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Onde Meu Coração Encontrou Você

O Eco das Ondas e o Peso do Segredo

A brisa de Busan tinha um cheiro diferente da poluição estagnada de Seul. Era salgada, úmida e carregava consigo uma melancolia que parecia abraçar Alyssa toda vez que ela caminhava em direção à cafeteria do Sr. Park-Jin. Já faziam quase cinco meses desde que ela deixara a capital, e sua vida havia se transformado em uma rotina de silêncios e pequenas vitórias.

Naquela manhã, o céu sobre o porto estava de um cinza perolado. Alyssa ajeitou o avental bege sobre o corpo, sentindo o tecido esticar levemente sobre a curva agora nítida de sua barriga. Ela estava com cinco meses e meio. O bebê — um menino, como o ultrassom na clínica comunitária havia revelado na semana anterior — parecia ser tão inquieto quanto o pai.

— Você está forçando demais, querida — disse a Sra. Doria-Ji, entrando na cozinha da casa antes de Alyssa sair. — Coma mais essa fatia de melão. O pequeno Jeon precisa de vitaminas.

Alyssa estremeceu ao ouvir o nome. Ela nunca tinha dito a Doria-Ji o nome completo do pai, apenas que ele se chamava "Jeon". Para a tia de sua professora, era apenas um nome comum, mas para Alyssa, era uma ferida que se recusava a cicatrizar.

— Eu estou bem, tia. O Sr. Park-Jin precisa de mim cedo hoje. Ele disse que os novos grãos chegam de manhã.

— Esses homens de Seul e sua pressa — resmungou a senhora, mas sorriu, beijando a testa de Alyssa. — Vá com cuidado. O chão está escorregadio por causa da neblina.

A caminhada até a cafeteria era curta, mas Alyssa a fazia devagar. Ela observava os pescadores organizando as redes e os primeiros turistas da temporada tirando fotos da ponte Gwangan. Por um momento, ela se permitiu fechar os olhos e imaginar que Jungkook estava ali, de boné e máscara, segurando sua mão e reclamando do frio, como fizera naquela única noite em que caminharam pelo Rio Han antes de tudo desmoronar.

— Esqueça, Alyssa — sussurrou para si mesma, sentindo um chute vigoroso em suas costelas. — Ele seguiu em frente. Você também precisa seguir.

Ao chegar na cafeteria, o sino da porta anunciou sua entrada. O Sr. Park-Jin já estava atrás do balcão, polindo a máquina de espresso com um vigor incomum.

— Bom dia, Alyssa! — exclamou o velho, os olhos brilhando por trás das lentes grossas. — Hoje o dia vai ser longo. A distribuidora mandou um aviso. O novo sócio majoritário deles está fazendo uma inspeção nas filiais do sul. Eles querem que tudo esteja perfeito.

Alyssa sentiu um frio na espinha, uma intuição que tentou ignorar.

— Um sócio de Seul? — perguntou ela, tentando manter a voz estável enquanto começava a organizar as xícaras de cerâmica.

— Sim, sim. Um rapaz jovem, ao que parece. Dizem que ele investiu em dezenas de cafeterias artesanais nos últimos meses. Um verdadeiro entusiasta do café, ou alguém com dinheiro demais e tempo de sobra.

— Espero que ele não seja exigente — comentou Alyssa, virando-se para o quadro negro para escrever o menu do dia com giz. — Só queremos trabalhar em paz.

As horas passaram em um borrão de vapor de leite e cheiro de grãos torrados. Alyssa tentava se manter ocupada para não pensar na possibilidade de alguém de Seul a reconhecer. Embora ela fosse apenas uma estudante brasileira, o mundo dos idols era pequeno, e o medo de que a empresa de Jungkook a encontrasse e exigisse algum tipo de contrato de confidencialidade — ou pior, tentasse tirar seu filho — a assombrava nas noites de insônia.

Por volta das onze da manhã, um carro preto de vidros fumê estacionou silenciosamente em frente à cafeteria. Dois homens de terno desceram primeiro, olhando ao redor com expressões profissionais e neutras. O Sr. Park-Jin limpou as mãos no avental, nervoso.

— Eles chegaram! — cochichou ele para Alyssa. — Por favor, prepare aquele blend especial que guardamos para ocasiões importantes.

Alyssa assentiu, mantendo a cabeça baixa, os cabelos caindo sobre o rosto para esconder as feições. Ela se posicionou atrás da grande máquina de café, que servia como uma espécie de escudo.

A porta se abriu. O sino tilintou, mas o som pareceu ecoar de forma diferente, mais pesado.

— Bem-vindos! — saudou o Sr. Park-Jin com uma curvatura profunda. — É uma honra receber a gerência da Gold Leaf Distribuidora.

— Obrigado, Sr. Park — respondeu uma voz profunda, mas não era a voz que Alyssa conhecia. Era um homem mais velho, provavelmente o diretor operacional. — Este é o nosso investidor principal. Ele gostaria de provar o café de Busan antes de discutirmos a renovação do contrato de exclusividade.

Alyssa sentiu suas mãos tremerem enquanto moía os grãos. O barulho do moedor abafava os passos de quem quer que estivesse entrando, mas o perfume... o perfume atravessou o balcão. Era amadeirado, com notas de sândalo e algo que lembrava florestas após a chuva.

O mundo de Alyssa parou. O moedor parou.

— O café está pronto? — perguntou o Sr. Park-Jin, aproximando-se dela.

— Só... só um minuto — gaguejou ela, sem conseguir levantar o olhar.

Ela preparou o café com movimentos mecânicos. O coração batia tão forte que ela temia que o bebê pudesse sentir o pânico. Ela colocou a xícara na bandeja de madeira e, com um esforço sobre-humano, caminhou até a mesa onde os homens se sentaram.

Ela manteve o olhar fixo na bandeja. Serviu o primeiro homem de terno. O segundo. E então, aproximou-se da figura que estava sentada no canto, vestindo um casaco longo de lã escura e um boné preto que sombreava o rosto.

— Seu café, senhor — disse ela em um coreano quase inaudível.

Houve um silêncio absoluto. O homem não pegou a xícara. Em vez disso, Alyssa viu as mãos dele — mãos grandes, com veias marcadas e tatuagens que subiam pelos dedos e desapareciam sob o punho do casaco — se fecharem com força sobre a mesa.

— Alyssa?

O sussurro foi como um trovão. Ela deu um passo para trás, a bandeja tremendo em suas mãos. Lentamente, o homem levantou o rosto. Sob a aba do boné, os olhos escuros de Jeon Jungkook estavam marejados, arregalados, refletindo uma mistura de dor, alívio e puro choque.

Ele se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão com um ruído estridente. Os seguranças e o diretor operacional fizeram menção de intervir, mas Jungkook levantou a mão, parando-os sem desviar o olhar dela.

— Meu Deus... Alyssa... — Ele deu um passo em direção a ela, a voz embargada. — Eu procurei por você em cada canto deste país. Eu não parei um segundo...

Alyssa sentiu as lágrimas queimarem seus olhos, mas a raiva, aquela velha companheira dos últimos meses de solidão, falou mais alto.

— O que você está fazendo aqui, Jeon? — Ela tentou manter a voz firme, mas falhou miseravelmente. — Vá embora. Você tem shows para fazer, não tem? Tem um mundo para conquistar.

— Eu não ligo para nada disso se você não estiver lá! — exclamou ele, ignorando os olhares curiosos dos poucos clientes e o choque do Sr. Park-Jin. — Meu celular quebrou, Alyssa. Eu consertei, eu liguei, eu fui ao seu apartamento, eu implorei na sua faculdade... Eles não me diziam nada! Eu pensei que você tivesse voltado para o Brasil porque me odiava.

— E por que eu não odiaria? — retrucou ela, as lágrimas agora escorrendo livremente. — Você desapareceu. Eu estava sozinha, Jeon. Eu estava assustada e...

Ela parou, a respiração falhando. O olhar de Jungkook desceu lentamente. Ele não tinha reparado antes, focado apenas no rosto dela que ele tanto sonhara em ver. Mas agora, com ela parada diante dele, sem o balcão para escondê-la, a saliência evidente sob o avental era impossível de ignorar.

O rosto de Jungkook perdeu toda a cor. Ele cambaleou levemente, a mão buscando o encosto da cadeira para não cair.

— Alyssa... — O nome saiu como um suspiro quebrado. — Isso é...

— É seu — disse ela, a voz agora fria como o mar de Busan no inverno. — Mas você não tem direito nenhum sobre ele. Você escolheu sua carreira. Você escolheu o silêncio.

— Eu nunca escolheria o silêncio se soubesse! — Jungkook atravessou o espaço entre eles em dois passos largos. Ele não a tocou, mas sua proximidade era avassaladora. — Você acha que eu investi em todas essas cafeterias por negócio? Eu estava procurando por você! Eu sabia que você amava café, eu sabia que você queria trabalhar com isso... Eu rastreei cada transferência de estudante brasileiro na Coreia, eu subornei pessoas para conseguir listas de empregados...

— Por que agora? — soluçou ela. — Por que depois de tanto tempo?

— Porque eu nunca desisti — disse ele, e pela primeira vez, ele se atreveu a estender a mão, tocando levemente a ponta dos dedos no ombro dela. — Eu passei meses vivendo um inferno, Alyssa. Sorrindo para as câmeras enquanto meu coração estava enterrado em algum lugar que eu não conseguia encontrar.

O Sr. Park-Jin, percebendo a gravidade da situação, aproximou-se cautelosamente.

— Alyssa... você conhece este senhor?

— Ela é minha esposa — mentiu Jungkook instantaneamente, o olhar fixo nela, desafiando-a a desmentir. — E ela vai precisar tirar o resto do dia de folga. Na verdade, ela vai tirar o resto do ano.

— Eu não vou a lugar nenhum com você! — Alyssa tentou se esquivar, mas a tontura que a perseguia ultimamente voltou com força. Ela cambaleou e, antes que pudesse atingir o chão, os braços fortes de Jungkook a envolveram.

Era o mesmo cheiro. O mesmo calor. O mesmo abraço que ela sentira naquela noite de lençóis bagunçados.

— Me solta... — pediu ela, mas sem força real, enterrando o rosto no peito dele enquanto chorava compulsivamente.

— Nunca mais — sussurrou ele contra o cabelo dela, ignorando os flashs de alguns celulares que começavam a surgir nas janelas da cafeteria. — Eu não me importo se o mundo inteiro descobrir quem eu sou hoje. Eu não vou perder você e meu filho de novo.

Jungkook a pegou no colo com a mesma facilidade daquela noite em Seul. Ele olhou para o diretor da distribuidora com uma autoridade que ninguém ousaria questionar.

— Cancelem o resto da agenda. Digam à empresa que eu sofri um acidente, digam que eu morri, eu não ligo. Eu vou levar minha família para casa.

Ele caminhou em direção ao carro preto, protegendo o rosto de Alyssa com seu próprio corpo. Dentro do veículo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelos soluços residuais dela. Jungkook não soltou a mão dela por um segundo sequer.

— Onde estamos indo? — perguntou ela, exausta demais para lutar.

— Para onde você quiser, meu amor — disse ele, levando a mão dela aos lábios e beijando as juntas de seus dedos com uma devoção quase desesperada. — Mas primeiro, você vai me contar tudo. Cada chute que ele deu, cada desejo que você teve... eu quero recuperar cada segundo que eu perdi.

Alyssa olhou pela janela, vendo a paisagem de Busan passar rapidamente. Ela sentiu o bebê se mexer, um movimento suave, como se ele também estivesse reconhecendo a voz que ecoava no carro.

— Ele gosta da sua voz — sussurrou ela, quase contra a vontade.

Jungkook soltou um riso soluçado, as lágrimas finalmente caindo de seus próprios olhos. Ele se inclinou e, com uma hesitação que partiu o coração de Alyssa, colocou a palma da mão sobre a barriga dela.

— Oi, pequeno — murmurou ele, a voz vibrando de amor. — O papai chegou. E eu juro por tudo o que é sagrado... que o silêncio nunca mais vai nos encontrar.

O carro seguiu pela estrada costeira, deixando para trás a pequena cafeteria e a solidão de Busan. O futuro ainda era incerto, a pressão da fama ainda era uma ameaça e a traição do passado ainda deixava cicatrizes. Mas ali, naquele espaço confinado, o eco das ondas foi substituído pelo som de dois corações tentando encontrar o mesmo ritmo novamente.

Alyssa fechou os olhos, permitindo-se, pela primeira vez em meses, simplesmente respirar. Ela não sabia o que aconteceria quando a mídia descobrisse, ou como explicaria tudo para a Sra. Doria-Ji. Mas enquanto sentia o calor da mão de Jungkook sobre seu ventre, ela soube que a tempestade havia passado. O inverno em Busan poderia ser frio, mas ela não teria que enfrentá-lo sozinha nunca mais.