Our chaos
Sangue, Batom e Peças de Plástico
O ar na sala de detenção da Saint Jude’s Academy era pesado, carregado com o cheiro de cera de assoalho e o mofo de livros antigos. Engfa estava jogada em uma das classes do fundo, os pés calçados com coturnos pesados apoiados sobre a mesa de madeira de carvalho. Ela limpava o canto da boca com as costas da mão, observando o rastro de sangue que manchava sua pele. Aquelas garotas tinham sido estúpidas. Provocar Engfa sobre o "acidente" de seus pais e sua vida como "caridade" dos Malisorn era pedir para ter os dentes conferidos de perto.
A porta da sala rangeu. Engfa nem se deu ao trabalho de olhar, esperando ver o rosto severo do Diretor Miller. Em vez disso, o perfume de rosas e a visão de um cabelo vermelho vibrante preencheram o campo de visão.
— Você está horrível, pequena — disse Faye, fechando a porta atrás de si com um clique suave e definitivo.
Engfa arqueou uma sobrancelha, notando que a blusa de seda do uniforme de Faye estava levemente amarrotada e seus nós dos dedos, geralmente impecáveis, estavam vermelhos.
— O que você está fazendo aqui, Faye? Veio me dar um sermão sobre "comportamento adequado para uma Malisorn"? — Engfa debochou, embora seus olhos brilhassem com uma curiosidade súbita.
— Não exatamente — Faye caminhou até a mesa de Engfa, sentando-se graciosamente na beirada, ignorando completamente as regras de distanciamento. — Digamos que as amigas daquela garota que você bateu decidiram que seria uma boa ideia continuar a conversa no banheiro feminino. Eu apenas... ajudei a encerrar o debate.
Engfa soltou uma risada curta e seca.
— Você brigou? Faye Malisorn, a protegida de ouro, na detenção? O mundo deve estar acabando.
— O nariz daquela sonsa estava pedindo para ser remodelado — Faye deu de ombros, inclinando-se para frente. Ela segurou o queixo de Engfa com firmeza, forçando-a a encarar seus olhos intensos. — Ninguém fala de você e sai ilesa. Eu já te disse isso. Eu sou a única que pode te quebrar, Engfa. Os outros nem deveriam ousar olhar para você.
Faye tirou um lenço de seda do bolso e começou a limpar o sangue no lábio de Engfa com uma delicadeza que beirava a tortura. O toque era leve, mas a tensão entre elas era um fio de alta voltagem prestes a arrebentar.
— Você é louca — sussurrou Engfa, sentindo a respiração de Faye contra seu rosto.
— Sou — admitiu Faye, baixando o olhar para a boca de Engfa. — Louca o suficiente para ter subornado o monitor do corredor para nos deixar sozinhas aqui pelos próximos quarenta minutos.
— Quarenta minutos em uma sala trancada com você? — Engfa soltou um sorriso sarcástico, embora seu coração tivesse acelerado. — Isso é uma punição ou um prêmio?
— Depende de quão bem você se comportar — Faye deslizou a mão do queixo para o pescoço de Engfa, os dedos traçando o caminho onde a coleira de prata estaria se elas não estivessem na escola.
Engfa não esperou. Ela agarrou a cintura de Faye e a puxou para baixo, fazendo-a cair em seu colo. O beijo foi imediato e faminto, uma mistura de gosto metálico de sangue e o sabor doce do gloss labial de Faye. Engfa a apertava com uma possessividade febril, suas mãos subindo pelas costas de Faye, sentindo a pele quente através do tecido fino do uniforme.
— Aqui não... — murmurou Faye entre os beijos, embora suas mãos estivessem emaranhadas nos cabelos castanhos de Engfa, puxando-os com força. — Alguém pode passar...
— Você não disse que subornou o monitor? — Engfa deu uma mordida provocativa no lóbulo da orelha de Faye. — Onde está aquela Malisorn controladora que não tem medo de nada?
Faye soltou um gemido baixo e sibilante. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Engfa, um brilho perigoso e excitado em suas íris.
— Ela está bem aqui, querendo te marcar tanto que você vai esquecer como se pronuncia o próprio nome.
A provocação escalou rapidamente. Faye começou a beijar o pescoço de Engfa, encontrando aquele ponto sensível que sempre a fazia perder o fôlego. Engfa arqueou as costas, as mãos apertando as coxas de Faye por baixo da saia plissada do uniforme. A hiperatividade de Engfa encontrava vazão naquele contato bruto, naquela necessidade de sentir Faye em cada centímetro de sua pele.
— Faye... — Engfa arfou, sua voz perdendo a ironia habitual e tornando-se algo muito mais cru e vulnerável.
— Shh — Faye sussurrou contra sua pele. — Apenas sinta.
O momento foi interrompido pelo som de passos pesados no corredor. Elas se separaram rapidamente, Engfa voltando para sua posição desleixada e Faye alisando a saia com uma compostura assustadora. Quando o monitor abriu a pequena fresta da porta para conferir, viu apenas duas "irmãs" em silêncio absoluto.
— O tempo de vocês acabou — disse o rapaz, evitando o olhar de Faye. Ele sabia quem ela era, e sabia que seu pai poderia fazê-lo desaparecer se ele respirasse errado.
— Ótimo — Faye levantou-se, recuperando sua bolsa de grife. — Vamos, Engfa. Eu preciso de açúcar e você precisa de algo para manter essas mãos ocupadas antes que resolva bater em mais alguém.
O trajeto até o shopping foi feito no conversível de Faye. O vento batia no rosto de Engfa, dissipando um pouco da névoa de raiva que sempre a acompanhava. Faye dirigia com uma mão no volante e a outra descansando possessivamente sobre a coxa de Engfa, apertando o couro da jaqueta de corrida que a mais nova usava.
O shopping era um refúgio de luzes neon e consumo. Para qualquer um que as visse, eram apenas duas jovens ricas gastando o dinheiro dos pais. Ninguém imaginava o império de sangue que sustentava aqueles cartões de crédito.
— Primeiro, comida — decretou Faye, arrastando Engfa para uma lanchonete retrô.
Eles pediram milk-shakes exagerados. Engfa sugava o canudo enquanto observava as pessoas passarem, seu olhar cético e defensivo sempre alerta. Faye, por outro lado, parecia estar em seu elemento, rindo de algo no celular e alimentando Engfa com batatas fritas na boca.
— Você está me mimando de novo — disse Engfa, limpando o canto da boca. — O que você quer, Malisorn?
— Eu quero que você seja feliz, pequena encrenqueira — Faye sorriu, um sorriso que, por um momento, pareceu genuinamente doce. — E quero que você saiba que, não importa o quanto você tente se autodestruir, eu vou estar lá para catar os pedaços.
Depois da comida, o fliperama. Engfa transformou sua agressividade em recordes nos jogos de tiro e corrida. Faye observava de longe, bebendo uma soda, sentindo um orgulho sombrio ao ver a precisão de Engfa. Quando Engfa ganhou um urso de pelúcia ridículo em uma máquina de garra após dez tentativas frustradas e chutes na máquina, ela o jogou para Faye com um sorriso de lado.
— Para sua coleção de coisas inúteis.
— Vou guardá-lo como um troféu de guerra — brincou Faye.
A tarde seguiu com compras. Faye insistiu em entrar em lojas de grife, comprando roupas que Engfa provavelmente nunca usaria, exceto para agradá-la. Mas o ponto alto foi a loja de brinquedos colecionáveis. Faye comprou três caixas enormes de Legos — um carro de Fórmula 1, um castelo medieval e uma réplica de uma cidade futurista.
— Isso vai te manter ocupada por uma semana — comentou Faye enquanto o segurança carregava as sacolas para o carro.
— Ou por duas noites, se eu não dormir — retrucou Engfa, os olhos brilhando com a perspectiva de montar as peças.
Mas a tensão que começou na sala de detenção não havia desaparecido; ela apenas fermentara sob a superfície. Enquanto caminhavam pelo setor mais isolado do shopping, perto dos cinemas que exibiam filmes cult, a eletricidade entre elas tornou-se insuportável.
Faye parou em frente a um banheiro luxuoso e quase vazio.
— Eu preciso retocar o batom — disse ela, seus olhos fixos nos de Engfa, transmitindo uma mensagem clara.
Engfa a seguiu sem dizer uma palavra. O banheiro era revestido de mármore escuro, com iluminação indireta. Faye não foi para o espelho. Ela entrou na última cabine, a maior, e segurou a porta aberta. Engfa entrou logo atrás, trancando o trinco com um som metálico que pareceu um tiro no silêncio do lugar.
O espaço era pequeno, o que só tornava tudo mais intenso. Faye sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário fechado e puxou Engfa para entre suas pernas.
— Aqui não tem monitor, nem diretor — sussurrou Faye, suas mãos deslizando para dentro da jaqueta de Engfa, sentindo as cicatrizes na barriga da garota através da camiseta fina. — Só você e eu.
Engfa soltou um gemido abafado quando Faye começou a desabotoar os primeiros botões de sua própria blusa. O som de saltos ecoou no corredor do banheiro — alguém havia entrado.
Engfa congelou, sua respiração ficando curta. Faye colocou um dedo sobre os lábios de Engfa, um sorriso travesso dançando em seu rosto. Ela se inclinou e começou a morder o pescoço de Engfa, com força suficiente para deixar uma marca, mas sem emitir som.
A adrenalina de ser pega misturada ao desejo proibido era um coquetel perigoso para Engfa. Ela enterrou o rosto no ombro de Faye, mordendo o tecido da blusa dela para não fazer barulho enquanto as mãos de Faye exploravam seu corpo com uma urgência renovada.
O som da descarga e da torneira correndo parecia durar uma eternidade. Engfa sentia o suor frio em sua testa e o calor incendiário onde as mãos de Faye a tocavam. Quando o som dos saltos finalmente se afastou e a porta principal do banheiro bateu, Engfa soltou o ar em um suspiro trêmulo.
— Você... você é doente — sussurrou Engfa, atacando os lábios de Faye com uma fúria renovada.
— E você adora — rebateu Faye, rindo baixinho contra a boca dela. — Admita, Engfa. Você ama o perigo tanto quanto eu.
As carícias tornaram-se mais ousadas, as respirações mais pesadas. Engfa pressionou Faye contra a parede da cabine, sentindo a vibração de sua própria pulsação ecoar no espaço apertado. O toque de Faye era possessivo, marcando-a, reivindicando cada centímetro de sua pele como propriedade dos Malisorn.
— Você é minha — murmurou Faye, os olhos nublados pelo desejo. — Na escola, no shopping, em casa... você é inteiramente minha.
— Eu sei — respondeu Engfa, a voz rouca de uma forma que ela odiava admitir. — Eu sempre fui.
Quando finalmente saíram da cabine, ambas estavam com as bochechas coradas e as roupas levemente desalinhadas. Faye parou em frente ao espelho grande, retocando o batom vermelho com uma calma imperturbável, enquanto Engfa tentava ajeitar o cabelo rebelde, evitando olhar para o próprio reflexo, que denunciava toda a sua entrega.
— Pronta para ir para casa e montar seus brinquedos? — perguntou Faye, guardando o batom.
— Pronta para sair daqui antes que eu resolva te prender naquela cabine de novo — retrucou Engfa, recuperando sua máscara de sarcasmo.
Faye sorriu, vitoriosa. Ela caminhou até Engfa e deu um beijo casto, mas carregado de promessas, no canto de sua boca.
— A noite é longa, pequena. E temos muitas peças para encaixar.
Enquanto caminhavam de volta para o estacionamento, a luz do pôr do sol tingia o céu de um laranja sangrento, muito parecido com a cor dos cabelos de Faye. Engfa sentia o peso das sacolas de Lego no carro e o calor da mão de Faye na sua. Ela sabia que sua vida era um caos, construída sobre mentiras e violência, mas ali, naquele momento, o mundo parecia se resumir às provocações de Faye e ao cheiro de rosas que a envolvia.
Elas eram o desastre e a solução, o crime e o castigo. E enquanto o conversível ganhava a estrada em direção à mansão, Engfa Waraha sabia que, não importa quantas vezes o mundo tentasse quebrá-la, Faye Malisorn estaria lá para garantir que as peças sempre se encaixassem exatamente onde ela queria. Mesmo que, para isso, elas tivessem que queimar o resto do mundo juntas.