Ovelhas Perdidas
O Batismo de Chuva e Outros Sacramentos
O céu sobre a cidade metalúrgica finalmente havia desistido de fingir clareza. Nuvens carregadas, de um cinza metálico quase idêntico ao das chapas de aço da fábrica, desciam baixas, abafando o calor e tornando o ar espesso, difícil de respirar. Dentro do quarto de Hylda, o clima não era muito diferente. O suor secava na pele de ambas, deixando uma sensação pegajosa que, para Gabriele, deveria ser insuportável, mas que agora parecia apenas... real.
Hylda estava deitada de lado, com a cabeça apoiada na palma da mão, observando Gabriele. Com a outra mão, ela brincava com os dedos longos e finos da bibliotecária, traçando as linhas da palma com a ponta do dedo calejado, como se estivesse tentando ler um destino que já conhecia de cor.
— Escuta isso — sussurrou Hylda, fazendo um gesto com o queixo em direção à janela. — O tempo fechou de vez. As "crianças" vão pegar uma chuva daquelas no meio do show. Vão ficar parecendo pintos molhados na praça.
Gabriele, que estava com os olhos fechados, sentindo o latejar suave de seu corpo, soltou um riso anasalado, carregado de uma ironia que só os anos de convivência forçada com Hylda haviam aprimorado.
— Bem feito para eles — respondeu Gabriele, sem abrir os olhos. — Talvez a chuva lave um pouco daquela insolência. E você, Hylda, não tente fingir esse desprendimento todo. Você estava atracada com uma daquelas crianças ontem à noite, sua velha safada.
Hylda soltou uma gargalhada rouca, os ombros balançando. Ela apertou levemente os dedos de Gabriele, trazendo a mão dela até os lábios para um beijo rápido e áspero.
— Ciúmes, madame? Que coisa feia para uma mulher tão devota. E olha quem fala... você também virou uma velha safada entre ontem e hoje — Hylda arqueou uma sobrancelha, o brilho de provocação voltando aos olhos. — Eu vi como você olhava para aquela moça, a tal da Alice. Você gostou da atenção dela, não gostou? Até que ela era jeitosa, para uma menina que provavelmente não sabe a diferença entre um soneto e uma bula de remédio.
Gabriele abriu um dos olhos, encarando Hylda com uma dignidade que ficava um pouco comprometida pelo fato de ela ainda estar enrolada nos lençóis bagunçados da metalúrgica.
— Alice foi uma distração necessária. Ela era gentil, jovem e, ao contrário de certas pessoas, não cheirava a óleo de motor e tabaco barato. — Gabriele fez uma pausa dramática, antes de permitir que um sorriso de canto aparecesse. — Mas ela não tinha... o seu vocabulário chulo. Acho que eu me acostumei com o barulho que você faz.
O silêncio voltou a cair, mas desta vez era diferente. Não era o silêncio de briga, nem o de desejo, mas algo mais denso, como o próprio ar abafado lá fora. Hylda parou de brincar com os dedos de Gabriele. Seus olhos ficaram sérios, perdendo a camada de deboche que ela usava como armadura desde a juventude. Ela sentiu o peso dos seus 57 anos, das cicatrizes e das lutas contra os próprios demônios.
— Gabriele — começou Hylda, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de se firmar. — Eu sei que você é pura maldade. Sei que você ama a si mesma, aos seus livros e ao seu controle mais do que qualquer outra coisa no mundo. Você é orgulhosa, é chata de galocha e tem essa mania insuportável de achar que é melhor que todo mundo por causa do seu vocabulário.
Gabriele se empertigou, pronta para retrucar, mas Hylda continuou, a mão agora segurando o pulso de Gabriele com uma firmeza quase desesperada.
— Mas eu também sei que, desde que a gente se conheceu, quando você ainda usava aquele hábito e eu ainda achava que o mundo era uma garrafa de gim, nunca houve mais ninguém. Não desse jeito. — Hylda respirou fundo, o cheiro da chuva iminente entrando pela fresta da janela. — Eu estou cansada de ser a "conhecida inconveniente". Eu quero saber se você tem coragem de ser minha namorada, ou se vai continuar fingindo que eu sou apenas um erro de percurso na sua vida perfeita.
O coração de Gabriele deu um solavanco. Ela esperava insultos, esperava piadas, esperava até ser expulsa para que Hylda pudesse dormir, mas não esperava por aquela vulnerabilidade nua. O pedido de namoro soava quase adolescente, vindo de uma mulher de couro e tatuagens, mas era a coisa mais corajosa que Gabriele já tinha ouvido Hylda dizer.
Gabriele ficou pensativa. Ela olhou para o teto, onde uma mancha de infiltração parecia desenhar o mapa de um país desconhecido. Namorar Hylda Carandini significava escancarar as portas da sua torre de marfim. Significava aceitar o barulho, a graxa e os olhares tortos da cidade.
— Eu tenho o jantar de um casamento para ir no próximo sábado — disse Gabriele, finalmente, a voz calma, mas carregada de significado. — É o casamento da filha de uma das conselheiras da biblioteca. Vai ser um evento... impecável. Roupas caras, conversas fúteis e música clássica de má qualidade.
Hylda franziu o cenho, sem entender onde a outra queria chegar.
— E o que eu tenho a ver com o casamento da filha da madame?
— Eu quero que você me acompanhe — Gabriele virou-se para encará-la, os olhos castanhos agora sérios e decididos. — Quero ver se nós funcionamos como um casal diante do mundo, Hylda. Quero ver se você consegue passar três horas sem falar um palavrão ou sem tentar consertar o motor do carro do noivo. Se sobrevivermos a um jantar de casamento sem que eu queira te matar ou você queira me internar, então... talvez a gente possa pensar nesse seu pedido absurdo.
Hylda soltou um suspiro que era metade alívio e metade pavor.
— Um casamento, Gabriele? Você quer me levar para a cova dos leões vestida de seda? — Hylda riu, mas havia um brilho de aceitação ali. — Tudo bem. Eu vou. Vou até engraxar minhas botas e tentar não chamar o padre de "colega". Mas com uma condição.
— Qual? — perguntou Gabriele, desconfiada.
— Que agora a gente não saia daqui. Está começando a chover e eu não vou te levar para casa para você se trancar naquela biblioteca e se arrepender de tudo o que aconteceu hoje. Eu vou pedir uma comida de delivery. Alguma coisa gordurosa que você vai detestar, mas que vai comer porque está com fome.
— Eu não como comida de delivery, Hylda. Os conservantes...
— Cala a boca, madame. Hoje você come o que o motoboy trouxer. — Hylda esticou-se para pegar o celular na mesa de cabeceira. — Pizza? Ou chinês? Se bem que o chinês daqui parece que é feito com as sobras da metalúrgica, você ia adorar a textura.
— Pizza — cedeu Gabriele, recostando-se no travesseiro com um sorriso involuntário. — Mas se vier com borda recheada de queijo processado, eu termino com você antes mesmo de começarmos.
— Viu? — Hylda disse enquanto digitava no aparelho. — Já está falando em "terminar". Isso é sinal de que já aceitou o começo.
A primeira gota de chuva bateu no zinco do telhado com um estalo metálico, seguida por milhares de outras. O som era ensurdecedor, isolando o quarto do resto do mundo. O ar abafado deu lugar a um frescor úmido que entrava pela janela, lavando o cheiro de suor e trazendo o cheiro da terra molhada.
Hylda jogou o celular de lado e voltou para o lado de Gabriele, puxando o edredom sobre as duas.
— As crianças vão ficar encharcadas — comentou Hylda, com uma satisfação genuína.
— Deixe que fiquem — respondeu Gabriele, fechando os olhos e deixando que a cabeça repousasse no ombro de Hylda. — Pelo menos aqui dentro, o teto não vaza. Ou vaza?
— Só se você chorar de emoção com a pizza, meu amor.
Gabriele deu um tapa leve no braço de Hylda, mas não se afastou. Pela primeira vez em décadas, a biblioteca e seus livros catalogados pareciam distantes, poeirentos e irrelevantes. O que importava era o som da chuva, o cheiro de pizza que logo chegaria e a mão áspera de uma mulher que, contra todas as probabilidades, tinha decidido que a "bruxa" da biblioteca era a única pessoa com quem valia a pena dividir o caos.
— Hylda? — chamou Gabriele, já quase pegando no sono.
— Hum?
— Você vai ter que comprar um terno. Nada de couro no casamento.
— Nem morta, Gabriele. Nem morta.
— Veremos — sussurrou a bibliotecária, com a certeza de quem sempre vencia as discussões, enquanto a chuva batia lá fora, batizando o início de algo que nenhuma das duas sabia explicar, mas que ambas, finalmente, tinham parado de tentar evitar.