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On my block

O Véu da Inocência

O sol de Freeridge nasceu pesado naquela manhã, como se o próprio céu estivesse carregando o peso do segredo de Mia. Ela se sentia como uma estranha habitando o próprio corpo. Cada movimento — escovar os dentes, pentear os cabelos loiros, escolher os livros para a escola — parecia mecânico, uma performance ensaiada para manter as aparências enquanto o seu mundo interno desmoronava.

A festa de boas-vindas para Oscar e Cesar seria à noite, no quintal dos Diaz. O que deveria ser uma celebração de família, um momento de alívio por ter os irmãos reunidos, era, para Mia, o patíbulo.

Na escola, o clima era de excitação. Ruby não falava de outra coisa.

— Vai ser a festa do ano, Mia! — exclamou Ruby, gesticulando com tanta energia que quase derrubou o suco de Jamal na mesa do refeitório. — Minha mãe comprou carne para um exército, e a Abuelita já está preparando a sangria especial dela. Você vai estar lá cedo para me ajudar com a decoração, certo?

Mia sentiu um nó na garganta. Ela olhou para Ruby, o garoto que a conhecia desde que ambos mal sabiam amarrar os sapatos, e sentiu uma onda de culpa tão avassaladora que precisou desviar o olhar.

— Eu... eu vou tentar, Ruby — disse ela, a voz saindo mais fraca do que pretendia. — Mas o Oscar... ele me pediu para passar lá antes.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Monse, que estava distraída com o celular, levantou a cabeça lentamente, os olhos estreitados em confusão.

— O Oscar te pediu o quê? — perguntou Monse, com aquele seu tom inquisitivo que costumava desmascarar qualquer mentira.

— Ele disse que queria que eu o ajudasse com algumas coisas da família — mentiu Mia, sentindo a palma das mãos suarem. — Sabe como é, ele ficou fora muito tempo e acha que eu sou a única que não vai julgá-lo.

— Isso é estranho — comentou Jamal, ajustando os óculos. — O Spooky não é do tipo que pede ajuda. Ele é do tipo que dá ordens e espera que o universo se curve. Por que ele escolheria você, Mia? Você é... bem, você é você. Ele é um Santos.

— Talvez ele só queira alguém gentil por perto — sugeriu Cesar, embora sua expressão estivesse nublada. Ele observava Mia com uma intensidade que a fazia querer desaparecer. — Ele tem falado muito de você, Mia.

— Viu só? — Ruby interveio, tentando aliviar a tensão. — Até o grande Spooky se rende ao charme da nossa loirinha. Ela é o amuleto de Freeridge!

Mia forçou uma risada, mas o som soou oco em seus próprios ouvidos. Se eles soubessem. Se eles tivessem a mínima ideia da escuridão que Oscar injetava em sua vida a cada palavra sussurrada, a cada olhar possessivo.

O resto do dia foi um tormento de antecipação. Quando as aulas terminaram, Mia caminhou para casa sentindo que cada passo a levava mais para perto de uma armadilha. Ela subiu para o quarto e encarou o vestido branco que Oscar ordenara que ela usasse. Era um vestido de renda delicada, de alças finas, que sua tia lhe dera no aniversário de quatorze anos. Era o símbolo da pureza que ela tentava desesperadamente preservar, e agora seria o uniforme de sua submissão.

Às sete e meia, ela começou a se arrumar. Maquiou-se levemente, apenas o suficiente para esconder as olheiras da noite mal dormida. Quando terminou, olhou-se no espelho e não viu a garota meiga e sorridente que todos amavam. Viu uma prisioneira.

Exatamente às oito horas, o rugido do motor do Chevy preto ecoou na rua. O som era como um sinal de guerra. Mia desceu as escadas, avisou a mãe que estava indo para a casa de Ruby e saiu.

Oscar estava encostado no carro, os braços cruzados sobre o peito largo. Ele a observou descer os degraus da varanda, seus olhos percorrendo-a de cima a baixo com uma lentidão deliberada que a fez sentir-se nua.

— Você está perfeita — disse ele, a voz rouca vibrando no ar frio da noite. — Exatamente como eu imaginei.

— Podemos ir logo com isso? — pediu Mia, a voz trêmula. — Eu não quero que o Ruby desconfie de nada.

Oscar abriu a porta do passageiro para ela, um gesto de cavalheirismo distorcido.

— O Ruby está ocupado demais sendo o centro das atenções para notar o que está acontecendo debaixo do nariz dele — disse Oscar, entrando no lado do motorista. — E você vai garantir que ele continue assim.

O trajeto até a casa dos Diaz foi curto, mas para Mia, pareceu uma eternidade. O bairro já estava agitado; o cheiro de churrasco e o som de música latina preenchiam o ar. Quando o carro de Oscar parou em frente à casa, várias cabeças se viraram.

Oscar saiu do carro e, antes que Mia pudesse se mover, ele contornou o veículo e abriu a porta para ela. Ele estendeu a mão. Mia hesitou, o coração martelando contra as costelas.

— Pegue a minha mão, pequena Mia — ordenou ele, o sorriso não chegando aos olhos. — Vamos dar ao bairro o que eles querem ver.

Mia colocou a mão pequena na dele. O contraste era aterrorizante: a pele clara e delicada dela contra a mão calejada e tatuada dele. Oscar entrelaçou os dedos nos dela, uma demonstração pública de posse que fez o estômago de Mia revirar.

Eles caminharam em direção ao quintal. Assim que entraram, a música parecia ter perdido o volume por um segundo. Ruby, que estava servindo bebidas, congelou ao ver a cena. Monse e Jamal, sentados em uma mesa de canto, trocaram olhares de puro choque. Cesar, que estava perto da churrasqueira com alguns outros membros dos Santos, apertou o pegador de carne com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Oscar! — Ruby finalmente recuperou a voz, aproximando-se com passos rápidos. — Você... você trouxe a Mia?

— Ela estava vindo para cá e eu decidi dar uma carona — disse Oscar, sem soltar a mão dela. — Afinal, a Mia é da família, não é? Temos que cuidar do que é nosso.

— É... sim, claro — gaguejou Ruby, olhando para as mãos entrelaçadas deles com uma expressão de completa confusão. — Eu só não sabia que vocês eram... tão próximos.

— A Mia é uma caixinha de surpresas, Ruby — Oscar deu um tapinha no ombro do irmão mais novo, um gesto que parecia carinhoso, mas que Mia sabia ser um aviso. — Por que você não vai pegar uma bebida para ela? A loirinha está precisando relaxar.

Ruby assentiu mecanicamente e se afastou. Mia tentou puxar a mão, mas Oscar apertou o aperto, puxando-a para mais perto de seu corpo.

— Sorria — sussurrou ele no ouvido dela, o hálito quente causando calafrios. — Você é a estrela da noite.

Eles se sentaram em uma mesa central, onde todos podiam vê-los. Durante toda a noite, Oscar agiu como o protetor perfeito. Ele trazia comida para ela, afastava o cabelo de seu rosto e mantinha a mão possessivamente em sua cintura ou sobre sua coxa sempre que alguém se aproximava. Para quem olhava de fora, parecia que o líder dos Santos tinha encontrado sua redenção em uma garota angelical. Mas Mia sentia cada toque dele como uma queimadura.

Monse foi a primeira a encontrar uma oportunidade de falar com ela sozinha, quando Oscar se levantou para falar com Sad Eyes.

— Mia, o que diabos está acontecendo? — sussurrou Monse, puxando-a para perto do balcão da cozinha. — Por que você está com ele? Daquele jeito?

— Eu... eu não sei do que você está falando, Monse — mentiu Mia, as lágrimas ameaçando transbordar. — Ele só está sendo legal. Ele quer mudar, quer se aproximar dos amigos do Cesar.

— Legal? Mia, ele está te segurando como se você fosse uma propriedade! — Monse estava visivelmente preocupada. — Ele é o Spooky. Ele é perigoso. Você não conhece esse mundo.

— Eu conheço mais do que você imagina — a frase escapou dos lábios de Mia antes que ela pudesse conter.

Monse franziu a testa, prestes a questionar, quando a sombra de Oscar caiu sobre elas.

— Algum problema aqui, senhoritas? — perguntou ele, a voz carregada de uma falsa cortesia.

— Nenhum, Oscar — respondeu Monse, desafiadora. — Só estava dizendo para a Mia que ela deveria ter cuidado.

Oscar riu, um som sombrio que fez o ar parecer mais pesado.

— Ela está sob a minha proteção, Monse. Não há lugar mais seguro em Freeridge do que ao meu lado. Não é mesmo, Mia?

Mia olhou para Monse, um pedido mudo de socorro brilhando em seus olhos azuis, mas suas palavras disseram o oposto.

— É verdade. Eu estou bem, Monse.

Monse balançou a cabeça, frustrada e confusa, e se afastou. Oscar voltou a colocar o braço ao redor dos ombros de Mia, conduzindo-a de volta para o quintal.

A festa continuou, mas para Mia, era como se ela estivesse assistindo a um filme de terror em que ela era a protagonista. Ela via Cesar observando-os de longe, a expressão do garoto oscilando entre a raiva e a dor. Cesar amava o irmão, mas ele também amava Mia como uma irmã, e ver os dois juntos daquela forma parecia estar partindo algo dentro dele.

Mais tarde, quando a maioria dos convidados já estava alterada pelo álcool, Oscar levou Mia para um canto mais afastado do quintal, sob a sombra de uma grande árvore.

— Você se saiu muito bem hoje — disse ele, encostando-a contra o tronco da árvore. — Todos agora sabem a quem você pertence.

— Por que você quer que eles saibam? — perguntou Mia, a voz embargada. — Por que não pode simplesmente me deixar ter minha vida em paz?

— Porque a sua paz é uma mentira — retrucou ele, aproximando o rosto do dela. — Você foi feita para a escuridão, Mia. Desde o dia em que você não gritou. Desde o dia em que você aceitou o meu silêncio em troca da sua segurança. Você é minha cúmplice.

— Eu era uma criança! — ela repetiu, a mesma defesa desesperada de sempre.

— E agora você é a rainha dos Santos, se eu quiser que você seja — disse ele, passando a mão pelo contorno do rosto dela. — Imagine o poder que teremos juntos. A luz e a sombra. Freeridge aos nossos pés.

— Eu odeio você — sussurrou ela.

Oscar sorriu, um sorriso genuíno desta vez, mas que era mais aterrorizante do que qualquer ameaça.

— O ódio é apenas o outro lado da mesma moeda, pequena. Você está ligada a mim de uma forma que ninguém mais está. Nem o Cesar, nem o Ruby. Só nós dois sabemos a verdade.

Ele se inclinou e beijou o topo da cabeça dela, um gesto que parecia quase paternal se não fosse carregado de uma intenção tão sinistra.

— Vamos. A festa acabou para nós. Vou te levar para casa.

No caminho de volta, o silêncio no carro era sufocante. Mia olhava pela janela, observando as luzes de Freeridge passarem. Ela se perguntava se algum dia conseguiria escapar daquela teia. Oscar a tinha cercado por todos os lados: seus amigos agora a viam de forma diferente, sua reputação estava ligada à dele, e o segredo de cinco anos atrás era a âncora que a mantinha presa no fundo do oceano.

Quando pararam em frente à casa de Mia, Oscar não destravou as portas imediatamente.

— Amanhã eu venho te buscar para almoçar — disse ele.

— Eu tenho escola, Oscar.

— Eu busco você na saída. E não tente fugir pelos fundos. Eu tenho olhos em todos os lugares.

Mia apenas assentiu, sem forças para lutar. Ele destravou a porta e ela saiu, sentindo o ar frio da noite bater em seu rosto. Ela entrou em casa e subiu direto para o quarto, sem falar com ninguém.

Ela tirou o vestido branco, que agora parecia manchado e sujo, e o jogou no fundo do armário. Deitou-se na cama e fechou os olhos, mas a imagem de Oscar, com seu sorriso predatório e suas mãos possessivas, estava gravada em suas pálpebras.

O monstro ao lado não estava mais apenas nas sombras; ele tinha assumido o controle da luz. E Mia, a garota que todos achavam ser um anjo, percebeu que suas asas tinham sido cortadas há muito tempo, e que o céu de Freeridge nunca mais seria o mesmo para ela.

Lá fora, o motor do Chevy rugiu uma última vez antes de se afastar, deixando para trás o eco de uma promessa que Mia sabia que ele cumpriria: ela nunca mais estaria sozinha. Ele estaria lá, em cada esquina, em cada olhar, em cada batida do seu coração aterrorizado. O passado tinha voltado, e ele não aceitava nada menos do que a alma dela em pagamento pelo silêncio.