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On my block

O Banquete das Sombras

A manhã seguinte em Freeridge nasceu com uma névoa densa, como se o próprio clima estivesse conspirando para esconder as intenções sombrias que pairavam sobre a cidade. Mia acordou com o som do despertador, mas seus olhos já estavam abertos há horas. Ela havia passado a noite contando as rachaduras no teto, sentindo o peso invisível da mão de Oscar ainda pressionando seu braço. Cada batida do seu coração parecia um cronômetro marcando o tempo que lhe restava até o encontro no armazém.

Na escola, o grupo estava reunido no pátio habitual. Ruby gesticulava freneticamente, Jamal olhava para um mapa amassado e Monse tentava, sem sucesso, mediar uma discussão sobre quem deveria pagar pelos lanches. Cesar, por outro lado, estava estranhamente calado, seu olhar perdido no horizonte.

— Mia! Você está no mundo da lua? — Monse perguntou, tocando o ombro da amiga. — Eu estava dizendo que a gente devia ir ao cinema amanhã. O que você acha?

Mia forçou o músculo da bochecha a subir, moldando o sorriso que era sua armadura.

— Claro, parece ótimo. Só preciso ver se minha mãe não tem planos para mim.

— Você anda tão ocupada ultimamente — comentou Jamal, estreitando os olhos de forma conspiratória. — Se eu não soubesse que você é a pessoa mais honesta do mundo, diria que está escondendo um tesouro dos Santos. Ou talvez uma pista sobre o RollerWorld.

O estômago de Mia deu um solavanco.

— Nada disso, Jamal. Só estou um pouco cansada com as provas finais.

— O Oscar perguntou de você hoje de manhã — Cesar disse subitamente, sua voz cortando a conversa como uma lâmina. Ele olhou para Mia com uma expressão de dúvida. — Ele disse que você esqueceu algo na casa dele ontem.

O silêncio caiu sobre o grupo. Ruby parou de falar, olhando de Cesar para Mia.

— Esqueceu? O quê? — Ruby perguntou, curioso. — Você saiu de lá tão rápido ontem, Mia.

— Eu... eu acho que deixei um dos meus cadernos de álgebra — mentiu ela, sentindo o suor frio brotar na nuca. — Eu devo ter passado na sala dele por engano antes de sair.

— Tome cuidado, Mia — Cesar avisou, o tom de voz carregado de um aviso que ele mesmo não sabia explicar totalmente. — Meu irmão está... diferente desde que saiu. Ele está mais intenso. Mais "Spooky" do que o normal.

— Ele é o Oscar, Cesar — Ruby defendeu, embora com menos convicção do que o habitual. — Ele só precisa de tempo para se reajustar à vida fora daquelas grades.

Mia não disse nada. Ela sabia que o "reajuste" de Oscar envolvia arrastá-la de volta para o abismo que ele mesmo havia cavado para ela cinco anos atrás.

O resto do dia passou como um borrão de cores e sons distantes. Quando o sol começou a se pôr, a ansiedade de Mia atingiu o ápice. Ela enviou uma mensagem para a mãe dizendo que ficaria na casa de Monse para estudar, e outra para Monse, pedindo que, se alguém perguntasse, ela confirmasse a história. Monse, sempre leal, não fez perguntas, embora Mia soubesse que o interrogatório viria depois.

Caminhar em direção ao armazém dos Santos parecia uma marcha para o próprio funeral. O local ficava na zona industrial, onde as luzes de rua eram frequentemente quebradas por tiros ou pedradas, e o cheiro de óleo e lixo dominava o ar. À medida que se aproximava, o som de música alta — um hip-hop pesado com graves que faziam o chão vibrar — começou a ecoar.

Havia homens armados na entrada, membros dos Santos com camisas de flanela e olhares gélidos. Mia sentiu-se minúscula em seu vestido azul claro, uma mancha de inocência em um mar de criminalidade.

— Onde pensa que vai, loirinha? — um dos guardas perguntou, bloqueando o caminho com o corpo tatuado.

— Ela está comigo — a voz de Oscar surgiu das sombras atrás do homem.

O guarda imediatamente se afastou, baixando a cabeça em sinal de respeito. Oscar saiu da penumbra, vestindo sua regata branca impecável e a calça escura de sempre. Ele parecia um rei em seu domínio distorcido.

— Você veio — ele disse, um brilho de satisfação cruel em seus olhos escuros. Ele estendeu a mão, mas Mia não a pegou.

— Eu disse que viria. Agora, por favor, vamos acabar com isso.

Oscar riu, um som seco que foi abafado por uma batida de rap.

— Acabar? Mia, estamos apenas começando a noite. Venha, quero que as pessoas vejam o que é beleza de verdade.

Ele a guiou para dentro. O armazém estava lotado. Fumaça de maconha e cigarro formava uma névoa sob as lâmpadas fluorescentes oscilantes. Havia mesas com bebidas, pilhas de dinheiro sendo contadas em cantos e mulheres com roupas provocantes rindo alto. Quando Mia entrou, as conversas diminuíram de volume. Ela era um contraste gritante; ela não pertencia àquele lugar, e todos sabiam disso.

Oscar a levou até um sofá de couro desgastado no fundo do armazém, uma espécie de trono de onde ele observava tudo.

— Sentem-se — ele ordenou a dois membros da gangue que ocupavam o lugar. Eles saíram sem questionar.

— Oscar, eu não me sinto bem aqui — Mia sussurrou, sentando-se na ponta do sofá, as mãos entrelaçadas no colo para esconder o tremor.

— Você se sente bem onde eu mandar você se sentir — ele retrucou, inclinando-se para trás e colocando um braço sobre o encosto, logo atrás da cabeça dela. — Olhe para eles, Mia. Eles me temem. E porque você está comigo, eles temem você também. Isso não é melhor do que ser a "garotinha boazinha" da escola?

— Não. Eu não quero ser temida. Eu só quero que você me deixe ir.

— Você ainda não entendeu, não é? — Oscar se aproximou, o cheiro de álcool agora misturado ao seu perfume. — Eu te marquei quando você tinha dez anos. Eu vi algo em você que ninguém mais viu. Uma força que você esconde sob essa doçura irritante. Você é o meu segredo mais precioso, Mia. E eu não costumo abrir mão dos meus tesouros.

Ele pegou um copo de plástico com um líquido escuro e o estendeu para ela.

— Beba.

— Eu não bebo.

— Beba — repetiu ele, a voz baixando para um tom perigoso que não admitia recusa.

Mia pegou o copo com as mãos trêmulas e tomou um gole. O líquido queimou sua garganta, fazendo-a tossir. Oscar sorriu e acariciou o cabelo loiro dela, um gesto que fez os pelos do braço de Mia se arrepiarem de horror.

— Viu? Não dói se você simplesmente obedecer.

A noite se arrastou em um suplício de horas. Mia foi forçada a observar Oscar dar ordens, receber tributos e manter sua corte de terror. Vez ou outra, ele a exibia como um troféu, obrigando-a a cumprimentar homens cujos olhares a faziam sentir como se estivesse sendo despida.

Por volta das duas da manhã, a festa começou a diminuir. Oscar se levantou, puxando-a pelo pulso.

— Vamos. Vou te levar para casa.

O trajeto no carro foi silencioso, mas a tensão era quase sólida. Quando ele parou em frente à casa dela, Mia tentou sair rapidamente, mas ele travou as portas.

— O que foi agora? — ela perguntou, à beira das lágrimas.

— Você foi uma boa menina hoje — disse ele, voltando-se para ela. — Mas amanhã, o Ruby vai dar aquela festa de boas-vindas para o Cesar e para mim.

— Eu sei. Eu vou estar lá com meus amigos.

— Não — Oscar sorriu de lado. — Você vai estar lá como minha convidada. Você vai sentar ao meu lado.

— Oscar, o Ruby é meu melhor amigo! Ele nunca entenderia. O que você vai dizer a ele?

— Eu não vou dizer nada. Você vai. Você vai dizer que se sente segura perto de mim. Que eu sou como um... mentor para você.

— Isso é doentio! — Mia explodiu, a frustração vencendo o medo por um momento. — Você está destruindo a minha vida! Você me tirou a infância e agora quer me tirar os meus amigos?

Oscar não se irritou. Em vez disso, ele se aproximou lentamente, prendendo-a contra a porta do carro. Ele usou a mão livre para segurar o queixo dela com firmeza, forçando-a a olhar nos seus olhos negros.

— Eu não estou destruindo nada, Mia. Estou apenas revelando quem você realmente é. Você acha que o Ruby ou o Jamal gostariam de você se soubessem o que aconteceu naquele beco? Se soubessem que você guardou o meu segredo por cinco anos sem dizer uma palavra? Eles te veriam como uma cúmplice. Uma mentirosa.

— Eu era uma criança! — ela soluçou.

— E agora você é uma mulher. Minha mulher. — Ele aproximou o rosto, o hálito quente contra a pele dela. — Se você tentar me enfrentar, eu conto para o bairro inteiro. Eu conto para a sua mãe. Eu conto para o Ruby que a "pequena Mia" sempre foi a protegida do Spooky. Como você acha que seria a sua vida depois disso?

Mia fechou os olhos, as lágrimas escorrendo livremente. Ele tinha razão. O estigma de ser associada a ele, daquela maneira, destruiria tudo o que ela havia construído. Sua reputação, sua segurança, sua família. Ela estava presa em uma teia que ele vinha tecendo há meia década.

— Por favor... — ela implorou em um sussurro quebrado.

— Esteja pronta às oito amanhã — ele disse, soltando o queixo dela e destravando as portas. — E coloque aquele vestido branco que você usou no aniversário da sua tia. Eu gosto de como você fica parecendo um anjo nele.

Mia saiu do carro, as pernas vacilantes. Ela não correu desta vez; ela caminhou como um zumbi até a porta de casa. Ao entrar, o silêncio da residência parecia acusador. Ela subiu as escadas e entrou no banheiro, despindo-se e entrando sob a água fervente.

Ela esfregou a pele até ficar vermelha, tentando remover o toque de Oscar, o cheiro do armazém, a sensação de estar sendo consumida. Mas não importava o quanto ela esfregasse, a escuridão parecia ter penetrado em seus poros.

Ela se deitou na cama, olhando para o vestido branco pendurado na porta do armário. O tecido parecia brilhar sob a luz da lua que entrava pela janela, uma ironia cruel.

Mia percebeu, com um aperto no peito, que o sol de Freeridge não brilhava mais para ela. Ela não era mais o raio de sol do bairro. Ela era uma sombra, um reflexo do monstro que morava ao lado, e a festa de amanhã seria o início do seu cativeiro público.

Enquanto o sono finalmente a vencia por exaustão, a última imagem em sua mente não era a de seus amigos rindo, mas a do sorriso predatório de Oscar, prometendo que, não importa o quanto ela brilhasse, ele sempre seria o eclipse que a mergulharia na noite.