Os irmãos
O Eco do Silêncio e das Sombras
A viagem de volta para casa foi preenchida pelo monólogo incessante de Arthur. O interior do carro de luxo cheirava a couro novo e ao perfume caro dele, uma fragrância que agora parecia sufocante para Liana. Ela mantinha o rosto colado ao vidro da janela, observando os postes de luz passarem como borrões amarelados. Sua boca ainda retinha o gosto de Gabriel — o uísque, o calor, a urgência —, e cada vez que ela passava a língua pelos lábios, uma onda de náusea e culpa a atingia.
— Você viu a cara do Menezes quando eu mencionei os números do último trimestre? — Arthur riu, uma risada vitoriosa e seca, enquanto batucava no volante. — Ele sabe que eu sou o futuro daquela firma. Liana, essa promoção é só o começo. Vamos precisar viajar mais, frequentar os clubes certos. Você vai precisar de vestidos novos, algo mais... imponente.
— Sim, Arthur — sussurrou ela, sem desviar os olhos da escuridão lá fora.
— O que foi? Bebeu demais? — Ele lançou um olhar rápido para ela, mas não esperou pela resposta. — Bom, não importa. Hoje é uma noite de celebração. E fico feliz que o Gabriel tenha aparecido, apesar de ele ser um desajustado. Ter a família reunida na minha coroação dá uma imagem de estabilidade, entende?
Liana não respondeu. O arrependimento pesava em seu estômago como chumbo. Como ela pudera ser tão fraca? Gabriel era o passado, uma ferida mal cicatrizada, e o beijo no terraço fora um erro catastrófico nascido da solidão e do álcool. Ela olhou para a própria mão, onde a aliança de ouro brilhava sob a luz do painel, sentindo-se uma fraude.
Quando chegaram à mansão, Gabriel já estava lá. Ele havia saído da festa logo após o encontro no terraço e, por ser o "filho pródigo" que retornava, Arthur insistira que ele ficasse no quarto de hóspedes no andar superior, logo ao fim do corredor da suíte master.
Ao entrarem, a casa estava silenciosa, mas as luzes da sala de estar estavam baixas. Gabriel estava sentado em uma das poltronas de veludo, segurando um copo de cristal. Ele não se levantou, apenas observou os dois entrarem. O olhar dele cruzou com o de Liana por um segundo — um olhar carregado, sombrio — antes de se desviar para o irmão.
— Ora, se não é o novo dono do mundo — disse Gabriel, o tom de ironia cortante como uma navalha.
— Deixe de ser cínico, Gabriel — Arthur respondeu, caminhando até o bar e servindo-se de uma generosa taça de vinho tinto. — Beba conosco. Um brinde ao meu sucesso e ao seu retorno. Espero que o quarto esteja do seu agrado. A governanta preparou tudo.
— Está ótimo, Arthur. Confortável até demais — Gabriel respondeu, levantando o copo em um gesto seco.
Arthur deu um gole profundo no vinho, seus olhos brilhando com uma excitação que Liana conhecia bem. Era a adrenalina do poder, uma energia que ele sempre canalizava para o quarto após uma grande vitória. Ele caminhou até Liana e envolveu a cintura dela com o braço, puxando-a para perto de forma possessiva.
— Minha esposa está cansada, não é, querida? — Ele beijou o pescoço dela, um gesto que deveria ser carinhoso, mas que para Liana pareceu uma marcação de território diante do irmão. — Vamos subir. Gabriel, sinta-se em casa. Só tente não quebrar nada.
— Pode deixar — murmurou Gabriel, sua voz descendo uma oitava. Ele fixou os olhos em Liana, que sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia uma promessa silenciosa naquele olhar, e também uma acusação.
No andar de cima, dentro da suíte, o silêncio da noite foi substituído pelo som do zíper do vestido de Liana sendo aberto. Arthur estava impaciente. Ele não a beijou com ternura; ele a tomou com a fome de quem acabou de conquistar um império e precisava de um lugar para descarregar sua glória.
Liana fechou os olhos com força. Ela tentou se concentrar em Arthur, em seu marido, no homem a quem prometera fidelidade. Mas, em sua mente, a imagem de Gabriel no terraço não desaparecia. Ela se sentia dividida, uma alma fragmentada entre a segurança fria de seu casamento e a paixão perigosa que acabara de despertar.
Arthur a jogou na cama, e a noite se tornou um borrão de movimentos vigorosos e sons abafados. Ele não era sutil. Nunca fora. Liana, em um estado de confusão emocional e entorpecimento pelo álcool, deixou-se levar. Seus gemidos, no entanto, não eram de prazer puro, mas de uma angústia que ela não sabia como expressar. Cada toque de Arthur parecia queimar sua pele, lembrando-a do que ela havia feito minutos antes.
Do outro lado da parede, no quarto de hóspedes, Gabriel estava sentado na borda da cama, no escuro. As paredes da mansão eram sólidas, mas o silêncio da madrugada era traiçoeiro. Ele conseguia ouvir o ritmo da cabeceira da cama batendo contra a parede, os suspiros ofegantes de Arthur e, mais do que tudo, a voz de Liana.
Cada som que ela emitia era como uma facada no peito de Gabriel. Ele fechou os punhos, as unhas cravando na palma das mãos. Ele a sentira em seus braços, sentira a entrega dela no beijo, e agora tinha que ouvir o irmão — o homem que a negligenciava, que a tratava como um acessório — possuí-la. A raiva borbulhava em seu sangue, uma mistura tóxica de ciúme e desprezo. Ele odiava Arthur por não merecê-la, e odiava Liana por ainda estar ali.
A manhã seguinte nasceu cinzenta, com uma névoa fina cobrindo os jardins da propriedade. Liana acordou com a cabeça pesada e o coração ainda mais. Arthur já estava de pé, vestindo seu terno perfeitamente passado, pronto para seu primeiro dia oficial como sócio sênior.
— Você foi maravilhosa ontem à noite, Liana — disse ele, ajustando o nó da gravata no espelho. — Realmente, uma noite para recordar.
Liana forçou um sorriso, sentindo-se fisicamente doente.
— Vou descer para o café. Não demore — ele completou, saindo do quarto com a confiança de um rei.
Liana levou algum tempo para se recompor. Lavou o rosto com água gelada, tentando apagar as olheiras e a expressão de culpa. Vestiu um robe de seda simples e desceu as escadas, esperando encontrar apenas o marido.
No entanto, à mesa de carvalho da sala de jantar, Gabriel já estava sentado, diante de uma xícara de café preto. Arthur estava sentado à cabeceira, lendo o jornal em seu tablet e mastigando uma torrada.
— Bom dia, querida — disse Arthur, sem tirar os olhos da tela.
— Bom dia — respondeu Liana, sua voz saindo baixa e rouca.
Ela se sentou à mesa, evitando olhar para o lado onde Gabriel estava. Mas ela conseguia sentir a intensidade dele. Era como se o ar ao redor dele estivesse eletrificado.
— Dormiu bem, Gabriel? — Arthur perguntou, finalmente deixando o tablet de lado. — O quarto é silencioso o suficiente?
Gabriel levantou a xícara, seus olhos fixos em Liana. Ele esperou que ela levantasse a cabeça, e quando ela finalmente o fez, o impacto foi quase físico. Não havia doçura nos olhos dele agora. Havia uma fúria fria, um julgamento que a fez querer se encolher.
— Na verdade, Arthur, a casa não é tão silenciosa quanto você pensa — disse Gabriel, sua voz gélida. — Ouvi cada momento da sua... celebração particular.
Liana sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela baixou os olhos para o prato vazio, suas mãos tremendo levemente sob a mesa.
Arthur soltou uma risada curta e convencida, recostando-se na cadeira.
— Ah, bem... você sabe como é. O sucesso é um excelente afrodisíaco. E Liana sempre sabe como me parabenizar.
O silêncio que se seguiu foi insuportável. Gabriel apertou a xícara de porcelana com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele olhou para a cunhada, e o desprezo em seu rosto era evidente. Para ele, Liana era uma hipócrita. Ela o beijara com uma paixão que parecia real, apenas para correr de volta para os braços do marido e se entregar a ele daquela forma.
— É — disse Gabriel, levantando-se abruptamente. A cadeira arrastou no chão com um som estridente. — Algumas pessoas têm um talento incrível para fingir. Para aceitar migalhas de atenção e fingir que é um banquete.
Arthur franziu a testa, confuso com a agressividade súbita do irmão.
— Do que você está falando, Gabriel? Está de mau humor logo cedo?
— Estou falando de dignidade, Arthur. Algo que parece faltar nesta casa — Gabriel rebateu, lançando um último olhar de puro veneno para Liana antes de sair da sala a passos largos.
Arthur balançou a cabeça, voltando-se para o café.
— Ele sempre foi instável, Liana. Não ligue para ele. É inveja, pura e simples. Ele vê o que eu conquistei, vê a mulher que eu tenho, e isso o corrói por dentro.
Liana não conseguiu comer. As palavras de Gabriel ecoavam em sua mente: "aceitar migalhas de atenção e fingir que é um banquete". Ele estava certo. Mas o que ele não entendia era o medo dela, a timidez que a impedia de fugir, a teia de obrigações que a prendia àquela vida.
— Arthur, eu... eu vou me deitar um pouco mais. Não estou me sentindo bem — ela mentiu, levantando-se.
— Claro, querida. Descanse. Temos um jantar com os sócios hoje à noite, preciso de você radiante.
Liana subiu as escadas, mas não foi para o seu quarto. Ela parou no corredor, perto da porta do quarto de hóspedes. O som da porta de Gabriel batendo ainda ecoava. Ela queria entrar, queria explicar que o que acontecera entre ela e Arthur não fora um ato de traição ao que sentiram no terraço, mas um ato de medo. Queria dizer que ela se sentia suja, mas que não sabia como ser diferente.
Mas ela não se moveu. A Liana doce e tímida ainda era uma prisioneira. E enquanto ela permanecia ali, no corredor, percebeu que o beijo no terraço não fora o início de um romance, mas o início de uma guerra. Uma guerra entre dois irmãos, onde ela era o prêmio e a vítima, e onde o silêncio da casa agora estava carregado com o peso de segredos que ameaçavam destruir todos eles.
Liana encostou a cabeça na parede fria, fechando os olhos. Ela podia ouvir os passos de Gabriel dentro do quarto, um ritmo impaciente e raivoso. Ela sabia que, a partir daquele momento, nada mais seria igual. O gosto amargo do champanhe da noite anterior fora substituído pelo gosto metálico do medo. E o pior de tudo era saber que, por mais que Arthur a ignorasse, era o ódio silencioso de Gabriel que agora mais a machucava.