Opostos
Sinfonia de Ferro e Distorção
O sol de meio-dia castigava o estacionamento do campus, mas dentro da academia "Power & Health", o ar condicionado lutava bravamente contra o calor e o cheiro de esforço físico. Benjamin estava em seu elemento. Vestindo uma regata preta que deixava em evidência o trabalho de anos de musculação e a pele parda brilhando com uma leve camada de suor, ele orientava uma senhora na execução do leg press.
Seus olhos verde-musgo, porém, deslizavam frequentemente em direção à entrada de vidro. Ele verificava o relógio de parede a cada cinco minutos. Benjamin sempre fora o mestre da pontualidade e do foco, mas desde que Scott começara a frequentar seus turnos de estágio — sob o pretexto de "melhorar o condicionamento para os palcos" —, sua concentração parecia um castelo de cartas em meio a um vendaval.
O sino da porta tocou. Scott entrou usando uma camisa de flanela xadrez aberta sobre uma camiseta de banda, fones de ouvido enormes no pescoço e um par de All Star surrados que definitivamente não eram apropriados para o treino. Ele carregava uma energia que destoava completamente do ambiente de metal e disciplina.
— Você está dez minutos atrasado — disse Benjamin, aproximando-se assim que liberou a aluna. Sua voz era profunda, cruzando o espaço entre eles como uma onda de choque silenciosa.
Scott abriu um sorriso travesso, tirando os fones e deixando-os pendurados nos ombros.
— O rock não tem cronômetro, Gigante. Eu estava terminando de compor um riff que vai mudar a história dessa faculdade. Ou pelo menos me garantir um dez em composição.
Benjamin cruzou os braços imensos, a diferença de vinte e cinco centímetros entre eles forçando Scott a inclinar a cabeça.
— Aqui dentro, o cronômetro é o seu melhor amigo. Vá trocar esse calçado. Se o dono me vê deixando você treinar de All Star, ele me suspende.
Scott deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Benjamin com a audácia que lhe era peculiar. Ele baixou o tom de voz, apenas para que o maior ouvisse por cima da música eletrônica genérica da academia.
— E se eu preferir que você me suspenda? Quem sabe em um lugar mais privado que esse depósito de halteres?
Benjamin sentiu o rosto aquecer, um contraste raro com sua postura habitualmente estoica. Ele colocou a mão no peito de Scott, empurrando-o levemente em direção aos vestiários, mas seus dedos demoraram um segundo a mais sobre o tecido fino da camiseta.
— Vestiário. Agora.
Vinte minutos depois, Scott estava tentando, sem muito sucesso, realizar uma série de agachamentos sob a supervisão severa de Benjamin. O loiro tremia, as pernas finas mas tonificadas lutando contra o peso da barra.
— Mantenha a coluna reta, Scott. Respire. Não bloqueie o ar — instruía Benjamin, as mãos grandes pairando próximas à cintura de Scott, prontas para intervir.
— Eu... odeio... você — Scott ofegou, completando a última repetição e devolvendo a barra ao suporte com um estrondo metálico. Ele se curvou, apoiando as mãos nos joelhos. — Por que as pessoas fazem isso por diversão? É tortura medieval com roupas de lycra.
— É endorfina. Daqui a pouco você vai se sentir ótimo — Benjamin entregou uma garrafa de água para ele. — E sua postura está melhorando. Seus solos de guitarra vão ter muito mais sustentação se o seu core estiver fortalecido.
Scott bebeu a água avidamente, algumas gotas escorrendo pelo queixo e molhando o pescoço. Ele olhou para Benjamin de baixo para cima, um brilho de admiração genuína nos olhos verdes claros.
— Você realmente leva isso a sério, não é? Não é só músculo. É como se você estivesse esculpindo a si mesmo.
— É a única coisa que ninguém pode tirar de mim, Scott — respondeu Benjamin, a sombra da conversa da noite anterior passando por seus olhos. — O que eu construo com o meu corpo e com o meu conhecimento é meu.
Scott esticou a mão e tocou o antebraço de Benjamin, onde as veias saltavam devido ao esforço do trabalho.
— Eu entendo. É como eu e a música. Quando eu estou com a guitarra, o mundo pode estar desmoronando, mas aquela nota é real. Aquela distorção é minha verdade.
O momento de conexão foi interrompido pelo toque estridente do celular de Scott, que estava jogado em cima de um banco. Ele franziu o cenho ao ver o nome na tela: "Mãe".
O brilho nos olhos de Scott desapareceu instantaneamente, substituído por uma névoa de ansiedade. Ele não atendeu. Apenas observou o aparelho vibrar até que a tela se apagasse.
— Ela não desiste — comentou Benjamin, observando a mudança brusca de humor do parceiro.
— Ela quer que eu vá a um jantar de negócios com ela hoje à noite. Em um restaurante chique no centro. Quer me apresentar para alguns parceiros da empresa. É uma emboscada, Ben. Ela quer me forçar a apertar mãos e fingir que eu sei a diferença entre um ativo circulante e uma nota promissória.
Benjamin guardou os pesos que outros alunos haviam deixado espalhados, movendo-se com uma graça calma que contrastava com a agitação interna de Scott.
— Você vai?
— Eu tenho escolha? Se eu não for, ela corta o financiamento do meu curso de música por fora. Ela me tem pelas cordas, e não são as da guitarra.
Benjamin parou o que estava fazendo e olhou fixamente para Scott. Ele odiava ver aquela expressão de derrota no rosto do loiro. Scott fora feito para ser barulhento, rebelde e vibrante, não para ser silenciado por expectativas alheias.
— Eu vou com você.
Scott soltou uma risada incrédula, limpando o suor da testa.
— O quê? Ben, é um jantar de administradores de meia-idade. Você ia odiar. Eles falam sobre taxas de juros e golfe. Além disso, você tem aquele seu seminário de bioquímica para terminar.
— Eu termino o seminário mais tarde. E eu não vou como seu colega de quarto — Benjamin deu um passo à frente, a presença física dele preenchendo o campo de visão de Scott. — Vou como seu acompanhante. Se ela quer te ver como um homem de negócios, ela precisa entender que você já tem sua própria vida. E que eu faço parte dela.
Scott ficou em silêncio por um momento, o coração batendo mais rápido do que durante o agachamento. A ideia de levar Benjamin — aquele gigante pardo, de cabelos longos e olhos intensos — para o mundo estéril e engomado de sua mãe era ao mesmo tempo aterrorizante e deliciosamente tentadora.
— Você tem um terno que caiba nesses ombros de carvalho? — brincou Scott, embora sua voz estivesse embargada.
— Eu dou um jeito.
O restaurante "L'Étoile" era o ápice da sofisticação urbana. Lustres de cristal, garçons que deslizavam como sombras e o som suave de um piano de cauda ao fundo. Helena, a mãe de Scott, já estava sentada à mesa, impecável em um tailleur azul-marinho, conferindo documentos em um tablet.
Quando Scott entrou, ele estava visivelmente desconfortável em uma camisa social branca que o fazia parecer ainda mais jovem. Mas a verdadeira surpresa veio logo atrás dele.
Benjamin vestia uma camisa social preta, cujos botões pareciam estar no limite de sua resistência contra o peito largo, e calças de sarja escuras. Ele não prendera o cabelo; os fios pretos caíam lisos e brilhantes pelas costas, dando-lhe um ar de nobreza selvagem que atraía olhares de todas as mesas.
Helena levantou os olhos, um sorriso profissional pronto nos lábios, que vacilou ao ver o acompanhante do filho.
— Scott, querido. Você chegou — ela disse, levantando-se para um beijo no rosto que ele retribuiu com rigidez. — E quem seria seu... amigo?
— Mãe, este é o Benjamin. Ele estuda Nutrição e Educação Física. E ele é meu namorado — Scott soltou a bomba com uma ponta de orgulho na voz, observando a máscara de Helena trincar por um milésimo de segundo.
Benjamin estendeu a mão grande, envolvendo a mão pequena e adornada de joias de Helena.
— É um prazer conhecê-la, senhora. Scott fala muito da senhora.
— Imagino que sim — Helena respondeu, recuperando a compostura com uma rapidez impressionante. — Sentem-se, por favor. Estávamos prestes a discutir os novos contratos de logística da empresa com o senhor Martins, que deve chegar em breve.
O jantar foi um campo de batalha silencioso. Helena tentava ignorar a presença de Benjamin, direcionando perguntas técnicas de administração para Scott, que respondia de forma monossilábica ou com sarcasmo. Benjamin, no entanto, não se deixou intimidar. Ele mantinha uma postura impecável, usando os talheres com uma precisão que surpreendeu a mulher.
— Então, Benjamin — Helena disse, após um gole de um vinho que custava mais do que a mensalidade da academia. — Nutrição. É uma área... interessante. Mas como você planeja sustentar uma família? É uma profissão de suporte, não de liderança.
Scott abriu a boca para retrucar, mas Benjamin colocou a mão sobre a dele embaixo da mesa, um toque firme que pedia calma.
— Eu vejo de forma diferente, senhora Helena — Benjamin disse, sua voz calma e profunda silenciando momentaneamente a mesa vizinha. — Sem saúde e sem o funcionamento correto do corpo, nenhuma liderança se sustenta. Eu trabalho com a base. Se a base é fraca, o império cai. Assim como na administração, imagino. Se você negligencia o capital humano, os números não fazem sentido.
Helena arqueou uma sobrancelha, claramente não esperando uma resposta articulada de alguém que parecia ter saído de uma capa de revista de esportes.
— Uma metáfora perspicaz — ela admitiu, embora o tom fosse frio. — Mas Scott tem um legado. Ele precisa entender que a música é um hobby, não um destino.
— A música é a linguagem dele, mãe — Scott interveio, a voz subindo de tom. — O destino quem decide sou eu. E se eu quiser tocar em bares sujos pelo resto da vida, contanto que eu esteja feliz, isso deveria ser o suficiente para você.
— Felicidade não paga as contas, Scott! — Helena rebateu, a paciência começando a se esgotar. — Você é jovem, é impulsivo. Está se deixando levar por... distrações.
Ela lançou um olhar significativo para Benjamin.
Foi então que Benjamin fez algo que Scott nunca esperaria em um ambiente público. Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre ele e Helena, seus olhos verde-musgo fixos nos dela com uma intensidade avassaladora.
— O Scott é a pessoa mais dedicada que eu já conheci — afirmou Benjamin. — Eu o vejo praticar até os dedos sangrarem. Eu o vejo estudar administração até tarde da noite, mesmo odiando cada segundo, só para não te decepcionar totalmente. Ele não é uma distração. Ele é um artista. E se a senhora não consegue ver o valor disso, o problema não é o futuro dele. É a sua visão.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Helena parecia ter sido atingida por um golpe físico. Scott olhava para Benjamin com uma mistura de choque e adoração pura. Ninguém nunca o havia defendido daquela forma diante da mãe.
— Acho que este jantar terminou — Helena disse, sua voz tremendo levemente enquanto ela pegava sua bolsa. — Scott, conversaremos na secretaria da faculdade. Com licença.
Ela saiu do restaurante com a cabeça erguida, mas seus passos eram mais rápidos do que o normal.
Scott e Benjamin ficaram sozinhos à mesa. O loiro soltou um longo suspiro, deixando os ombros caírem.
— Cara... você acabou de declarar guerra contra a rainha da papelaria.
— Eu só disse a verdade — Benjamin relaxou a postura, pegando o copo de água. — Ela precisava ouvir.
Scott esticou o corpo por cima da mesa e segurou o rosto de Benjamin com as duas mãos, ignorando os olhares curiosos dos outros clientes.
— Você foi incrível, Gigante. Ninguém nunca... — Scott parou, os olhos brilhando com lágrimas que ele se recusava a deixar cair. — Obrigado.
— Não precisa agradecer. Agora, vamos sair daqui. Eu não aguento mais esse cheiro de perfume caro e repressão.
Eles saíram do restaurante e caminharam pelas ruas iluminadas da cidade. A noite estava fresca, e o contraste entre a rigidez do jantar e a liberdade da rua era revigorante. Quando chegaram ao estacionamento onde o carro de Benjamin estava parado, Scott o prensou contra a porta do veículo.
— Você sabe que ela provavelmente vai cortar minha mesada amanhã, né? — Scott disse, com um sorriso largo que contradizia a gravidade da situação.
— Eu trabalho em dois turnos na academia agora. E ganho bem com as consultorias de nutrição — Benjamin passou as mãos pela cintura de Scott, puxando-o para perto. — A gente dá um jeito. Você não vai precisar voltar para aquele depósito.
Scott riu, um som limpo e vibrante que ecoou pelo estacionamento vazio.
— Eu te amo, sabe disso? Mesmo que você me force a fazer agachamentos e comer brócolis.
Benjamin sentiu o coração falhar uma batida. Era a primeira vez que as palavras eram ditas em voz alta. Ele inclinou a cabeça, encostando o nariz no de Scott, sentindo o hálito quente do outro.
— Eu também amo você, seu guitarrista barulhento.
O beijo que se seguiu não teve nada de controlado. Foi uma celebração de vitória, um pacto selado sob as luzes da cidade. Benjamin esqueceu sua disciplina, sua necessidade de ordem e seu medo do abandono. Nos braços de Scott, ele percebeu que o controle era apenas uma ilusão, e que a verdadeira força vinha da coragem de ser vulnerável.
Quando voltaram para o quarto 402, o ambiente parecia diferente. Não era mais apenas um dormitório universitário; era o refúgio deles. Scott pegou sua guitarra, mas não a ligou no amplificador. Ele sentou-se na cama de Benjamin e começou a dedilhar uma melodia suave, acústica, que parecia preencher as frestas do silêncio.
Benjamin deitou-se ao lado dele, fechando os olhos e deixando-se levar pelo som. Pela primeira vez em anos, ele não estava pensando no treino do dia seguinte ou nas calorias da janta. Ele estava apenas ali, presente.
— Ben? — Scott chamou baixinho, sem parar de tocar.
— Oi.
— Aquela parte sobre a base e o império... você realmente acredita nisso? Que eu sou o seu capital humano?
Benjamin abriu os olhos e sorriu, um sorriso raro e completo que iluminou seu rosto pardo.
— Não, Scott. Você é a música que faz o meu silêncio valer a pena.
Scott parou de tocar por um segundo, o coração transbordando. Ele deixou a guitarra de lado e se aninhou no peito de Benjamin, ouvindo os batimentos lentos e constantes do homem que era sua montanha, seu porto seguro e, agora, seu futuro. O caos e a ordem haviam finalmente encontrado o equilíbrio perfeito.