Ovelhas Perdidas
O Batismo de Renda e Graxa
— Então, me leve para a cama, Hylda.
A frase de Gabriele Lima pairou no ar da sala bagunçada como se fosse um verso de uma poesia proibida. Ela estava de pé, com a mão sobre o ombro de Hylda, tentando manter a expressão mais neutra e pragmática que sua experiência como bibliotecária permitia.
Hylda Carandini, que estava ocupada em acender um cigarro apenas para segurá-lo entre os lábios sem fumar, paralisou. Ela olhou para cima, os olhos semicerrados pela fumaça imaginária e pela surpresa real. Um sorriso lento e perigoso começou a desenhar-se em seu rosto marcado pelo tempo.
— Com prazer, querida — respondeu Hylda, a voz descendo uma oitava, carregada de uma malícia que fez os pelos do braço de Gabriele se arrepiarem. — Eu não sabia que a madame estava com tanta pressa de confessar seus pecados.
Gabriele revirou os olhos, soltando um suspiro de impaciência que não conseguiu disfarçar o tremor em suas mãos.
— Não seja ridícula. Eu disse para me levar para a cama porque estou exausta. Meus pés estão latejando e eu não tenho a menor intenção de dirigir de volta para casa a esta hora. Vamos dormir como boas colegas de quarto, ou melhor, como pessoas civilizadas que compartilham um teto temporário. Nada além disso. Ficou claro?
Hylda levantou-se da poltrona com a agilidade de quem ainda guardava a força dos anos de fábrica. Ela parou a centímetros de Gabriele, o cheiro de couro e metal inundando os sentidos da outra.
— "Colegas de quarto", sei... — Hylda murmurou, inclinando a cabeça. — Você adora dar nomes complicados para coisas simples, não é? Mas tudo bem, madame. Se você quer brincar de dormitório de convento, eu serei sua madre superiora por uma noite. Siga-me.
O quarto de Hylda era surpreendentemente mais organizado que a sala, embora mantivesse a identidade da dona. Havia uma cama larga, com lençóis escuros que pareciam macios demais para alguém tão bruta, e uma luz amarelada que conferia ao ambiente uma intimidade que Gabriele não estava pronta para processar.
— Pode usar aquela camiseta ali — apontou Hylda para uma peça de algodão cinza jogada sobre uma cadeira. — É melhor do que dormir com esse vestido de noiva fujona.
Gabriele hesitou, mas a perspectiva de tirar a meia-calça e o vestido apertado era tentadora demais. Ela se trocou no banheiro, e quando saiu, sentiu-se absurdamente exposta. A camiseta de Hylda batia no meio de suas coxas, e o cheiro da outra mulher a envolvia como um abraço indesejado — ou desejado demais.
Ao se deitar, Gabriele percebeu que a cama era o território final. Hylda já estava lá, deitada de costas, apenas de regata e calça de moletom, os braços tatuados cruzados atrás da cabeça.
— O lado esquerdo é meu. Não ultrapasse a fronteira — sentenciou Gabriele, acomodando-se e puxando o lençol até o queixo.
— Sim, senhora, comandante — ironizou Hylda, fechando os olhos.
O silêncio que se seguiu não foi o silêncio de paz que Gabriele esperava. Era um silêncio elétrico. Ela se virava de um lado para o outro, sentindo o colchão oscilar. Inevitavelmente, seu pé roçou na perna de Hylda. Depois, sua mão, ao procurar o travesseiro, tocou o braço quente da metalúrgica.
— Você é muito inquieta para uma bibliotecária — comentou Hylda, sem abrir os olhos, mas com um sorriso audível na voz.
— É o colchão. É desconfortável — mentiu Gabriele.
— Ou é o fato de que você está a dez centímetros da mulher que te tira do sério há quarenta anos e você não sabe se me bate ou se me beija.
Gabriele bufou e se virou de costas para Hylda, mas o movimento a levou para mais perto. Ela sentia o calor emanando do corpo de Hylda. Era como estar perto de uma fornalha ligada em fogo baixo. Por um momento, a fachada de Gabriele fraquejou. A solidão da biblioteca, os cafés frios, a rigidez de sua vida... tudo parecia tão pálido diante daquela vitalidade bruta ao seu lado.
Hylda, por sua vez, mantinha a respiração compassada, mas sua mente era um turbilhão. Ela amava aquela mulher de um jeito que doía, um amor que sobreviveu a vícios, a perdas e ao tempo que Gabriele passou trancada em sua própria moralidade. Ver Gabriele ali, na sua cama, usando sua roupa, era quase demais para suportar. Ela queria protegê-la, mas também queria destruí-la — ou melhor, destruir a redoma de vidro que Gabriele construiu ao redor de si mesma.
— Hylda? — a voz de Gabriele soou pequena na escuridão.
— Diga, meu amor.
— Por que você nunca desistiu? De me provocar, de me procurar... mesmo depois de todos esses anos em que eu fui... difícil?
Hylda virou-se de lado, apoiando o peso no cotovelo para olhar para o perfil de Gabriele.
— Porque eu conheço o que tem por baixo dessa capa de livro, Gabriele. Eu conheço a menina que queria fugir do convento comigo. E porque, para mim, você nunca foi difícil. Você só estava perdida. E eu sempre fui boa em encontrar peças perdidas e fazê-las funcionar de novo.
Gabriele virou o rosto para encará-la. A luz da lua que filtrava pela persiana criava sombras nos olhos de Hylda, tornando-os profundos, quase vulneráveis.
— Você é um desastre, Hylda — sussurrou Gabriele, levando a mão ao rosto da outra, os dedos traçando a linha da mandíbula forte.
— E você é a minha ruína preferida — respondeu Hylda.
O beijo começou como uma provocação, um desafio de vontades. Os lábios de Hylda tinham gosto de persistência, e os de Gabriele tinham o gosto da rendição que ela adiou por décadas. Foi um encontro de contrastes: a delicadeza de Gabriele contra a urgência de Hylda.
— Eu disse que não ia transar com você — arfou Gabriele entre um beijo e outro, enquanto sentia as mãos calejadas de Hylda deslizarem por baixo da camiseta cinza, encontrando a pele macia de sua cintura.
— Você diz muita coisa, madame — rebateu Hylda, a voz rouca contra o pescoço de Gabriele. — Mas seu corpo está gritando outra coisa. E eu sempre fui uma operária muito atenta aos ruídos das máquinas.
— Você é insuportável — disse Gabriele, mas suas pernas já se entrelaçavam nas de Hylda, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer vestígio de "colega de quarto".
Hylda a dominou com uma facilidade que fez Gabriele soltar um gemido baixo. Não era apenas desejo; era um reconhecimento. Cada toque de Hylda parecia dizer "eu me lembro disso", e cada resposta de Gabriele dizia "eu nunca esqueci".
— Você ainda está brava comigo por causa da loirinha? — provocou Hylda, parando por um segundo para olhar nos olhos de Gabriele, enquanto suas mãos faziam um trabalho minucioso e devastador entre as coxas da outra.
— Se você mencionar aquela moça agora, eu juro que te mato — sibilou Gabriele, arqueando o corpo, a respiração falhando.
— Só queria ter certeza de que eu sou a única no seu pensamento agora — riu Hylda, antes de mergulhar novamente, sua boca encontrando caminhos que Gabriele havia esquecido que existiam.
O ato em si foi uma mistura de luta e dança. Gabriele não era passiva; ela arranhava as costas de Hylda, puxava seu cabelo grisalho, devolvia as provocações com mordidas nos ombros cobertos de tatuagens. Era como se as quatro décadas de desejo reprimido estivessem explodindo em um único momento de caos controlado.
— Olha para mim — ordenou Hylda, quando o prazer começou a se tornar insuportável para ambas.
Gabriele abriu os olhos, a visão embaçada, o rosto corado. Ela viu Hylda, não a operária durona ou a ex-viciada sarcástica, mas a mulher que a amava com uma ferocidade assustadora.
— Eu te tenho agora — sussurrou Hylda, o suor brilhando em sua testa. — Finalmente, a madame está onde deveria estar.
— Cala a boca e termina o que começou — respondeu Gabriele, puxando-a para o ápice.
Quando o silêncio finalmente retornou, ele não era mais elétrico ou desconfortável. Era um silêncio denso, preenchido pelo som de duas respirações recuperando o ritmo. Elas ficaram entrelaçadas, os lençóis escuros agora uma bagunça de suor e entrega.
Hylda acariciava o cabelo de Gabriele, que estava deitada em seu peito, ouvindo o coração da metalúrgica bater com força.
— Você ainda vai me dar trabalho amanhã, não vai? — perguntou Hylda, depositando um beijo no topo da cabeça de Gabriele.
— Provavelmente — admitiu Gabriele, fechando os olhos. — Vou reclamar do cheiro de cigarro da sua casa, vou dizer que isso foi um erro de julgamento e vou exigir um café decente, não essa porcaria que você toma.
Hylda soltou uma risada baixa e vibrante.
— Eu não esperaria nada diferente de você, meu amor.
— E Hylda?
— Sim?
— Se você contar para alguém que eu usei essa camiseta cinza horrível... eu nego tudo em tribunal.
Hylda apertou-a mais forte contra si, sentindo uma paz que nunca havia encontrado em nenhum altar ou oficina.
— Seu segredo está seguro comigo, madame. Pelo menos até a próxima festa.
Gabriele não respondeu. Ela já estava caindo no sono, protegida pelo couro, pela graxa e pelo amor de uma mulher que nunca soube o que era desistir. A biblioteca podia esperar. Os livros podiam mofar. Naquela noite, a única história que importava estava sendo escrita na pele, entre o branco da renda e o preto do óleo industrial.