Ovelhas Perdidas
Entre o Óleo e a Oração
A noite de uma cidade industrial nunca é verdadeiramente silenciosa. Há sempre o zumbido distante de uma turbina, o estalar do metal esfriando ou o eco de um trem de carga cortando a neblina. Mas, para Gabriele Lima, o silêncio que se abateu quando elas se afastaram do som ensurdecedor da festa era quase doloroso. O ar fresco da noite batia em seu rosto, desfazendo o feitiço de calor e suor da pista de dança, e a realidade começava a se infiltrar por baixo de sua pele como uma corrente de ar indesejada.
Hylda não soltou sua mão. A palma da mão de Hylda era um mapa de cicatrizes e calos, uma geografia de trabalho bruto que contrastava violentamente com os dedos longos e finos de Gabriele, acostumados apenas a virar páginas de gramatura cara. Elas caminhavam pelo asfalto irregular em direção ao jipe de Hylda, que cheirava a ferro velho e persistência.
Gabriele olhou para cima. O céu, por cima das chaminés das fábricas, estava surpreendentemente limpo. Algumas estrelas teimosas brilhavam através da poluição, pontos de luz frios e distantes que a faziam se sentir pequena, vulnerável e, de certa forma, exposta.
— Está muito quieto — sussurrou Gabriele, sua voz soando pequena no espaço aberto. — Eu não gosto desse silêncio. Parece que o mundo está esperando que algo dê errado.
Hylda parou ao lado da porta do motorista, a luz de um poste de sódio pintando seu rosto de um laranja dramático, acentuando as linhas de expressão que ela carregava com orgulho. Ela olhou para Gabriele, notando o leve tremor nos ombros da mulher de branco.
— Não se preocupe, amor. Qualquer coisa eu te protejo — disse Hylda, com uma suavidade que não combinava com sua jaqueta de couro, mas que era inteiramente dela.
Gabriele sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura. Ela empertigou o corpo, tentando recuperar a dignidade que parecia estar derretendo desde que Hylda a tocara no sofá.
— Não fique me chamando de "amor", Hylda. Desde quando existe essa intimidade? — A voz de Gabriele recuperou o tom de autoridade da biblioteca, aquele tom que ela usava para silenciar estudantes barulhentos. — Nós não somos... nós não temos esse tipo de relação.
Hylda soltou uma risada rouca, o som ricocheteando no metal do carro.
— Ah, madame, você é uma delícia quando tenta ser difícil. A gente se conhece há quase quarenta anos. Eu já te vi rezando, já te vi chorando e já te vi quase perdendo a cabeça hoje por causa de uma loirinha de vinte anos. Se isso não é intimidade, eu não sei o que é.
— É apenas história, não intimidade — rebateu Gabriele, embora soubesse que a distinção era pífia.
Ela entrou no carro, sentindo o cheiro de Hylda impregnado no estofado. Durante o trajeto até a casa da metalúrgica, Gabriele manteve o olhar fixo na janela, observando as silhuetas das fábricas passarem como monstros adormecidos. Ela estava com medo. Não de Hylda, mas do que Hylda representava: o fim do seu controle, o colapso da sua rotina de cafés frios e solidão organizada.
A casa de Hylda era exatamente como Gabriele imaginava: um caos funcional. Havia peças de motor sobre a mesa da cozinha, pilhas de revistas técnicas, cinzeiros limpos (um sinal da luta constante contra o vício) e uma atmosfera de vida vivida sem pedir desculpas.
Assim que a porta se fechou atrás delas, o jogo de gato e rato recomeçou. Gabriele caminhou até o centro da sala, evitando tocar em qualquer coisa, como se a poeira industrial pudesse manchar seu vestido branco e sua alma.
— Você mora em um ferro-velho, Hylda? — provocou Gabriele, virando-se para encarar a outra, que jogava as chaves sobre um balcão.
— Eu moro em uma oficina de milagres, madame — Hylda deu um passo à frente, reduzindo a distância. — E agora que eu trouxe a santa para o meu antro, eu pretendo celebrar.
Gabriele recuou um passo, as costas batendo em uma estante cheia de manuais de mecânica. A presença de Hylda era opressiva, quente e terrivelmente atraente.
— Espere um segundo — disse Gabriele, levantando a mão para detê-la. — Eu não vou transar com você, Hylda. Só queria sair daquele lugar, a música estava me sufocando. Não tire conclusões precipitadas.
Hylda parou, as sobrancelhas grisalhas subindo em um arco de incredulidade cômica. Ela colocou as mãos nos quadris, a jaqueta de couro rangendo com o movimento.
— Como assim não vamos transar? — Hylda perguntou, com uma indignação fingida que brilhava em seus olhos. — Gabriele, meu amor, eu estava contando com no mínimo seis horas consecutivas de sexo com você. Eu até tomei uma vitamina extra hoje de manhã pensando na sua rigidez de bibliotecária.
Gabriele sentiu o rosto queimar.
— Seis horas? Você é uma lunática! — Gabriele tentou passar por ela para ir em direção à cozinha, mas Hylda bloqueou seu caminho com o corpo. — Eu sou uma mulher de cinquenta e cinco anos, Hylda. Eu tenho padrões. Eu tenho uma reputação. Eu não sou um dos seus motores que você liga e deixa rodando até esquentar.
— Oh, mas você esquenta rápido, Gabriele. Eu vi como você me olhava na festa. Você estava pronta para me morder — Hylda sorriu, aquele sorriso de quem conhece todos os segredos de uma pessoa.
Gabriele soltou uma risada nervosa, uma faísca de malícia surgindo em seus olhos. Se Hylda queria jogar, ela jogaria. Ela se aproximou de Hylda, não para se afastar, mas para invadir o espaço dela. Ela deslizou as mãos pelo peito da jaqueta de couro, sentindo a batida acelerada do coração de Hylda por baixo do material bruto.
— Você se acha tão esperta, não é? — sussurrou Gabriele, aproximando os lábios do ouvido de Hylda. — Acha que é só estalar os dedos e a "madame" cai nos seus braços.
Gabriele começou a se esfregar lentamente contra Hylda, um movimento sinuoso e calculado que fazia o vestido branco roçar no couro preto. Ela sentiu Hylda prender a respiração, o corpo da metalúrgica ficando tenso como uma mola prestes a disparar.
— Você está brincando com fogo, Gabriele — avisou Hylda, a voz agora muito mais grave, perdendo o tom de brincadeira.
— Eu passei anos no convento, Hylda. Eu sei tudo sobre o fogo do inferno — Gabriele continuou o movimento, sentindo a reação óbvia de Hylda ao seu toque. Ela passou a língua levemente pelo lóbulo da orelha de Hylda e depois se afastou abruptamente, deixando um vazio frio entre elas. — Mas, como eu disse, eu não vou transar com você.
Hylda soltou um suspiro pesado, uma mistura de desejo e frustração. Ela passou a mão pelo cabelo bagunçado e olhou para Gabriele com uma mistura de admiração e irritação.
— Você é uma cobra, Gabriele Lima. Uma cobra vestida de anjo.
— E você é um operário que não sabe lidar com um mecanismo complexo — rebateu Gabriele, sentindo-se vitoriosa.
Hylda deu uma risada curta e caminhou até uma poltrona velha, jogando-se nela com as pernas abertas, observando Gabriele com um olhar predatório, mas paciente.
— Tudo bem. Você venceu este round. Mas você ainda está na minha casa, com o meu cheiro no seu vestido e o meu nome na ponta da sua língua. Eu tenho paciência, madame. Eu passei vinte anos esperando você sair de trás daqueles livros, posso esperar mais algumas horas.
Gabriele caminhou até a janela da sala, olhando novamente para a cidade escura. A discussão, as provocações, o toque... tudo aquilo a fazia se sentir mais viva do que em qualquer momento nos últimos dez anos. Ela odiava admitir, mas a bagunça de Hylda era o único lugar onde ela se sentia, de fato, em casa.
— Por que você faz isso? — perguntou Gabriele, sem se virar. — Por que gasta seu tempo me irritando, me chamando de nomes, tentando me tirar do sério?
Hylda ficou em silêncio por um momento. O som do relógio de parede era a única coisa que preenchia o vazio. Quando ela falou, a voz não tinha mais o deboche de antes.
— Porque quando você fica irritada, você para de fingir que é uma estátua de gelo. Você fica vermelha, seus olhos brilham e você parece a menina que eu conheci antes de o mundo dizer que você precisava ser perfeita. Eu não quero uma santa, Gabriele. Eu quero você. Com toda essa sua chatice, sua arrogância e esse seu vestido branco que me dá vontade de fazer uma bagunça.
Gabriele fechou os olhos. O medo do silêncio havia desaparecido, substituído por uma tensão que era quase palpável. Ela se virou e viu Hylda a observando — a mulher tatuada, cheirando a graxa e passado, que a amava de um jeito torto e honesto.
— Você é um desastre, Hylda Carandini — disse Gabriele, caminhando lentamente de volta para a poltrona.
— O melhor desastre da sua vida, meu amor — Hylda estendeu a mão, e desta vez, Gabriele não hesitou.
Ela pegou a mão de Hylda e se sentou no colo dela, o vestido branco se espalhando sobre o couro preto como uma nuvem sobre o asfalto. Ela não ia transar com ela — pelo menos não nos próximos dez minutos —, mas ela ia permitir que o caos de Hylda finalmente organizasse o seu coração.
— Se você me chamar de "meu amor" mais uma vez, eu juro que volto para a biblioteca agora mesmo — ameaçou Gabriele, embora estivesse enterrando o rosto no pescoço de Hylda.
— Tente fugir, madame. Mas lembre-se: eu sou mecânica. Eu sei exatamente quais parafusos apertar para fazer você ficar exatamente onde eu quero.
E ali, entre o cheiro de óleo e a promessa de uma noite longa, Gabriele Lima finalmente parou de catalogar seus sentimentos e começou a vivê-los, um insulto carinhoso de cada vez.