Outro tempo
O Elo de Ferro e Gelo
A manhã nas montanhas não trouxe o sol, apenas uma luz cinzenta e difusa que se filtrava pela entrada da caverna. O cheiro de lenha queimada havia sido substituído pelo odor acre de carne seca e pelo cheiro metálico da neve que se aproximava. Mulan despertou com o corpo pesado, cada músculo protestando contra o menor movimento. No entanto, sua mente estava alerta. Ela era uma presa em uma gaiola de pedra, e o caçador estava logo ali.
Shan Yu estava de pé na entrada da caverna, observando a imensidão branca. Suas costas largas bloqueavam parte da claridade, e a silhueta imponente parecia fundir-se com a própria rocha. Ele não usava peles grossas como os soldados imperiais; parecia imune ao frio que cortava a pele de Mulan como navalhas. Quando ele se virou e percebeu que ela estava acordada, seus olhos amarelos brilharam com uma intensidade renovada.
— Você tem um espírito forte — comentou ele, caminhando em direção a ela. O som de suas botas no chão de pedra era como uma contagem regressiva. — A maioria dos homens teria sucumbido à febre durante a noite. Mas você... você lutou contra o delírio como se estivesse enfrentando um batalhão.
Mulan sentou-se devagar, segurando a manta de pele contra o peito. A vulnerabilidade de sua situação a queimava mais do que o ferimento no flanco.
— Eu não sou como a maioria dos homens — respondeu ela, a voz ainda rouca, mas carregada de um desafio que se recusava a morrer.
Shan Yu soltou um riso curto, um som gutural que vibrou no ar frio. Ele se agachou diante dela, reduzindo a distância entre os dois até que Mulan pudesse ver as cicatrizes antigas que marcavam seu rosto endurecido pelo vento.
— Disso eu já tenho certeza. Na China, eles ensinam suas mulheres a serem silenciosas, a serem flores que decoram vasos. Eles as quebram antes mesmo que aprendam a correr. — Ele estendeu a mão e, com uma brutalidade inesperada, segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo. — Mas você é uma loba vestida com a pele de um cordeiro. Você matou meus homens. Você enterrou meu exército sob toneladas de gelo.
Mulan tentou desviar o rosto, mas o aperto dele era como um torno de ferro.
— Eles vieram para destruir minha casa — sibilou ela. — Eu fiz o que era necessário. Se tivesse que fazer de novo, eu o faria.
O olhar de Shan Yu desceu para os lábios dela e depois para a linha do pescoço, onde a pulsação de Mulan batia frenética. Ele não sentia raiva; o que Mulan viu em seus olhos foi algo muito mais perturbador. Era uma admiração selvagem, uma luxúria sombria que nascia do respeito pela força. Para Shan Yu, a beleza não estava na fragilidade, mas na capacidade de causar destruição.
— Esse fogo... — murmurou ele, o polegar subindo para pressionar o lábio inferior de Mulan, sentindo a maciez em contraste com a agressividade de suas palavras. — É isso que me faz querer você. Um exército por uma vida, Mulan. Esse foi o nosso trato silencioso quando eu não cortei sua garganta naquela encosta.
— Eu não fiz trato nenhum com um monstro — rebateu ela, tentando empurrá-lo.
Desta vez, Shan Yu não recuou. Ele a agarrou pelos pulsos, prendendo-os acima da cabeça dela contra a parede fria da caverna. O peso do corpo dele a pressionou contra a pedra, e Mulan sentiu o calor avassalador que emanava dele, um contraste violento com o gélido ambiente.
— Você vai aprender que, nas estepes, o monstro é quem dita as regras — disse ele, a voz descendo para um tom perigosamente sedutor. — Você acha que a honra do seu Imperador vai vir te buscar aqui? Você acha que aquele capitão com quem você cavalgava vai olhar para você da mesma forma agora que sabe que você é uma mentirosa?
As palavras dele atingiram o ponto mais dolorido do coração de Mulan. A imagem de Shang lhe dando as costas na neve era uma ferida mais profunda do que a de Shan Yu.
— Eles me deixaram para morrer — sussurrou ela, a amargura vazando por sua voz.
— Eles são fracos — sentenciou Shan Yu, aproximando o rosto do dela, o hálito quente roçando sua bochecha. — Eles temem o que não podem controlar. Eu, por outro lado... eu aprecio o perigo. Eu quero ver até onde essa sua garra vai quando eu decidir quebrar sua vontade, centímetro por centímetro.
Ele soltou os pulsos dela, mas apenas para deslizar as mãos por suas costelas, parando perigosamente perto da curva de seus seios, onde as bandagens improvisadas mal escondiam sua feminilidade. Mulan estremeceu, uma mistura de medo e uma excitação involuntária que a aterrorizava. Ela nunca havia sido tocada dessa forma; nunca havia sentido o poder de um homem que a desejava não como uma esposa obediente, mas como uma conquista de guerra.
— O que você quer? — perguntou ela, a respiração curta. — Quer me transformar em sua escrava?
Shan Yu sorriu, e pela primeira vez, o sorriso não era apenas cruel, era predatório e carregado de uma promessa carnal.
— Escravas são fáceis de encontrar. Eu quero uma rainha de sangue ao meu lado. Alguém que saiba o peso de uma espada e o gosto da vitória. Mas primeiro... — Ele inclinou-se, seus lábios roçando o lóbulo da orelha de Mulan. — Você precisa aceitar que seu lugar não é mais nos jardins de seda da China. Seu lugar é aqui, sob o meu comando.
— Nunca — disse ela, embora seu corpo estivesse traindo sua mente, reagindo à proximidade esmagadora daquele homem.
— Veremos — respondeu ele. — A fome e o frio quebram muitos. Mas o desejo... o desejo quebra até os deuses.
Ele se afastou subitamente, deixando Mulan ofegante e confusa. Ele pegou um pedaço de carne seca e jogou em seu colo.
— Coma. Vamos partir em breve. Temos um longo caminho até o meu acampamento nas terras do Norte.
— E se eu me recusar a ir? — Mulan desafiou, levantando-se com dificuldade, a mão pressionando o ferimento.
Shan Yu parou na saída da caverna e olhou para trás por cima do ombro. O falcão pousou em seu braço, as garras afiadas cravando-se no couro.
— Então você morrerá nesta montanha, sozinha e esquecida pelo país que tentou salvar. — Ele estreitou os olhos. — Mas você não vai fazer isso. Você é uma sobrevivente, Mulan. E você quer ver o que eu vou fazer a seguir tanto quanto eu quero ver você tentar me impedir.
Ele saiu para a neve, deixando-a com o silêncio e o peso de suas palavras. Mulan olhou para a carne em seu colo e depois para a saída da caverna. Ela sabia que ele tinha razão. O exército imperial a vira como uma abominação; Shan Yu a vira como uma força da natureza.
Ao longo dos dias que se seguiram, a viagem pelas montanhas foi uma tortura de resistência. Shan Yu não a carregava, a menos que ela desmaiasse, o que ela se recusava a fazer. Ele a observava constantemente, como um falcão vigiando uma presa que ele pretendia manter viva. À noite, o frio era tão intenso que eles eram forçados a compartilhar o calor das peles.
Em uma dessas noites, abrigados sob uma saliência rochosa, o silêncio foi quebrado pelo som da respiração pesada de Mulan. A febre havia retornado de leve, e ela tremia incontrolavelmente. Shan Yu a puxou para perto de seu peito, envolvendo-a com seus braços poderosos.
— Me solte... — protestou ela fracamente.
— Cale-se, pequena guerreira — rosnou ele, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma possessividade absoluta. — Se você morrer de frio, eu perderei meu prêmio. E eu não gosto de perder.
Ele começou a desamarrar lentamente as tiras de couro de sua própria túnica, expondo a pele bronzeada e marcada por batalhas. Mulan arregalou os olhos, mas não tinha forças para lutar quando ele a puxou contra sua pele nua. O calor foi imediato e avassalador.
— Você é tão pequena — murmurou ele, sua mão grande espalmada nas costas de Mulan, pressionando-a contra si. — Como alguém tão frágil pode carregar tanto ódio?
— Não é ódio — respondeu ela, o rosto escondido no pescoço dele, sentindo o cheiro de fumaça e homem. — É amor pelo meu pai. Pelo meu povo.
Shan Yu soltou um som de desdém.
— O amor torna as pessoas fracas. O desejo de conquista as torna eternas.
Ele ergueu o queixo dela, forçando-a a olhar para ele na penumbra. A luz da lua refletida na neve iluminava a intensidade selvagem em seus olhos.
— Você me odeia, Mulan? — perguntou ele, a voz baixa e rouca.
Mulan hesitou. Ela deveria odiá-lo. Ele era o inimigo. Ele era o homem que liderava o massacre de vilas inteiras. Mas ali, naquele isolamento mortal, ele era o único que a mantinha viva. Ele era o único que não pedia que ela fosse nada além do que ela era: uma lutadora.
— Eu odeio o que você faz — respondeu ela com sinceridade. — Mas eu não consigo odiar o homem que me vê de verdade.
O olhar de Shan Yu escureceu. Sem aviso, ele inclinou a cabeça e capturou os lábios dela em um beijo que era tudo menos gentil. Foi uma invasão, uma reivindicação de território. Tinha gosto de ferro, fogo e uma fome antiga. Mulan soltou um suspiro de surpresa, mas em vez de se afastar, suas mãos subiram involuntariamente para os ombros largos dele, agarrando-se à sua pele como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo que desmoronava.
Shan Yu a beijou com uma ferocidade que a deixou sem fôlego, sua língua explorando a dela com uma dominância que exigia submissão, mas que também oferecia uma conexão que Mulan nunca conhecera. Quando ele se afastou, seus lábios estavam inchados e seus olhos brilhavam com um triunfo sombrio.
— Você é minha — declarou ele, o hálito quente contra a boca dela. — Não importa o que aconteça quando descermos esta montanha. Você pertence ao Norte agora. Você pertence a mim.
Mulan olhou para ele, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela sabia que sua vida anterior havia acabado. O capitão Shang, o Imperador, a honra da família Fa... tudo isso parecia pertencer a outra pessoa, a uma garota que morrera na avalanche.
— Eu nunca serei de ninguém, Shan Yu — disse ela, embora sua voz tremesse com a paixão que ele acabara de despertar. — Mas eu lutarei ao seu lado. Se você for forte o suficiente para me manter.
Shan Yu riu, um som de pura satisfação predatória. Ele a apertou mais contra si, escondendo-os sob as peles enquanto a tempestade rugia lá fora.
— Eu sou mais do que forte o suficiente, pequena loba. E eu vou adorar passar o resto da minha vida provando isso para você.
Naquela noite, sob o céu gelado das montanhas, a China perdeu um soldado, mas Shan Yu encontrou algo muito mais perigoso: uma igual. E enquanto Mulan adormecia no calor do corpo de seu inimigo, ela percebeu que a verdadeira liberdade não estava em seguir as regras de uma sociedade que a rejeitava, mas em abraçar a escuridão e o fogo que sempre queimaram dentro de si. A guerra estava apenas começando, e desta vez, ela não estaria lutando por um trono, mas por sua própria natureza selvagem, ao lado do único homem que ousara amar o monstro que ela se tornara para sobreviver.