onde meu coração encontrou voce
O Preço do Silêncio e o Peso de um Nome
O prédio da VEON Entertainment erguia-se no coração de Seul como um monólito de vidro e aço, refletindo o céu cinzento da manhã. Para quem olhava de fora, era o templo do K-pop, o lugar onde sonhos eram fabricados e ídolos eram lapidados até a perfeição. Para Alyssa, no entanto, aquela estrutura parecia uma fortaleza impenetrável que, por anos, manteve o homem que ela amava trancado em uma redoma de ouro.
Ao sair do carro preto de vidros escurecidos, Alyssa sentiu o ar gelado de Seul cortar seu rosto. Ela apertou o casaco de lã contra o corpo, um gesto instintivo de proteção. Ao seu lado, Jiwook estendeu a mão, entrelaçando seus dedos com os dela. O aperto dele era firme, uma âncora em meio à tempestade de incertezas que rodopiava em sua mente.
— Você não precisa fazer nada que não queira — sussurrou Jiwook, aproximando-se do ouvido dela enquanto caminhavam em direção à entrada principal. — Eu estou aqui. Se você se sentir desconfortável, nós saímos na mesma hora.
Alyssa olhou para ele e forçou um sorriso. Jiwook não usava máscara ou boné hoje. Ele caminhava de cabeça erguida, assumindo sua identidade não apenas como o "Golden Maknae" do VELON, mas como um homem que protegia o que era seu.
— Eu sei — respondeu ela, a voz ainda um pouco trêmula. — Só estou tentando processar que isso está acontecendo de verdade.
Atravessar o saguão da VEON foi uma experiência surreal. Funcionários de terno curvavam-se à passagem de Jiwook, mas seus olhos, carregados de uma curiosidade indisfarçável, recaíam sobre a mulher estrangeira ao lado dele. Alyssa sentia-se como um elemento estranho em um ecossistema perfeitamente equilibrado. Ela, uma garota que cresceu entre as montanhas de Minas Gerais, cercada pelo cheiro de café fresco e a simplicidade da vida no interior, agora caminhava pelos corredores da empresa que gerenciava a maior estrela da música mundial.
Eles foram conduzidos a uma sala de reuniões no último andar. A mesa de carvalho escuro era cercada por cadeiras de couro, e o ambiente cheirava a café caro e papel novo. Três homens de expressão severa já os esperavam: dois advogados do departamento jurídico e o diretor executivo de operações da VEON.
— Bom dia, Jiwook-ssi. Senhorita Alyssa — disse o diretor, fazendo uma reverência formal que Alyssa retribuiu com a mesma polidez.
Jiwook não se sentou imediatamente. Ele puxou a cadeira para Alyssa, esperando que ela se acomodasse antes de ocupar o lugar ao lado dela. Ele não soltou a mão dela por um segundo sequer, colocando-as unidas sobre a mesa, à vista de todos. Era um aviso silencioso: *ela não está sozinha.*
— Como discutimos na videoconferência de ontem — começou o advogado principal, deslizando uma pasta de couro em direção a Alyssa —, a empresa aceitou os termos de Jiwook-ssi quanto à mudança para Busan e a oficialização do relacionamento. No entanto, para que possamos garantir a segurança da propriedade intelectual da VEON e a integridade da imagem do nosso principal artista, é imperativo que a senhorita assine este Acordo de Confidencialidade e Conduta.
Alyssa abriu a pasta. O documento era extenso, preenchido com termos jurídicos complexos em coreano e inglês. Seus olhos percorreram as cláusulas, e o peso daquelas palavras começou a se instalar em seu peito.
— O contrato estabelece — continuou o advogado, sua voz monótona e profissional — que a senhorita não poderá, sob nenhuma circunstância, divulgar informações privadas sobre a rotina de Jeon Jiwook, detalhes internos do grupo VELON ou estratégias de mercado da VEON Entertainment. Isso inclui fotos tiradas em ambientes privados, gravações de voz, detalhes de conversas pessoais ou qualquer menção à vida íntima do casal em redes sociais ou entrevistas sem a aprovação prévia do nosso departamento de relações públicas.
Alyssa sentiu um nó se formar em sua garganta. Ela pensou em sua mãe, lá em Minas, que sempre pedia fotos do "genro famoso" para mostrar às vizinhas, orgulhosa. Pensou em como sua vida, que já havia sido tão fragmentada pela tragédia da perda de sua filha, agora estava sendo codificada em parágrafos e multas rescisórias milionárias.
— Basicamente — disse Alyssa, a voz ganhando uma firmeza que ela não sabia que tinha —, vocês estão me pedindo para viver em um mundo de silêncio.
— Estamos pedindo discrição, senhorita — corrigiu o diretor. — O mundo idol é implacável. Um comentário mal interpretado pode destruir anos de trabalho e bilhões de won em investimentos.
Jiwook apertou a mão de Alyssa. Ele olhou diretamente para o diretor, seus olhos escuros brilhando com uma intensidade protetora.
— Ela não é um "investimento" — disse Jiwook, o tom de voz baixo e perigoso. — Ela é minha família. Se este contrato for uma tentativa de intimidá-la ou de fazê-la se sentir uma prisioneira, nós podemos encerrar esta reunião agora mesmo e eu buscarei representação legal independente para nós dois.
O clima na sala tornou-se gélido. O diretor pigarreou, visivelmente desconfortável com a postura confrontadora de Jiwook.
— Não é nossa intenção, Jiwook-ssi. É apenas o protocolo padrão para qualquer pessoa que entre no círculo íntimo de um artista do seu calibre.
Alyssa voltou sua atenção para o papel. Ela leu sobre as restrições de localização, sobre a proibição de falar com jornalistas, sobre as cláusulas que protegiam até mesmo os detalhes da decoração do apartamento em Busan. Era como se, ao assinar aquilo, ela estivesse selando uma parte de sua alma em um cofre.
Ela se lembrou das tardes em Minas Gerais, onde a liberdade era o horizonte das montanhas e o único segredo era a receita do pão de queijo da avó. Lá, a vida era transparente. Aqui, o amor exigia sombras.
— Eu entendo por que isso é necessário — disse Alyssa, quebrando o silêncio. Ela olhou para o advogado. — Eu amo o Jiwook. Eu já provei que faria qualquer coisa por ele, inclusive me afastar quando achei que era o melhor para a carreira dele. Eu não estou aqui pela fama ou pelo dinheiro da VEON.
Ela fez uma pausa, respirando fundo.
— Mas eu quero que fique claro: eu assinarei este contrato para proteger o homem que eu amo, não para proteger os lucros da empresa. E se em algum momento eu sentir que este documento está sendo usado para me silenciar diante de injustiças ou para me afastar dele novamente, ele não valerá o papel em que foi impresso.
Jiwook olhou para ela com uma mistura de orgulho e admiração. Ele sabia o quanto aquilo era difícil para ela, uma mulher livre por natureza, ser enquadrada nas regras rígidas da indústria coreana.
— Senhorita Alyssa — disse o advogado, agora com um tom um pouco mais cauteloso —, o contrato é uma via de mão dupla. A VEON também se compromete a fornecer segurança privada para a senhorita em Busan e a gerenciar qualquer crise de imagem que possa surgir devido ao assédio da mídia. Nós cuidaremos da sua privacidade tanto quanto cuidamos da dele.
Alyssa pegou a caneta. Antes de tocar o papel, ela sentiu a mão de Jiwook em seu ombro.
— Alyssa, você tem certeza? — perguntou ele, os olhos cheios de preocupação. — Nós podemos encontrar outra maneira. Eu posso sair da empresa, eu posso...
— Não — interrompeu ela, oferecendo-lhe um olhar doce. — Você trabalhou demais para chegar aqui, Jiwook. E nós decidimos enfrentar isso juntos, lembra? Se este é o preço para podermos acordar todos os dias vendo o mar de Busan sem ter que nos esconder no escuro, eu estou disposta a pagar.
Com a mão firme, Alyssa assinou seu nome nas três vias do contrato. O som da caneta deslizando pelo papel parecia ecoar na sala silenciosa.
Ao terminar, o diretor soltou um suspiro de alívio que tentou esconder. Ele se levantou e estendeu a mão para Alyssa.
— Bem-vinda oficialmente à família VEON, senhorita.
Alyssa não apertou a mão dele imediatamente. Ela se levantou, mantendo a postura ereta.
— Eu já tenho uma família no Brasil — disse ela calmamente. — Aqui, eu sou apenas a mulher do Jiwook. E espero que possamos manter uma relação de respeito mútuo.
Jiwook também se levantou, colocando o braço ao redor da cintura de Alyssa, puxando-a para perto.
— Terminamos aqui? — perguntou ele.
— Sim, Jiwook-ssi. O comunicado oficial será enviado para a imprensa em duas horas. A partir de amanhã, o mundo saberá.
Eles saíram da sala e caminharam de volta pelo corredor. O peso que Alyssa sentira ao entrar não havia desaparecido, mas tinha mudado de forma. Agora, não era apenas o peso da incerteza, mas o peso da responsabilidade.
Ao entrarem no elevador, Jiwook a pressionou suavemente contra a parede de espelhos, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Você foi incrível — sussurrou ele, encostando a testa na dela. — Eu sei o quanto isso foi difícil para você. Ver você assinando aquele papel... me fez perceber o quanto eu sou sortudo e o quanto eu te devo.
— Você não me deve nada, Jiwook — disse ela, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos pela primeira vez naquele dia. — Só me prometa que, mesmo com todos esses advogados e contratos, nós nunca vamos deixar de ser apenas nós dois.
— Eu prometo — disse ele, selando a promessa com um beijo lento e profundo, um beijo que carregava todo o alívio de quem finalmente tinha o direito de amar à luz do dia.
Enquanto o elevador descia, Alyssa pensou em sua casa em Minas. Ela imaginou o sol se pondo atrás das serras, o som dos pássaros e a paz da vida simples. O mundo de Jiwook era barulhento, complicado e cheio de contratos, mas enquanto a mão dele estivesse na dela, ela sentia que poderia aprender a falar a língua do silêncio.
Duas horas depois, enquanto cruzavam a ponte em direção a Busan, os celulares de ambos começaram a vibrar simultaneamente. A notificação da VEON Entertainment havia acabado de ser publicada em todos os portais de notícias da Coreia e do mundo.
*“Comunicado Oficial: Sobre a vida pessoal do artista Jeon Jiwook (VELON).”*
Alyssa não precisou ler o resto. Ela desligou o aparelho e olhou para a paisagem que passava pela janela. O mar de Busan brilhava ao longe, imenso e livre. Ela era Alyssa, do interior de Minas Gerais, e agora era também a mulher por quem o maior ídolo do país tinha desafiado um império.
O preço do silêncio era alto, mas o valor da liberdade de estarem juntos, enfim, era incalculável.