linha. Não era mais apenas sobre segurança ou sobre o medo de perdê-lo para o mundo exterior; era sobre a aniquilação de qualquer fragmento de identidade que Yuu ainda possuísse. Ao destruir o instrumento, Mika não quebrou apenas madeira e cordas; ele tentou quebrar a última janela que Yuu tinha para sua própria alma.
As horas se arrastaram. Yuu sentiu o frio da madrugada infiltrar-se pelos lençóis de seda, mas não se moveu para buscar calor. Ele estava em um estado de dormência anestésica, até que o som suave da fechadura girando o trouxe de volta à realidade. Ele não precisava olhar para saber que Mika estava lá. O cheiro de sândalo e a aura de uma calma gélida preencheram o ambiente antes mesmo que o primeiro passo fosse dado sobre o tapete felpudo.
Mika aproximou-se da cama com a leveza de um fantasma. Ele carregava uma pequena bacia de água morna e um pano branco. Sentou-se na beirada do colchão, observando o perfil imóvel de Yuu.
— Eu sei que você está acordado, Yuu-chan — sussurrou Mika. Sua voz não carregava o arrependimento que Yuu esperava, mas sim uma resignação melancólica. — Seus olhos estão abertos, mas você não está aqui. Por favor, volte para mim.
Yuu não respondeu. Ele sentiu o toque do pano úmido em sua bosta, limpando os vestígios secos das lágrimas que ele nem percebera que haviam parado de cair. O gesto era de uma ternura doentia, um contraste violento com o ato de destruição de poucas horas antes.
— Você me odeia tanto assim agora? — Mika perguntou, sua mão parando sobre a bochecha de Yuu. Os dedos estavam frios, como sempre, mas tremiam levemente. — Eu fiz aquilo por nós. A música... ela te levava para longe. Eu via nos seus olhos. Você não estava nesta sala comigo quando tocava. Você estava em algum lugar que eu não podia alcançar. E eu não posso permitir que nada nos separe, nem mesmo uma melodia.
Yuu finalmente virou o rosto, encontrando o olhar azul e febril de Mika.
— Você não entende, Mika — disse Yuu, sua voz soando rouca e desprovida de emoção. — Você não me quer. Você quer um reflexo seu. Você quer algo que possa controlar totalmente, como uma estátua ou um quadro. Mas eu sou humano. Eu sangro, eu sinto falta das pessoas, e eu sinto falta de quem eu era antes de você decidir que eu era sua propriedade.
Mika inclinou-se sobre ele, o cabelo loiro caindo sobre os olhos, criando uma cortina que os isolava do resto do quarto.
— Eu salvei você, Yuu! — O tom de Mika subiu, uma faísca de desespero rompendo sua máscara de controle. — Quantas vezes preciso te lembrar? Guren te usou! Eles te transformaram em um monstro, em uma arma para os objetivos deles! Eu sou o único que te ama pelo que você é, não pelo que você pode fazer no campo de batalha!
— Então por que quebrou o violino? — Yuu sentou-se bruscamente, as cobertas caindo de seus ombros. — Ele não era uma arma. Ele era a única coisa que me fazia sentir que eu ainda tinha um coração que não batia apenas por medo de você.
Mika recuou, como se tivesse sido esbofeteado. Ele deixou o pano cair dentro da bacia, o som da água respingando parecendo um trovão no silêncio.
— Porque esse coração deveria bater apenas por mim! — Mika gritou, e pela primeira vez, a fúria pura e possessiva obscureceu sua beleza angelical. — Eu dei tudo a você! Minha humanidade, minha paz, cada pensamento meu é dedicado a manter você seguro e feliz! E tudo o que você faz é procurar frestas nas janelas e sonhar com pessoas que te abandonariam no momento em que você não fosse mais útil!
— Eles são minha família, Mika! — Yuu retrucou, levantando-se da cama. Ele cambaleou levemente, o tornozelo ainda protestando, mas manteve-se firme. — E você também era. Mas agora... agora eu nem sei o que você é. Você parece um estranho que usa o rosto do meu melhor amigo.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Mika permaneceu imóvel, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. O ar entre eles vibrava com uma tensão que ameaçava destruir tudo ao redor. Lentamente, Mika levantou o olhar. Não havia mais raiva, apenas um vazio profundo e aterrorizante.
— Um estranho? — Mika repetiu, sua voz agora um sussurro gélido. — Se é isso que eu sou para você, então talvez eu deva agir como tal. Talvez eu tenha sido gentil demais, Yuu-chan. Talvez eu tenha te dado opções demais.
Mika caminhou em direção à porta e, antes de sair, olhou por cima do ombro.
— Você não sairá deste quarto pelos próximos três dias. Ninguém entrará, exceto eu. Você terá tempo para pensar no que significa estar verdadeiramente sozinho. Talvez assim você aprenda a valorizar a única pessoa que nunca vai te deixar.
A porta se fechou com um estrondo, e o som da tranca tripla ecoou como uma sentença definitiva. Yuu correu até a porta, socando a madeira sólida até que seus nós dos dedos sangrassem.
— Mika! Abre essa porta! Você não pode fazer isso! Mika!
Mas não houve resposta. Apenas o silêncio pesado da mansão.
Os dois primeiros dias foram um borrão de desespero e apatia. Mika trazia comida pessoalmente, mas não dizia uma palavra. Ele entrava, colocava a bandeja sobre a mesa e observava Yuu com um olhar clínico, como se estivesse estudando o progresso de uma doença. Yuu tentou de tudo: implorou, gritou, tentou seduzi-lo para que baixasse a guarda, e até tentou atacá-lo com um pedaço de madeira que conseguiu arrancar do pé da cama.
Nada funcionou. Mika era mais forte, mais rápido e estava completamente imune emocionalmente aos ataques de Yuu. Ele simplesmente o imobilizava contra a parede, segurando seus pulsos com uma força que deixava marcas roxas, e esperava que o surto de raiva passasse.
— Por que você ainda luta? — Mika perguntou na noite do segundo dia, enquanto limpava um corte que Yuu fizera na própria mão ao tentar quebrar o vidro da janela. — Você só está se machucando.
— Porque enquanto eu lutar, eu sei que ainda estou vivo — respondeu Yuu, desviando o olhar. Sua voz estava fraca, a falta de sono e o estresse emocional cobrando seu preço. — No dia em que eu parar, você terá vencido. E eu prefiro morrer a deixar você vencer.
Mika parou de enfaixar a mão dele. Ele levantou o queixo de Yuu, forçando-o a olhar para ele.
— Você realmente prefere a morte a uma vida ao meu lado? — A pergunta foi feita com uma curiosidade genuína, o que a tornava ainda mais cruel.
— Eu prefiro a morte a ser seu brinquedo, Mika. Se você me ama, como diz, deveria saber disso.
Mika deu um sorriso triste e inclinou-se, pressionando os lábios contra a testa de Yuu.
— Então eu terei que ser paciente. Você é como um pássaro selvagem, Yuu-chan. Você vai bater as asas contra as grades até que elas se quebrem ou até que você não tenha mais forças. E eu estarei aqui para recolher as penas.
No terceiro dia, algo mudou. Yuu não gritou. Ele não tentou atacar Mika quando ele entrou. Ele estava sentado no chão, perto da janela trancada, observando o pôr do sol. Quando Mika colocou a bandeja de comida no chão, Yuu falou sem se virar.
— Mika... você se lembra de quando fugimos de Sanguinem?
Mika congelou. Aquela era a ferida aberta na alma de ambos.
— Eu me lembro de cada segundo — respondeu Mika, sua voz falhando.
— Naquele dia, você me disse para correr. Você se sacrificou para que eu pudesse viver. — Yuu finalmente virou-se, e seus olhos verdes estavam cheios de uma tristeza tão profunda que Mika sentiu um aperto físico no peito. — O Mika que eu amava, o Mika que é minha família... ele queria que eu fosse livre. Ele queria que eu visse o mundo por nós dois. Onde está esse Mika agora?
Mikaela caminhou até ele e sentou-se no chão, a poucos centímetros de distância. Ele parecia exausto, as olheiras profundas denunciando que ele também não havia dormido.
— Esse Mika morreu naquele corredor, Yuu — sussurrou ele. — Ele morreu e renasceu como algo que o mundo odeia. E a única coisa que o manteve são, a única coisa que impediu que ele se tornasse um monstro completo, foi a ideia de te encontrar de novo. Eu passei anos sonhando com este momento. Mas nos meus sonhos, você estava feliz em me ver. Nos meus sonhos, você não tentava fugir de mim.
— Porque nos seus sonhos, você não era meu carcereiro — disse Yuu suavemente. Ele estendeu a mão e, pela primeira vez em dias, tocou o rosto de Mika voluntariamente. — Eu ainda te amo, Mika. Esse é o problema. Eu te amo tanto que dói ver o que você está fazendo conosco.
Mika fechou os olhos, inclinando-se para o toque de Yuu como uma planta buscando o sol. Por um momento, a tensão desapareceu. Eles eram apenas dois órfãos, marcados pela guerra e pelo trauma, tentando encontrar conforto um no outro.
— Se você me ama... por que quer me deixar? — Mika perguntou, sua voz soando como a de uma criança perdida.
— Porque amar alguém não significa possuir essa pessoa — Yuu explicou, seus dedos traçando a linha da mandíbula de Mika. — Eu quero estar com você, Mika. Mas eu quero estar com você porque eu escolhi, não porque não tenho outra opção. Você entende a diferença?
Mikaela abriu os olhos. O azul estava límpido, mas carregado de uma incerteza que Yuu raramente via.
— E se eu te deixar sair... e você não voltar?
— Então você saberá que o que tínhamos não era real — disse Yuu. — Mas se você me deixar ir e eu voltar... então saberemos que nada no mundo pode nos separar. Nem o Guren, nem os vampiros, nem ninguém.
Mika ficou em silêncio por um longo tempo. O relógio na parede tiquetaqueava, marcando os segundos de uma decisão que poderia mudar tudo. Ele olhou para as mãos de Yuu, marcadas por cicatrizes e pelos abusos dos últimos dias, e depois para o rosto pálido e determinado do moreno.
— Eu não posso te deixar ir para a cidade — disse Mika finalmente. — Ainda não. É perigoso demais. Guren está procurando por você, e os vampiros também.
Yuu sentiu a esperança murchar, mas Mika continuou.
— Mas... eu vou destrancar as portas da mansão. Você poderá andar pela propriedade. Sem guardas. Sem trancas. Os portões principais continuarão fechados, mas você terá a floresta e o jardim. É o máximo que posso fazer agora, Yuu-chan. Eu preciso saber que você não vai simplesmente correr para os braços de quem quer te usar.
Yuu sentiu um alívio tão grande que quase perdeu o fôlego. Não era a liberdade total, mas era um começo. Era um sinal de que o Mika original ainda estava lá, em algum lugar, lutando contra a escuridão.
— Obrigado, Mika — sussurrou Yuu.
Mika o puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Não me faça arrepender disso — murmurou Mika contra sua pele. — Se eu te perder de novo, Yuu... eu não acho que vou conseguir voltar. Eu vou me perder para sempre.
— Você não vai me perder — prometeu Yuu, embora uma parte de sua mente já estivesse calculando as rotas de fuga pela floresta.
Era a dualidade cruel de sua existência. Ele amava Mika, queria curá-lo, queria estar com ele. Mas a necessidade de liberdade era um instinto primordial, algo que nem o amor mais profundo podia suprimir. Ele retribuiu o abraço, sentindo o batido frio e constante do coração de Mika contra o seu, que pulsava com uma vida caótica.
Naquela noite, Mika não trancou a porta. Ele dormiu ao lado de Yuu, segurando sua mão com uma força que era ao mesmo tempo um carinho e uma advertência. Yuu observou a lua através da janela agora destrancada, sentindo o cheiro da liberdade que flutuava no ar noturno.
Ele sabia que a batalha não havia acabado. Mika ainda era possessivo, ainda era perigoso, e a mansão ainda era uma prisão, por mais luxuosa que fosse. Mas, pela primeira vez, havia uma rachadura no vidro. E Yuuichirou pretendia usá-la.
Enquanto Mika dormia, Yuu sussurrou para o vazio do quarto, uma promessa para si mesmo e para o futuro incerto que os aguardava.
— Nós vamos encontrar um jeito, Mika. Ou seremos livres juntos, ou seremos destruídos juntos. Mas eu não vou mais ser apenas uma boneca na sua estante.
Lá fora, a floresta sussurrava segredos de caminhos escondidos e sombras protetoras. E no coração da mansão, dois amantes distorcidos descansavam em uma paz frágil, unidos por um laço de sangue e trauma que era, ao mesmo tempo, sua salvação e sua ruína. O dark romance deles estava longe de uma resolução, mas naquela noite, o gosto do ferro e das lágrimas foi substituído pelo sabor amargo, mas inebriante, da esperança.