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Our chaos

O Brilho da Prata e o Caos do Plástico

A coleira de prata era fria contra a pele quente do pescoço de Engfa. Não era um acessório grosseiro; era uma peça de joalheria fina, uma gargantilha delicada com o brasão dos Malisorn — um leão estilizado rodeado por ramos de louro — pendendo discretamente no centro. Para qualquer convidado daquela festa de gala, pareceria apenas um presente extravagante de uma irmã mais velha para a caçula rebelde. Para Engfa, era o peso da derrota.

— Eu disse que você não aguentaria cinco minutos — sussurrou Faye, terminando de fechar o fecho atrás da nuca de Engfa. Seus dedos deslizaram propositalmente pela nuca da mais nova, causando um calafrio que Engfa tentou desesperadamente esconder.

— Você trapaceou — resmungou Engfa, ajustando a jaqueta de couro sobre o vestido preto de seda que Faye a obrigara a usar. O contraste entre a elegância do vestido e a brutalidade da jaqueta era a definição perfeita de quem Engfa era. — Você usou aquele perfume que sabe que me deixa tonta.

Faye riu, um som cristalino que ecoou pelo quarto antes de descerem para o salão principal da mansão.

— No amor e na guerra, Engfa... e nós vivemos em ambos.

A festa era um mar de hipocrisia. Homens de negócios que lavavam dinheiro para o império Malisorn brindavam com políticos que fingiam não saber de onde vinha o financiamento de suas campanhas. Faye movia-se pelo ambiente como uma rainha, sua presença magnética atraindo olhares de admiração e medo. Engfa, por outro lado, era a sombra perigosa ao seu lado, os olhos escuros percorrendo a sala com um tédio agressivo.

Mas o tédio não durou muito. Engfa sabia exatamente como atingir o ponto fraco de Faye: o controle.

— Vou pegar uma bebida — anunciou Engfa, sem esperar resposta.

Ela se afastou em direção ao bar, mas não parou lá. Em vez disso, parou no meio de um grupo de jovens herdeiros que bebiam champanhe perto da varanda. Engfa encostou-se em uma pilastra de mármore, tirou um cigarro do bolso interno da jaqueta — ignorando a proibição de fumar no salão — e esperou.

Não demorou para que um rapaz, filho de um magnata do aço, se aproximasse com um isqueiro de ouro.

— Permite? — perguntou ele, os olhos fixos no corte que Engfa tinha no lábio, claramente intrigado pela aura de "garota má".

Engfa inclinou a cabeça, permitindo que ele acendesse o cigarro. Ela soltou a fumaça lentamente no rosto dele, um sorriso irônico brincando em seus lábios.

— Você é a protegida dos Malisorn, não é? — o rapaz continuou, aproximando-se mais do que o necessário. — Ouvi dizer que você é... difícil de lidar.

— Difícil é um elogio — respondeu Engfa, a voz rouca. Ela viu, pelo canto do olho, Faye parada a alguns metros de distância, conversando com um embaixador, mas seus olhos vermelhos estavam fixos em Engfa. — Eu sou um desastre completo. Quer testar?

Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre ela e o rapaz até que seus peitos quase se tocassem. Ela podia sentir a tensão vinda de Faye do outro lado do salão. Engfa riu de algo que o rapaz disse, uma risada alta e falsa, e tocou levemente o braço dele com seus dedos marcados por cicatrizes.

O som de vidro quebrando cortou a música ambiente.

Engfa olhou na direção do som. Faye estava parada, imóvel, com o rosto impassível, mas aos seus pés, os restos de uma taça de cristal espalhavam vinho tinto como sangue pelo chão de mármore branco. A mão de Faye estava levemente avermelhada, mas ela não desviou o olhar de Engfa.

— Com licença, senhores — disse Faye, sua voz cortante como uma navalha, aproximando-se do grupo. — Receio que minha irmã precise de um descanso. Ela tem uma constituição... delicada.

Engfa quase gargalhou com a palavra "delicada". Faye a segurou pelo pulso com uma força que deixaria marcas, uma possessividade que não admitia réplicas.

— Nós estamos saindo — declarou Faye para ninguém em especial, arrastando Engfa em direção às escadas.

— O que foi, Faye? A festa estava apenas começando — provocou Engfa enquanto eram observadas pelos convidados confusos.

Faye não disse nada até estarem longe dos olhos de todos, no refúgio do andar superior, onde as luzes eram baixas e o cheiro de sândalo substituía o perfume barato da multidão. Ela empurrou Engfa contra a porta fechada de sua suíte privada.

— Você adora brincar com o fogo, Engfa Waraha — sibilou Faye, o rosto a centímetros do dela. — Quer ver quem queima primeiro?

— Eu já estou queimando faz tempo, Faye. E você também.

O beijo que se seguiu foi uma colisão. Não havia delicadeza, apenas a necessidade bruta de reafirmar a posse. Faye segurou a coleira de prata, puxando Engfa para mais perto, enquanto a mais nova agarrava a cintura de Faye, sentindo o tecido caro do vestido sob suas mãos calejadas.

Horas se passaram em um borrão de adrenalina e silêncio compartilhado. Elas abandonaram as roupas de festa por algo mais confortável. A tensão da festa deu lugar ao ritual habitual delas. Faye abriu uma garrafa de um vinho que custava mais do que a casa onde Engfa crescera, enquanto Engfa se jogava no tapete, espalhando as peças de um novo projeto de Lego: uma réplica detalhada de um gato de Bengala.

— Coloca aquele filme de novo — pediu Engfa, concentrada em encaixar as peças das patas do gato.

Faye obedeceu, colocando um clássico noir em preto e branco na TV, apenas para servir de ruído de fundo. Ela se sentou ao lado de Engfa, observando a garota trabalhar. Havia uma paz estranha ali. Velas aromáticas queimavam nos cantos do quarto, lançando sombras dançantes nas paredes.

— Você fica tão calma quando está montando isso — comentou Faye, bebendo um gole de vinho e inclinando-se para beijar o ombro de Engfa, que estava coberto apenas por uma regata branca.

— É a única coisa que faz sentido — respondeu Engfa sem desviar os olhos. — As peças se encaixam. Se você errar, pode desmontar e começar de novo. A vida não é assim.

Faye sentiu uma pontada de culpa, uma emoção rara para ela. Ela sabia que a vida de Engfa tinha sido quebrada propositalmente por suas mãos, para que ela pudesse ser a única a oferecer o conserto.

— Eu sou sua peça que falta, Engfa — sussurrou Faye, movendo-se para se sentar atrás dela, abraçando-a por trás.

— Você é a peça que eu não sabia onde colocar — retrucou Engfa, com um raro tom de carinho na voz.

Tudo estava perfeito, até que Faye, em um movimento impensado de carinho mais ousado, tentou puxar Engfa para um beijo mais profundo e acabou batendo o cotovelo na estrutura quase finalizada do gato de Lego.

O som de centenas de peças de plástico se chocando contra o chão ecoou pelo quarto. O gato, que levou três horas para ser construído, agora era apenas um monte de entulho colorido sobre o tapete.

O silêncio que se seguiu foi gélido.

Engfa congelou. Seus olhos se arregalaram e seus nós dos dedos ficaram brancos enquanto ela apertava as mãos. A raiva, seu velho monstro, rugiu em seu peito.

— Faye... — a voz de Engfa saiu baixa, perigosa.

— Foi um acidente, querida — disse Faye, tentando manter o tom leve, embora soubesse que tinha cruzado uma linha sagrada.

— Três horas — disse Engfa, virando-se lentamente. — Eu levei três horas naquela droga de cauda e nas orelhas.

— Eu compro outro. Compro dez outros — Faye tentou se aproximar, mas Engfa a empurrou.

— Eu não quero outro! Eu quero aquele! — Engfa se levantou, a hiperatividade pulsando em seus movimentos. — Você acha que pode resolver tudo com dinheiro ou com esses seus joguinhos. Pois bem, Malisorn. Você quebrou, você conserta.

Faye arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo voltando à sua face.

— Você quer que eu monte isso? Engfa, eu não tenho paciência para...

— Você vai montar — interrompeu Engfa, apontando para o chão. — Do início. Cada peça. E eu não vou te ajudar.

Faye olhou para o manual de instruções grosso e para a pilha de peças. Ela odiava tarefas manuais minuciosas. Mas ela olhou para Engfa e viu o desafio nos olhos dela, a mesma chama que a fizera se apaixonar pela vizinha rebelde anos atrás.

— Tudo bem — cedeu Faye, sentando-se no chão com elegância, apesar da situação absurda. — Eu monto. Mas com uma condição.

— Nenhuma condição! — gritou Engfa, embora já estivesse se sentando no sofá logo acima de onde Faye estava.

Faye começou a separar as peças pretas das marrons, seus dedos longos e bem cuidados movendo-se com hesitação. Engfa observava, o rosto apoiado nas mãos, um sorriso de satisfação surgindo conforme via a impaciência de Faye crescer.

— Essa peça não encaixa aqui! — reclamou Faye após dez minutos, jogando uma peça plástica para o lado.

— Leia o manual, "irmãzinha" — provocou Engfa. Ela desceu do sofá e se posicionou atrás de Faye, imitando o que a outra fizera mais cedo.

Engfa começou a explorar o corpo de Faye de forma lenta e torturante. Seus dedos traçaram o contorno das orelhas de Faye, descendo pelo pescoço e parando na corrente de prata dos Malisorn.

— Engfa... eu estou tentando me concentrar — murmurou Faye, a respiração falhando quando Engfa depositou um beijo úmido logo abaixo de sua mandíbula.

— Eu estou apenas observando seu progresso — disse Engfa, a voz carregada de ironia. — Continue. Você está na página quatro. Faltam duzentas.

Engfa deslizou as mãos por baixo da blusa de seda de Faye, sentindo a pele macia e quente. Ela começou a morder levemente o ombro de Faye, deixando pequenas marcas avermelhadas que contrastavam com a pele pálida.

— Você é cruel — arfou Faye, tentando encaixar dois blocos enquanto o corpo reagia violentamente ao toque de Engfa.

— Sou uma boa aluna. Aprendi com a melhor — rebateu Engfa. Ela se inclinou, sussurrando no ouvido de Faye: — Se você terminar antes do sol nascer, talvez eu deixe você tirar essa coleira de mim.

Faye sentiu uma onda de determinação. Ela odiava Legos, mas amava o prêmio. Com as mãos levemente trêmulas devido às provocações de Engfa — que agora distribuía beijos pelo seu decote enquanto ela tentava ler o diagrama —, Faye Malisorn, a herdeira de um império mafioso, dedicou-se à tarefa mais difícil de sua vida: construir um gato de plástico.

Enquanto a noite avançava e as velas se transformavam em poças de cera, o quarto era preenchido pelo som de peças se encaixando e suspiros contidos. Engfa não parou suas provocações; ela era possessiva em seu afeto, marcando Faye com beijos e mordidas a cada nova etapa concluída.

Perto da aurora, o gato estava pronto. Não estava perfeito — uma das orelhas estava levemente torta —, mas estava de pé. Faye soltou o fôlego que nem sabia que estava segurando e se jogou para trás, caindo nos braços de Engfa que a esperavam no tapete.

— Consegui — ofegou Faye, vitoriosa.

Engfa olhou para a escultura e depois para Faye. O cabelo vermelho de Faye estava bagunçado, sua blusa desalinhada e ela tinha um olhar de exaustão misturado com desejo.

— É, você conseguiu — admitiu Engfa, sua mão subindo para o fecho da coleira de prata. Ela a removeu e a jogou para longe, ouvindo o tilintar do metal no chão. — Agora, chega de brinquedos.

Engfa puxou Faye para um beijo que selou a noite. Ali, entre peças de Lego espalhadas e garrafas de vinho vazias, não havia mafiosos ou rebeldes, apenas duas almas quebradas que haviam encontrado uma na outra a única forma de se sentirem inteiras, mesmo que o mundo ao redor estivesse em chamas. Faye sorriu contra os lábios de Engfa, sabendo que, não importa quantas peças fossem quebradas, elas sempre encontrariam um jeito de reconstruir o seu próprio e caótico paraíso.