Opostos
Cicatrizes e Acordes Imperfeitos
A luz azulada do notebook de Benjamin era a única coisa que iluminava o quarto 402 às três da manhã. O silêncio, que antes era o santuário do estudante de nutrição, agora parecia pesado, carregado pela respiração profunda de Scott, que dormia na cama ao lado. Benjamin tentava se concentrar em um artigo sobre o metabolismo de aminoácidos, mas seus olhos verdes musgo sempre desviavam para a figura desleixada do colega de quarto.
Scott dormia com a boca entreaberta, um braço pendurado para fora do colchão e os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro como fios de ouro bagunçados. Benjamin sentiu um aperto no peito que não conseguia explicar. Desde aquele beijo, semanas atrás, as coisas haviam mudado. Não eram apenas colegas que dividiam o aluguel e, ocasionalmente, uma pizza de frango. Havia uma gravidade nova entre eles, uma necessidade de proximidade que Benjamin, em toda a sua disciplina e controle, nunca se permitira sentir.
De repente, Scott se mexeu bruscamente. Um gemido baixo e sofrido escapou de seus lábios, seguido por um sussurro ininteligível. Benjamin franziu o cenho, fechando a tampa do notebook.
— Não... eu não quero... — Scott murmurou, a voz embargada pelo sono e por algo que parecia muito com medo.
Benjamin se levantou, seus dois metros de altura cruzando o quarto em dois passos silenciosos. Ele se ajoelhou ao lado da cama de Scott, observando o suor frio que brotava na testa do loiro.
— Scott? — chamou baixo, tocando levemente o ombro dele. — Ei, acorda. É só um sonho.
Scott deu um solavanco, os olhos verdes claros se abrindo arregalados, focando no teto antes de encontrarem o rosto preocupado de Benjamin. Ele respirava como se tivesse corrido uma maratona.
— Ben? — Scott sentou-se rápido demais, os dedos trêmulos subindo para o rosto. — Merda. Que horas são?
— Três da manhã. Você estava falando dormindo. — Benjamin sentou-se na beirada da cama, o que fez o colchão ranger sob seu peso. — Quer conversar?
Scott soltou uma risada seca, sem humor, e passou as mãos pelo cabelo.
— Só o roteiro de sempre. Minha mãe gritando sobre o "futuro da família" e como eu sou uma decepção por preferir uma Fender Stratocaster a uma planilha de Excel. Ela ligou hoje cedo, sabe? Disse que se eu não passar em contabilidade este semestre, ela corta a mesada e me obriga a voltar para casa para trabalhar no depósito.
— Ela não pode te obrigar a viver uma vida que você odeia, Scott.
— Você não conhece a Dona Helena. Para ela, a vida é um balanço patrimonial. Se eu não dou lucro, eu sou um passivo que precisa ser descartado. — Scott abraçou os próprios joelhos, parecendo subitamente muito menor do que seus vinte e dois anos sugeriam. — É foda, cara. Às vezes eu sinto que só existo para preencher um cargo que eu nunca quis.
Benjamin ficou em silêncio por um longo tempo. Ele não era bom com palavras de conforto, mas entendia de vazios. Ele estendeu a mão e cobriu a mão de Scott com a sua, a palma parda e calejada contrastando com a pele pálida e fina do músico.
— Pelo menos ela quer que você volte — disse Benjamin, a voz tão baixa que quase se perdia no som da chuva que recomeçava lá fora.
Scott levantou a cabeça, curioso.
— O que você quer dizer com isso?
Benjamin suspirou, desviando o olhar para a guitarra encostada na parede.
— Meus pais não se importavam se eu ia ser administrador, nutricionista ou nada. Eles simplesmente... foram embora. Um de cada vez. Minha mãe saiu de casa quando eu tinha doze, disse que não nasceu para ser dona de casa. Meu pai aguentou mais dois anos antes de me deixar com a minha avó e sumir no mundo para "se encontrar".
Scott arregalou os olhos. Benjamin nunca falava de si mesmo.
— Ben, eu não fazia ideia...
— É por isso que eu gosto de controle, Scott. — Benjamin apertou levemente a mão dele. — Se eu controlar o que eu como, o quanto eu treino, o que eu estudo... nada pode me pegar de surpresa. Ninguém pode me abandonar se eu não precisar de ninguém.
Scott sentiu um nó na garganta. Ele se aproximou, deslizando pelo colchão até que seus ombros estivessem colados aos de Benjamin.
— Você é um idiota, sabia? — Scott sussurrou, encostando a cabeça no ombro largo do maior. — Você precisa de mim. Nem que seja para te irritar com solos de guitarra às sete da manhã ou para te fazer comer gordura trans.
Benjamin soltou um riso curto, sentindo o calor de Scott irradiar para o seu corpo.
— Talvez eu precise.
O clima no quarto mudou. A melancolia da conversa deu lugar a uma eletricidade latente, aquela mesma faísca que parecia acompanhá-los em cada troca de olhares na academia ou no refeitório. Scott virou o rosto, ficando a poucos centímetros da mandíbula forte de Benjamin.
— Me mostra — pediu Scott, a voz carregada de uma urgência nova.
— Mostrar o quê?
— Que você não tem o controle de tudo. Pelo menos não agora.
Scott não esperou por uma resposta. Ele avançou, selando seus lábios nos de Benjamin com uma fome que misturava o desespero do pesadelo com a paixão que vinha sufocando ambos. Benjamin soltou um rosnado baixo, uma vibração que Scott sentiu no fundo dos pulmões, e retribuiu o beijo, puxando o corpo do loiro para o seu colo com uma facilidade impressionante.
Benjamin se levantou com Scott nos braços, levando-o para a sua própria cama, que era ligeiramente maior. Quando se deitaram, o contraste era absoluto: a força bruta e reservada de Benjamin contra a energia elétrica e fluida de Scott.
As mãos de Benjamin, antes tão cuidadosas ao manusear livros, agora percorriam o corpo de Scott com uma possessividade nova. Ele puxou a camiseta de Scott para cima, revelando o tronco magro e as costelas levememente aparentes, que Scott sempre tentava esconder.
— Você é lindo — Benjamin murmurou contra a pele do pescoço de Scott, sua voz soando como um trovão distante.
— Cala a boca e me beija, Gigante — Scott arqueou as costas quando sentiu os lábios de Benjamin encontrarem a clavícula, os dentes do maior raspando de leve ali.
O quarto 402 tornou-se um universo à parte. Benjamin finalmente deixou a máscara de "homem de gelo" cair. Seus movimentos eram intensos, cada toque carregado de uma necessidade de conexão que ia muito além do físico. Ele explorava Scott como se estivesse mapeando um novo território, e Scott respondia a cada toque com gemidos que eram música para os ouvidos de Benjamin — muito melhores do que qualquer solo de rock que ele já tivesse tocado.
Quando as roupas foram descartadas e a pele encontrou a pele, o mundo lá fora, com mães controladoras e pais ausentes, deixou de existir. Benjamin segurou as mãos de Scott acima da cabeça dele, entrelaçando seus dedos.
— Olha para mim — Benjamin comandou, a voz rouca de desejo.
Scott obedeceu, os olhos verdes claros brilhando na penumbra, as pupilas dilatadas.
— Eu não vou a lugar nenhum, Scott. Entendeu?
Scott sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ele apenas sorriu, um sorriso genuíno e vulnerável.
— Eu sei. E eu não vou deixar você ficar no silêncio por muito tempo.
O encontro de seus corpos foi uma explosão de ritmo e força. Benjamin era o alicerce, a base sólida, enquanto Scott era a melodia frenética que o fazia perder o fôlego. Naquele momento, não havia gramas de proteína para contar, nem planilhas para preencher. Havia apenas o som da respiração pesada, o calor do suor e a certeza de que, entre as cicatrizes do passado e as incertezas do futuro, eles haviam encontrado um lugar onde podiam simplesmente ser.
Horas depois, quando a primeira luz do sol começou a filtrar pelas persianas, eles ainda estavam entrelaçados. Benjamin tinha Scott abraçado contra o peito, o queixo apoiado no topo da cabeça loira.
— Ben? — Scott chamou, quase dormindo novamente.
— Hum?
— A gente ainda vai pedir aquela pizza de quatro queijos hoje à noite?
Benjamin soltou uma risada baixa, sentindo o peito vibrar contra as costas de Scott.
— Amanhã é dia de perna, Scott. Eu vou precisar de muito carboidrato. Então, sim. Quatro queijos.
— Sabia que eu ia te corromper — Scott sorriu, fechando os olhos, finalmente em paz.
Benjamin fechou os olhos também, permitindo-se, pela primeira vez na vida, ignorar o despertador. O controle era bom, mas o caos que Scott trazia para sua vida era, sem dúvida, muito mais viciante.