Outro tempo
O Jogo da Raposa e o Lobo
A neve sob as botas de Mulan não era mais o inimigo mortal de antes, mas um tapete traiçoeiro que guardava segredos. Três dias haviam se passado desde o beijo nas montanhas, três dias em que ela habitou o espaço liminar entre a prisioneira e a protegida. Shan Yu, em sua arrogância monumental, parecia acreditar que o calor compartilhado sob as peles e o respeito mútuo pela força haviam sido suficientes para domar o espírito da guerreira que derrubara uma montanha sobre seu exército.
Ele estava enganado.
Mulan observou, das sombras da pequena cabana de caça abandonada onde haviam parado, a silhueta de Shan Yu desaparecer entre as árvores retorcidas. Ele levara o arco e o falcão, confiante de que o ferimento dela e a exaustão a manteriam dócil junto à fogueira. Ele a chamara de "pequena loba", mas esquecera que lobos não se tornam cães de guarda apenas porque o caçador lhes deu carne.
Com movimentos lentos e calculados, Mulan testou o peso sobre o flanco ferido. A dor ainda estava lá, uma pontada aguda e persistente, mas a febre baixara. Ela se enrolou em uma capa de pele de lobo que ele lhe dera — uma ironia que não lhe escapou — e verificou sua única arma: uma faca de osso afiada que ela conseguira esconder entre as dobras de sua túnica enquanto ele dormia na noite anterior.
— Você me subestimou, Shan Yu — sussurrou ela para as brasas que morriam. — Você viu a mulher, viu a guerreira, mas esqueceu que eu sou, acima de tudo, uma sobrevivente.
Ela saiu para a noite. O ar gelado chicoteou seu rosto, mas o frio era um velho amigo agora. Mulan não correu imediatamente; ela sabia que Shan Yu leria seus passos como um livro aberto se ela fosse descuidada. Ela caminhou sobre as pedras expostas, evitando a neve fofa onde pudesse, usando as táticas de evasão que o General Li ensinara aos recrutas, mas refinando-as com a astúcia que trouxera de casa.
A floresta era um labirinto de prata e sombra. Cada estalo de galho sob o peso da neve parecia o som de uma bota pesada atrás dela. Mulan mantinha o coração sob controle, forçando sua respiração a ser rítmica. Ela precisava encontrar o caminho de volta para o Sul, ou pelo menos para uma aldeia que não estivesse sob o punho de ferro dos Hunos.
— Só mais alguns quilômetros — incentivou-se, sentindo o suor frio escorrer por suas costas apesar da temperatura negativa. — Se eu alcançar o desfiladeiro antes do amanhecer, ele não terá luz para rastrear.
Mas a montanha tinha seus próprios planos. O terreno tornou-se íngreme e o ferimento em seu lado começou a latejar com uma intensidade alarmante, o sangue quente começando a umedecer as bandagens renovadas. Mulan parou por um momento, encostando-se ao tronco de um pinheiro antigo, quando um som cortou o silêncio da noite.
Não foi um grito, nem uma voz. Foi o guincho agudo e triunfante de um falcão.
Mulan olhou para cima. Contra a lua cheia, a silhueta da ave de rapina circulava, seus olhos amarelos refletindo a luz como duas brasas distantes. O pânico, aquele fogo frio que ela aprendera a dominar no campo de batalha, tentou subir por sua garganta.
— Droga — sibilou ela, voltando a correr, desta vez sem se preocupar com o barulho.
Atrás dela, vindo da direção da cabana, um uivo humano ecoou pelas árvores. Não era um grito de raiva, mas um chamado de caça. Shan Yu estava vindo. E ele estava se divertindo.
Mulan atravessou um riacho congelado, o gelo estalando perigosamente sob seus pés. Ela sabia que ele era mais rápido, mais forte e conhecia aquele território melhor do que qualquer um. Sua única vantagem era a mente. Ela avistou uma encosta íngreme coberta de arbustos espinhosos e, em vez de subir, deslizou para baixo, escondendo-se em uma pequena fenda sob as raízes de uma árvore caída.
Ela cobriu-se com a neve, reduzindo sua temperatura, tentando tornar-se parte da paisagem. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo vento.
Minutos se passaram. O coração de Mulan batia tão forte que ela temia que ele pudesse ouvi-lo através da terra. Então, o som de botas pesadas esmagando a neve parou exatamente acima dela.
— É uma tática inteligente, Mulan — a voz de Shan Yu era baixa, vibrante, carregada de uma satisfação cruel. — Usar o frio para esconder o calor do corpo. Ocultar o rastro no riacho. Você aprende rápido. Quase parece uma de nós.
Mulan prendeu a respiração. A ponta de uma espada negra perfurou a neve a poucos centímetros de seu ombro, mergulhando na terra macia.
— Mas você esqueceu uma coisa — continuou ele, e ela podia sentir o calor da presença dele mesmo através da barreira de gelo. — Eu não caço apenas com os olhos. Eu caço com o instinto. E meu instinto diz que minha pequena loba está bem aqui, tremendo de antecipação.
Com um movimento brusco, Shan Yu chutou a árvore caída e arrancou a cobertura de neve com a mão enluvada. Mulan rolou para o lado, sacando a faca de osso e golpeando o ar, mas Shan Yu foi mais rápido. Ele agarrou o pulso dela com a força de uma armadilha de urso e a puxou para fora do esconderijo, jogando-a contra o tronco de uma árvore próxima.
Mulan ofegou quando o impacto atingiu seu ferimento. Shan Yu se aproximou, sua sombra cobrindo-a completamente. Ele não parecia furioso; ele parecia radiante. Seus olhos brilhavam com o prazer da perseguição.
— Por que fugir? — perguntou ele, pressionando o corpo contra o dela, prendendo-a contra a casca áspera da árvore. — O calor da minha cama não era suficiente? O sabor do meu beijo não foi doce o bastante para acalmar seu coração rebelde?
— Eu não sou sua propriedade, Shan Yu! — gritou ela, tentando atingi-lo com o joelho, mas ele bloqueou o movimento com facilidade, prendendo as pernas dela entre as suas.
— Propriedade é uma palavra para coisas mortas — disse ele, aproximando o rosto do dela, o hálito quente criando nuvens de vapor entre os dois. — Você é um prêmio de guerra. E prêmios de guerra que tentam fugir precisam ser lembrados de a quem pertencem.
— Prefiro morrer na neve a ser um troféu na sua tenda — sibilou Mulan, os olhos faiscando de ódio e desafio.
Shan Yu soltou uma risada rouca e, de repente, suas mãos subiram para o rosto dela, segurando-a com uma possessividade que a fez tremer.
— Você diz isso, mas seu corpo diz outra coisa. Sua pulsação está acelerada, Mulan. E não é apenas pelo esforço da fuga.
Ele inclinou-se e mordeu levemente o lóbulo da orelha dela, um gesto que era ao mesmo tempo uma ameaça e uma carícia. Mulan soltou um gemido involuntário, uma mistura de dor e uma faísca de desejo que ela odiava sentir.
— Você sentiu falta disso, não sentiu? — sussurrou ele. — Da verdade. Na China, você tinha que se esconder atrás de pinturas no rosto ou armaduras de homens. Comigo, você pode ser o monstro que realmente é. Você pode ser a mulher que mata e a mulher que queima.
— Eu não sou como você — insistiu ela, embora sua resistência estivesse começando a fraquejar sob o peso da presença física dele.
— É sim — afirmou Shan Yu, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. — Você é a única pessoa em todo este império que é digna de estar ao meu lado. Você acha que eu a trouxe comigo apenas para me divertir? Eu vi sua alma naquela avalanche. Ela é feita de gelo e fogo. Exatamente como a minha.
Ele soltou os pulsos dela, mas Mulan não fugiu. Ela estava exausta, o ferimento sangrando novamente, e a intensidade de Shan Yu era como um sol negro que a atraía para sua órbita.
— O que você quer de mim, afinal? — perguntou ela, a voz falhando. — Se quisesse me matar, já o teria feito.
Shan Yu deslizou a mão pelo pescoço de Mulan, o polegar traçando a linha de sua mandíbula com uma delicadeza perturbadora.
— Eu quero que você pare de lutar contra o que somos — disse ele. — Eu quero que você veja o que podemos construir juntos. O Imperador é um velho sentado em um trono de papel. Eu sou o futuro. E você... você é a peça que faltava no meu império.
Ele a puxou para um beijo, mas desta vez não houve luta. Mulan, levada pelo desespero e pela estranha conexão que se formara entre eles naquelas montanhas, respondeu ao beijo com uma ferocidade igual à dele. Suas mãos agarraram a túnica de pele dele, puxando-o para mais perto, querendo consumir e ser consumida. Era um beijo de traição — traição ao seu país, à sua família e a si mesma — mas era a única coisa que a fazia se sentir viva em meio a tanta morte.
Shan Yu soltou um rosnado de satisfação contra os lábios dela, suas mãos explorando as curvas que ela tentara esconder por tanto tempo sob as bandagens. O contraste entre o frio da noite e o calor dos corpos deles era inebriante.
— Viu? — murmurou ele, afastando-se para encará-la, um sorriso predatório nos lábios. — A loba finalmente encontrou sua matilha.
Mulan encostou a testa no peito dele, ofegante.
— Você ainda é meu inimigo, Shan Yu.
— E esse é o motivo pelo qual este é o melhor jogo que já joguei — respondeu ele, pegando-a nos braços com uma facilidade insultante. — Agora, vamos voltar. Você perdeu sangue e a noite está apenas começando.
— Você vai me acorrentar? — perguntou ela, sentindo a consciência começar a flutuar devido à perda de sangue.
— Não — disse ele, começando a caminhar de volta para a cabana, o falcão pousando em seu ombro como um sentinela silencioso. — Eu não preciso de correntes para manter você comigo, Mulan. O fogo que eu acendi em você fará esse trabalho melhor do que qualquer ferro.
Enquanto ele a carregava pela floresta, Mulan olhou para as estrelas acima. Ela sabia que, ao retornar para aquela cabana, ela estava cruzando uma linha da qual não haveria volta. Ela não era mais a filha obediente, nem o soldado honrado. Ela era a mulher que o Lobo do Norte escolhera, e enquanto o calor de Shan Yu a envolvia, ela percebeu com um terror silencioso que, pela primeira vez em sua vida, ela não queria ser resgatada.
O acampamento dos Hunos estava a poucos dias de distância. Lá, ela enfrentaria o resto do exército dele, homens que a odiariam e a desejariam em igual medida. Mas, olhando para o perfil duro e determinado de Shan Yu sob a luz da lua, Mulan sentiu uma estranha calma. Se o mundo a queria como um monstro, ela daria a eles um que nunca esqueceriam.
— Shan Yu — chamou ela, sua voz um sussurro quase inaudível.
— Sim?
— Se você me trair... se você tocar em uma única pessoa da minha aldeia... eu matarei você enquanto dorme.
Shan Yu parou por um segundo, olhou para a mulher em seus braços e soltou uma gargalhada que ecoou pelas montanhas, espantando os pássaros das árvores.
— Eu não esperaria nada menos de você, minha rainha. É por isso que eu a manterei por perto. Para que eu nunca tenha uma noite de sono entediante.
Ele continuou a caminhada, e Mulan fechou os olhos, deixando-se levar pela escuridão, sabendo que, quando acordasse, o mundo que ela conhecia teria queimado até as cinzas, e das chamas, algo novo e terrível estava prestes a nascer.