onde meu coração encontrou voce
Entre o Café e o Adeus
O relógio na parede da sala marcava quase meia-noite quando o som da fechadura eletrônica ecoou pelo apartamento silencioso. Alyssa, que estava sentada no sofá com o notebook apoiado nos joelhos e uma pilha de catálogos de fornecedores ao seu redor, sentiu o corpo relaxar instantaneamente ao ouvir o som.
Jiwook entrou, os ombros levemente caídos pelo cansaço, mas seus olhos brilharam ao encontrá-la. Sexta-feira havia sido um dia longo na agência, o primeiro de uma maratona final antes de sua partida programada para segunda-feira. Ele tinha apenas três dias restantes antes de mergulhar em uma agenda que o levaria para longe de Busan por semanas.
— Você ainda está acordada, pequena? — perguntou ele, a voz rouca, enquanto jogava o casaco sobre uma poltrona e caminhava em direção a ela.
— Eu não conseguiria dormir sem te ver — admitiu Alyssa, fechando o computador. — A cafeteria está me deixando louca. São tantos detalhes... os grãos, a decoração, as licenças sanitárias. Às vezes sinto que minha cabeça vai explodir.
Jiwook sentou-se ao lado dela, puxando-a para o seu colo sem pedir licença. Ele enterrou o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o perfume de baunilha que ela sempre usava.
— Esquece o café por um minuto — sussurrou ele contra a pele dela. — Esquece o mundo lá fora. Agora somos só nós.
Alyssa fechou os olhos, entregando-se ao toque dele. Na agonia de organizar a inauguração, que aconteceria em alguns meses, e na ansiedade da partida iminente dele, sua mente estava um caos. Tão caótica que, naquela manhã, a rotina habitual de tomar a pílula anticoncepcional havia sido atropelada por uma ligação urgente de um fornecedor de máquinas de espresso. Ela esqueceu. E, nos braços de Jiwook naquela noite de sexta-feira, o esquecimento tornou-se a última coisa em sua mente.
A entrega entre eles naquela noite foi diferente. Havia uma urgência, uma fome que parecia querer compensar a distância que viria. Não era apenas desejo físico; era uma fusão de almas que buscavam abrigo uma na outra. Jiwook a amou com uma intensidade que a deixou sem fôlego, e Alyssa respondeu com a mesma entrega, deixando que o amor dele curasse o cansaço que os dias em Seul haviam deixado.
No sábado, a rotina se repetiu. Jiwook precisou ir para o estúdio terminar algumas gravações, e Alyssa passou o dia cercada de amostras de tecidos para as poltronas da cafeteria. Seus pais haviam ligado do Brasil, ansiosos com a viagem que fariam para a inauguração. A expectativa deles colocava ainda mais pressão sobre os ombros dela. Novamente, o alarme mental para o remédio foi silenciado pelas preocupações práticas.
Quando ele chegou no sábado à noite, o cenário se repetiu, mas com uma doçura ainda mais profunda. Eles não precisavam de palavras. O silêncio do contrato de confidencialidade que haviam assinado na VEON parecia não existir dentro daquelas quatro paredes. Ali, ele não era o "Golden Maknae", e ela não era a "namorada secreta". Eles eram apenas dois jovens tentando congelar o tempo.
— Eu queria poder levar você em uma mala — brincou Jiwook, enquanto traçava padrões invisíveis nas costas nuas de Alyssa, sob o lençol de seda.
— E eu queria poder parar o relógio — respondeu ela, virando-se para encará-lo. — Mas a cafeteria está quase pronta. Meus pais vêm para a abertura... tudo está acontecendo tão rápido.
— Vai ser perfeito, Alyssa. Você colocou seu coração nisso. Assim como colocou o seu coração em mim.
O domingo chegou como um presente agridoce. Era o último dia completo. Eles decidiram que o mundo não existiria naquela data. Nada de celulares, nada de fornecedores, nada de ensaios. Passaram o dia em pijamas, cozinhando juntos — ou tentando, já que Jiwook insistia em fazer brincadeiras que terminavam em farinha espalhada pela cozinha — e assistindo a filmes que mal prestavam atenção, pois preferiam olhar um para o outro.
— Você está tão quieta hoje — notou ele, enquanto descansavam no tapete da sala, observando o pôr do sol tingir o mar de Busan de laranja e púrpura através da janela.
— Estou apenas tentando memorizar cada detalhe do seu rosto — confessou ela, a voz embargada. — Para quando a casa parecer grande demais na segunda-feira.
Jiwook a puxou para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça.
— Eu vou voltar antes que você sinta minha falta de verdade. E quando eu voltar, estaremos celebrando o sucesso do seu negócio. Imagine só: Alyssa’s Coffee, o lugar mais disputado de Busan.
— E o lugar onde o Jeon Jiwook vai ter que lavar a própria louça se quiser café de graça — brincou ela, arrancando uma risada cristalina dele.
A noite de domingo foi de despedidas silenciosas em cada toque. Havia uma melancolia suave no ar, uma aceitação de que a vida deles era feita desses ciclos de presença e ausência. Eles se amaram mais uma vez, um selo de promessa para os dias de solidão que viriam.
A segunda-feira amanheceu cinzenta, como se o céu de Busan compartilhasse o humor de Alyssa. A van preta já estava estacionada em frente ao prédio. Jiwook terminava de fechar a última mochila, seu semblante agora mais sério, já vestindo a "armadura" de ídolo — a máscara preta, o boné, o olhar focado.
— Chegou a hora — disse ele, parando diante dela no corredor.
Alyssa tentou manter o sorriso, mas os lábios tremeram.
— Vá e brilhe, Jiwook. Eu estarei aqui, cuidando do nosso sonho.
— E eu estarei contando os segundos para voltar para casa. Para você.
Eles se despediram com um beijo que soube a café e saudade. Alyssa o viu atravessar a porta e, por um longo momento, ficou parada no mesmo lugar, sentindo o vazio se instalar.
Ela caminhou até a cozinha para preparar um chá, tentando acalmar o coração. Foi então que seus olhos bateram na cartela de remédios sobre o balcão, esquecida sob um folheto da cafeteria. O coração dela falhou uma batida. Três dias. Três dias de esquecimento em meio ao turbilhão de emoções e preparativos.
Alyssa tocou o próprio ventre, uma sensação estranha e súbita percorrendo seu corpo. O medo e uma curiosidade desconhecida a atingiram simultaneamente.
— Oh, meu Deus... — sussurrou ela para a sala vazia.
Mas não havia tempo para pânico agora. A inauguração seria em poucos meses. Seus pais chegariam em breve. A cafeteria precisava dela. E Jiwook... Jiwook estava a caminho de conquistar o mundo mais uma vez.
Limpando uma lágrima solitária, Alyssa guardou a cartela na gaveta. O futuro, que ela achava que estava planejado em cada detalhe do contrato da VEON e nos projetos de arquitetura, parecia ter acabado de ganhar um capítulo que ninguém — nem mesmo os advogados mais poderosos de Seul — poderia ter previsto.
Ela respirou fundo, pegou o celular e ligou para o empreiteiro. Tinha uma cafeteria para abrir. E, talvez, um segredo para guardar até que o mar trouxesse seu amor de volta.