Onde Meu Coração Encontrou Você
O Labirinto de Desencontros e a Verdade no Olhar
O vento de Busan soprava com uma força renovada naquela tarde de terça-feira, trazendo o cheiro de maresia para dentro da cafeteria do Sr. Park-Jin. Alyssa sentia as pernas pesadas, um efeito colateral comum do quinto mês de gestação que parecia se intensificar nos dias cinzentos. Ela havia acabado de organizar o balcão de doces e, sentindo uma pontada de exaustão, pediu licença ao patrão.
— Sr. Park, vou sair pelos fundos para pegar um pouco de ar e levar esse lixo para a caçamba, tudo bem? — perguntou ela, ajeitando o casaco largo que escondia sua silhueta.
— Vá tranquila, querida. Você trabalhou demais hoje — respondeu o senhor, com um sorriso paternal. — Descanse dez minutos antes de voltar.
Alyssa atravessou a cozinha e empurrou a porta pesada de metal dos fundos. No exato momento em que ela pisava no beco lateral e caminhava em direção à rua secundária, um SUV preto de vidros escurecidos estacionava com precisão na frente da cafeteria.
Se ela tivesse esperado apenas dez segundos, teria visto a porta do passageiro se abrir. Se ela tivesse olhado para trás ao dobrar a esquina, teria visto a silhueta inconfundível de Jeon Jungkook, escondido sob um boné preto e uma máscara, saindo do veículo acompanhado por Jimin. Mas o destino, com seu senso de humor cruel, fez com que ela seguisse o caminho oposto, perdendo-se entre os pedestres enquanto os dois homens entravam no estabelecimento.
O sino da porta tilintou, e o Sr. Park-Jin levantou o olhar, abrindo um sorriso radiante ao reconhecer os visitantes.
— Ora, se não são os meus rapazes favoritos! — exclamou o velho, saindo de trás do balcão para abraçá-los. — Jungkook, Jimin! Que surpresa maravilhosa.
— Sentimos sua falta, tio — disse Jimin, retribuindo o abraço com sinceridade, enquanto Jungkook apenas assentia, os olhos vagando pela cafeteria com uma melancolia que ele não conseguia disfarçar.
— Como estão as coisas em Seul? — perguntou o Sr. Park, conduzindo-os para uma mesa reservada no canto. — Soube que a turnê foi um sucesso estrondoso.
— Foi... cansativa — murmurou Jungkook, sentando-se e retirando a máscara por um momento. — O café daqui ainda é o melhor do país, Sr. Park. Eu precisava desse gosto de casa.
O Sr. Park-Jin suspirou, notando as olheiras profundas de Jungkook. Ele sabia que o jovem idol não estava apenas cansado do trabalho; havia um vazio nele que nenhuma quantidade de aplausos parecia preencher.
— Sabe, as coisas mudaram um pouco por aqui também — comentou o velho, enquanto preparava dois cafés especiais. — Tenho uma nova ajudante. Uma jovem brasileira, Alyssa. Ela veio de Seul há alguns meses.
Jungkook travou com a xícara a meio caminho da boca. O nome "Alyssa" ecoou em sua mente como um gatilho, mas ele rapidamente descartou a ideia. Quantas Alyssas não existiriam na Coreia? Era um nome comum para estrangeiras.
— Uma brasileira? — perguntou Jimin, interessado. — E como ela veio parar em Busan?
— Ah, é uma história triste, eu suponho — disse o Sr. Park, baixando a voz. — Ela chegou aqui muito abatida, fugindo de alguma decepção na capital. O que mais me impressionou foi a coragem dela. Ela está grávida, sabem? Mesmo sozinha e em um país estrangeiro, ela trabalha com uma dedicação que nunca vi. Nunca reclama, embora eu veja que ela sente muita dor nas costas no final do dia.
Jungkook sentiu um aperto estranho no peito. Uma grávida. Sozinha. Vinda de Seul na mesma época em que sua Alyssa desaparecera. Mas a lógica de sua mente dizia que era impossível. Alyssa nunca mencionara nada sobre gravidez nas últimas mensagens que ele conseguira ler.
— Ela é muito talentosa — continuou o Sr. Park, sem perceber o estado de choque latente de Jungkook. — Ela diz que o café a ajuda a esquecer o passado. Às vezes eu a pego olhando para o mar com uma tristeza que corta o coração. Acho que o pai da criança a abandonou. Esses jovens de hoje em dia... não sabem o valor de uma família.
Jungkook permaneceu aéreo durante o restante da conversa. As palavras "grávida" e "sozinha" giravam em sua cabeça como um redemoinho. Ele olhou para a porta dos fundos, sentindo uma conexão inexplicável com o ambiente, mas o Sr. Park logo mudou de assunto, falando sobre os novos grãos que chegariam no dia seguinte.
— Amanhã teremos muito trabalho — disse o senhor. — As sacas de café especial chegam às 11:30.
— Nós viremos ajudar — ofereceu Jimin prontamente. — Vai ser bom fazer um trabalho manual para variar. Não é, Jungkook?
— Sim — respondeu Jungkook, a voz monótona. — Estaremos aqui.
A noite passou lenta para ambos. Alyssa, em sua pequena casa com a Sra. Doria-Ji, sentia o bebê chutar com uma insistência incomum, como se ele estivesse tentando lhe contar um segredo. Jungkook, no hotel, olhava para o teto, assombrado pela descrição da funcionária do Sr. Park.
No dia seguinte, o sol brilhava forte sobre o porto de Busan. Às 11:30 pontualmente, o caminhão de entregas estacionou. Jungkook e Jimin, vestindo roupas simples e bonés, começaram a carregar as pesadas sacas de juta para dentro do estoque, nos fundos da cafeteria.
— Eu levo essa última para o estoque interno — disse Jungkook, equilibrando uma saca de 20 quilos no ombro.
Ele caminhou pelo corredor estreito que levava à área de armazenamento. O local estava imerso em um silêncio tranquilo, quebrado apenas pelo som de alguém anotando algo em uma prancheta.
Ao entrar, Jungkook viu uma figura de costas. Ela usava um avental azul marinho sobre um vestido de malha cinza. O cabelo estava preso em um coque frouxo, e alguns fios escapavam, emoldurando o pescoço claro.
— Onde você quer que eu coloque esta, senhorita? — perguntou Jungkook, sua voz ecoando no espaço fechado.
A mulher congelou. A mão que segurava a caneta tremeu visivelmente. Lentamente, como se estivesse em um sonho — ou em um pesadelo —, ela começou a se virar.
Jungkook baixou a cabeça em um gesto automático de respeito, esperando que ela indicasse o local. Quando ele finalmente levantou o olhar para encontrá-la, o mundo pareceu implodir.
— Alyssa? — O nome saiu como um suspiro esmagado.
Alyssa estava lá, a poucos centímetros dele. O rosto estava mais pálido do que ele se lembrava, mas os olhos eram os mesmos que o assombravam todas as noites. No entanto, o que paralisou o coração de Jungkook foi a visão da barriga proeminente, agora impossível de esconder.
A prancheta escapou das mãos de Alyssa, atingindo o chão com um estalo seco. Os olhos dela se arregalaram, e os lábios tremeram enquanto ela tentava formular uma palavra, qualquer palavra.
— Jung... Jungkook... — sussurrou ela.
Antes que ele pudesse dar um passo, as cores fugiram do rosto de Alyssa. Seus olhos reviraram e seus joelhos cederam.
— Alyssa! — gritou Jungkook, soltando a saca de café de qualquer jeito no chão e avançando para ampará-la antes que ela batesse a cabeça nas prateleiras de metal.
Ele a pegou nos braços, sentindo o peso dela — um peso que agora incluía uma vida nova. O pânico tomou conta dele. Ele a acomodou em seu colo, tremendo da cabeça aos pés.
— Alyssa, acorda! Por favor, fala comigo! — ele implorava, batendo levemente em seu rosto.
Jimin e o Sr. Park entraram correndo no estoque, atraídos pelo barulho e pelo grito.
— O que aconteceu? — Jimin parou abruptamente ao ver a cena. — Meu Deus, Jungkook, é ela?
— É ela, Jimin! É ela! — Jungkook gritava, as lágrimas começando a transbordar. — Ela desmaiou! Ela está... ela está grávida, Jimin!
O Sr. Park-Jin estava em choque, olhando de Jungkook para Alyssa, tentando processar a conexão óbvia e dolorosa entre os dois.
— O carro! — ordenou Jungkook, sem esperar por explicações. — Jimin, pegue a chave do SUV agora!
Ele levantou Alyssa com uma facilidade nascida do desespero. Ao segurá-la contra o peito, ele sentiu, através do tecido do vestido, algo se mover contra seu braço. Um chute. Um pequeno e nítido chute vindo do ventre dela.
Jungkook sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Mil perguntas dispararam em sua mente como metralhadoras. Como ela podia estar grávida? De quem era? Ela havia se casado naquele curto espaço de tempo? Tinha um namorado em Busan? A dor da possibilidade de ela pertencer a outro homem quase o fez perder o fôlego, mas ele sufocou o sentimento. Nada importava agora, exceto a segurança dela.
Ele correu para fora da cafeteria, ignorando os poucos clientes que olhavam espantados. Jimin já estava com a porta traseira do SUV aberta e o motor ligado.
— Para o hospital de Busan, o mais rápido possível! — comandou Jungkook, sentando-se no banco de trás e mantendo a cabeça de Alyssa apoiada em seu peito.
Durante o trajeto, Jungkook não conseguia parar de olhar para ela. Ele acariciava o rosto dela com os dedos trêmulos, afastando as mechas de cabelo suadas.
— Por que você fugiu, Alyssa? — sussurrava ele, a voz quebrada. — Por que não me contou?
Ele olhou para a barriga dela, e uma conta rápida começou a se formar em sua cabeça. O tempo que passaram juntos... a noite em que ele jurou cuidar dela... a primeira vez de ambos. As datas batiam com uma precisão assustadora.
— Não pode ser... — murmurou ele, os olhos arregalados enquanto olhava para Jimin pelo retrovisor. — Jimin, as datas... faz cinco meses que eu voltei daquela viagem.
Jimin encontrou o olhar dele pelo espelho, a expressão carregada de seriedade e preocupação.
— Foca nela agora, Jungkook. Vamos descobrir tudo no hospital.
Ao chegarem na emergência, Jungkook não se importou com os fotógrafos que poderiam estar por perto ou com o risco de sua carreira terminar ali mesmo. Ele a carregou para dentro, gritando por ajuda.
— Ela está grávida de cinco meses! Ela desmaiou! Por favor, ajudem-na! — gritava ele para as enfermeiras que se aproximavam com uma maca.
Ele foi forçado a soltá-la quando a levaram para a sala de exames. Jungkook ficou parado no meio do corredor, as mãos sujas de poeira de café e o coração batendo fora do peito. Ele olhou para as próprias mãos, que ainda guardavam a sensação do corpo de Alyssa.
— Ela vai ficar bem — disse Jimin, colocando a mão no ombro do amigo. — Ela é forte.
— Jimin... e se o filho for meu? — perguntou Jungkook, a voz mal saindo da garganta. — Se ela passou por tudo isso sozinha, achando que eu a abandonei com um filho... eu nunca vou me perdoar. Eu sou um monstro.
— Você não sabia, Jungkook. Nenhum de nós sabia.
Eles esperaram por horas que pareceram décadas. Finalmente, uma médica de meia-idade saiu da área restrita, consultando um prontuário.
— Responsáveis por Alyssa Santos?
Jungkook se levantou num salto.
— Sou eu. Eu sou o... — Ele hesitou por um segundo, o peso da realidade caindo sobre ele. — Eu sou o pai.
A médica o observou por cima dos óculos, notando o boné e a tentativa de disfarce, mas não fez perguntas sobre sua identidade.
— Ela teve uma queda brusca de pressão, provavelmente causada por estresse emocional severo e desidratação. O bebê está bem, os batimentos cardíacos estão fortes, mas ela precisa de repouso absoluto. Ela acordou agora há pouco e está chamando por um nome.
— O meu? — perguntou Jungkook, esperançoso.
— Ela está chamando por "Jeon" — disse a médica. — Você pode entrar, mas tente não agitá-la. Ela está muito fragilizada.
Jungkook caminhou pelo corredor do hospital como se estivesse indo em direção ao seu próprio julgamento. Quando empurrou a porta do quarto, viu Alyssa deitada na cama branca, com um acesso de soro no braço. Ela parecia tão pequena e vulnerável sob os lençóis hospitalares.
Ao ouvir o som da porta, ela virou o rosto. Seus olhos se encontraram e, por um longo momento, o silêncio foi a única coisa que existiu entre eles. Não era o silêncio vazio de Seul, mas um silêncio carregado de tudo o que não foi dito.
— Jungkook — sussurrou ela, as lágrimas começando a rolar lateralmente pelo rosto e molhar o travesseiro.
Ele caminhou até a beira da cama e caiu de joelhos, pegando a mão dela e pressionando-a contra sua testa.
— Me perdoa — soluçou ele, o corpo inteiro sacudindo. — Me perdoa por não ter te encontrado antes. Me perdoa por te deixar passar por isso sozinha.
Alyssa levou a outra mão, trêmula, até o cabelo dele, acariciando os fios escuros que ela tanto sentira falta.
— Eu achei que você não me queria mais — disse ela, a voz fraca. — Eu vi as notícias de Seul... você brilhando, sorrindo... e eu aqui, com esse segredo crescendo dentro de mim. Eu tive tanto medo.
Jungkook levantou o rosto, os olhos vermelhos de tanto chorar, e olhou diretamente para a barriga dela.
— É meu, não é? — perguntou ele, a voz cheia de uma reverência sagrada.
Alyssa assentiu levemente.
— Ele é a sua cara, Jungkook. Eu vi no último ultrassom. Ele tem o seu nariz.
Jungkook soltou um riso entremeado por um soluço e, com a permissão silenciosa dela, encostou o ouvido na barriga de Alyssa. Naquele momento, o bebê deu um chute nítido, bem contra a bochecha do pai.
— Ele está bravo comigo — brincou Jungkook, a voz falhando. — Ele tem razão de estar.
— Ele só estava esperando você chegar — disse Alyssa, fechando os olhos enquanto sentia o calor de Jungkook finalmente preencher o vazio de meses.
— Eu nunca mais vou embora, Alyssa — prometeu ele, beijando o ventre dela e depois subindo para selar seus lábios nos dela em um beijo que carregava a promessa de uma vida inteira. — O mundo pode desabar lá fora, mas aqui dentro, nada mais vai nos separar. Eu vou ser o pai que ele merece e o homem que você precisa.
Em Busan, onde o mar se encontra com o céu, a história de Jungkook e Alyssa recomeçava. Não mais como um segredo de Seul, mas como uma verdade gravada no eco das ondas e no pulsar de uma nova vida que insistia em florescer.