Voltar ao resumo

Our chaos

Entre Taças, Traições e a Calmaria do Amanhecer

O som dos saltos de Faye Malisorn ecoando pelo mármore frio do hall de entrada da mansão era o único ruído em uma casa que respirava silêncio e segredos. Eram três e meia da manhã. O ar noturno ainda estava preso em seus cabelos ruivos, misturado ao aroma de tabaco importado e ao retrogosto de um Cabernet Sauvignon que custava mais do que a maioria das pessoas ganhava em um ano.

Faye estava em um estado de euforia contida. A festa — um evento clandestino organizado por herdeiros de outras famílias influentes em um loft industrial na zona portuária — fora, de fato, a festa do ano. Ela dançara, rira e até permitira que o fumo de um único cigarro preenchesse seus pulmões, algo que raramente fazia, mas que naquela noite pareceu a rebeldia necessária para combinar com o ambiente. Se não fosse pela imagem constante de uma certa morena de olhos tempestuosos em sua mente, Faye teria facilmente se perdido nos braços de qualquer uma das mulheres que a cercaram a noite toda, cobiçando o poder e a beleza da herdeira Malisorn. Mas Faye era devota. Sua obsessão tinha nome, sobrenome e um problema sério de raiva.

Ela subiu as escadas com cuidado, a embriaguez leve tornando seus movimentos mais fluidos, quase felinos. Ao abrir a porta de seu quarto, parou por um segundo.

Engfa estava lá.

Não era incomum que Engfa invadisse seu quarto. A mansão era vasta, mas o quarto de Faye era o único lugar onde o animal ferido dentro de Engfa parecia encontrar uma jaula confortável. A garota estava jogada atravessada na cama de Faye, ainda vestindo uma de suas jaquetas de corrida por cima de uma regata preta.

Faye aproximou-se em silêncio, deixando sua bolsa cair em uma poltrona. Ela ficou ali, parada, apenas observando. Dormindo, Engfa era uma contradição visual que tirava o fôlego de Faye. Havia uma brutalidade inerente na forma como suas sobrancelhas permaneciam levemente franzidas mesmo no descanso, nas cicatrizes que apareciam onde a regata subia um pouco, e nos nós dos dedos levemente esfolados que repousavam sobre o lençol de seda branca. Mas havia também uma elegância crua, uma vulnerabilidade que só Faye tinha o privilégio de testemunhar.

— Minha pequena encrenqueira — sussurrou Faye, a voz rouca pelo álcool e pelo cansaço.

Ela se despiu lentamente, jogando o vestido carmesim no chão, e deslizou para a cama ao lado de Engfa. O calor que emanava do corpo da mais nova era um convite silencioso. Faye se aninhou nas costas dela, inalando o cheiro de couro, sabão e aquele toque metálico que era tão característico de Engfa. Antes de fechar os olhos, Faye depositou um beijo suave na nuca da garota, sentindo a textura da pele que ela tanto amava marcar.

O sol de Bangkok não pedia licença. Ele atravessou as cortinas de linho fino, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar luxuoso do quarto. Engfa foi a primeira a despertar. Sua mente, sempre em alerta, saltou do sono para a consciência em milésimos de segundo. Ela sentiu o peso do braço de Faye sobre sua cintura e o cheiro doce de vinho e perfume floral que denunciava a farra da noite anterior.

Engfa não se moveu imediatamente. Ela virou a cabeça devagar, observando Faye dormir. A ruiva parecia um anjo, o que era a maior mentira que o mundo já acreditara. Engfa sabia o que havia sob aquela pele pálida: uma mente controladora, uma herdeira da máfia e a mulher que a mantinha em uma coleira de prata e desejo.

Com movimentos lentos e calculados, Engfa começou sua inspeção. Seus olhos escuros percorreram o pescoço de Faye, as clavículas, o decote da camisola de seda. Ela procurava marcas. Um chupão, um arranhão, qualquer sinal de que mãos alheias tivessem tocado o que era dela por direito de conquista e obsessão.

Não encontrou nada. Faye estava limpa.

Ainda assim, a raiva de ter sido deixada para trás, de ter acordado sozinha no meio da noite e percebido que Faye saíra escondida, ferveu em seu sangue.

Engfa levantou a mão e, sem aviso, desferiu um tapa estalado no ombro de Faye.

— Acorda, Malisorn! — a voz de Engfa saiu como um trovão no silêncio do quarto.

Faye deu um pulo, os olhos verdes abrindo-se em choque, piscando contra a claridade. Ela levou a mão ao ombro atingido, olhando para Engfa com uma mistura de confusão e diversão sonolenta.

— Mas o que...? Engfa? Ficou maluca? — Faye se sentou, o cabelo vermelho todo bagunçado ao redor do rosto.

— Onde você estava? — Engfa se ajoelhou na cama, pairando sobre Faye como uma sombra ameaçadora. — Você saiu. Não me avisou. Não atendeu a porcaria do rádio.

Faye soltou uma risada anasalada, jogando a cabeça para trás no travesseiro.

— Ah, entendi. O monstrinho acordou com ciúmes hoje?

— Não brinca comigo, Faye — rosnou Engfa, segurando o pulso de Faye com força. — Você foi para aquela festa na zona portuária, não foi? Eu vi o convite no seu e-mail ontem. Com quem você estava? Quem tocou em você?

Faye sorriu, um sorriso lento e vitorioso. Ela adorava quando Engfa perdia a compostura. Adorava ver que, por trás de toda a rebeldia e indiferença, a garota era possessiva ao extremo.

— Eu estava com amigos, Engfa. Bebi um vinho maravilhoso, dancei um pouco... — Faye fez uma pausa dramática, aproximando o rosto do de Engfa. — Mas ninguém me tocou. Você sabe que eu sou exigente demais para qualquer pessoa que não seja uma certa órfã mal-educada que mora na minha casa.

— Você deveria ter me contado — disse Engfa, a voz baixando de tom, mas a intensidade nos olhos não diminuindo. — Eu odeio não saber onde você está.

— Por que, Engfa? — provocou Faye, passando a mão pelo rosto da mais nova, os dedos traçando o corte em seu lábio. — Nós nem somos "assumidas", lembra? Para o mundo, somos apenas irmãs de criação. Por que tanto controle?

Engfa soltou o pulso de Faye e deu um beliscão ardido na cintura da ruiva, fazendo-a soltar um ganido de surpresa.

— Você sabe muito bem por que, sua idiota. E se me chamar de irmã de novo, eu quebro aquele seu carro novo.

Faye mudou sua tática instantaneamente. Ela percebeu que Engfa estava genuinamente irritada, e a melhor forma de desarmar a bomba Waraha era através do afeto — ou da manipulação dele. Faye se encolheu, fazendo um biquinho manhoso e se aproximando de Engfa com os olhos pidões.

— Ai, isso doeu... — Faye murmurou, deitando a cabeça no colo de Engfa. — Minha cabeça está explodindo por causa do vinho e você ainda me bate e me belisca. Você é tão cruel com a sua Faye...

Engfa revirou os olhos, mas suas mãos, quase involuntariamente, começaram a acariciar os fios vermelhos de Faye.

— Você merece coisa pior por ter saído escondida.

— Eu só queria uma noite de folga dos dramas da família — Faye disse, fechando os olhos e se esfregando contra as mãos de Engfa como um gato pedindo carinho. — Mas eu senti sua falta o tempo todo. A música estava alta, mas eu só conseguia pensar em como você estaria brava se me visse bebendo com o filho do embaixador.

— O filho do embaixador? — Engfa parou o carinho, a mão fechando-se levemente no cabelo de Faye. — Aquele almofadinha?

— Ele tentou me oferecer um cigarro — Faye riu baixinho, sentindo a tensão no corpo de Engfa. — Eu aceitei, só para ver a cara de tacho dele quando eu disse que preferia o cheiro de tabaco barato de uma certa jaqueta de couro.

Engfa soltou um suspiro pesado, a raiva sendo lentamente substituída por aquela necessidade crônica de proximidade. Ela puxou Faye para cima, forçando-a a sentar-se entre suas pernas.

— Você é impossível, Malisorn.

— E você está louca para me beijar, Waraha.

Faye passou os braços pelo pescoço de Engfa, puxando-a para perto. O cheiro de Faye ainda era uma mistura de festa e luxo, mas Engfa a reivindicou com um beijo agressivo, marcando seu território. Suas mãos desceram pelas costas de Faye, apertando-a com uma urgência que dizia tudo o que suas palavras sarcásticas escondiam.

— Cuida de mim? — Faye pediu contra os lábios de Engfa, a voz pequena e manhosa, uma faceta que ela só mostrava dentro daquelas quatro paredes. — Minha ressaca está começando a cobrar o preço.

Engfa deu um último beijo estalado na ponta do nariz de Faye antes de se levantar.

— Vou buscar água e algum remédio. E se eu descobrir que você mentiu e que algum daqueles herdeiros de merda encostou um dedo em você, Faye... eu juro que volto lá e queimo aquele loft.

Faye observou Engfa caminhar em direção à porta, a postura atlética e as cicatrizes à mostra. Ela sorriu, sentindo-se a mulher mais poderosa do mundo, não por causa do império de seu pai, mas porque tinha aquela criatura selvagem na palma de sua mão.

— Eu sei que você faria isso, meu amor — Faye disse para o quarto vazio quando a porta se fechou. — É por isso que eu matei seus pais. Para garantir que o único fogo na sua vida fosse o nosso.

Minutos depois, Engfa voltou com uma bandeja. Ela entregou o remédio a Faye, mas não sem antes dar outro beliscão em seu braço quando Faye tentou fazer graça.

— Para de ser chata! — reclamou Faye, rindo enquanto tentava se esquivar.

— Para de ser irresponsável — rebateu Engfa, sentando-se novamente na cama e puxando Faye para seus braços.

Engfa começou a massagear as têmporas de Faye com uma inesperada delicadeza. Faye suspirou, fechando os olhos e deixando-se levar pelo toque. Ali, entre carinhos e beliscões, entre a raiva e a devoção, elas construíam seu próprio mundo distorcido.

— Engfa? — chamou Faye, quase pegando no sono novamente sob o toque da outra.

— Hum?

— Da próxima vez... eu te levo junto. Mas você vai ter que usar o vestido que eu escolher.

Engfa deu um puxão leve no cabelo de Faye, fazendo-a abrir um olho.

— Nem morta, Malisorn. Eu vou de jaqueta. E se alguém olhar demais para você, eu não respondo por mim.

Faye sorriu, satisfeita.

— Combinado.

O sol continuava a subir, mas dentro do quarto, o tempo parecia ter parado. Engfa continuou seus carinhos, seus dedos traçando as linhas do rosto de Faye com uma possessividade silenciosa. Ela podia ter problemas de confiança, podia ser impulsiva e violenta, mas ali, segurando a herdeira Malisorn em seus braços, Engfa sentia que, talvez, o caos valesse a pena. E Faye, mergulhada no conforto do toque de Engfa, sabia que sua obra-prima estava exatamente onde deveria estar: presa em sua teia de amor e controle, para sempre.