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Orchestria

A Dança das Marés e o Peso do Prata

O silêncio na sala de estar da casa de praia era uma anomalia, considerando que Howard, o Pato, estava na cozinha tentando transformar sobras de pizza em algo que ele chamava de "culinária gourmet interdimensional". O som metálico de talheres batendo contra pratos era o único contraponto ao murmúrio constante do mar lá fora.

Clary estava sentada no sofá de couro claro, com um tablet holográfico flutuando à sua frente. Seus olhos percorriam relatórios de danos da última missão em Xandar, e a cada linha que lia, sua expressão endurecia.

— Tabitha! — Clary chamou, sua voz cortando o ar com a precisão de um bisturi.

Do corredor, um som de passos apressados e um pequeno estalo elétrico precederam a aparição de Tabitha. A loira usava um short jeans desfiado e uma camiseta que dizia "Cuidado: Altamente Explosiva", o que Clary considerava uma redundância irritante.

— Sim, Chefe? Algum plano maligno para a tarde? Ou vamos finalmente testar aquele novo detonador que eu montei com as peças que o Rocket esqueceu na nave? — Tabitha sorria, a ansiedade vibrando em cada gesto.

Clary desligou o holograma com um movimento seco e cruzou os braços.

— O relatório de Xandar chegou. Você destruiu três geradores de escudo atmosférico. Três, Tabitha. A missão era de infiltração, não de demolição total.

— Mas eles iam atirar na gente! — Tabitha gesticulou, criando pequenas faíscas entre os dedos por puro reflexo. — Eu só... dei um incentivo para eles pararem. Foi uma explosão controlada! Bem, quase controlada. Foi bonita, você tem que admitir.

— Foi um desastre logístico — rebateu Clary, levantando-se. Ela caminhou até Tabitha, a diferença de postura entre a seriedade gélida de uma e a energia caótica da outra criando uma tensão familiar. — Se você soltar mais uma bomba sem a minha autorização expressa, eu vou confiscar cada grama de material reativo que você tem. Você vai passar as missões jogando pedrinhas nos inimigos.

Tabitha murchou visivelmente, seus ombros caindo. Ela confiava em Clary cegamente; para ela, a opinião da amiga era a única bússola que importava, mesmo que Clary a tratasse com a severidade de uma sargenta.

— Você é tão séria, Clary. Às vezes eu acho que você esqueceu como é divertido ver as coisas fazendo *boom*.

— Eu não esqueço o que é divertido, Tabitha. Eu apenas prefiro o que é eficiente. Agora, vá ajudar o Korg a limpar a areia do deck. E sem usar combustão para acelerar o processo.

Tabitha soltou um suspiro dramático e saiu pisando forte, resmungando sobre como a arte da explosão era incompreendida. Clary observou-a sair, sentindo a habitual pontada de cansaço. Liderar aquela equipe era como tentar pastorear gatos armados com tecnologia alienígena.

Foi então que ela sentiu a temperatura da sala mudar. Não era um frio incômodo, mas uma presença refrescante, como a brisa que precede uma tempestade no oceano.

Norrin Radd entrou na sala.

O Surfista Prateado não usava sua prancha no momento, mas sua pele metálica refletia a luz da tarde de forma quase hipnótica. Ele caminhava com uma calma que parecia desacelerar o tempo ao redor. Norrin parou a poucos passos de Clary, observando o rastro de desordem que Tabitha deixara — uma almofada fora do lugar, um copo vazio sobre a mesa.

Com um movimento fluido, ele pegou o copo e o colocou exatamente no centro de uma bolacha de descanso, alinhando-o com uma precisão matemática.

— A jovem Tabitha parece... efervescente hoje — disse Norrin. Sua voz era profunda, uma melodia calma que contrastava com o caos mental de Clary.

— Ela é um perigo constante, Norrin — Clary respondeu, aproximando-se dele. A seriedade em seu rosto suavizou-se, não por completo, mas o suficiente para que alguém que a conhecesse bem percebesse a mudança. — Se eu não a segurar, ela explode a Lua só para ver de que cor seria a poeira.

Norrin voltou seu olhar para Clary. Seus olhos, que viram o nascimento e a morte de estrelas, agora focavam nela com uma intensidade silenciosa. Ele estendeu a mão, tocando o ombro de Clary. O contato do metal frio contra a pele dela era reconfortante, um ponto de ancoragem em meio à sua própria manipulação e sarcasmo.

— A desordem é a natureza dela, Clary. Assim como a ordem é a sua — Norrin disse, sua voz mantendo aquela cadência melancólica. — Você tenta conter o oceano com as mãos. É uma tarefa nobre, mas exaustiva.

Clary soltou um riso seco, inclinando a cabeça levemente para o toque dele.

— Alguém tem que fazer isso. Se eu relaxar, este planeta vira um parque de diversões para o Howard e um campo de testes para a Tabitha.

— E quem cuida da guardiã? — Norrin perguntou, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.

Ele não era dado a grandes demonstrações de afeto em público, mas ali, na semi-penumbra da sala, a maneira como ele se posicionava era uma clara marcação de território. Norrin era protetor por natureza; ele não apenas amava Clary, ele a cercava com sua existência. Para ele, Clary era o centro de gravidade daquela equipe, e ele era o satélite que garantia que nada a atingisse.

— Eu sei me cuidar, Norrin — Clary murmurou, embora suas mãos encontrassem a cintura dele, sentindo a solidez inabalável do seu corpo.

— Eu sei que sabe — ele respondeu, envolvendo-a em um abraço calmo. — Mas mesmo o ser mais forte do multiverso precisa de um lugar onde não precise ser a líder. Onde o silêncio seja suficiente.

Clary fechou os olhos, permitindo-se um momento de vulnerabilidade que jamais mostraria a Tabitha ou ao resto do grupo. Com Norrin, ela não precisava ser sarcástica para se proteger. Ele não tentava entendê-la através de piadas ou explosões; ele simplesmente a sentia.

— O Throg está tentando duelar com um caranguejo na areia — Clary disse contra o peito dele, um traço de seu humor seco retornando. — Você deveria ir lá antes que ele invoque um raio em uma área residencial.

— Deixe que o sapo do trovão encontre sua honra na batalha — Norrin disse, e houve um brilho quase imperceptível de diversão em seus olhos prateados. — Eu prefiro ficar aqui. A estrutura molecular deste momento é... agradável.

— Você é um nerd cósmico, sabia? — Clary sorriu, olhando para ele.

— E você é a líder de um grupo de desajustados que eu protegeria com a minha essência — ele retrucou, inclinando-se para beijar a testa dela. O gesto foi casto, imbuído de uma gentileza que poucos associariam ao antigo arauto de Galactus.

A paz, no entanto, durou pouco.

— CLARY! O HOWARD EXPLODIU A CHURRASQUEIRA! — O grito de Tabitha veio do deck, seguido pelo som de metal retorcido e o grasnido furioso do pato.

Clary suspirou, separando-se de Norrin. A máscara de seriedade voltou ao seu rosto instantaneamente.

— Eu vou matar aquele pato. E depois vou confiscar os isqueiros da Tabitha.

Norrin observou-a caminhar em direção ao caos, sua postura novamente rígida e autoritária.

— Eu irei com você — disse Norrin, sua prancha surgindo do nada e flutuando ao seu lado enquanto ele a seguia. — A desordem externa precisa de um mediador. E eu não permitirei que a fumaça estrague o seu dia.

Ao saírem para o deck, a cena era digna de um quadro surrealista. Howard estava coberto de fuligem, segurando uma espátula como se fosse uma arma. Korg tentava apagar o fogo com baldes de areia, o que só estava criando uma escultura de vidro disforme. Tabitha estava pulando de um lado para o outro, rindo e tentando explicar que "o fogo precisava de mais oxigênio e um pouco de magnésio".

— TABITHA! — Clary gritou, e o silêncio caiu sobre o deck como uma bigorna.

Tabitha parou no ar, uma pequena esfera de energia brilhando em sua mão direita.

— Oi, Chefe... então, a churrasqueira teve uma falha crítica de design...

— A churrasqueira não teve uma falha, você teve uma falha de julgamento! — Clary caminhou até ela, pegando a esfera de energia da mão de Tabitha com uma audácia que só alguém que confiava na própria autoridade teria. A energia se dissipou entre os dedos de Clary. — Para o seu quarto. Agora.

— Mas Clary! — Tabitha protestou, os olhos grandes e pidões. — Eu sou sensível, você sabe que eu fico triste quando você briga comigo!

— Então fique triste no seu quarto, longe de objetos inflamáveis — Clary apontou para a porta.

Tabitha olhou para Norrin, esperando algum apoio, mas o Surfista apenas permaneceu ali, uma estátua de prata inabalável atrás de Clary.

— A ordem deve ser restaurada, pequena — disse Norrin com sua calma exasperante. — O fogo não é um brinquedo, é uma reação química que exige respeito.

Tabitha bufou, fazendo um bico que poderia rivalizar com o de Howard.

— Vocês dois são o casal mais chato da galáxia. Sério. Um é um iceberg e o outro é uma enciclopédia metálica.

Ela saiu marchando, mas antes de entrar, virou-se e gritou:

— Mas eu ainda amo vocês! Só não me peçam para limpar a churrasqueira!

Clary massageou as têmporas enquanto Howard tentava explicar que a explosão foi, na verdade, uma tentativa de criar "hambúrgueres defumados instantâneos".

— Norrin, por favor, leve o Howard para longe de mim antes que eu decida se pato assado é uma boa opção para o jantar — Clary pediu, sem olhar para trás.

— Como desejar, Clary — Norrin disse. Ele se aproximou de Howard, que começou a protestar imediatamente.

— Ei, solta as minhas penas, seu sorvete de prata! Eu tenho direitos! Eu sou um cidadão de...

A voz de Howard sumiu enquanto Norrin o levava calmamente para a beira da água, provavelmente para iniciar uma palestra de três horas sobre a ética do uso do fogo e a preservação da propriedade alheia.

Clary ficou sozinha no deck por um momento, observando o sol começar a se pôr, pintando o céu de laranja e violeta. Ela sentiu uma presença ao seu lado novamente. Norrin voltara, tendo deixado Howard em um estado de transe reflexivo (ou tédio profundo) na areia.

Ele não disse nada. Apenas ficou ali, sua mão encontrando a dela. Clary entrelaçou seus dedos nos dele. A frieza do metal e o calor da pele humana se equilibrando perfeitamente.

— Você acha que eles algum dia vão aprender? — Clary perguntou, sua voz cansada, mas sem a dureza de antes.

— Eles são o que são, Clary. Uma coleção de singularidades — Norrin respondeu, olhando para o horizonte. — Mas enquanto você for o horizonte deles, eles nunca se perderão no vácuo.

— E você? O que você é nisso tudo?

Norrin virou-se para ela, o reflexo do pôr do sol tornando sua pele prateada um espelho de cores quentes.

— Eu sou o que sempre fui desde que te conheci — ele disse, sua voz soando como uma promessa eterna. — Eu sou o que garante que o seu horizonte permaneça firme. Eu sou a calma para a sua tempestade, Clary. Sempre.

Clary não respondeu com palavras. Ela apenas apertou a mão dele, permitindo-se, por aquele breve instante, não ser a líder, não ser a manipuladora, não ser a sarcástica. Ela era apenas uma mulher, ligada a um ser de estrelas, em uma casa de praia que cheirava a fumaça de churrasqueira e a uma paz que, embora frágil, era a coisa mais real que ela já possuíra.

Ao longe, o som de uma pequena explosão abafada veio do quarto de Tabitha. Clary suspirou, mas não se moveu.

— Amanhã — ela murmurou. — Amanhã eu lido com as bombas.

— Amanhã — concordou Norrin, puxando-a para mais perto enquanto a noite caía sobre a Legião Estelar.

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