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Os irmãos

O Peso da Coroa de Espinhos

O vestido de seda champanhe abraçava as curvas de Liana de uma forma que ela considerava excessivamente exposta, mas Arthur havia insistido. Para ele, cada detalhe de sua aparência era uma ferramenta de negociação, uma extensão de seu sucesso profissional. Enquanto ela retocava o batom diante do espelho, sentindo o estômago dar nós de ansiedade, Arthur entrou no quarto, ajustando as abotoaduras de ouro com uma precisão cirúrgica.

— Liana, preste atenção — disse ele, observando-a pelo reflexo com um olhar crítico. — O Dr. Albuquerque, o presidente da firma, estará lá. Este jantar não é apenas uma formalidade. É a consolidação do meu poder. Eu preciso que você sorria. Não aquele sorriso tímido e contido, mas algo que mostre que você é a esposa de um homem que venceu. Mostre o seu valor, porque, se você brilhar, eu brilho.

— Eu vou tentar, Arthur — sussurrou ela, abaixando o olhar.

— Tentar não é o suficiente. — Ele se aproximou, segurando o queixo dela com força, obrigando-a a encará-lo. — O Dr. Albuquerque valoriza a imagem da família perfeita. E o meu concorrente direto, o Ricardo, também estará lá. Ele é uma cobra. Não dê aberturas.

Liana assentiu, sentindo o toque dele como uma marca fria em sua pele. Ela queria perguntar sobre Gabriel, queria saber se o irmão dele também iria, mas o medo de mencionar o nome que ainda queimava em sua memória a impediu. Gabriel não foi mencionado. Ele permanecera trancado no quarto de hóspedes desde o café da manhã, um fantasma que assombrava os corredores da mansão.

O restaurante escolhido era o ápice da exclusividade, um lugar onde o silêncio era tão caro quanto o vinho. À mesa, o Dr. Albuquerque, um homem de cabelos brancos e olhar gélido, observava tudo com uma neutralidade aterrorizante. Ao lado dele, Ricardo, um homem mais jovem, com um sorriso predatório e olhos que não paravam de viajar pelo corpo de Liana.

O jantar foi um campo de batalha disfarçado de etiqueta. Ricardo, com uma habilidade cruel, interrompia Arthur a cada frase, diminuindo suas conquistas com comentários sarcásticos e elogios que soavam como insultos.

— Arthur é um excelente executor — disse Ricardo, girando a taça de vinho —, mas às vezes falta-lhe a visão macro, não é, Dr. Albuquerque? Ele se prende muito aos detalhes técnicos, como um bom operário.

Arthur apertou o talher com tanta força que os nós de seus dedos empalideceram, mas manteve o sorriso plástico no rosto.

— Os detalhes são o que ganham os processos, Ricardo. Algo que você talvez aprenda com o tempo.

A tensão era palpável. Liana sentia-se sufocar, sendo o alvo constante dos olhares de Ricardo. Em um momento, o Dr. Albuquerque pediu licença para ir ao banheiro. Liana, sentindo que precisava de ar ou de mais uma dose de coragem líquida, aproveitou a deixa.

— Eu também vou me retirar por um instante — disse ela, levantando-se apressada.

No entanto, antes que pudesse se afastar completamente da mesa, Ricardo inclinou-se para frente, aproveitando a ausência do presidente para baixar o nível da conversa. Ele ignorou Liana saindo e focou em Arthur, mas suas palavras foram projetadas para que ela as ouvisse.

— Você tem sorte, Arthur. Uma mulher como a Liana... ela é uma mulher de verdade. Doce, submissa, com esse ar de quem precisa de proteção. — Ele soltou uma risada baixa e suja. — Se eu encontrasse uma dessas por aí, garanto que faria uma noite quente com ela que a faria esquecer até o próprio nome. Ela desperdiça esse fogo com um burocrata como você.

Liana congelou a poucos passos da mesa. O sangue subiu ao seu rosto em uma onda de humilhação. Ela esperou que Arthur se levantasse, que desse um soco naquela face arrogante, que defendesse a honra da mulher que ele dizia amar. Mas o silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer insulto.

Arthur não disse nada. Ele apenas encarou Ricardo com os olhos injetados de raiva contida, mas a ambição falou mais alto que o orgulho. Antes que ele pudesse reagir, o Dr. Albuquerque retornou à mesa.

— Algum problema, senhores? — perguntou o presidente, notando a atmosfera pesada.

— Nenhum, Dr. Albuquerque — respondeu Ricardo, voltando à sua postura polida. — Estávamos apenas comentando sobre como Arthur é um homem de sorte em todos os aspectos da vida.

O restante do jantar foi uma lenta tortura. Arthur foi humilhado sistematicamente por Ricardo, que usava cada oportunidade para diminuí-lo diante do chefe. E Arthur, em sua busca desesperada pelo cargo, engoliu cada sapo, cada ofensa, descontando sua frustração em silêncio, apertando o guardanapo sob a mesa.

No carro, o caminho de volta foi um inferno de silêncio. A aura de Arthur exalava um ódio puro, uma energia sombria que preenchia o espaço limitado do veículo. Liana estava encolhida no banco do passageiro, as lágrimas ameaçando cair.

— Você ouviu o que ele disse? — a voz de Arthur saiu como um rosnado baixo quando entraram na garagem de casa.

— Arthur, ele estava tentando te provocar...

— Ele me desrespeitou! Ele falou de você como se você fosse uma qualquer na minha frente! E eu tive que ficar lá, sorrindo para aquele velho decrépito do Albuquerque para não perder a minha chance! — Ele socou o volante com força, fazendo Liana pular. — Eu me senti um lixo. Um covarde. E você... você ficou lá, parada, com aquela cara de coitada!

— O que você queria que eu fizesse? — Liana finalmente explodiu em um soluço. — Você me disse para não dar aberturas, para sorrir!

Arthur não respondeu. Ele saiu do carro e entrou em casa batendo a porta. Liana o seguiu, tremendo. Ela subiu direto para o quarto, querendo apenas se esconder sob os lençóis e desaparecer. Tirou o vestido opressor e vestiu uma camisola de renda fina, uma peça que Arthur havia comprado para ela, mas que ela raramente usava por se sentir vulnerável demais nela.

Lá embaixo, Arthur se servia de dose após dose de uísque. A imagem de Ricardo rindo de sua cara, a lembrança das palavras sujas sobre sua esposa e a percepção de sua própria passividade diante do poder o estavam enlouquecendo. Ele precisava recuperar o controle. Precisava se sentir dono de algo, de alguém.

Quando ele entrou no quarto, horas depois, cheirando a álcool e fúria, Liana estava sentada na beira da cama, secando as lágrimas. A luz do abajur iluminava a renda da camisola, revelando a pele parda que ele considerava sua propriedade.

Arthur não disse uma palavra. Ele caminhou até ela e a agarrou pelos ombros, jogando-a contra o colchão com uma brutalidade que ela nunca havia presenciado.

— Arthur, você está me machucando... — ela começou a dizer, mas ele a calou com um beijo agressivo, que não tinha nada de afeto e tudo de punição.

— Eu sou o homem desta casa, Liana — ele rosnou contra o ouvido dela, sua respiração pesada e quente. — Se aquele desgraçado acha que pode desejar o que é meu, eu vou mostrar a ele, e a você, quem manda aqui.

Ele não esperou por um consentimento, não houve preliminares ou doçura. Arthur a possuiu com uma força cega, despejando nela toda a raiva, a humilhação e o ódio que acumulara durante o jantar. Liana soltou um grito agudo de dor e surpresa quando ele a penetrou sem aviso, um som que rasgou o silêncio da mansão.

No corredor, Gabriel, que não conseguira dormir atormentado pelas imagens do beijo no terraço e pelo desprezo que sentira por Liana naquela manhã, saltou da cama ao ouvir o grito. Ele correu até a porta do quarto do irmão, parando com a mão na maçaneta.

Do lado de dentro, os sons eram de uma batalha, não de um ato de amor. Ele ouvia os soluços abafados de Liana, os gemidos de dor que ela tentava esconder e o som rítmico e violento da cama batendo contra a parede. Gabriel fechou os olhos, encostando a testa na madeira da porta. Cada som era uma tortura. Ele sabia que Arthur estava descontando algo nela. Ele conhecia o irmão; sabia que, para Arthur, Liana era o único lugar onde ele podia ser o tirano que o mundo não o deixava ser.

— Por favor, Arthur... para... — a voz de Liana surgiu em um sussurro quebrado, seguido por outro grito que foi sufocado por um travesseiro.

Gabriel sentiu uma vontade avassaladora de arrombar a porta, de arrancar Arthur de cima dela e acabar com aquilo. Mas ele se lembrou do olhar de desprezo que lançara a ela no café da manhã. Ele a julgara. Ele a chamara de hipócrita. E agora, ouvi-la sofrer daquela forma trazia uma mistura insuportável de culpa e proteção.

Liana, dentro do quarto, sentia-se morrer por dentro. O homem que deveria ser seu porto seguro estava usando seu corpo como um saco de pancadas emocional. Ela olhava para o teto, as lágrimas escorrendo livremente, enquanto esperava que aquilo acabasse. Ela se sentia suja, usada e, acima de tudo, profundamente sozinha.

Quando Arthur finalmente terminou, ele se levantou sem olhar para trás. O rosto dele estava vermelho, o suor brilhando sob a luz fraca. Ele não disse "desculpe", não a abraçou. Apenas pegou sua toalha e caminhou em direção ao banheiro, fechando a porta com um estrondo. O som do chuveiro logo preencheu o quarto.

Liana ficou ali, encolhida em posição fetal, a camisola de renda rasgada em um dos lados. Ela soluçava baixinho, sentindo a dor física e o vazio devastador em sua alma. Ela se sentia pequena, quebrada, uma boneca que fora jogada na parede por uma criança mimada.

— Eu não aguento mais — ela murmurou para a escuridão, sua voz sumindo no vapor que saía do banheiro.

Ela não sabia que, do outro lado da porta, Gabriel ainda estava lá, sentado no chão do corredor, com as mãos cobrindo o rosto, ouvindo o choro dela. A fúria que ele sentia agora não era contra Liana, mas contra o monstro que seu irmão se tornara e contra si mesmo, por não ter tido a coragem de salvá-la antes que o mundo a destruísse por completo.

A noite continuou, fria e indiferente, enquanto os segredos daquela casa se tornavam feridas abertas que ninguém sabia como curar.